Minas e a proteo aos bens culturais
Em decorrncia da excepcionalidade de seu patrimnio histrico, artstico e cultural herdado dos sculos XVIII e XIX, Minas Gerais ter decisivas participaes na elaborao da poltica de preservao e proteo da cultura brasileira como tambm na criao e atuao do IPHAN. Em 1934, a convite de Getlio Vargas, o mineiro Gustavo Capanema tornou-se ministro da Educao, cargo que exerceu at 1945. O poeta Carlos Drummond de Andrade, um dos lderes do movimento modernista mineiro, muda-se para o Rio, em 1934 e ocupa a chefia de seu gabinete. 
Um ano depois de sua posse, Capanema leva ao presidente da Repblica o anteprojeto do famoso Decreto-Lei 25, elaborado em sua redao final por Rodrigo Melo Franco de Andrade, com base em documento solicitado a Mrio de Andrade, no qual no s conceituava o patrimnio cultural como j desenhava rgo pblico destinado  sua proteo e preservao. O Servio do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional foi criado a 30 de novembro de 1937 pelo Decreto-Lei 25, em vigncia at hoje, como legislao bsica de proteo da cultura patrimonial brasileira. 
O Decreto-Lei 25 reflete o pensamento modernista expresso na Semana de Arte Moderna realizada em 1922, definindo o patrimnio cultural nacional que deveria ser objeto de proteo e preservao, indicando as categorias de arte e criando o instituto do tombamento como principal instrumento da proteo. O patrimnio histrico e artstico nacional passa a ser definido como o conjunto de bens mveis e imveis existentes no pas e cuja preservao seja de interesse pblico, quer por sua vinculao a fatos memorveis da Histria do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueolgico ou etnogrfico, bibliogrfico ou artstico. O conceito bsico define que a proteo da produo cultural  fundamental para a identidade de uma nao, o seu processo civilizatrio e seu futuro. 
Principal instrumento de proteo, o tombamento se faz pela inscrio nos Livros do Tombo, em uma ou mais das seguintes categorias, conforme proposta de Mrio: Livro do Tombo Arqueolgico, Etnogrfico e Paisagstico, Livro do Tombo Histrico, Livro do Tombo das Belas Artes e Livro do Tombo das Artes Aplicadas. Adotou-se o modelo portugus, originrio da Torre do Tombo, de Lisboa. Os processos de tombamento e, em especial, os critrios de avaliao e seleo dos bens a serem inscritos, foram objeto de longa e elaborada discusso que persiste at hoje, sobretudo, quanto s exigncias relativas a tcnicas construtivas e intervenes restauradoras. Questes como a raridade, singularidade e exemplaridade da obra a ser protegida, acrescida pela discusso recente da importncia dos bens ditos modernos ou imateriais, tambm passveis de tombamento, tm suscitado novas propostas e indagaes. O tombamento  a ao justificadora da responsabilidade do poder pblico em salvaguardar a memria coletiva. Tombar, mais especificamente,  a ao de inventariar, registrar e tomar sob guarda, para conservar e proteger, bens de valor pblico (Jos Newton Coelho de Menezes, Histria e turismo cultural, Ed. Autntica, 2006).
Outro mineiro, Rodrigo Melo Franco de Andrade, ser o primeiro presidente do IPHAN. Com slida formao intelectual, integrante do movimento modernista, jornalista, advogado e escritor, nascido em Belo Horizonte em 1898, o Dr. Rodrigo, como at hoje  lembrado, reuniu no SPHAN nomes como o arquiteto Lcio Costa, na Diretoria de Estudos e Tombamentos, o prprio Mrio de Andrade e Lus Saia, na direo de So Paulo, o arquiteto Sylvio de Vasconcellos, em Minas, o poeta Manuel Bandeira, o escritor Afonso Arinos de Melo Franco, o socilogo Gilberto Freyre, o jovem arquiteto Oscar Niemeyer, poeta Carlos Drummond de Andrade e uma equipe qualificada de arquitetos, historiadores, engenheiros, restauradores e pesquisadores, localizados por todo o Brasil.
Em Minas, Serro, Ouro Preto, Mariana, Diamantina, Sabar, Congonhas do Campo, So Joo del-Rei e Tiradentes, j em 1938, foram os primeiros ncleos urbanos setecentistas a serem tombados, abrangendo o conjunto arquitetnico, urbanstico e paisagstico desses stios histricos. No perodo de 38 a 42, foram tombados 404 bens em todo o Brasil, cerca de 40% do total tombado at os nossos dias. E, at 1981, haviam sido elaborados 820 processos de tombamento, aps intensas pesquisas, levantamentos e diagnsticos por todo o Brasil.
 interessante verificar a origem e a natureza desse total de bens tombados, conforme levantamento feito por Joaquim Arruda Falco, em 1984, e que os classificou nas seguintes categorias: a) monumento vinculado  experincia vitoriosa da etnia branca; b) monumento vinculado  experincia vitoriosa da religio catlica; c) monumento vinculado  experincia vitoriosa do Estado (palcios, fortes, fruns etc.); d) da sociedade, como sedes de fazendas, sobrado urbanos, originrios da elite poltica e econmica do pas.
Tardiamente, o despertar da conscincia preservacionista brasileira com relao ao patrimnio histrico e artstico edificado ocorrer a partir do movimento modernista, que busca as razes de uma autntica cultura brasileira, libertando-a dos cnones estticos importados da Europa.  o pensamento modernista que dissemina essa conscincia, com a busca e valorizao de manifestaes culturais identificadas com a formao histrica e a criatividade artstica e intelectual brasileiras. A Semana de Arte Moderna, de 1922, realizada por intelectuais modernistas paulistas no Teatro Municipal, expressa essas ideias, exacerbadas pela comemorao do primeiro centenrio da Independncia, que despertou o sentimento nacionalista e reafirmou a necessidade de o Brasil adquirir uma verdadeira autonomia cultural. 
Getlio Vargas chega ao poder com a Revoluo de 1930, com apoio de Minas Gerais, e realiza transformaes importantes na modernizao do aparelho de Estado, refora e estimula a busca uma identidade cultural brasileira. Como corolrio desses movimentos, amplia-se o processo de reconhecimento e valorizao do passado, como informao indispensvel, no s para o entendimento do presente, mas para o planejamento do futuro, em complementao ao pensamento iluminista, que tem origem no sculo XIX, base da cultura ocidental de cunho desenvolvimentista, que v no progresso transformador o nico conceito de modernidade. 
Sob a liderana de Mrio de Andrade, os modernistas paulistas organizam excurses de estudo a Minas, especialmente para ver Ouro Preto e Mariana. Em 1919, Mrio de Andrade veio sozinho a Ouro Preto e Mariana, com dois objetivos: conhecer o poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens, em Mariana, e observar a arquitetura, esculturas e pinturas das duas cidades. Em 1924, volta a Minas com a Caravana Paulista, integrada por Oswald de Andrade, Godofredo da Silva Telles, Ren Thioller, Tarsila do Amaral, Olvia Guedes Penteado e o poeta de origem sua em visita ao Brasil, Blaise Cendrars, que encontram no sculo XVIII mineiro, e na sua produo cultural, o lastro cultural de uma identidade nacional. A caravana, antes de Ouro Preto, passou a Semana Santa em So Joo del-Rei e visitou Tiradentes. Mrio publica em 1920, na Revista do Brasil, o ensaio Arte Religiosa no Brasil em Minas Gerais, no qual aborda a arte encontrada em Ouro Preto, Mariana, Congonhas do Campo e So Joo del-Rei.  quando diz que na arquitetura religiosa de Minas a orientao barroca  que  amor  linha curva, aos elementos contorcidos e inesperados  passa da decorao para o prprio plano do edifcio. A os elementos decorativos no residem s na decorao posterior, mas tambm no risco e projeo das fachadas, no perfil das colunas, na forma das naves. Em 1928, escrever sobre Aleijadinho e sua obra, dando-lhes dimenso cultural excepcional e realizando grande difuso do seu nome.
Para registro histrico,  importante assinalar tentativas e esforos anteriores ao SPHAN de se criar um programa e uma instituio para proteo do patrimnio artstico e histrico brasileiro. J em 1916, aps viagem a Ouro Preto, Alceu de Amoroso Lima e Rodrigo Melo Franco de Andrade pediam medidas de proteo. Intelectuais mineiros, como Carlos Drummond de Andrade e Afonso Arinos, tambm escreveram artigos chamando a ateno para a situao das cidades histricas de Minas. Gustavo Barroso, que tambm visitar Ouro Preto, a toma como cone da proteo cultural brasileira. Barroso consegue de Getlio Vargas, em 1933, a concesso  velha cidade do ttulo de Patrimnio Nacional. Consegue tambm a criao, em 34, da Inspetoria Nacional de Monumentos, que chega a realizar obras de restauro em Minas. A Inspetoria, agregada ao Museu Histrico Nacional, foi extinta em 1937, quando da criao do SPHAN.
Ser com base nesse arcabouo conceitual que se criar o rgo brasileiro de proteo patrimonial. E ser tambm dele que se divulgar o fenmeno cultural mineiro contido nas cidades histricas, resultante de um singular momento de confluncia de fatores que permitiram o surgimento de uma sociedade com feies prprias em todo o processo brasileiro. Ainda hoje,  luz de novos conhecimentos transversais e interdisciplinares, como parte de uma historiografia ampliada na sua capacidade de pesquisa, se fala em alguns esteretipos do mineiro e de uma subcultura mineira, com base em textos que tratam do carter regional, certamente ainda encontrado em localidades e grupos sociais onde a desfigurao ainda no se fez dominante.
