Vila Rica, entre o cu e a terra
Percorrer os monumentos religiosos das cidades histricas mineiras, matrizes, igrejas e capelas, conhecer suas histrias, pocas e origens, os artistas, artfices e construtores, estilos arquitetnicos, elementos construtivos e solues plsticas, as devoes e irmandades patrocinadoras, os elementos formadores da sociedade colonial, representa uma gratificante viagem espiritual e intelectual. A contemplao esclarecida destes relicrios da arte sacra brasileira, os ornatos dos altares, plpitos, forros, retbulos e talhas, as esculturas, pinturas, em madeira e pedra, entre muitos outros elementos decorativos, sua interpretao esttica, exige ateno ampla, fundada nos vrios elementos de informao evocados para sua compreenso. 
Permitem, sobretudo, um mergulho denso e instigante nos fenmenos histricos e sociolgicos que, em singular confluncia de elementos geracionais, explicam o florescimento da criatividade e do esplendor que estes monumentos expressam, de maneira singular e exemplar, com reconhecimento mundial. Na sua histria entrelaam-se a arte e a vida de uma sociedade peculiar, sob a inspirao do Barroco, estilo do catolicismo da Contrarreforma, que conforma um tipo de vida, de uma sociedade e de arte.
Em Cultura e Desenvolvimento em poca de Crise, 1984, Celso Furtado diz que o ciclo barroco brasileiro, cuja expresso mais rica  a integrao da arquitetura com a escultura, a pintura e a msica ocorridas no sculo XVIII em Minas Gerais, constitui qui a ltima sntese cultural no esprito da Europa do pr-renascimento. Importante ainda para plena decifrao do fenmeno cultural mineiro  outra concluso de Furtado: O quadro histrico em que se forma o Brasil  articulao precoce em Portugal do Estado com a burguesia e total domnio da sociedade colonial pelo Estado e pela Igreja  congela o processo cultural no universo europeu pr-humanismo. Da que se haja dito com razo ser o Aleijadinho, esse arteso e santeiro, o ltimo grande gnio da Idade Mdia. Importa dizer que,  semelhana da sntese medieval europeia, o Barroco brasileiro era a expresso da sociedade como um todo. Sua mensagem atingia senhores e escravos. Alm da discusso que tais consideraes provocam,  fato que o sculo XVIII mineiro representou um momento excepcional, pelas singulares condies sociolgicas e histricas que condicionaram a ocorrncia do surto cultural. E que ter, em meio sculo, avanos e mutaes que, por si, j revelam, no seu sincretismo, fenmenos muito instigantes.
Lourival Gomes Machado (Barroco Mineiro, 1967), profundo conhecedor do sculo XVIII mineiro, sintetiza a opinio dos crticos, nacionais e estrangeiros, que se dedicaram a estudar a Arte Sacra setecentista. Para ele em Minas, no sculo XVIII, manifestou-se artisticamente, pela primeira vez, uma autntica cultura brasileira (Arquitetura e Artes Plsticas, 1960) e que nasceria em Minas a mais forte, mais farta e mais bela expresso de uma arte verdadeiramente brasileira. J antes, em 1956, em O Barroco em Minas Gerais, diz que este fenmeno, sem dvida,  dos mais significativos e, a meu ver, o mais belo de toda a histria cultural do Brasil. Sustentam-se nestas opinies muitas obras de estudiosos que dedicaram-se ao estudo da arte sacra mineira, incluindo a tese bsica do Movimento Modernista de que representa a manifestao de uma arte brasileira, que mostra criatividade e expresses libertas de estritos cnones importados da arte europeia.
A plena elucidao deste fenmeno cultural exige mergulho mais aprofundado, buscado nas razes fundacionais da sociedade que se formou na Vila Rica nascente. Assinala-se que a excepcionalidade da sociedade que surgia j se demonstra na faustosa festa popular comemorativa da inaugurao da nova Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar, em maio de 1733, na jovem Vila Rica. A festa, sacra e profana, popularesca mas juntando num nico desfile pobres e ricos, aristocracia e povo, prenuncia o carter da sociedade que se formava, seu estilo de vida, religiosidade e criatividade artstica, caractersticas bem descritas por Affonso vila (Resduos Seiscentistas e Minas  Textos do sculo do Ouro e as Projees do Mundo Barroco, Editoria UFMG, 1967). Sob o nome de Triunfo Eucarstico, o cronista portugus Simo Ferreira Machado, natural de Lisboa e morador nas Minas, descreve em 1734, em pequeno livro, as comemoraes, o desfile e seus componentes coreogrficos e teatrais, a profuso de alegorias e ornatos, sagrados e profanos, efeitos visuais e sonoros, o cortejo de sacerdotes ricamente paramentados, em mstica manifestao da preeminncia da religiosidade popular e do domnio da Igreja Catlica em aliana com o poder colonial.
A festa, na sua precoce mas expressiva diversidade, j revela o carter festivo da populao, o gosto pelo suntuoso, pela ostentao e pela viva exterioridade, com carter triunfalista, tpicos do estilo barroco da Contrarreforma e fornece significativos elementos de anlise e interpretao sociolgica como fenmeno cultural que distinguir o sculo XVIII mineiro na Histria do Brasil. Para Affonso vila, referindo-se  populao de Vila Rica na poca, foram os portugueses, na maioria de compleio mstica e psicolgica residuariamente barroca, que foram os transplantadores a esta parte do Brasil de um comportamento devoto j inato na alma ibrica, mas que o esprito da Contrarreforma imprimiu um sentido de mais viva e colorida exterioridade.
Diz Laura de Melo e Souza (Desclassificados do Ciclo do Ouro - A Pobreza Mineira no sculo XVIII, Graal, 1982) que o que estava sendo festejado  antes o xito da empresa aurfera do que o Santssimo Sacramento e nesta excitao visual, caracteristicamente barroca,  a comunidade mineira que se celebra a si prpria, esfumaando, na celebrao do metal precioso, as diferenas que separam os homens que buscam o ouro dos que usufruem do seu produto. Mas o que se constata, no s por esta festa mas pelo carter geral da sociedade nascente, que ser pela fora do caldeamento de condicionantes naturais e humanos, pelo barroquismo que conforma uma mentalidade com intensa religiosidade, que se conduzir o processo civilizatrio capaz de produzir um extraordinrio acervo cultural, patrimonial e artstico no sculo XVIII. E ter sido, nos primeiros anos de Vila Rica, que se far bem expressa a transplantao de uma mentalidade e um estilo de vida para a cidade que nascia sob forte influncia do catolicismo portugus, sempre alinhado com o esprito contrarreformista.
Affonso vila, mestre dos estudos de interpretao e decifrao do Barroco Mineiro, v o Triunfo Eucarstico como demonstrao do barroquismo nascente e que j se demonstra como estilo de arte e de vida, consequncia da transplantao de uma mentalidade e um estilo de vida para Minas Gerais pelo catolicismo contrarreformista, adotado de forma extremada na Pennsula Ibrica, Portugal e Espanha. Reproduz afirmao de Helmut Hatzfeld que disse que os conquistadores lusitanos constroem igrejas e no palcios, como ocorre nas primeiras cidades do litoral mas que se voltaria para Minas Gerais no incio do sculo XVIII, para onde Portugal transporta sua ateno. O intenso fluxo migratrio transporta para Minas populaes de aldeias portuguesas, para afluir  corrida do ouro, carregando consigo, como no prprio ncleo do barroco, no apenas a nsia temporal da riqueza, que o trabalho minerador poderia concretizar, mas aquela capacidade de ensueno que transmutaria naturalmente a realidade ainda desconhecida numa verdadeira anteviso ednica.
E conclui Affonso villa, sobre o fenmeno artstico mineiro: Emerge ele de uma sociedade que se inscreve originria e culturalmente sob o signo do Barroco, vivendo-o nas inquietaes mstico-existenciais que prolongam a Contrarreforma e expressando-o, concomitantemente, em estilo criativo que no esconde as suas razes formais e ideolgicas.  ainda villa que conclui: Verifica-se, no ritual das solenidades religiosas, que sublimam a vida espiritual e social da coletividade mineradora, a mesma pompa, o mesmo fausto decorativo dos templos numa reverberao ldica paralela ao adorno imagstico na linguagem potica e  riqueza do detalhe compositivo nas realizaes plsticas. E, conclusivamente: Na verdade se transplantou para as Minas do sculo XVIII um estilo mais de civilizao que estritamente de arte, o qual, favorecido pelas condies geogrficas da regio, acabou cristalizando-se no seu insulamento e marcando fundamente a trajetria mental do povo das montanhas. A sociedade nascente, em perodo de fausto pelo ouro ainda um tanto abundante, mostra seu sentimento magnificente e triunfante. Associa-se a estes elementos um natural esprito nativista, de exaltao da terra, que influir no estilo artstico, que se impe como resultado de uma competitividade social, que se expressa na busca de construes criativas, na busca de novos materiais, como a pedra sabo e a madeira.
O catolicismo da Contrarreforma, surgido no Conclio de Trento, que realizou-se de 1549 a 1563,  uma reao conservadora da Igreja Catlica destinada a retomar a unidade da f e combater a Reforma Protestante, liderada por Martinho Lutero (1483/1546). A Igreja alia-se ao regime absolutista, que se expande aps o conclave tridentino, e  intencionalmente profuso e exuberante nos ornatos, ostentatrio e exibicionista, sensorial, representando a estratgia e o meio como a Igreja Catlica, assim como os reis absolutistas, mostram o seu poder ilimitado. E tambm despertam e atraem a ateno dos incrdulos ou indiferentes. O absolutismo domina a vida cultural social, poltica e religiosa do sculo XVII e a primeira metade do sculo XVIII, tendo sido a sua caracterstica essencial o exibicionismo do poder absoluto, fator determinante do carter geral do barroco e seus mltiplos aspectos estilsticos, afirma Joel Neves (Ideias Filosficas do Barroco Mineiro, Universidade de So Paulo, 1986). Os soberanos tm a necessidade natural e permanente de afirmarem seu poder. Donde a necessidade de representao magnfica e de esplendor. A Igreja, tambm envolvida, aps Trento, no esforo de retomar influncia e domnio, orienta seus templos para a ornamentao faustosa e rica. Reis absolutistas e a Igreja Catlica se casam no esforo de encantarem pelo esplendor e pela representao da riqueza como linguagem que atrai e enleva espritos.
Em Minas se diz que o florescimento do Barroco e sua profuso de ornatos fez com que o estilo no fosse apenas uma mediao para o culto religioso, passando ele prprio a ser o objeto de culto e admirao. Surge a igreja-teatro, que capta e prende a ateno, servindo tambm como instrumento de demonstrao de fora e admoestao, pela riqueza ornamental, no seu esforo por recuperar presena, influncia e poder. O Conclio recomendou e instruiu sobre a invocao e o uso das imagens e relquias. Como no caso da msica, as artes plsticas mereceram um decreto especial, referindo-se especialmente s imagens e adornos dos templos, visando defender a arte religiosa dos iconoclastas (Ciclo do Ouro  O tempo e a msica do Barroco Catlico, Elmer Correia Barbosas, 1979, Pontifcia Universidade Catlica do Rio de Janeiro). Para este autor, era necessrio dotar a Igreja Catlica de recursos para a catequese, na conquista e na reconquista das grandes massas, problemas que mereceram a maior ateno durante os encontros em Trento. A arte tornou-se instrumento bsico de apoio litrgico. Revelaram-se como o instrumento muito eficaz da Reforma Catlica os jesutas, integrantes da Companhia de Jesus, ordem criada por Igncio de Loyola (1491/1566) pouco antes do Conclio de Trento, que se espalharam por todo o mundo na pregao da retomada do catolicismo. Foram chamados de soldados de Cristo, por sua organizao rgida e pela formao militar de seu fundador, Igncio de Loyola.
O pleno reconhecimento do barroco como estilo de arte consagrado gerou muitos debates. Alegava-se, at mesmo no sculo XX, que o estilo era extravagante, representando uma degenerao da grande arte, tratando-se de estilo sem logicidade e sem elementos estruturais que permitissem caracterizao, em flagrante oposio ao classicismo, com propores bem definidas e linhas harmoniosas, com simetrias e equilbrios. O Barroco, no entanto, diziam seus defensores, corresponderia ao prprio esprito humano, nem sempre racional, mas tumulturio, submetido ao entrechoque das ideias e emoes, sem regras definidas, tendente ao pitoresco, com profuso de formas, propenso ao teatral. Victor-Lucien Taip (O Barroco, 1983) lembra que se o Barroco, como dizia Eugenio DOrs,  a arte em que as linhas se entrecruzam, se retorcem ou se rompem, em que os volumes, inflados ou vazados, se animam nos efeitos do contraste, em que, sobretudo, o movimento de ope ao equilbrio,  harmonia e  estabilidade, se assim ele interpreta agilmente a paixo ou a fantasia, no o reencontraramos nas mais diversas pocas da histria humana?.
O Barroco por muito tempo foi visto como a decadncia da arte renascentista. A sua valorizao e sua reinterpretao ganham amplitude atravs do crtico suo Heinrich Wolfflin (1864/1945), com sua obra Renascena e Barroco, de 1888, e sua descrio dos seus aspectos formais. Em seu artigo Para uma sntese interpretativa do barroco, Affonso vila (Revista Barroco, n 20) diz que diante do barroco estamos perante uma arte que nos suscita, de imediato, a liberao da sensibilidade de quaisquer ordenaes impostas pelo hbito ao ato de contemplao e fruio do objeto esttico. E ainda: A obra de arte contemplada se oferece aqui atravs de pontos de vista, ngulos ou perspectivas que quebram a linearidade e a rigidez clssicas, convidando-nos a uma relao visual mais rica de possibilidades fruitivas, em que se ampliam e excitam mais livremente as nossas disponibilidades para a experincia dos sentidos e o gozo da inteligncia.