Ser o IPHAN e sua equipe de intelectuais, atuando com inspiraes nacionalistas, surgidas com o pensamento modernista de Mrio de Andrade, que ir promover a pesquisa e a descoberta de artistas mineiros, em toda a extenso de vidas e obras, como Aleijadinho e Mestre Valentin, Atade e outros. Mas deixando nas sombras um grande nmero de artistas e mestres portugueses, autores de excepcionais obras, como Manoel Francisco Lisboa, Francisco Xavier de Brito, Jos Coelho Noronha, Francisco de Faria Xavier, Francisco de Lima Cerqueira, a que devemos a construo e as obras de arte e ornamentao de dezenas de monumentos espalhados pelas cidades histricas mineiras e que fizeram escola, na qual aprenderam multido de artistas, pedreiros, entalhadores, escultores, pintores e ornamentistas. A originalidade nacional, encontrada nas igrejas mineiras, diferenciadas das igrejas do litoral ou tipicamente portuguesas dos primeiros tempos, tese defendida por Mrio de Andrade e seus seguidores do IPHAN, reforou a busca de explicaes para tal fenmeno, encontradas nos primrdios da formao da sociedade mineira, como a herana da minerao, o modelo de urbanizao, as restries portuguesas s ordens religiosas e a quaisquer meios de libertao intelectual e de conscincia crtica e, mesmo, ao surgimento dos mulatos e seu reconhecido pendor artstico.
Foi neste meio oscilante de inconstncias, a Minas Gerais setecentista, que se desenvolveu a mais caracterstica arte religiosa do Brasil. A igreja pode a, mais liberta das influncias de Portugal, proteger um estilo mais uniforme, mais original que os que abrolhavam podados, ulicos, sem opinio prpria nos dois outros centros Em Minas, se me permitirdes o arrojo da expresso, o estilo barroco estilizou-se. As igrejas construdas por portugueses mais aclimatados ou por autctones algumas, provavelmente, como o Aleijadinho, desconhecendo o Rio e a Bahia, tomaram um carter bem mais determinado e, poderamos dizer, muito mais nacional, diz Mrio de Andrade em Arte religiosa no Brasil, in Revista do Brasil, SP, 1920.
Em 1967, eram 687 os bens tombados em todo o pas: Minas tinha 165 desses bens, em torno de 23,9% do total, seguida pelo Rio de Janeiro, com 140 bens tombados, 20,3% do total, Bahia, com 131, aproximadamente 19,9% do total, e Pernambuco, com 56 bens, equivalentes a 8,1%. Numa quinta posio, encontrava-se So Paulo, com 41 bens tombados, 6% do total do pas (Revista do Patrimnio, 1996, Silvana Rabino, O mapa do Brasil passado).
Esta liderana de Minas quanto aos bens tombados, que alguns crticos atribuem ao domnio mineiro no IPHAN,  explicada por Rodrigo Melo Franco de Andrade: A despeito de s ter o povoamento do territrio mineiro principiado depois de decorridos dois sculos desde o descobrimento do Brasil, poucas dcadas bastaram para que esta rea fosse enriquecida de bens culturais e com feio mais definida do que as demais regies do pas. Mrio de Andrade atribui, em parte,  opulncia mineira no sculo XVIII e  carncia paulista de bens histricos: As condies histricas e econmicas deste meu Estado, a contnua evaso dos paulistas empreendedores para outras partes do Brasil nos sculos XVII e XVIII, o vertiginoso progresso ocasionado pelo caf so as causas da nossa misria artstica tradicional (...)  sempre certo que sobram aos paulistas mil meios de se consolar de sua pobreza artstica tradicional: consolao que no modifica a verdade (Silvana Rabino, O mapa do Brasil passado).
Concordam os tcnicos da instituio, hoje transformada em instituto, que sua trajetria dos primeiros anos, especialmente quanto s diretrizes de proteo, bem como s intervenes de restaurao e preservao, podem ser enquadradas em trs fases. A primeira tinha foco nos estudos de identificao de monumentos e elaborao de propostas de tombamento, o que implicou na leitura ampla da produo artstica e cultural brasileira. Procedeu-se, ento, ao inventrio do que existia de amostragem mais significativa da formao brasileira. Uma segunda fase cuidou de salvar alguns monumentos que se encontravam profundamente atingidos pela runa e ameaavam perecimento completo. Uma terceira impunha a difuso do conceito de tombamento, visto como medida emergencial, de efeito imediato e salvador de edificaes em situao de perigo, evitando desaparecimentos ou desfiguraes. O tombamento representa a socializao do bem protegido, que passa, por ser portador de excepcionalidades, a pertencer  sociedade, restringindo-se,  claro, o direito amplo e irrestrito de propriedade.
A nfase, portanto, recaiu no monumento edificado, chamado de pedra e cal, conforme expresso at hoje em uso. Focava-se a edificao, as tcnicas construtivas, a proteo de seus elementos estruturais e artsticos sob o enfoque da imutabilidade absoluta e da restaurao. Trabalhando com a recomendao de normas de restauro e aprovao de projetos enquadradas em padres especficos, o SPHAN recebeu crticas por ter estimulado o que se chamou estilo patrimnio. Questionava-se tambm certa rigidez, a atitude punitiva representada pela negativa de aprovao de projetos e o embargo de obras e a falta de dilogo com as populaes, alm da inexistncia de programas educacionais, de carter preventivo. Reconhece-se, no entanto, que essa postura salvou centenas de importantes edificaes portadoras de histria e arte, em todas as cidades brasileiras. 
Uma fase posterior enfatizar a atuao na questo urbana. Os stios histricos brasileiros, sem orientao quanto ao seu crescimento e a ocupao de novos espaos de moradia, de trabalho e de lazer, expandiram-se desordenadamente. Agrava-se no Brasil os processos de industrializao e urbanizao, com a especulao imobiliria tornando-se inimiga da preservao. O traado urbano desordenado, sofrendo os impactos do crescimento imobilirio, impe tipologia prpria, quase sempre desfigurativa do conjunto histrico. O parcelamento do solo no obedece a normas que obedeam a uma configurao urbanstica compatvel com cidade histrica. O processo de urbanizao das cidades, sobretudo pela industrializao e o xodo rural, levou a um explosivo crescimento, no escapando desse movimento as cidades coloniais. A desfigurao urbana e urbanstica acaba atingindo todo o conjunto e as prprias edificaes tombadas. Por meio do enfoque urbano, prope-se que as aes de proteo e de tombamento no sejam apenas da edificao, mas do seu entorno. A projeo paisagstica do monumento deve ser preservada na sua integralidade, evitando-se a construo concorrente, desfigurativa do entorno e do prprio monumento.
Permetros de tombamento so traados, suprindo-se lacuna inicial deixada pelos processos de tombamento dos primeiros tempos. Elaboram-se mapeamentos e zoneamentos urbanos, com menores ou maiores exigncias quanto  preservao, novas construes e intervenes de restaurao. Planos diretores e leis de uso do solo so enfatizados. Nos ltimos anos, aes chamadas de reabilitao urbana, abrangendo regies deterioradas econmica e socialmente, em edificaes de notria degradao, tm sido aplicadas em stios histricos, retomando aspectos da vida domiciliar e profissional, adaptadas  explorao turstica. No Brasil, o Pelourinho, em Salvador,  o exemplo mais citado, embora tambm submetido a diversos tipos de crtica. 
A plena concordncia de que a verdadeira e mais eficaz preservao  feita pela comunidade consciente e organizada, proprietria verdadeira do patrimnio e centenria guardi desses monumentos, comporia uma terceira fase. Incentiva-se a organizao de conselhos comunitrios de cultura e de patrimnio, como representantes da comunidade, constituindo foras de apoio ao IPHAN e s prefeituras. Abre-se o IPHAN para a avaliao conjunta de projetos, com representantes de todas as instncias de governo, especialmente as prefeituras e cmaras municipais, mas, tambm, as universidades, entidades de engenharia e arquitetura, igrejas, moradores e representantes das organizaes da comunidade. Enfatiza-se o poder municipal como instncia reguladora do uso do solo urbano. A crnica omisso de prefeituras e cmaras municipais, determinada pela poltica populista e antirregulatria do uso do espao urbano, cede lugar  viso da vida coletiva regulada por planos diretores. E aumenta a compreenso de que a propriedade privada no  um direito ilimitado, mas submetido ao interesse social dado pela vida em coletividade. 
Cabe s cidades, por seus rgos legisladores, elaborar sua legislao urbanstica, com os direitos e deveres de todos os cidados. Ao invs de se sentirem prejudicados pelas normas de preservao, os cidados devem entender que so participantes de conjunto urbano excepcional, com normas prprias relativas  vida coletiva e pblica. E, costumeiramente, valorizadas pelo prprio significado cultural, especialmente quando a explorao turstica se torna atividade altamente rendosa. A edificao tombada, portadora de histria e arte, valoriza-se patrimonialmente e apresenta, como adequada destinao de uso, sua explorao por equipamento da cadeia econmica do turismo e da cultura municipais. Revitalizado, passa a gerar receitas para sua preservao e para seu proprietrio e, como tal,  um bem econmico, inserido de maneira correta em stios preservados. 
Logo no seu incio, o SPHAN enfrentar questo conceitual que at hoje  motivo de polmica e que se tornou o melhor exemplo das dificuldades relativas aos critrios de anlise e aprovao de projetos em stios tombados.  o caso da construo do Grande Hotel de Ouro Preto, que Getlio Vargas decide doar  cidade, em retribuio ao fato de ter recebido, do Governo do Estado, o prdio da antiga Casa de Cmara e Cadeia, ex-penitenciria estadual, destinado ao futuro Museu da Inconfidncia, que criara em 1938. Apresentaram projetos Lcio Costa, Carlos Leo e Oscar Niemeyer. Leo prope construo em estilo neocolonial, proposta indeferida por ser considerada um falseamento colonial, podendo confundir quem visitasse a cidade. Lcio Costa apresenta, ento, uma proposta chamada conciliatria, com uma construo em arquitetura moderna, mas diluda no contexto colonial. Afinal, adota-se o projeto de Niemeyer, conforme razes apresentadas, posteriormente, por Rodrigo Melo Franco de Andrade, em documento de 19 de setembro de 1944: impedir que uma nova construo possa ser confundida dentro do conjunto das edificaes tradicionais de Ouro Preto, evitando-se por esta forma a falsificao da arquitetura colonial brasileira por iniciativa dos poderes pblicos; por enquadrar-se nos fins utilitrios que haviam sido considerados pelo SPHAN; e por constituir o referido projeto trabalho muito valioso como obra de arquitetura. 
A opo iria definir, por vrios anos, o critrio da instituio com relao s novas edificaes em Ouro Preto. Ainda em 1939, o arquiteto Lcio Costa diria, ainda quanto  opo tomada pelo projeto de Niemeyer: E no constituir um precedente perigoso possvel de ser imitado depois com m arquitetura, porquanto Ouro Preto  uma cidade j pronta e as construes novas que, vez por outra, por l se fizerem, sero obrigatoriamente controladas pelo SPHAN, que ter mesmo, de qualquer forma, mais cedo ou mais tarde, de proibir em Ouro Preto os fingimentos coloniais. Idntica soluo ser dada ao projeto de construo da Igreja Metodista de Ouro Preto, elaborado pelo arquiteto Jos de Souza Reis, como alternativa para a proposta neocolonial dos proprietrios. Outra polmica, no final da dcada de 50, foi a construo de auditrio para 650 lugares no Cine Vila Rica, como ampliao do prdio do antigo Liceu de Artes e Ofcios, construdo em estilo ecltico no final do sculo XIX. O volume, visto de grande parte de Ouro Preto, especialmente da Rua So Jos, acrescentava massa incompatvel com o conjunto urbano tombado. O SPHAN admitiu o acrscimo como inevitvel e optou por uma construo despojada, sem elementos ornamentais ou qualquer tipologia diferenciada da arquitetura colonial, realizando uma mimetizao integrativa da construo. 
Nos anos finais do sculo XX, ampliam-se os conceitos relativos  preservao, destacando-se a indissociabilidade entre os bens histricos e artsticos, mveis e imveis, e os recursos naturais, integrados em um mesmo ambiente ou stio. Cultura e natureza se equivalem e se colocam na mesma dimenso da preservao integrada. Desenvolve-se o conceito de sustentabilidade, que prega a necessidade de observao de limites de suportabilidade para os destinos tursticos. A escala (quantidade de visitantes) e a tipologia (interesses e as motivaes de viagem) dos fluxos tursticos devem ser compatveis com os stios que abrigam acervos culturais e naturais. Desenvolvem-se estudos contendo paradigmas relativos aos limites de carga suportveis em determinados destinos, sem o que eles passam a ser destrudos e podem at ser extintos. Compatibilidade para a sustentabilidade so conceitos em pleno desenvolvimento na primeira dcada do sculo XXI. 
Citam-se vrios exemplos de destinos extintos, ou que perderam fluxos tursticos e sua vitalidade socioeconmica em razo do uso inadequado e destrutivo de seus recursos culturais ou naturais. Turismo e preservao podem conviver sustentavelmente, mas exigem gesto rigorosa de convivncia compatvel. 
Os planos, programas e demais aes de interveno preservacionistas tm que, necessariamente, revelar sua preocupao, com medidas objetivas, quanto aos contextos culturais nos quais os bens a receberem proteo esto inseridos. Os mais recentes documentos das instituies patrimoniais revelam sua ateno a conceitos como autenticidade, originalidade, a cultura popular e o patrimnio imaterial. Valorizam-se tambm as culturas locais, suas tradies, prticas, valores e referncias, alm daquelas relativas aos cdigos ticos e humanistas universais. A evoluo desses conceitos se torna muito clara quando se examina o contedo dos documentos bsicos da preservao cultural, desde as pioneiras Cartas de Atenas, de 1931, inaugurando recomendaes sobre a preservao do patrimnio cultural, e de 1933, sobre arquitetura moderna,  Recomendao de Nova Dlhi, de 1956, sobre arqueologia, bem como a Recomendao de Paris, sobre paisagens e stios, de 1962, a Carta de Veneza, sobre monumentos e stios, de 1964, as Normas de Quito, de 1967, o Compromisso de Braslia, de 1970, na Conveno sobre a Salvaguarda do Patrimnio Mundial, Cultural e Natural, da Unesco, em Paris, em 1972, a Recomendao de Nairbi, da Unesco, de 1976, a Carta de Burra, do Icomos, de 1980, na Austrlia, e vrios outros. Especial importncia tem a Declarao de Amsterd, de 1975, resultado do Congresso sobre o Patrimnio Arquitetnico, que reuniu pases europeus, EUA e Canad, inovadora quanto ao dilogo entre conservadores e urbanistas, integrando as polticas de patrimnio e o planejamento urbano. Seus princpios e recomendaes, extensos e criteriosos, foram adotados no ano seguinte na Declarao de Nairbi, pela Unesco, quando se enfatiza a necessidade da conservao dos conjuntos histricos, visando no s  sua salvaguarda, mas sua integrao na vida contempornea. 
Merece lembrana maior a Conveno para a Salvaguarda do Patrimnio Mundial, Cultural e Natural, de 1972, j citada, assinada pelo Brasil e pela maioria das naes. Diz que o patrimnio cultural e o patrimnio natural esto cada vez mais ameaados de destruio, no apenas pelas causas tradicionais de degradao, mas tambm pela evoluo da vida social e econmica que as agrava atravs de fenmenos de alterao ou destruio ainda mais importantes. E adverte que a degradao ou o desaparecimento de um bem do patrimnio cultural e natural constitui um empobrecimento efetivo do patrimnio de todos os povos do mundo.
A partir da Conferncia Geral das Naes Unidas, a Rio-92, a preservao do patrimnio histrico e artstico se integra  proteo ambiental, como direito humano bsico universal. Doravante, so muitos os documentos, de diferentes setores, referentes ao novo milnio, que reforam essa nova conscincia. Em 2005, assembleia da Unesco formada por representantes de 148 pases aprovou (exceo dos EUA e de Israel) a Conveno sobre a Proteo e Promoo da Diversidade das Expresses Culturais, longamente discutida nos anos precedentes, especialmente quanto ao livre comrcio de bens e servios culturais.  tambm um documento complementar  Conveno de 1972, a Conveno para a Salvaguarda do Patrimnio Mundial Cultural e Natural. O texto integra os conceitos de desenvolvimento e cultura, estimula a convivncia com as diferenas, adverte sobre o perigo da globalizao quanto  sobrevivncia de culturas no hegemnicas e, por consequncia, valoriza as culturas e prticas locais. Tambm a Organizao Mundial de Turismo tem adotado essas recomendaes em seus documentos normativos. 
 um documento de fundamental importncia, por sua modernidade e abrangncia conceitual. Diz que a diversidade cultural  uma caracterstica essencial da Humanidade e que a diversidade cultural constitui patrimnio comum da Humanidade, a ser valorizado e cultivado em benefcio de todos. E ainda: A diversidade cultural cria um mundo rico e variado que aumenta a gama de possibilidades e nutre as capacidades e valores humanos, constituindo, assim, um dos principais motores do desenvolvimento sustentvel das comunidades, povos e naes. E, em concluso fundamental: A diversidade cultural, ao florescer em um ambiente de democracia, tolerncia, justia social e mtuo respeito, entre povos e culturas,  indispensvel para a paz e a segurana no plano local, nacional e internacional.
Podemos concluir, ao analisarmos as fases referidas, que o enfoque patrimonial, dos primeiros tempos, que exigiam ao emergencial protetora, representava certa apropriao, por parte do IPHAN, do bem objeto da ao de proteo. Esse era o sentido do tombamento, instrumento de proteo largamente usado e, algumas vezes, tachado de autoritrio e arbitrrio. O proprietrio estava submetido a normas de gesto do seu prprio patrimnio e era um agente passivo nessa relao. Na terceira fase,  como se o proprietrio e a cidade retomassem o poder, participando da elaborao e aplicao das normas coletivas de preservao.
Rodrigo Melo Franco de Andrade preside o antigo SPHAN at 1967, fase chamada de heroica por seus funcionrios. A primeira tarefa era inventariar o que proteger neste imenso Brasil, socorrer monumentos ameaados pela runa ou em processo de desaparecimento, elaborar sua normatizao jurdica, formar quadros humanos em arquitetura, histria e restauro. Foi sucedido por Renato Soeiro, funcionrio do rgo, que permanece at 1979. Em maio de 1973, o governo federal, unindo vrios rgos, criou o Programa Integrado de Reconstruo das Cidades Histricas do Nordeste, com um fundo especfico para a realizao de obras. Em junho de 1975, o Programa foi estendido a Minas Gerais, Esprito Santo e Rio de Janeiro, tambm sob a coordenao tcnica do SPHAN. 
A discusso em torno do bem a ser protegido, e tendo em vista a diversidade cultural brasileira, levou  proposta de criao, em junho de 1975, do Centro Nacional de Referncia Cultural (CNRC), cujo objetivo era o traado de um sistema referencial bsico para a descrio e anlise da dinmica cultural brasileira. Pioneiro e revolucionrio na pesquisa e no tratamento conceitual da cultura brasileira, trabalhando com base no conceito de referncia cultural, o CNRC desenvolveu quatro programas de estudos: artesanato, levantamentos socioculturais, Histria da Cincia e da Tecnologia no Brasil e Levantamento de Documentao sobre o Brasil. Mais de 30 projetos de pesquisa, nessas quatro linhas, foram desenvolvidos pelo CNRC.
Alosio Magalhes, seu coordenador-geral e idealizador, pintor, designer e administrador, se junta ao ministro da Indstria e Comrcio, Severo Gomes, e ao embaixador Joaquim Murtinho, ento secretrio de Cultura do Distrito Federal, para a instalao do CNRC, ocorrida um ano depois. Alosio, em meio  discusso que naturalmente se abria s aes dos CNRC, dizia: Ocorre, entretanto, que o conceito de bem cultural no Brasil continua restrito aos bens mveis e imveis, contendo ou no valor criativo prprio, impregnados de valor histrico (essencialmente voltados para o passado), ou aos bens da criao individual espontnea, obras que constituem o nosso acervo artstico (msica, literatura, cinema, artes plsticas, arquitetura e teatro), quase sempre de apreciao elitista. Aos primeiros deve-se garantir a proteo que merecem e a possibilidade de difuso que os torne amplamente conhecidos. Deles podem provir as referncias para a compreenso de nossa trajetria. Aos segundos basta assegurar-lhes a liberdade de expresso e os recursos necessrios  sua melhor concretizao.