O quadro histrico em que floresce o Barroco, em meados do sculo XVI, encontra como fatores coadjuvantes, que estimulam elementos contraditrios no esprito humano, a expanso geogrfica e a colonizao das Amricas, a expanso mercantilista, as grandes transformaes materiais por que passava o mundo ocidental e, sobretudo, o surgimento da viso cientificista da Ilustrao, j nos primrdios do sculo XVIII, estimulando a observao da natureza e a compreenso racionalista da vida.  poca de grandes crises filosficas, de conflitos ideolgicos e religiosos. E que ter sempre, tambm, como contraponto, j no seu incio, as luzes do Renascimento, que renegam o teocentrismo medieval em favor de um antropocentrismo nascente, que chama a ateno para a razo como de meio de despertar a autonomia da conscincia humana. O relativismo religioso, a descrena do homem dividido, causam uma viso trgica do mundo e, ao mesmo tempo, a necessidade das festas como meio de alienao social e afirmao poltica. A arte barroca torna-se, por estes condicionantes, simultaneamente trgica e festiva.  instrumento destinado a promover e retomar a retrica da f, propagando, atravs da arquitetura e da arte, a luz divina e o caminho da salvao. 
Mas o homem deste momento j tem seu esprito alcanado pelas contradies da vida real, j observada com olhos mais crticos, ficando dividido entre os apelos do cu, ditados pelas Sagradas Escrituras, mas tambm da terra, que passa a melhor conhecer por suas leis naturais e a circulao das ideias que j no viam nas Sagradas Escrituras a verdade nica sobre a vida, a morte, as coisas do dia a dia na terra, nas lutas concretas pela sobrevivncia, em meio a uma realidade viva, ativa, quase sempre difcil e que no se resolvia por devaneios ou por solues ingnuas. O conhecimento do mundo, as leis naturais que o pensamento cientfico nascente j revelavam, tudo isto far do homem de Vila Rica um ser dicotmico, dividido, atormentado, temeroso de ofender s leis divinas mas j rebelde. Vive e sente, enfim, a grande crise espiritual do sculo XVIII, dividido entre o cu e a terra.
Esta dicotomia estar refletida na mentalidade e um estilo de vida e ter no regime colonial, e especialmente na regio mineradora, isolada e insulada, inspita e em formao, meio propcio  sua propagao: Os traos fisionmicos do Seiscentos comeam j a delinear-se antes do ano 1600, assim como condicionam, por outro lado, a fisionomia do XVIII (Conceitos fundamentais da Histria da Arte, Heinrich Wolfflin). A pompa e o esplendor, o arrebatamento das formas, s vezes extravagantes, o ritual das festas e solenidades religiosas, o primado do visual, a inovao das composies plsticas, elementos do estilo barroco, arte tipicamente sensorial, vo modelando a vida espiritual e social de Vila Rica. Estas so as razes do catolicismo devocional mineiro e sua arte, de clara inteno persuasria, trazido pelos portugueses, onde o catolicismo era rigoroso seguidor do esprito contrarreformista. E a religio, com seus preceitos rigorosos, ajudava no controle e na ordem da sociedade em formao e era estimulada pelo governo colonial. A esta realidade se acrescenta a excepcionalidade da sociedade que se forma e que viver em constante luta pelo domnio da terra e pela sobrevivncia, peculiar s atividades da minerao, quase sempre instvel, incerta, sempre rebelde e conflituosa mas tambm inebriante pela possibilidade de encontrar o ouro. 
Diz Simo Ferreira Machado que Vila Rica, mais que esfera da opulncia,  teatro da religio, numa sntese da religiosidade que ser fator propiciador do surto de criatividade que marcar a arquitetura religiosa de Ouro Preto, expresso no fausto dos templos e na preciosidade dos altares. Revive-se, at nossos dias, a Paixo de Cristo, a Cerimnia do Descendimento da Cruz e as Procisses do Enterro e da Ressureio, com rigor e direo teatral, atores, palco, luzes e som, figurinos, msica, oratria candente, em meio a encenaes da Via Crucis, da Crucificao e da Ressurreio. As igrejas exibem suas joias, cruzes procissionais, seus turbulos e incensos, seus lampadrios e estandartes, paramentos centenrios ricamente desenhados, alguns com fios de ouro. Fechando a procisso da Sexta-Feira da Paixo, o plio cobre o corpo do Cristo da Paixo, carregado pelos homens bons da vila. Os sacerdotes e a centenria banda de msica fecham o cortejo. A populao se empenha, o casario resplandece, iluminado e enfeitado, as famlias exibem suas colchas nas janelas, antiga tradio ibrica. Da Procisso do Enterro, triste, com a banda em compasso fnebre, lento e reverencial, com o canto da Vernica em cada Passo da Paixo (O vos ommes qui transitis ...), chamando a ateno dos fiis para o sacrifcio de Cristo para salvar os homens, passa-se  Aleluia, no domingo bem cedo, com a Procisso da Ressurreio, com figuras bblicas, alas de anjos e arcanjos, alegre, festiva, comemorando a Ressurreio, por sobre os tapetes preparados pela madrugada em festa comunitria, com o povo nas ruas. As irmandades exibem seus santos e andores com seus padroeiros e vestem as opas com seus smbolos. Estimula-se os sentimentos de acolhimento e de pertencimento. 
Estilo ideolgico, por sua intencionalidade, com que Igreja Catlica enfrenta a reforma protestante e atua na reconquista dos fiis, com amparo e sustentao do Absolutismo da Coroa Portuguesa, o Barroco encontrar na aventura da conquista da sociedade mineradora, e sua irrequieta sociedade, as condies propcias  sua propagao. Em Ouro Preto  rico o calendrio de festas religiosas, procisses, missas, festividades que se estendem aos distritos, sempre com intensa participao popular e uma atrao para os visitantes.
O morador de Vila Rica, assim como de outras cidades histricas mineiras, ser o homem barroco, j oprimido pelo jugo colonial, atormentado e dividido. Nesta dualidade espiritual, sofria a presso religiosa do catolicismo severo, que ameaava com a Inquisio em vida e o inferno na morte, e pregava fidelidade plena s Sagradas Escrituras, como fonte nica da verdade e da salvao. Encontra-se, portanto, preso no dilema entre o cu e a terra. De origem e inspirao jesutica, a Companhia de Jesus, criada por Incio de Loyola em 1543, os soldados de cristo, destinada a combater o protestantismo e a sustentar a Contrarreforma, foi a grande inspiradora, nas fases inaugurais do Barroco colonial, das concepes arquitetnicas e dos elementos artsticos transplantados para o Novo Mundo, com seu carter severo, grave e cannico. Inspirava mais temor do que amor a Deus. E o Santo Ofcio da Inquisio, que realizou visitaes nas Minas, coordenadas pela Igreja Catlica e, a partir de 1745, pela Diocese de Mariana ento criada, denunciava hereges e pecadores, nos velhos moldes do inquisidor Torquemada e seus Autos de F (Toms de Torquemada, frade dominicano, 1420/1498, de Avilez, Espanha, criador da Inquisio).
Publicaes recentes destacam a ao da Inquisio em Minas, a partir de Autos de visitao do Santo Ofcio da Inquisio, realizados pela Igreja Catlica, especialmente em Mariana, Ouro Preto e cidades histricas. Fontes importantes so os livros de Neusa Fernandes (A Inquisio em Minas Gerais, Mauad Editora, 2014), Evnia Frana Soares (Mulher, Judaismo e Inquisio nas Minas, Editora DPlcido, 2018) e Jnia Furtado e Lenia Chaves de Resende (Travessias inquisitoriais em Minas Gerais, Saga dos cristos-novos em Minas e a perseguio aos judeus, feitiaria, bigamia ou superstio, 2016). Cerca de 400 pessoas foram presas, sentenciadas e, pelo menos duas dezenas, enviadas para Portugal pela ao inquisitorial.