O CNRC, sob a orientao de Alosio Magalhes, acrescenta  poltica brasileira de preservao cultural maior ateno e apoio efetivo a projetos das seguintes linhas: programas para preservar a cultura amerndia e a cultura negra; programas para preservar a cultura popular e programas para detectar a criao autenticamente nacional. Estabeleceu, portanto, um marco evolutivo fundamental na poltica pblica brasileira de proteo aos bens culturais, hoje plenamente conceituada e expandida, inclusive com a legislao de tombamento de bens imateriais. Juntaram ao esforo realizado pelo CNRC a prpria Presidncia da Repblica, os ministrios do Planejamento, Educao e Cultura, Indstria e Comrcio, Interior e Relaes Exteriores, Caixa Econmica Federal, Universidade Federal de Braslia e Fundao Cultural do Distrito Federal.
Em maro de 1979, aps um diagnstico que registrava excessivas dificuldades burocrticas e financeiras do IPHAN, alm de questes de superposio de gesto, realizou-se sua fuso com o Programa de Cidades Histricas e o CNRC, assumindo a direo Alosio Magalhes. A experincia com o CNRC permitia avanar no conceito de bem cultural, que se torna mais abrangente e exige maior ateno a novas reas e prticas culturais. Constata-se no IPHAN a hipertrofia de setores dedicados ao tombamento e ao restauro, enquanto ocorria insuficincia de meios humanos, administrativos e financeiros para reas como o patrimnio arqueolgico, o patrimnio natural, os arquivos histricos e iconogrficos, os acervos etnogrficos e muitos outros, especialmente os relativos ao fazer popular. A incorporao do CNRC ao IPHAN visava permitir a formulao desse conceito mais abrangente de bem cultural, mais inclusivo com relao s manifestaes do homem brasileiro e s condies do meio ambiente. J o Programa de Cidades Histricas, alm de propiciar recursos financeiros, revelou a necessidade de o IPHAN estabelecer dilogo mais profundo com as comunidades que abrigam os bens. Questes burocrticas novamente levaram  proposta de se criar a Secretaria do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional, do Ministrio da Educao e Cultura, ao mesmo tempo em que, no Congresso nacional, era aprovado projeto de criao da Fundao Nacional Pr-Memria, o que ocorre em novembro de 1979. Em viagem de trabalho  Europa, Alosio Magalhes morre a 13 de junho de 1982, quando se encontrava em Veneza.
Em agosto de 2000, o Decreto 3.551 cria o Programa Nacional do Patrimnio Imaterial. Seu objetivo  o apoio a projetos de identificao, reconhecimento, salvaguarda e promoo da dimenso imaterial do patrimnio cultural. A Unesco define Patrimnio Cultural Imaterial como as prticas, representaes, expresses, conhecimentos e tcnicas  junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes so associados  que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivduos reconhecem como parte integrante de seu patrimnio cultural. O patrimnio imaterial  guardado e transmitido pelas sucessivas geraes e recriado pelas comunidades e grupos, com os condicionantes do seu ambiente, sua interao com a natureza e de sua histria, gerando sentimento de continuidade e identidade, contribuindo para promover a diversidade cultural e a criatividade humana. 
O IPHAN realiza e mantm o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial por iniciativa prpria ou solicitao. De 2002 at meados de 2009, foram registrados 15 bens como patrimnio imaterial, com outro tanto em processo. Entre eles, o Ofcio das Paneleiras de Goiabeiras, Linguagem e Arte Grfica Wajapi, Crio de N. S. de Nazar, Samba de Roda do Recncavo Baiano, Modo de Fazer Viola de Cocho, Ofcio das Baianas de Araraj, Feira de Caruaru, Samba do Rio de Janeiro, Registro de Capoeiras e Ofcio dos Mestres da Capoeira, Modo de Fazer Renda Irlandesa. A cada ano,  feita uma avaliao desses bens.
Em maro de 2006, atravs de decreto-legislativo, o governo brasileiro aprovou o texto da Conveno para a Salvaguarda do Patrimnio Cultural Imaterial, celebrado em Paris, pela Unesco, em outubro de 2003. A salvaguarda dos bens imateriais se faz pelo registro em quatro livros: Livro de Registro dos Saberes, Livro de Registro das Celebraes, Livro de Registro das Formas de Expresso e Livro de Registro dos Lugares.
Em 2002, por proposta do IEPHA, o modo artesanal de fazer o queijo de Minas nas regies do Serro, Serra da Canastra e do Salitre foi considerado bem cultural de carter imaterial da nao Brasileira, tornando-se o primeiro em todo o pas. Na justificativa, afirma-se que smbolo de Minas, o queijo artesanal merece esta honraria porque resistiu a diferentes presses em muitos momentos. E mais: O senso comum, muitas vezes, entende cultura como atributo daquilo que  erudito, reservado s elites e a parcela educada da populao. Portanto, inacessvel  maioria imersa no trabalho do dia a dia. Outras vezes aos cadernos secundrios dos jornais, como a programao de teatro, cinema e TV. O tombamento imaterial coroa todo um longo processo histrico das aes de proteo cultural no Brasil. E entroniza o conceito de civilizao como o conjunto dos valores e fazeres de um povo e uma nao, sobre os quais se apoia a ordem poltica e social, transmitida pelos mais tpicos e nobres exemplares da sua criatividade. A 3 de dezembro de 2009, o Conselho Deliberativo do IPHAN, reunido em So Joo del-Rei, registrou como patrimnio imaterial brasileiro o toque dos sinos de Minas, conforme pesquisa realizada pelo arquiteto Andr Dangelo.  feita a recomendao para que as demais cidades histricas voltem a praticar a linguagem dos sinos. 
Em 2005, a Serra do Espinhao obteve o ttulo de Reserva da Biosfera, dado pela Unesco, compreendendo trs milhes de hectares, de Ouro Preto a Diamantina, no eixo do macio e reas prximas. O Espinhao no s  o divisor de biomas, com a Mata Atlntica a leste e o Cerrado a oeste, e que esto entre os mais ameaados do planeta, mas tambm  o separador das bacias do Doce e do So Francisco. Exame acurado das manifestaes de fauna e flora na Serra do Cip, por exemplo, conforme o relatrio apresentado  Unesco, demonstrou a imensa biodiversidade da regio, que  apenas 1,5% da superfcie do planeta, mas onde encontram-se 60% das espcies vivas. 
Em 2000, o Ministrio da Cultura, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em convnio operacional com o IPHAN e a Unesco, iniciam o Programa Monumenta, destinado a recuperar o patrimnio histrico urbano brasileiro tombado. Enquadraram-se no programa, com prazo de execuo estendido at 2009, 83 municpios brasileiros, detentores de 101 stios urbanos considerados patrimnio histrico, artstico ou arquitetnico. Criam-se em cada municpio Unidades Executoras sob a coordenao-geral e fiscalizao do IPHAN e a previso  a aplicao de at US$ 150 milhes nas obras, entre recursos do BID e contrapartida brasileira. A excessiva burocracia envolvendo o programa torna lentos os seus resultados, a ponto de os prefeitos solicitarem sua prorrogao alm de 2008, quando se encerraria, at porque ainda  imensa a parcela de recursos no utilizada e maior ainda a lista das demandas de obras. Em 2009, o governo federal anuncia o PAC (Programa de Acelerao do Crescimento) das Cidades Histricas, destinando o recurso inicial de R$ 150 milhes. 
Em Minas, Estado que lidera a relao de bens tombados pelo SPHAN, originou-se tambm grande parte das pesquisas, estudos, proposies e iniciativas relativas  conscincia da preservao cultural. Ampliaram-se significativamente, a partir da dcada de 50, as publicaes sobre histria e cultura mineiras, a princpio privilegiando o sculo XVIII, mas, a partir da segunda metade do sculo passado, realizando uma espcie de amparo da pesquisa acadmica. E, com os modernos meios da informtica, a pesquisa histrica avana extraordinariamente em reas transversais das sociedades dos trs sculos mineiros. H que se render homenagens, no entanto, aos primeiros pesquisadores da Histria de Minas, como Jos Pedro da Veiga, autor de Efemrides mineiras, de 1897; Diogo de Vasconcelos, que foi um pioneiro, fonte para vrias notcias relativas s primeiras ocupaes do territrio mineiro; o cnego Raimundo Trindade, organizador do Museu da Inconfidncia, pesquisador e estudioso da histria da Arquidiocese de Mariana e seu patrimnio cultural; Salomo de Vasconcelos, que pesquisou intensamente Mariana e a formao mineira; Zoroastro Viana Passos, estudioso de Sabar; Afonso Arinos de Melo Franco, autor de numerosos trabalhos, entre eles, o famoso Histria da cultura material do Brasil, elaborado a pedido do presidente Rodrigo de Melo Franco de Andrade, para informao e treinamento dos tcnicos do IPHAN; Augusto de Lima Jnior, frtil autor e pesquisador de vrios ramos da formao de Minas, da cultura mineira e dos seus principais vultos; Waldemar de Almeida Barbosa, autor de vrios trabalhos, entre a eles a Histria de Minas; Lourival Gomes Machado, estudioso do Barroco Mineiro; Furtado de Menezes, na arte religiosa; Joaquim Felcio dos Santos, estudioso da formao e da histria de Diamantina; Jos Antnio Marinho, sobre a Revoluo dos Luzias, de 1842; Lcio dos Santos, estudioso da Inconfidncia Mineira e da formao do Estado; o francs Germain Bazin, com seus trabalhos Arquitetura religiosa barroca no Brasil, de 1956, e O Aleijadinho e a escultura barroca no Brasil, de 1963; o ingls John Bury, com artigos magnficos de interpretao e anlise comparativa de Aleijadinho e sua obra; Tefilo Feu de Carvalho, Judith Martins, Miran de Barros Latif, Joo Dornas Filho, os brasilianistas John Wirt e Kenneth Maxwell, estudiosos da formao de Minas e da Inconfidncia Mineira; o poeta e escritor Affonso vila, editor da Revista Barroco, a mais importante publicao sobre o Barroco brasileiro e com vasta obra de pesquisa e anlise da produo artstica mineira; o crtico e filsofo Benedito Nunes; o historiador Joo Camilo de Oliveira Torres; Paulo Krugger Correia Mouro, devotado s edificaes religiosas de Minas; Francisco Iglesias, estudioso dos sculos XVIII e XIX e da presena de Minas na formao do Brasil; Fernando Correia Dias, socilogo e interpretador da cultura mineira; Hlio Gravat, bibligrafo e incansvel pesquisador do Arquivo Pblico Mineiro; Sylvio de Vasconcellos, pesquisador da arquitetura colonial mineira; Myriam Ribeiro de Oliveira, especialista em Aleijadinho, arte sacra e no rococ; Suzy de Mello, especialista em arquitetura colonial brasileira; Ivo Porto de Menezes, professor e pesquisador; Fritz Teixeira de Salles, com seu precioso Vila Rica do Pilar e que trabalhou no SPHAN ao tempo de Sylvio de Vasconcelos; Cssio Lanari, estudioso do Aleijadinho; Tarqunio Jos Barboza de Oliveira, revisor e atualizador dos Autos de Devassa da Inconfidncia Mineira, pesquisador e interpretador das Cartas chilenas de Toms Gonzaga e da genealogia das primeiras famlias mineiras; autor de vrios trabalhos, Orlandino Seixas, diretor do Museu da Inconfidncia, estudioso da arte sacra mineira; Aires da Mata Machado Filho, sobre Diamantina e vrios aspectos da cultura popular mineira, padre Jos Tobias Zico, diretor e historiador do Caraa.
Em 2008, quando os primeiros atos de tombamento completaram 70 anos, surgiu naturalmente a discusso sobre o que representaram para a efetiva preservao das cidades histricas.  preciso tratar esse tema com anlises objetivas e verdadeiras. E a primeira constatao  que, das primitivas cidades histricas de Minas elevadas a vila em 1711 e nos anos subsequentes, somente Ouro Preto, Mariana, Tiradentes, Serro, Diamantina e So Joo del-Rei, esta parcialmente, ainda possuem conjuntos urbanos expressivos preservados, com harmonia arquitetnica. Cidades como Sabar, Congonhas, Paracatu, Pitangui, Santa Luzia, Caet, Minas Novas, Baro de Cocais, Santa Brbara, Catas Altas, Santa Rita Duro, Conceio do Mato Dentro, Ouro Branco e muitas outras dos primeiros povoamentos, ou as que se localizam nas margens dos primeiros caminhos, mesmo fora da regio mineradora  embora algumas tenham tombamentos parciais ou do seu conjunto urbanstico  s tm reminiscncias, ora um casaro setecentista, ou uma igreja ou mesmo parte de uma rua, mas no mais conjuntos expressivos e originais da malha urbana do sculo XVIII.  claro que ainda existem pequenas vilas, distritos, com conjuntos preservados, mas de menor porte ou arquitetonicamente menos expressivos.
Quanto s mais preservadas, especialmente Ouro Preto, Mariana, Diamantina, Tiradentes e Serro, muito devem ao IPHAN. No fora esta instituio, com seus escritrios locais, fiscalizando e embargando obras, vrias vezes sem sucesso  e esta  uma verdade inconteste as transgresses e desfiguraes seriam ainda muito maiores em razo da incompreenso e do despreparo das populaes para a preservao, alm do desinteresse das autoridades municipais. O IPHAN, por outro lado, como a prpria instituio reconhece, passou por crises internas, de perda de prestgio, de controvrsias estticas, de confrontao jurdica e institucional e at de extino. Persiste a tese de que a preservao de conjuntos urbanos como Ouro Preto, Mariana, Diamantina, Serro e Tiradentes se deve, de modo especial no sculo XIX, pela sua pobreza. Passado o perodo da minerao, que permitiu a sua construo, vieram a exausto e o consequente imobilismo construtivo. Edificadas pelo ouro e pedras preciosas, sero preservadas por sua decadncia econmica, que no gerou recursos privados ou pblicos para desfiguraes, abertura de novas ruas, alargamento de becos ou outras intervenes. No caso de Ouro Preto, a transferncia da capital para Belo Horizonte mergulhou a velha cidade em longo perodo de estagnao, vista por alguns como causa da sua preservao, uma vez que no sofreu especulao imobiliria nem passou pela sanha de erradicao do velho ou antigo pelo novo.
O IPHAN sempre foi um celeiro de grandes nomes da cultura brasileira. Bastaria citar seu primeiro diretor, Rodrigo Melo Franco de Andrade, autor de vrios estudos e textos e grande batalhador pela preservao da cultura brasileira, ou nomes de funcionrios e colaboradores como Carlos Drummond de Andrade, Mrio de Andrade, Lus Camilo de Oliveira Neto, Lcio Costa, Oscar Niemeyer, Afonso Arinos de Melo Franco, Gilberto Freire, Augusto Carlos da Silva Teles, Manuel Bandeira, Lus Saia, Airton Carvalho, Jos Ferro Castelo Branco, Joo Jos Rescala, Renato Soeiro, Lygia e Judith Martins, Edson Motta, Dora Alcntara, Sylvio de Vasconcellos, Alosio Magalhes, talo Campofiorito, Roberto Lacerda, Angelo Oswaldo de Arajo Santos, Irapuan Cavalcanti de Lyra, Lia Mota, Glauco Campello, Cyro Correia Lyra, Jos de Souza Reis, Oswaldo Jos de Campos Melo, Snia Rabelo e Rafael Carneiro da Rocha, Lauro Cavalcanti, Alcides Rocha Miranda, Jurema Machado, Llia Coelho Frota e muitos outros, arquitetos, historiadores, engenheiros, jornalistas, artistas plsticos, que atuam nos tempos heroicos no Rio de janeiro e nos Estados, nas diretorias regionais ou escritrios locais.
Com apoio da Unesco, a instituio promoveu vrios cursos de formao de pessoal para a proteo e restaurao de monumentos. O curso realizado em 1981, na Bahia, permanece como Especializao em Conservao e Restaurao de Monumentos e Conjuntos Histricos (Cecre). Para a formao de pessoal para bens mveis, foram criados, em 1950, pelos professores Edson Motta, na UFRJ, e Joo Rescala, na UFBA, disciplinas de restaurao de pinturas e documentos. Em Minas, junto  Escola de Belas Artes da UFMG, foi criado em 1978 o Curso de Especializao em Conservao e restauro de Bens Culturais Mveis. Dois anos depois, surgiu o Centro de Conservao e Conservao de Bens Culturais Mveis (Cecor), hoje um dos mais procurados do pas, com renome internacional. Em 1980, surgiu no Rio a Abracor, Associao Brasileira de Conservadores e Restauradores de Bens Culturais.
Em 1990, no desastroso Governo Collor de Melo, o IPHAN foi substitudo pelo IBPC (Instituto Brasileiro de Promoo Cultural), sob uma descabida desculpa de racionalidade administrativa, ensejando inmeras e graves agresses ao patrimnio cultural brasileiro, por falta de aes impeditivas e fiscalizadoras. A sigla foi retomada, mas a instituio continuou carente de recursos humanos e financeiros. Mas, a partir de 2005, requalifica-se sob a gesto de um jovem arquiteto, Lus Fernando Almeida, com maior presena normativa e jurdica e novos recursos humanos e tcnicos. E com um decisivo apoio do Ministrio Pblico, que criou promotorias especializadas na preservao do patrimnio cultural e turstico. Mas a tarefa  gigantesca, seja pelo tamanho do Brasil ou pelo muito que se tem a fazer na preservao no s do patrimnio edificado, mas tambm do fazer cultural raro, singular ou exemplar.
No IPHAN, na diretoria regional e nos escritrios locais, a preservao do patrimnio cultural mineiro muito deve a seus tcnicos, arquitetos, historiadores, comunicadores e funcionrios. Foram diretores em Minas Sylvio de Vasconcellos, por quase duas dcadas, Fritz Teixeira de Salles, Antnio Augusto Vilares, Roberto Lacerda, Dimas Dario Guedes, Coleta Guatimozim, Cludio Magalhes Alves, Mauro Werkema, Renato Gontijo, Regina Almeida, Ricardo Lana, Claudia Laje, Leonardo Barreto, Michelle Arroyo e Celia Corsino. Na rea de museus so destaques os trabalhos desenvolvidos por Antnio Joaquim de Almeida, criador e diretor do Museu do Ouro, o escritor Rui Mouro, diretor do Museu da Inconfidncia por 40 anos e Angela Gutierrez, criadora e mantenedora de museus em Ouro Preto, Tiradentes e Belo Horizonte. A partir de 1974, quando o ento governador Rondon Pacheco, por influncia direta do seu secretrio de Governo, Ablio Machado Filho, criou o Instituto Estadual do Patrimnio Histrico e Artstico, o Governo do Estado passa a integrar o esforo suplementar pela preservao, realizando tombamentos, intervenes de restauro e elaborao de estudos histricos e patrimoniais. Os arquitetos Luciano Amede Peret e Galileu Reis foram os implantadores do novo rgo e que teve como presidentes a arquiteta Suzy Melo, o engenheiro Rodrigo Ferreira Andrade, os arquitetos Jurema Machado e Flvio Carsalade, o professor e engenheiro Octvio Elsio Alves de Brito e a arquiteta Vanessa Brasileiro, entre outros.