Affonso vila (O elemento ldico nas formas de expresso do Barroco, Revista Barroco, n 2) diz que os acontecimentos que se seguiram ao conclave tridentino, com a instalao da Contrarreforma e a escalada poltica do Absolutismo, vieram encontrar a alma ocidental insuflada pelo idealismo subjetivista do Renascimento, incapaz por isso de aceitar, sem profundo traumatismo, a reao que nas esferas dos poderes religioso e temporal se desencadeava para a reconquista da hegemonia da igreja. E acrescenta: A nova conscincia do ser no mundo j no suportaria, sem crise, aquela tentativa desesperada de prolongamento da cristandade triunfante da Idade Mdia para dentro do mundo moderno (expresso de Charles Moellder, em A angstia do homem moderno,1968). Na concluso, afirma vila: O barroco surge dessa extrema tenso do arco histrico e o seu homem, o seu artista, a sua arte, impregnam-se da agonia do instante, estigmatizados pelo dilaceramento existencial, pelo estremecimento metafsico.
Calderon de La Barca (1600/1681), dramaturgo e poeta espanhol, autor de vrios autos sacramentais, zarzuelas e comdias religiosas, expressa muito bem o mundo e a mentalidade barroca. E tambm explica a catequese tridentina por sua inspirao e temas. Suas encenaes chegaram s festas pblicas de Minas, especialmente sua obra metafrica O grande teatro do mundo, de 1645, que v a vida como um grande teatro, no qual todos os homens atuam na presena de Deus e uma corte celestial, em constante vigilncia, e em que o roteiro  o trajeto vivencial de cada um e o cenrio  o mundo. Duas outras peas, A vida es sueo e El grande teatro del mundo, tambm encenadas na Minas colonial, refletem a ideologia do nascimento do mundo barroco, com sua forma de ver a vida e o mundo, seus traos ldicos, teatrais, ritualsticos e ornamentais. As igrejas transformam-se em teatros, a ornamentao atrai a ateno, a grandiosidade convida ao arrependimento, encanta, enleva e ofusca os sditos, abrem espaos, ao lado dos camarins e sacristia, para a comunidade reunir-se, os plpitos onde se pratica a oratria deixam o altar-mor e avanam para a nave. A igreja  uma festa visual, prende a ateno, atrai o olhar e seduz a alma. 
Nas procisses e desfiles, nas festas do calendrio religioso, a teatralidade impressiona e comove pela dramaticidade, pela msica, os personagens e seus figurinos. Torna-se espetculo completo, como a pera, gnero mltiplo, de muitas linguagens e contraposies cnicas, tpica criao do perodo Barroco. A pera, como gnero artstico, surge justamente na corte de Lus XIV, na Frana, no auge do regime absolutista, que teve como principal arquiteto e articulador o cardeal Richelieu (Armand Jean duPlessis), primeiro-ministro de Lus XIII, de 1628 a 1642, relevando a cumplicidade entre a Igreja Catlica e os reis, relao que se estende a Lus XIV, de que foi ministro o Cardeal Mazarino (Jules Mazarino), aps 1642. A Igreja aceitava a tese da origem divina dos reis e estes ajudavam na retomada do poder da Igreja Catlica, em apoio  Contrarreforma. Vila Rica vive intensamente esta dicotomia, entre o cu e a terra, que lhe confere uma singular conformao espiritual e que ter especial influncia na criatividade artstica e na formao do seu acervo sacro-religioso. 
 neste contexto histrico e sociolgico, de contradies e sofrimento espiritual, de que resultam um homem em crise existencial, em meio a muitos embates econmicos e de contestao ao regime colonial, que floresce em Vila Rica um esplendor cultural, que leva a uma maior autonomia de pensamento, produto de uma densidade intelectual, naturalmente poltica e libertria, formada por uma elite de escritores, poetas, religiosos, naturalistas, comerciantes e militares, que almeja livrar-se do jugo portugus, pensa em independncia e Repblica, em desenvolvimento econmico e aproveitamento das riquezas e potencialidades da terra, j instruda pelas ideias iluministas. Neste contexto  que se diz que em Minas a aspirao de liberdade permeia toda as expresses vivas da sociedade de ento e ir dar corpo e doutrina ao sentimento nativista. A literatura expressa os dizeres iluministas e os ideais enciclopedistas, ao gosto da Ilustrao, que tomam conta da segunda metade do sculo XVIII. Os valores ideolgicos exprimem a afirmao do primado da razo, da experincia e da anlise para o conhecimento de qualquer fenmeno, cnones do Iluminismo. J se verifica nesta produo literria, que distingue Vila Rica pela qualidade e excepcionalidade dos textos, o apelo  noo pr-romntica do retorno  natureza como espao de harmonia, os postulados de igualdade, liberdade e fraternidade, que a Revoluo Francesa de 1789 consagrar, a crena no progresso da humanidade por meio das cincias matematizveis e experimentais e a decadncia dos regimes absolutistas e o surgimento do liberalismo, o incio da noo de Repblica, mais adequada  viso laica da modernidade do Estado.
Estruturou-se em Minas um singular fenmeno de aculturao, com a absoro do pensamento universal mais avanado em matria de organizao poltica, contrariando o imenso atraso do Brasil-colonial, de somente receber e incorporar influncias externas sem contestaes ou capacidade de gerar ideias prprias. Surge a Inconfidncia Mineira, tramada de 1787 a 1789, desta fermentao de ideias, alimentadas pelo regime colonial portugus, inepto e limitador do progresso. O fenmeno cultural ocorrido em Ouro Preto, como tambm em outras cidades histricas mineiras, reconhecido internacionalmente, coloca-se hoje entre os mais importantes de todo o processo civilizatrio das Amricas, por sua expresso artstica e pioneirismo. A conjurao mineira de 1789, concordam hoje os historiadores, revela o surgimento do sentimento nativista no Brasil e vai inspirar a Independncia de 1822, que ocorre justamente 30 anos aps o enforcamento, no Rio, do alferes Joaquim Jos da Silva Xavier, o Tiradentes, principal lder da conspirao. Germain Bazin, diretor-conservador do Louvre, autor de duas monumentais publicaes sobre a arquitetura religiosa brasileira e sobre vida e obra do Aleijadinho, que esteve pela primeira vez em Ouro Preto em 1945, diz que a descoberta das minas enriquece Portugal mas traz o fermento que o levar a perder a Colnia.
Alm do plano espiritual, outros fatores colaboram para o surto cultural que vai gerar o patrimnio edificado e sua riqueza artstica, especialmente na arquitetura religiosa, com feies prprias, em Vila Rica e cidades histricas: o distanciamento geogrfico das cidades e portos litorneos, dificultando a importao de equipamentos e modelos arquitetnicos e ornamentais, o isolamento forado do territrio para melhor controle da produo aurfera, a abundante presena da mo de obra escrava de origem africana, essencial  atividade mineradora extensiva, gerando intensa miscigenao racial, a pouca atividade agropastoril, a formao veloz de uma sociedade eminentemente urbana, mais aberta e liberal e menos elitista e discriminatria, ao contrrio do Nordeste semifeudal, da Casa Grande e a Senzala.