Hoje, 82 anos depois dos primeiros tombamentos, realizados em 1938, so reduzidas as intervenes destrutivas das edificaes situadas nas malhas urbanas tombadas pertencentes a ncleos histricos mais centrais e submetidas a fiscalizao permanente. A fiscalizao do IPHAN  intensificada com a presena de escritrios locais de representao em vrias cidades. E os cidados respeitam mais a instituio e submetem seus projetos de restaurao ou construo  sua prvia anlise e aprovao. Em 2004, em ato emblemtico, a Justia determinou a demolio de construo irregular no entorno da Igreja de Antnio Dias, em Ouro Preto. E, o que  importante, ampliou-se a conscincia da sociedade de que o patrimnio conservado  o grande atrativo e a grande riqueza das cidades histrias.  fundamental, portanto, que seja conservado e que permita a explorao compatvel e sustentvel de um turismo responsvel.
Na passagem para o sculo XXI a questo da preservao do patrimnio cultural adquire importncia ainda maior. Insere-se centralmente na discusso sobre a cultura, como tambm nas abordagens que hoje se fazem do presente e do futuro das cidades, do planejamento urbano e do prprio meio ambiente (Patrimnio cultural  conceitos, polticas, instrumentos, Leonardo Castriota, 2009). Amplia-se o conceito de patrimnio cultural, com a mundializao e a prpria expanso do seu campo conceitual e material. Basta ver a abrangncia do texto da Constituio Brasileira de 1988, ao definir o patrimnio cultural brasileiro. Incluem-se hoje nesta categoria os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referncia  identidade,  ao,  memria dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. Incluem-se entre as formas de expresso, as edificaes e espaos destinados s manifestaes artstico-culturais, as obras, objetos, documentos e edificaes de valor cultural, as criaes artsticas, cientficas e tecnolgicas e os conjuntos urbanos e stios de valor histrico, paisagstico, artstico, arqueolgico, paleontolgico, ecolgico e cientfico. 
Em meio a essa evoluo, surgem no final do sculo XX ideias como a de patrimnio ambiental urbano, na qual se aproximam trs campos: o da preservao do patrimnio, o do planejamento do territrio e o da preservao ambiental, que at ento pouco se comunicavam, diz Leonardo Castriota. Esse conceito vai alm da proteo atravs do tombamento de determinadas edificaes ou conjuntos, para enxergar e procurar manter o equilbrio da paisagem, do ambiente, do patrimnio edificado e suas inter-relaes essenciais com a infraestrutura urbana, os lotes e seus usos, estilos e linguagens, a histria, definidoras de qualidade de vida. Surge o conceito de proteo e conservao integradas, que deve presidir as metodologias do planejamento urbano e regional.
A trajetria de Ouro Preto merece citaes e lembranas especiais. So vrios os seus ttulos.  Monumento Nacional, desde 1933, por ato do presidente Getlio Vargas. Seu Conjunto Arquitetnico e Urbanstico  tombado desde 1938. Foi declarada pela Unesco, em 21 de setembro de 1980, Cidade Patrimnio Cultural da Humanidade, primeiro ttulo concedido no Brasil, adquirindo reconhecimento mundial como exemplar da arquitetura luso-brasileira setecentista, formada sob o fenmeno da corrida pelo ouro. Em 1985, o IPHAN estende o tombamento de Ouro Preto, at ento somente no Tombo de Belas Artes, para os livros de tombo Histrico e Arqueolgico, Etnogrfico e Paisagstico, consequncia da evoluo do entendimento da proteo dos ncleos urbanos tombados.
A primeira manifestao de preservao seria uma Ordem Rgia de 1739, que determinava que os fregueses das igrejas de Minas no se intrometam a reedific-las ou ampli-las sem primeiro darem conta ao governador ou provedor da fazenda, mandando-se fazer planta proporcional  necessidade e evitando superfluidades. Em todo o perodo colonial, ocorreram algumas manifestaes, com menor ou maior objetividade, quase sempre de forma pontual, revelando pouca preocupao da Coroa com as cidades e a preservao do patrimnio histrico ou artstico. O refinamento do gosto, expresso nas formas arquitetnicas e nos elementos ornamentais, vo refletir muito mais a cultura local nascente, como forma de expresso nacional. Em Minas, so raras as intervenes governamentais com requintes ornamentais. No Imprio e na Repblica, Minas ir fornecer os elementos que permitiro o sentimento nacionalista, a conscincia republicana e os fundamentos de um efetivo pensamento preservacionista. A histria dos primrdios das aes de preservao no Brasil, como j se demonstrou, encontram sempre em Ouro Preto referencial e exemplo.
Na Instruo para o Governo da Capitania, em 1780, Jos Joo Teixeira Coelho informa a existncia de 76.819 almas na comarca que inclua Vila Rica e Mariana e seus vrios distritos. Pouco mais tarde, Jos Vieira Couto, em 1801, informava em suas Memrias sobre a Capitania das Minas Gerais que a populao de Vila Rica era de 20 mil habitantes, o que j refletia o processo de fuga populacional pela decadncia da minerao. Em 1897, com a mudana da capital para Belo Horizonte, Ouro Preto perde 40% de sua populao. Torna-se uma cidade vazia, imobilizada, o que contribui para a sua preservao, assim como j acontecera com o trmino do Ciclo do Ouro, na segunda metade do sculo XVIII. 
Getlio Vargas, em 1944, cria o Parque Metalrgico para a Escola de Minas, iniciativa que visava incentivar o desenvolvimento da antiga escola, criada por Dom Pedro II e que inicia suas atividades em 1876. Em 1938, cria o Museu da Inconfidncia, que ser inaugurado em 1944. Custeia a construo do Grande Hotel, inaugurado em 1944. Em 36, implanta-se em Ouro Preto a Eletroqumica Brasileira, para aproveitamento da bauxita ento abundante na regio contgua  velha cidade, chamada Saramenha. Em 1952,  vendida  Alcan Alumnio do Brasil, empresa canadense, quando passar a ter impacto efetivo na economia regional. A partir de 1960, acelera-se exponencialmente a expanso urbana de Ouro Preto em razo dos fortes atrativos gerados pela indstria extrativa de minrio de ferro, a criao de novos cursos universitrios, o crescimento do turismo e, preponderantemente, a presena da Alcan e suas empresas agregadas, como a fbrica de cabos, a de ferroliga, a minerao de bauxita, hoje paralisadas.
Em 1949, sob orientao direta de Rodrigo Melo Franco de Andrade, o arquiteto Sylvio de Vasconcelos, ento chefe do 3 Distrito do SPHAN em Minas, e Paulo Thedim Ribeiro, chefe da Diviso de Obras do Departamento de Conservao e Restaurao, realizaram levantamento da malha histrica da cidade para subsidiar a implantao de um Plano de servios em benefcio das edificaes antigas de Ouro Preto, visando o uso de recursos previstos no Decreto-Lei 2.809, de 1940, que previa a doao de particulares para a preservao do patrimnio histrico e artstico. O levantamento contou 963 edificaes, na rea urbana, para uma populao que o Censo de 1950 indicava como sendo de apenas 8.751 habitantes. Os dados demogrficos confiveis da evoluo populacional, desde os tempos de Vila Rica, mostram grande perda de habitantes e grande decadncia econmica, situao agravada pela mudana da capital. Outro levantamento, de 1901, logo aps a mudana da capital, quando cerca de oito mil pessoas foram para Belo Horizonte logo nos primeiros anos, revelou que a populao cara extraordinariamente. O dado mais impressionante no levantamento de Sylvio de Vasconcelos  que existiam, em 1917, 1.436 edificaes em Ouro Preto, segundo dados da Estatstica Corogrfica de Minas Gerais. Entre 1917 e 1949, ou seja, num espao de trs dcadas, a cidade no s no teria crescido como teria perdido 473 prdios.
Um relato bastante atualizado sobre Ouro Preto, evoluo, conquistas, realizaes e fatos histricos e, especialmente, sobre a situao econmica e social aps a mudana da capital para Belo Horizonte, em 1897, est em Ouro Preto  Cidade em trs sculos  Bicentenrio de Ouro Preto  Memria histrica (1711-1911), de 2011, escrito e organizado por Maria Francelina Silami Ibrahim Drumond.
Com recursos angariados em campanha realizada diretamente por Rodrigo Melo Franco de Andrade, e sua esposa Graciema, junto a empresrios, artistas, colecionadores de arte e homens ricos, foi possvel, no perodo de novembro de 1949 a setembro de 1950, restaurar 24 casas em estado de risco, entre outras intervenes menores. O levantamento apontou 75 casas novas, 257 consideradas em bom estado, 396 em estado regular, 153 em pior estado e 82 exigindo interveno urgente. Constatou-se tambm que ocorrera o fechamento de muitas ruas, especialmente becos, por ocupaes novas ou incorporados a casas imediatas. O detalhado levantamento ento realizado, com definio de estilos e gabaritos, tornou-se fonte importante para o estudo da preservao e da evoluo arquitetnica de Ouro Preto.
A arquitetura Jurema Machado, em documento de anlise da evoluo urbana de Ouro Preto, elaborado em fevereiro de 1999, enfatizando a necessidade de implantao do plano diretor elaborado em 1996, conclui que Ouro Preto, durante todo o sculo XIX e at a segunda metade do sculo XX, se utilizou da mesma base construda no setecentos. O crescimento, conclui, torna-se explosivo somente a partir da dcada de 50. Referindo-se a dados de dez anos, diz a arquiteta que a rea tombada de Ouro Preto abrigava, segundo estimativas do Censo Demogrfico de 1991, cerca de 25 mil habitantes distribudos em cerca de cinco mil domiclios, o que equivale a pelo menos cinco vezes o nmero de edificaes encontradas na contagem de 1949.