A singular capacidade construtiva, na arquitetura civil e religiosa, se explica tambm pelo excedente econmico propiciado pelo ouro abundante, sobretudo na primeira metade do sculo XVIII, como tambm pela proibio, pela Coroa Portuguesa, da presena de ordens religiosas tradicionais na regio das minas, impedindo a vinda de tipologias e modelos arquitetnicos tradicionais, exceo do partido chamado jesutico, nos primeiros anos. A sociedade se organiza em irmandades, com maior liberdade nas suas opes criativas na construo de suas igrejas, sem os prottipos arquitetnicos impostos universalmente pelas ordens religiosas que, de uma maneira bem generalizada, adotavam ainda o gtico, estilo do medievo. Vila Rica atrair mestres de obras, artesos e profissionais especializados de Portugal e do litoral brasileiro, estimulados pelo intenso processo de urbanizao e a extraordinria atividade construtiva e mesmo pela possibilidade do enriquecimento fcil pela atividade minerria.
As construes religiosas, como tambm a arquitetura civil de maior expresso, evoluram para as adaptaes possveis dadas pelas condies materiais locais, diferenciando-se dos modelos originais lusitanos e tambm das edificaes brasileiras litorneas. D-se, por estes condicionantes, o abrasileiramento da produo artstica, na escultura, na arquitetura, nas solues plsticas. J a partir da metade do sculo XVIII, esgotado o fluxo migratrio, uma gerao de nativos substitui os mestres portugueses e enseja evoluo em vrios elementos da tcnica construtiva e especialmente na arte decorativa, nos retbulos, na escultura em pedra e madeira, nos ornatos e na pintura e mesmo na arquitetura, como tambm na msica. Vo se distinguir nestas atividades os mulatos, primeira gerao de filhos da terra, j libertos da escravido e que viam nas profisses artesanais, e suas diversas especialidades, especialmente as artsticas, o meio mais fcil de sobrevivncia e de demonstrao do seu excepcional talento para os trabalhos manuais e a criatividade, trao natural psicossocial herdado de sua condio racial e social.
As igrejas de Ouro Preto, como tambm das cidades histricas, expressam no s o catolicismo da Contrarreforma mas a autonomia do Barroco Mineiro, pelo sentimento de liberdade e rebeldia que marcou uma sociedade nascente entre as montanhas do interior da Minas do Ouro, pelos materiais locais moldveis, com destaque para a pedra sabo, o cedro e o itacolomito, pelo talento e pelas mos de um numeroso grupo de artistas de reconhecido talento e criatividade, mestres de obras e artesos, pedreiros, carpinteiros, escultores, entalhadores, pintores, tendo como expresso maior Antnio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (Ouro Preto, 1737-1738/1814), arquiteto, escultor e entalhador, Patrono da Artes Plsticas Brasileiras (Lei Federal n 5.984, de 12 de dezembro de 1973), e Manoel da Costa Atade (Mariana, 1762/1830), na pintura, expoentes de uma legio de artistas nos mais variados setores, mestres de excepcional talento. Tambm como resultante deste peculiar clima criativo, a sociedade colonial mineira setecentista ir distinguir-se tambm na literatura e, de forma distinta, na msica sacra. Affonso vila diz que o Barroco que se implanta em Minas, essencialmente contrarreformista, ser o responsvel, perante o artista, pelo aspecto trgico e pattico, resultado do seu dilaceramento existencial. E afirma: O grande artista do barroco jamais esquece a sua condio de homem acossado que se encontra em sua prpria interioridade pelos valores em embate da f e da razo, alma agoniada pelo seu exlio do mundo e carne dilacerada pela paixo reprimida dos sentidos.
A arte colonial mineira, cronologicamente, pode ser classificada, de maneira sinttica e datas aproximadas, em trs fases: a primeira, compreendendo as edificaes religiosas construdas de 1698 a 1725, incluindo as capelas primitivas, chamadas bandeirantes, implantadas pelos primeiros ocupantes do territrio, nos arraiais mineradores, um s altar, simples e despojadas, alicerces de pedra, especialmente a ganga, a madeira nos elementos de sustentao; um segundo perodo, de 1725 a 1760, ser o apogeu do Ciclo do Ouro, de construo das grandes igrejas matrizes, como Conceio de Antnio Dias (1730) e Pilar (1733), com a plenitude do estilo barroco e sua ornamentao profusa, dramtica e pomposa, com intenso douramento, de consagrao do poder eclesistico e demonstrao do maior grau de desenvolvimento da cidade. Na primeira fase, conforme estudos recentes, encontram-se os elementos plsticos e decorativos do chamado Estilo Nacional Portugus, de clara influncia do que se chamou Barroco Jesutico e com caractersticas muito prprias e distintas.
O segundo perodo, denominado joanino, alude ao perodo faustoso do reinado de Dom Joo V, que governou de 1707 a 1750, o beneficirio maior do ouro de Minas. J um terceiro perodo, a partir de 1750/60, coincidente com o incio da exausto do ouro mas com intensa atividade cultural, caracteriza-se pela passagem do Barroco para o Rococ, com ornamentao menos profusa, mais leve, mais descontrada, maior iluminao natural, com alternncia dos espaos cheios e vazios, com relevos de sobreporta no frontispcio, com amplos espaos sem ornamentao, produzindo sensao de maior bem-estar, ao contrrio da ornamentao das primeiras fases, que demonstra a inquietao barroca com o mundo protestante, grave, cannica, dramtica e severa. Nesta terceira fase j surge nova tipologia dos elementos artsticos, sobretudo com a rocalha, a concha, que passa a ter presena ornamental constante nas talhas e demais estruturas decorativas.
Myriam Ribeiro diz que dois modelos arquitetnicos exteriores ao barroco lusitano se incorporaram  arquitetura mineira: os planos borromnicos, de inspirao italiana, e ornamentao rococ, de origem francesa e propagao franco-germnica. Surgem desta composio as fachadas curvilneas (barrocas), com torres redondas mas com interiores que constituem ornamentao Rococ. O exemplo tpico  a Igreja de Nossa Senhora do Rosrio de Ouro Preto, iniciada em 1757, de planta borromnica (arquiteto italiano Francesco Borromini, Roma, 1559/1667), desenho entrelaado por duas elipses, com ornamentao interior Rococ, com fachadas curvilneas e torres redondas e um espao anterior  nave, coberto, denominado galil, e que influenciar outras construes, especialmente do perodo de 1750 a 1770, que marca a transio para o rococ (Arte religiosa em Minas Gerais, Myriam Ribeiro de Oliveira, 1980), que encontra em So Francisco e Carmo de Ouro Preto suas expresses maiores. As igrejas de So Pedro dos Clrigos, do Rio (demolida em 1944) e de Mariana so outros exemplos do estilo. Ambas igrejas borromnicas, de Ouro Preto e Mariana, foram desenhadas por Antnio Pereira de Souza Calheiros. Seu desenho se delineou ao gosto da Rotunda de Roma, ou seja, o Panteo, como tambm ao modelo da rotunda do Vaticano, onde se encontra o tmulo de So Pedro, patrono dos clrigos de todo o mundo (O Rococ religioso no Brasil, Myriam Ribeiro de Oliveira, 2003).