O crescimento populacional das trs ltimas dcadas, conforme o levantamento para o plano diretor, trouxe vrias consequncias para a cidade. No ncleo histrico, ocorreu intenso adensamento do tecido urbano com ocupao de lotes vazios, invaso de antigos becos, expanso volumtrica das edificaes, maior parcelamento de terrenos. No entorno da cidade, ocorreram as primeiras ocupaes de morros, como tambm se criaram os novos bairros Saramenha, Bauxita e Vila Aparecida. Acelerou-se a ocupao das vertentes da Serra do Ouro Preto e das encostas do Itacolomi, nas reas alm da rodovia do Contorno. Os governos federal e estadual, como tambm a prefeitura, sem recursos financeiros e tcnicos capacitados, no realizaram qualquer planejamento que pudesse oferecer alternativas de expanso urbana para Ouro Preto. O crescimento se deu espontaneamente, com a ocupao desordenada de reas de geologia instvel e aclividade perigosa, com desabamentos a cada perodo chuvoso. E Ouro Preto, centro de servios da regio, atraiu as populaes de uma vasta e pobre regio, expulsas das suas terras de origem, onde a sobrevivncia era difcil por falta de vocao para atividade agropastoril. A estimativa populacional para a segunda dcada do sculo XX  de aproximadamente de 75 mil habitantes, em todo o municpio, incluindo a malha urbana completa de Ouro Preto e seus distritos, entre eles, Cachoeira do Campo, Santa Rita, Antnio Pereira e Amarantina, ncleos urbanos com elevada densidade populacional. 
Trabalho da arquiteta Lia Motta, do SPHAN, em 1987 (A SPHAN em Ouro Preto: uma histria de conceitos e critrios), que a princpio tinha o objetivo de avaliar o impacto das recomendaes tcnicas do rgo para a anlise de projetos de interveno, evitando a proliferao do que se chamou de estilo patrimnio, confirma enfaticamente a explosiva expanso da cidade a partir da dcada de 1950. Se ainda se mantinha relativamente ntegro o ncleo histrico, a paisagem do entorno se perdia, sem que os tcnicos do rgo tivessem instrumentos de interveno, como zoneamentos, instrues especficas de intervenes de restaurao, construes novas, algumas solues construtivas e arquitetnicas. 
O trabalho de Lia Motta suscitou grandes discusses no rgo e foi motivo de encontro tcnico em Ouro Preto, em 1987, promovido pela representao local do IPHAN com apoio da Prefeitura Municipal. Neste encontro, Lia Motta apresentou seu trabalho. A concluso principal deste encontro  que no s o SPHAN necessitava de tornar mais claras suas posies tcnicas, como era fundamental a criao de mentalidade de proteo e preservao nas comunidades que abrigavam acervos tombados. Reafirmou-se a imperiosa necessidade de definio de reas de expanso, criando opes fora da malha histrica. Enfim, somente por esforo prprio, com poucos recursos humanos, deficiente fiscalizao, sem uma postura educacional e orientativa claramente exercida, sem uma estratgia global que pudesse dar soluo  demanda populacional e  presso por novas moradias, atuando apenas com funo coercitiva, policial ou judicial, os resultados se tornavam bastante ineficazes e ampliava-se a imagem negativa e de resistncia para com o SPHAN.
Lia Motta conclui que a descaracterizao arquitetnica acaba por ser aprovada e at estimulada pela instituio, na medida em que, examinando isoladamente cada projeto, recomendava o chamado estilo patrimnio. Para a arquiteta, a falsificao se deu em razo da persistncia no controle das fachadas para a manuteno do estilo e da esttica colonial, mesmo diante do crescimento acelerado e das transformaes mais gerais ocorridas nas edificaes e suas relaes com o espao externo. Apesar de tudo, o cenrio colonial no arruamento foi mantido, enganando o espectador menos familiarizado com a arquitetura tradicional e, muitas vezes, at o especialista.
Levantamento realizado por Tarsila Guedes (Movimento modernista e patrimnio cultural no Brasil: o servio do patrimnio histrico, SPHAN, 2000), relativo ao surto expansionista ocorrido aps a dcada de 50, e sob o impacto da soluo dada ao Grande Hotel, permitindo arquitetura moderna no ncleo histrico mais preservado, revela os seguintes nmeros: na dcada de 40, ocorreram 37 pedidos ao SPHAN para aprovao de projetos, sendo 14 de obras novas e, destes, 12 em lotes da malha histrica; na dcada de 50, ocorreram 120 pedidos, sendo 101 de obras novas e, destes, 61 na malha histrica e apenas um pedido de loteamento; na dcada de 60, ocorreram 480 solicitaes, sendo 113 na malha histrica e 347 nas reas perifricas, com seis pedidos de loteamentos.
 significativo lembrar que o SPHAN, desde os seus primeiros anos, adotou em Ouro Preto, bem como em outras cidades histricas, uma postura tcnica que levava a uma homogeneizao arquitetnica, recomendando sempre uma tipologia construtiva que considerava a mais autntica e adequada ao perodo colonial brasileiro. O pensamento dominante entre os arquitetos modernistas, que inspiraram a criao do SPHAN, criticava a incorporao dos estilos histricos europeus pelo ecletismo no Brasil, considerando essas obras como cpias que evocavam o passado, e que, portanto, no constituam uma arquitetura brasileira, referncia da identidade nacional que almejavam construir.
Desprezavam-se, portanto, edificaes em outros estilos, especialmente o ecltico, de que existem vrios e importantes exemplares em Ouro Preto e outras cidades, a maioria originria do princpio do sculo XX. O beiral com cachorrada, o galbo do contraponto nos telhados, o formato das caixilharias, desenhos de portas, janelas e vos, a ocupao dos lotes, a prpria pintura das casas, entre outros elementos padronizados, faziam o que se chamou, como j dito, estilo patrimnio. O SPHAN evoluiu para um manual tcnico que respeita heranas culturais diferenciadas, desde que tenham referncias histricas, embora se constate, nos nossos dias, novo surto de experincias destoantes e desfigurantes, por conta de um estilo de passagem, especialmente na pintura. 
Na atualidade, fora dos ncleos histricos submetidos a tombamentos rigorosos, o fenmeno da globalizao parece acelerar a semelhana das cidades de todo o mundo, que adotam cada vez mais um padro arquitetnico e sistemas construtivos semelhantes. A atividade turstica, que hoje  estimulada por todos os centros urbanos,  grande estimuladora dessa pasteurizao, termo usado pelo relatrio do Habitat  Cities in a globalizing world. O carter histrico particular de uma cidade frequentemente desaparece na busca direta e aberta e uma imagem internacional e de negcios internacionais... A identidade local se torna um ornamento, um artefato de relaes pblicas, projetado para ajudar o marketing. Persiste, na falta de legislao mais rigorosa e proteo continuada, nas cidades que so destinos tursticos, mesmo quando de imenso valor histrico, o perigo desse processo desfigurativo, especialmente pelo turismo alienante, que as conduz a um no lugar, estandardizado, ao gosto de um pblico sem maiores exigncias culturais.
Ser a preocupao com a rpida expanso urbana da dcada de 60 que levar o IPHAN a solicitar  Unesco o patrocnio da viagem do arquiteto, urbanista e consultor portugus Alfredo Viana de Lima a Ouro Preto, em 1969. O objetivo era elaborar uma proposta de planejamento urbano, o primeiro efetivamente proposto para Ouro Preto. O documento, contemplando conceitos modernos de urbanismo, propunha zoneamento da cidade, definio de reas de expanso que no afetassem o stio histrico e at remoo de reas de ocupao recente. Indicava Passagem de Mariana como rea de crescimento e recomendava o impedimento de novas construes no ncleo histrico. Preconizava a extino da cidade-monumento se no fossem tomadas medidas mais severas contra a construo anrquica de habitaes, a circulao e o estacionamento aleatrio de veculos. Suas propostas foram arquivadas, sem qualquer aplicao. O prefeito de ento, Genival Ramalho, no se empenhou na sua implantao. No acreditava nas propostas, as julgava inviveis, no via nimo poltico para implant-las nem alcance administrativo para promover recursos e obras previstas. E as propostas no encontraram apoio da Cmara de Vereadores e de grande parte da populao.
Em 1973, o ento governador de Minas, Rondon Pacheco, determinou  Fundao Joo Pinheiro a retomada do planejamento, envolvendo Ouro Preto e Mariana. Foi montada grande equipe de especialistas, sob a coordenao do urbanista Rodrigo Ferreira Andrade, e ouvido novamente o arquiteto Alfredo Viana de Lima. Foram produzidos vrios documentos que poderiam colocar Ouro Preto com valiosos instrumentos de gesto urbana, como zoneamentos conforme critrio de proteo, lei do uso do solo, cdigos municipais de postura, levantamentos arquitetnicos de edificaes significativas, com indicao de restaurao, entre outros. Optava pela absoluta preservao do ncleo histrico, com proibio de novas edificaes e indicava reas de crescimento. As propostas, pela segunda vez, foram desconsideradas pelas autoridades municipais, Prefeitura e Cmara de Vereadores. 
Anos mais tarde, dois vereadores contemporneos do momento de elaborao desses planos afirmaram que no s os desconheciam como os viam com desconfiana, por serem cerceadores de suas atividades, alm de irrealistas, no consultando os interesses verdadeiros dos moradores. A verdade  que no havia, na comunidade, conscincia de proteo e preservao e faltou  equipe tcnica ao pedaggica esclarecedora. Se o prefeito no se interessou, muito menos os vereadores, que viam claramente nos cdigos e normas propostas um cerceamento de suas atividades eleitorais populistas. E Ouro Preto perdeu uma segunda oportunidade, rara e nica, de modernizar seus instrumentos de planejamento e controle urbano, cdigos e normas de uso do solo e de posturas. Se o tivesse feito, certamente evitaria vrias desfiguraes que agridem o conjunto arquitetnico e dificultam a vida na cidade histrica. Embora sejam iniciativas setoriais, Ouro Preto possui alguns documentos bsicos para o seu planejamento urbano. 