O Barroco Jesutico, com suas primitivas plantas arquitetnicas, desenhadas pelos arquitetos da Companhia de Jesus, foi o desenho bsico adotado nas primeiras edificaes religiosas, abrangendo toda a Amrica Portuguesa. Substitui as frmulas neoclssicas renascentistas e maneiristas a partir do incio do sculo XVII, j no esprito da Contrarreforma. O modelo inaugural jesutico  a Gesu, Igreja de Jesus, de Roma, projeto de Vignola, iniciada em 1568, a primeira verdadeiramente barroca e que introduziu o estilo no mundo e, de modo especial, nas Amricas colonizadas. A grosso modo pode-se dizer que a arte religiosa trazida para Minas  o barroco tardio, de raiz jesutica italiana, e o Rococ de fonte francesa e germnica, ambas previamente aclimatadas e dominantes em Portugal. As plantas jesuticas predominam amplamente nas edificaes do litoral brasileiro, como tambm nas primeiras solues plsticas de Minas, implantadas nas velhas matrizes coloniais, construdas por todo o territrio mineiro. Suas igrejas, de pedra e cal ou sustentao em madeira pesada, paredes de taipa de pilo, com fachadas sbrias e lisas, retilneas, retangulares, com duas torres laterais, um fronto desgracioso, sem elementos ornamentais, com duas volutas invertidas, sustentando ao centro a cruz. 
No perodo ureo, suas ambientaes eram suntuosas com a prevalncia de decoraes, a proliferao ornamental da talha, um jogo de luz do tipo claro-escuro, produzido pelos contrastes de luz e sombra, prprio para as velas e tochas, em oposto ao rococ que j permitia a iluminao natural, numa viso unitria de todo o conjunto sobre a viso de cada retbulo. Mostram, no interior, profusa ornamentao, com talha dourada e outros elementos artsticos indicativos do barroco transplantado para a Colnia, nas fases iniciais. A partir da metade do sculo XVIII, as construes religiosas, como mostram vrias edificaes em Ouro Preto, tornam-se curvilneas ou sinuosas, com partidos cncavo-convexos, com novas solues estruturais, caminhando para um estilo prprio, de ntido abrasileiramento, trao destacado pelos historiadores da arte e que sustentam a tese de um barroco colonial mineiro, questo ainda suscitadora de discusses.
As irmandades e confrarias, ordens terceiras, pias unies, integradas por irmos leigos, tero papel decisivo na histria da construo das igrejas e capelas de Ouro Preto. Ao contrrio do que ocorreu nas edificaes do litoral brasileiro, onde existiam ordens e congregaes religiosas, proibidas de entrarem em Minas j em 1709, a tarefa de construir igrejas e capelas transferiu-se s irmandades, que representavam os segmentos sociais. Incumbiam-se tambm de realizar batizados, casamentos, funerais, atos de afirmao de cidadania. Por consequncia, o estudo da arquitetura religiosa em Minas tornou-se indissocivel dos estamentos sociais. Estas associaes religiosas tero papel ampliado na organizao da sociedade e expressam sua hierarquia social, suas categorias socioeconmicas, a cor da pele e origem racial, bem como profisses. Cuidavam, enfim, da f e da sociabilidade.
nicas entidades civis permitidas pelo governo colonial, a edificao de seus templos, conforme suas devoes e afinidades religiosas, realizou-se pela contribuio popular, sempre muito limitada, prolongando por muitos anos o tempo de construo de suas igrejas. Institudas para servio de Deus Nosso Senhor, honra e venerao dos santos. Na verdade, pelas irmandades deu-se a apropriao e controle, por parte do Estado, das instituies surgidas de sua ausncia no campo social. Ao subvencion-las o Estado detinha o controle de suas aes.
Seu papel tornou-se preponderante tambm na criatividade artstica, decorrente de uma competitividade entre elas, interessadas em demonstrar grandeza, beleza e expressividade de suas igrejas. Obras fundamentais na compreenso do papel das irmandades so Os leigos e o poder  Irmandades leigas e poltica colonizadora em Minas Gerais, de Caio Cesar Boschi (tica, 1986), Associaes Religiosas do Ciclo do Ouro, de Fritz Teixeira de Salles, de 1963, e Devoo e escravido, de Julita Scarano, de 1976. Diz Boschi que nas Minas Gerais pertencer a uma irmandade era condio indispensvel, mesmo depois da morte pois nem todos possuam sepultamento garantido. Da a sua grande relevncia histrica e social na regio.
Em 1711, uma Carta Rgia recomendava ao governador Antnio de Albuquerque: Ordeno-vos que no consintais que nas Minas assista frade algum, antes os lance fora todos por fora ou violncia, se por outro modo no quiserem sair. Outra determinao ocorre em 1721: Para no consentirem nas Minas religiosos de quaisquer religio que seja por ter mostrado a experincia o grande prejuzo e perturbao que nelas fazem. Em 1759, o Marqus de Pombal, Sebastio Jos de Carvalho, primeiro-ministro de Portugal, expulsa os jesutas do Brasil. Decorre destas proibies a inexistncia, nas cidades histricas mineiras, de conventos, mosteiros ou colgios criados e mantidos pelas ordens religiosas, como os jesutas, franciscanos, beneditinos, carmelitas, dominicanos e outras. Duas excees foram abertas, por Ordem Rgia, aos Leigos de Jerusalm, os franciscanos da Terra Santa, encarregados de colher esmolas para a conservao dos Santos Lugares da Palestina, e que tiveram Casas de Acolhimento ou Retiro em Ouro Preto e Sabar. Sem recursos vindos das congregaes e ordens estrangeiras, as irmandades locais tiveram maior liberdade para adotar solues plsticas prprias na arquitetura e na ornamentao de suas igrejas.
Eram proibidas nas Minas a ordens primeiras, integradas pelos frades professos, de voto perptuo, de vida em comunidade claustral, em mosteiros. Permitia-se a presena, para o servio religioso paroquial, das ordens segundas, representadas pelos padres e freiras, formados em seminrios diocesanos, chamado seculares, mas tambm vistos com restries pelo governo colonial. As irmandades realizavam a vinculao leiga s tradicionais ordens religiosas, especialmente a franciscana, a carmelita e a dominicana. E cuidavam tambm de ser corporaes de ofcios ou cooperativas, entidades sindicais e culturais. As irmandades, rivalizando-se, competiam na demonstrao do seu poder na arquitetura de suas igrejas, na sua ornamentao, no esmero artstico de seus ornatos, imagens de padroeiros e santos da ordem e na organizao das festas religiosas. Ainda hoje, o carter festivo da populao se revela a cada celebrao religiosa, nas igrejas e nas ruas. 
No calendrio anual religioso, revestem-se de maior brilho as comemoraes da Semana Santa, a Pscoa, o Ciclo do Natal, as festas de Corpus Christi, Santo Antnio, So Joo e So Sebastio, em parte custeadas por recursos pblicos em razo de sua importncia para a comunidade. Na Semana Santa competem, at hoje, as matrizes do Pilar e de Antnio Dias, que revezam-se nas celebraes a cada ano e na guarda das imagens. Os livros de registro das associaes religiosas, Termos da Vida Religiosa, Batismos e Casamentos, Receitas e Despesas e de Compromisso, so fontes fundamentais para a pesquisa histrica. Em Ouro Preto, como de uma maneira geral nas cidades histricas, e mesmo em grande parte de Minas, obedecia-se s seguintes preferncias: eram de brancos as igrejas e ordens de Nossa Senhora do Carmo, So Francisco, Nossa Senhora da Conceio, Nossa Senhora do Pilar, So Miguel, Santana; eram de pardos So Francisco de Paula e So Jos dos Bem Casados; e de negros Nossa Senhora do Rosrio, Santa Efignia, So Benedito, Nossa Senhora das Mercs. A Igreja de So Jos tinha como irmos os carpinteiros e artesos e, So Francisco, os profissionais liberais, comerciantes, artistas, intelectuais. As famlias mais abastadas preferiam Carmo e Pilar, divises hoje bastante alteradas. Admitia-se a confeco de altares laterais nas matrizes e igrejas maiores por irmandades e devoes que ainda no tinham templos prprios. 
Enquanto as irmandades mais ricas procuravam pompa e luxo nas festas populares, as entidades dos negros realizavam festas coletivas de notrio sincretismo religioso, reizados e congados, entre outras festas e prticas de origem africana, s vezes de carter pago e populares, mas tambm de grande interesse cultural como tambm de intenso fervor religioso. No perodo colonial estas entidades religiosas eram apoiadas pelos governos, desobrigados de investimentos na construo e manuteno das igrejas, mas porque contribuam para a coeso social e pregavam os bons costumes. Existentes at hoje, as irmandades dedicam-se, no entanto, somente s funes religiosas e festivas. 
Atribui-se aos modernistas, aps a viagem que realizaram a Ouro Preto, em 1924, a divulgao do acervo cultural, arquitetnico, a arte sacra e mesmo os feitos histricos e cvicos da cidade ao longo da histria brasileira. Mrio de Andrade publica A arte do Aleijadinho em 1928 e chama a ateno dos meios culturais brasileiros para o artista. Oswald de Andrade, integrante da comitiva, com viso do ambiente artstico europeu, publica vrios artigos na revista Pau-Brasil, assim como outros participantes da excurso. Manuel Bandeira, em 1938, publica Guia de Ouro Preto, com preciosas e completas informaes sobre a velha cidade. Sustentam os modernistas que foi em Ouro Preto, nas suas igrejas, que encontraram a mais original arte religiosa do Brasil, com estilo prprio, constituindo o fundamento de uma cultura e autnoma, sonho nacionalista do pensamento modernista nascente.
Mrio de Andrade diz que foi neste meio oscilante de inconstncias  a Minas Gerais setecentista  que se desenvolveu a mais caracterstica arte religiosa do Brasil. A igreja pode a, mais liberta das influncias de Portugal, proteger um estilo mais uniforme, mais original que os que abrolhavam podados, ulicos, sem opinio prpria. Em Minas, o estilo barroco estilizou-se. As igrejas, construdas por portugueses mais aclimatados ou por autctones, como o Aleijadinho e seu pai, Manoel Francisco Lisboa, desconhecendo o Rio e a Bahia, tomaram um caminho mais determinado e, poderamos dizer, muito mais nacional. Na exaltao de Aleijadinho, impressionados sobretudo com os Profetas de Congonhas, muitos so os textos que exaltam o artista, que soube apreender o carter essencial do barroco. Nas palavras de Moacyr Laterza h o pattico trgico que fartamente se ilustra nos Passos de Congonhas: o pattico visionrio e de esperanas dos Profetas; o pattico da alegria mstica dos Mistrios Gozosos, os Querubins, as Figuras do Prespio, SantAna Mestra, So Joaquim (A imaginria do Ciclo do Ouro, Moacyr Laterza). Revela-se tambm a emoo de Oswald de Andrade, em sua visita a Congonhas, em 1924: No anfiteatro de montanhas, os profetas de Aleijadinho monumentalizam a paisagem. As cpulas Brancas dos Passos, e os cocares revirados das palmeiras, so degraus da arte do meu pas, onde ningum mais subiu. Bblia de pedra-sabo, banhada no ouro das minas.
Algumas colocaes, mais recentes, por especialistas, representam vises mais contemporneas, e mesmo revisoras, de alguns conceitos sobre a arte colonial mineira. Em publicao na Revista do Instituto de Arte e Cultura da UFOP (Barroco e Rococ na arquitetura colonial mineira, 1994) Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira, diz que j  tempo de se proceder a uma reavaliao de alguns conceitos tradicionalmente aceitos, elaborados nos anos de 40 e 50 (sculo XX) por estudiosos do calibre de Lcio Costa, Paulo Santos, Lourival Gomes Machado ou Sylvio de Vasconcellos, ligados, direta ou indiretamente,  equipe pioneira que sedimentou as bases do trabalho do antigo Servio do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional. Consagrados definitivamente em livro de Germain Bazin, publicado em francs em 1956 mas s traduzido para o portugus em 1983, esses conceitos vm norteando geraes sucessivas de estudantes e pesquisadores, sem que novas teorias interpretativas, determinadas pela evoluo dos conhecimentos no processo histrico, venham a somar-se s j conhecidas e substitu-las. E adverte que uma primeira questo que precisa ser reavaliada  o termo Barroco Mineiro, usado para todas as artes sacras de todo o perodo colonial. Myriam atribui esta generalizao aos autores modernistas na esteira de Mrio de Andrade, para salientar a originalidade da arquitetura colonial mineira, no contexto geral do Barroco Brasileiro de importao portuguesa.
J em sua publicao Barroco e Rococ no Brasil(Ed. C/Arte, 2014) Myriam diz que o barroco e o rococ so estilos diferenciados e com caractersticas prprias, que  preciso conhecer para a correta identificao de seus aspectos nas igrejas construdas no Brasil na poca colonial. E aponta, para ilustrar a diferena, as igrejas ouro-pretanas Nossa Senhora do Pilar, do estilo barroco, e So Francisco de Assis e Carmo, estes exemplos das ambientaes do rococ, mais leves e requintadas. Para Myriam foi apenas em meados do sculo XX que a historiografia internacional da Histria da Arte estabeleceu as bases tericas para a distino ente os dois estilos. E comenta que ainda persistem autores que situam o rococ como fase final do barroco, analisando-o com categorias inadequadas que prejudicam a compreenso das obras e sua correta avaliao esttica. 
A autora, especialista no rococ, com slida formao acadmica e longa experincia profissional, autora de O rococ religioso no Brasil, de 2003, diz que diferentemente do barroco religioso, atrelado desde aos ideais da Contrarreforma Catlica, o rococ religioso no teve nenhum compromisso de origem com qualquer tipo de ideologia, de natureza religiosa ou at mesmo poltica. Criado na Frana por volta de 1730 no mbito das decoraes civis, foi inicialmente uma reao dos decoradores contra o excessivo peso ornamental do barroco, reao esta impulsionada pelas novas exigncias de conforto da nobreza e da alta burguesia, nas novas decoraes dos castelos ou residncias urbanas da poca. O estilo foi chamado na Frana como rocaille ou Lus XV, e alcanou outros pases europeus, considerado criao francesa ao sculo do Iluminismo. Mas que encontrou, nos primeiros momentos, reao contrria da Igreja Catlica, considerado inadequado para ambientes religiosos.