Em 1970, a Cruzeiro do Sul elabora a Carta Aerofotogramtrica de Ouro Preto, documento de extraordinria importncia para a leitura da malha urbana, e atualizado na dcada de 90. Em 1983, o Geipot (Grupo Especial de Poltica de Transportes), rgo do governo federal, elabora planejamento do trnsito para a cidade, parcialmente implantado. Esta continua sendo uma questo de difcil soluo em Ouro Preto, cidade turstica, com traado urbano do sculo XVIII mas com vida do sculo XXI e intensa, sem espaos suficientes de estacionamento e grande movimento nos fins de semana e nos perodos de festas. Em 1985,  elaborada a Carta Geotcnica de Ouro Preto, sob coordenao do gelogo Edsio Teixeira de Carvalho, documento de decisiva funo para a avaliao de reas de risco e da instabilidade das encostas de Ouro Preto. No obteve aplicao completa, mas  utilizada, com atualizaes tcnicas, na avaliao de reas escolhidas para edificaes ou intervenes pblicas. 
Em 1968, o governo federal patrocina a implantao da rodovia do Contorno de Ouro Preto, ligando a BR-356  entrada de Mariana e, da,  BR-262, em direo a Ponte Nova, permitindo que o trfego pesado fosse afastado destas duas cidades histricas. Recebeu o nome de Rodrigo Melo Franco de Andrade. Em 1987, o engenheiro Dimas Dario Guedes, da Escola de Minas da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), cedido ao escritrio local do IPHAN, elabora proposta para o permetro de tombamento de Ouro Preto, compreendendo a rea do conjunto urbanstico sob jurisdio do rgo para efeito de fiscalizao e anlise prvia de intervenes arquitetnicas. O permetro, abrangente, compreendia o conjunto setecentista edificado, mas tambm as encostas j submetidas a processo de ocupao. O tombamento de 1938 no definia o permetro de proteo.
Em 1987, organiza-se em Ouro Preto, em iniciativa pioneira proposta pelo escritrio tcnico do IPHAN, um Ncleo de Anlise Tcnica (NAT) de projetos de reforma ou construo, integrado, tambm, conforme convnio assinado, por representantes da Prefeitura, da Universidade Federal de Ouro Preto e do IEPHA. O rgo patrimonial, pela primeira vez e consoante sua nova postura de dividir responsabilidades com a comunidade, passou a examinar e aprovar projetos junto com a Prefeitura e a Universidade, estando presentes tambm, mais ocasionalmente, representantes de outras organizaes, como o Instituto Estadual de Florestas. Participavam os tcnicos do IPHAN de Ouro Preto e Mariana, com suporte tcnico de Belo Horizonte. Essa experincia viria a ser repetida e ampliada em 1993, na administrao do prefeito Angelo Oswaldo de Arajo Santos (1993-96), que havia sido secretrio nacional do IPHAN na gesto dos ministros da Cultura Jos Aparecido de Oliveira, Alosio Pimenta e Celso Furtado. Com base esta experincia criou-se posteriormente o Grupo de Anlise de Projetos, que passou a centralizar a anlise de projetos de edificao e restaurao, elaborando tambm o primeiro Plano Diretor de Ouro Preto, enviado  Cmara Municipal e aprovado em 1996.
O GAP produziu rico e abrangente trabalho, pioneiro e moderno, sobre o planejamento urbano de Ouro Preto, incluindo mapas de zoneamento com indicao de reas e diretrizes de interveno arquitetnica, aes indutoras de ocupao em direo a Cachoeira do Campo e programas educacionais. Colocou, pioneiramente, como matria a ser considerada no planejamento urbano, a vocao para o turismo como a opo econmica para Ouro Preto e cidades histricas, atividade que deve ser tornada compatvel com o adequado uso da cidade preservada. 
A necessidade de qualificao do fluxo turstico, atraindo, sobretudo, o Turismo de Eventos e Negcios, levou a Prefeitura, atravs da Secretaria de Cultura e Turismo, a propor a implantao do Centro de Convenes de Ouro Preto, em parceria com a UFOP, projeto efetivamente realizado com a transformao do antigo Parque Metalrgico da Escola de Minas, desativado desde a dcada de 60. O estudo bsico do Centro foi elaborado por equipe coordenada por George Norman Kutova, consultor de turismo, e iniciado ainda ao tempo do reitor Renato Godinho, mas efetivamente incentivado e concludo pelo reitor Dirceu Nascimento, com apoio decisivo da Prefeitura, que mobilizou patrocinadores e os recursos iniciais da obra, conseguidos com o ento ministro da Fazenda do presidente Itamar Franco, Ciro Gomes, em dezembro de 1994. Ouro Preto viveu tambm perodo de ativao cultural, com o retorno  cidade do Festival de Inverno da UFMG, realizado em parceria com a UFOP e que, infelizmente, no teve continuidade.
Ouro Preto perdeu uma outra oportunidade de organizar seu ncleo histrico, especialmente a Praa Tiradentes, por no ter a Prefeitura aceito proposta da Fundao Jean Paul Getty, de Los Angeles (EUA), em 1994. A Getty interessou-se por Ouro Preto aps uma visita do seu alto corpo diretivo, que aprovara interveno similar em Quito, no Equador. Uma das mais qualificadas de todo o mundo, por seus recursos tcnicos e financeiros, com trabalhos de preservao de stios histricos e de monumentos em todo o mundo, a fundao enviou tcnicos do seu Getty Conservation Institute a Ouro Preto, realizou seminrio sobre a Praa Tiradentes, colheu propostas de vrios arquitetos e urbanistas mas, ao final, no conseguiu apoio pleno da Prefeitura no sentido de ser elaborado e implantado programa de agenciamento da praa e arredores.
Em abril de 2003, manifestando preocupao com a srie de denncias de destruio do patrimnio ouro-pretano, que estaria em risco de extino, em razo do descaso da administrao municipal, como tambm a falta de aes de proteo dos governos do Estado e da Repblica, a Unesco enviou  cidade Estebam Prieto, tcnico do Icomos (Conselho Internacional para os Monumentos e Localidades), ligado quele organismo. Em relatrio de 26 pginas, o tcnico conclui que Ouro Preto ainda no devia ser includa na lista da Unesco de patrimnio em risco, mas fez uma srie de recomendaes ao Comit do Patrimnio Mundial, integrado por 21 pases e com sede em Paris. Para o tcnico, paisagem e arquitetura so indissociveis em Ouro Preto, da a importncia do planejamento urbano e do aparelhamento de rgos de gesto do patrimnio. Ele recomendou a plena aplicao do plano diretor elaborado em 1996 e o estabelecimento de zonas de proteo no entorno da cidade, reas de preservao rigorosa a serem criadas para impedir a descaracterizao do centro histrico. Apontou ainda a falta de recursos do ento IPHAN e a inexistncia de um rgo municipal de defesa patrimonial como fatores que dificultavam a gesto do crescimento da cidade. Relatrios, com recomendaes, foram enviados ao governo brasileiro.
Nos nossos dias, Ouro Preto, quase um sculo depois de redescoberta e exaltada como smbolo do passado brasileiro e cone de uma cultura brasileira original, mantm-se em relativa conservao, com a ao de proteo reforada nos ltimos 10 anos por fora de uma presena fiscalizatria mais consistente pelo IPHAN e Prefeitura, com apoio do Ministrio Pblico, da Justia e da prpria comunidade organizada. As obras de restaurao, assim como os projetos de construo em locais permitidos, passam hoje pela aprovao prvia do IPHAN que, em 2004, fixou normas de interveno, com detalhamento que melhor orienta a todos, moradores e o prprio instituto. Fixou tambm normas para stios urbanos, com orientao tcnica sobre as abordagens a serem aplicadas na preservao. 
A Prefeitura criou uma Secretaria Municipal para o Patrimnio Histrico, que atua solidariamente ao IPHAN e procura ordenar o crescimento da cidade, centralizando informaes e demais instrumentos de estabelecimento de um planejamento urbano e acompanhamento do crescimento da cidade. O plano diretor vigente define reas edificantes e cdigos de postura. A Justia e o Ministrio Pblico tm atuao mais firme em defesa do patrimnio tombado. De outro lado, cresceu a conscincia de que o bem conservado, em stio histrico autntico, tem valor comercial ampliado pela explorao turstica.
Reconhece-se que o turismo  a moderna resposta socioeconmica  cultura, cada vez mais valorizada pela originalidade, singularidade e exemplaridade dos bens e valores encontrados nos destinos. O patrimnio edificado de valor histrico e artstico possui hoje reconhecimento amplo e j no tem que demonstrar que sua preservao  fundamental para a identidade cultural e os prprios negcios do turismo. Nesse novo contexto,  importante a evoluo do conceito de patrimnio, que deixou de ser histrico e artstico para ser cultural e natural, significando o conjunto de bens materiais e imateriais, os recursos naturais, as criaes e fazeres de qualquer tempo e espcie, significativos de criatividade humana e dignos de proteo, sem distino do erudito ou popular.
Estabelecer normas de convivncia possveis entre a cidade viva, que  hoje um centro universitrio de porte, e os fluxos tursticos crescentes, cidade que recebe eventos com ascendente nmero de visitantes,  o principal desafio, o qual requer planejamento moderno e ousado. Questes como o trnsito e reas de estacionamento de veculos, infraestrutura urbana, transporte pblico, alternativas de expanso urbana, saneamento bsico, oferta de habitao e de outros servios pblicos, a imperiosa necessidade da reduo das disparidades sociais, como tambm a qualificao dos servios da cadeia econmica do receptivo turstico, requerem normas de gesto pblica mais rgidas, de maneira a tornar mais harmnica a convivncia entre a cidade viva e a atividade turstico-cultural. 
Fundamental se torna a organizao da sociedade civil nas diversas categorias e setores, exercendo a cidadania participativa em ao solidria e complementar aos poderes municipais. Evolui a conscincia, a partir de exemplos e modelos internacionais, de que  necessria a adoo de restries e limites usos de espaos pblicos por aes inadequadas  preservao ambiental e patrimonial ou que superem os marcos de suportabilidade e de carga da velha cidade de traado colonial. Espera-se um refinamento das normas de cidadania e educao urbana de maneira a no s disciplinar o uso dos espaos pblicos, como estabelecer limites suportveis de convivncia coletiva, respeitando-se, de igual modo, moradores e visitantes.