No rococ torna-se mais elegante a decorao, j com alternncia de espaos vazios, brancos ou com tonalidades mais suaves. A ornamentao, sem a profuso do barroco severo e grave da primeira fase, apresenta-se com mais suavidade, despertando um novo tipo de sensibilidade religiosa, menos rigoroso e menos ameaador, um cristianismo mais pacificado. Foi o horror ao vazio, caracterstica do barroco luso-brasileiro, que produziu as igrejas forradas de ouro, demonstrando a opulncia do estilo e seu claro objetivo de atrair o espectador. Nas igrejas do rococ abrem-se as janelas para a luz natural, com culos e vos que permitem uma iluminao capaz de facilitar leituras dos seus ornatos, tornando-se mais perceptvel todo o ambiente, sem os contrastes de sombra e luz. Em O Barroco e o Rococ nas Igrejas de Ouro Preto e Mariana (Myriam Ribeiro de Oliveira e Adalgisa Arantes Campos, Programa Monumenta, IPHAN, 2010) as autoras reafirmam que o Barroco e o Rococ so estilos diferenciados e com caractersticas prprias como o visitante perceber de imediato ao comparar as Igrejas do Pilar e Carmo e, em Mariana, a Catedral da S e So Francisco de Assis. As primeiras, grandiosas, e com retbulos integralmente dourados, produzem sensao de deslumbramento e riqueza, com a mensagem subjacente de manifestao de um poder maior, que passa deste mundo ao outro. J nas ltimas, com decorao mais leve e requintados ornatos intercalados com fundos brancos, sugerem encantamento e bem-estar, em harmonia com Deus e o universo de sua criao.
Estudos bem recentes de identificao e anlise da presena do Estilo Nacional Portugus em Minas Gerais tem chamado a ateno de estudiosos e vo permitindo ampliao de conhecimento sobre as igrejas mineiras mais antigas, origens locais e regionais, artistas e entalhadores pioneiros, alm de reconhecimento de obras do estilo, de grande valor artstico e histrico. E vem atualizando catalogaes e sistematizaes destes retbulos. O estilo  encontrado em peas rarssimas dos anos finais do sculo XVII e at 1727, quando se inicia a fase denominada Estilo Joanino, aluso ao reinado de Dom Joo V, de 1707 a 1750, perodo de maior afluncia do ouro de Minas Gerais.  contribuio importante neste debate, pela fundamentao e riqueza de pesquisas e anlises, a obra do historiador e professor ouro-pretano Alex Fernandes Boher (A talha do Estilo Nacional Portugus em Minas Gerais  Contexto sociocultural e produo artstica (Tese de Doutorado, UFMG, 2015). Para ele, embora sejam muitos e amplos os trabalhos dos mais eruditos pesquisadores e estudiosos em torno da ornamentao das igrejas, h um hiato: a produo artstica mineradora de fins do seiscentos e as trs primeiras dcadas do setecentos no recebeu ainda trabalho abrangente e sistemtico. 
Alex Boher cita Robert Smith e seu estudo sobre a talha em Portugal para caracterizar o estilo como o encontrado em igrejas mineiras: Dois elementos so indispensveis: a coluna de fuste em espiral, chamado salomnico, e o remate de arcos concntricos que, combinados, deram ao retbulo portugus uma nova estrutura, mais estrutural que arquitetnica, dinmica em vez de esttica, emprestando sentido de movimento e efeito de unidade. Uma descrio bastante detalhada do estilo  feita por Adalgisa Arantes Campos em A terceira devoo do Setecentos Mineiro: o culto a So Miguel e Almas, tambm citada por Boher: O retbulo nacional incorporou a coluna totalmente espiralada (coluna torsa) recorrendo s arquivoltas concntricas, conforme a tradio caracterstica das portadas romnicas e manuelinas. Concepo fundamentalmente escultrica, apoia-se em vocabulrio ornamental baseado em motivos fitomorfos e zoomorfos, com inclinao para os smbolos eucarsticos: folhagens de acanto, videiras e cachos de uva, de trigo, pelicanos, folhas de parreira smbolos da Eucaristia e o pssaro fnix, smbolo da Ressurreio de Cristo. Considerado uma criao genuna dos portugueses, emprega principalmente a madeira, devidamente policromada e dourada suscitando a expresso talha dourada.
No estilo joanino, descreve Myriam Ribeiro (O esplendor do barroco na decorao interna das capelas e matrizes, Histria e Minas  As minas setecentistas, 2007) j se revela uma presena de figuras humanas como tema central da ornamentao, com o remate do coroamento dos altares em dossel, com sanefas e cortinados de efeito teatral. As colunas torsas evoluem para o salomnico berniniano, mais monumental e com o tero inferior estriado como as do clebre baldaquino de Bernini na Baslica de So Pedro em Roma. O vocabulrio decorativo incorpora volutas e conchas, associadas a feixes de plumas e grinaldas de flores. As igrejas continuam forradas de ouro, tendendo a decorao para o preenchimento abrangente das paredes e tetos, sem permitir a alternncia de espaos cheios e vazios.
A tese principal de Alex Boher  que tais retbulos, de grande valor artstico e histrico, surgidos em Portugal a partir de 1675, apresentam caractersticas marcantes da arte barroca luso-brasileira encontradas em Minas, e que precisam ser mais analisadas e divulgadas. Em sua pesquisa do estilo, ressalta que os retbulos so encontrados em algumas regies de povoamento mais antigo de Minas: Contudo, salta aos olhos, pela quantidade e qualidade artsticas, a confeco desse tipo de pea na Bacia do Rio das Velhas. H 14 retbulos afins em Sabar (Matriz de Nossa Senhora da Conceio, Igrejinha do  e Capela de Santo Antnio de Pompeu) e em Raposos (Matriz de Nossa Senhora da Conceio. E em Ouro Preto, justamente nos distritos localizados nas cabeceiras do Rio das Velhas, na Matriz de Nossa Senhora de Nazar, de Cachoeira do Campo, Igreja de Santo Antnio, de Glaura, Igreja de So Bartolomeu e Capela de Nossa Senhora das Mercs, em So Bartolomeu. 
O Rio das Velhas, que nasce na Serra do Ouro Preto,  a principal via de penetrao dos primeiros desbravadores vindos de Sabar, ncleo mais antigo, fundado por Borba Gato por volta de 1682, e que seguiam seu curso at o Vale do Tripu, entre Vila Rica e Mariana. Primeiramente, o Rio das Velhas serviu de orientao aos paulistas bandeirantes e, aps a Guerra dos Emboabas, nos anos de 1708 e 1709, aos portugueses e demais aventureiros vindos da Bahia e de Pernambuco, vitoriosos nos conflitos. A vinda para Vila Rica de mestres construtores e artistas entalhadores portugueses foi condio determinante para a qualidade tcnica e formal da arquitetura e arte sacras, integradas na construo e decorao das igrejas. A atrao era tambm pelo ouro, cuja fama era de gerar riquezas a curto prazo, mas tambm pelas oportunidades de trabalho nas cidades em construo.
O maior mestre construtor da regio de Ouro Preto ser Manoel Francisco Lisboa, portugus de Lisboa, pai de Aleijadinho, que viveu e trabalhou em Minas de 1721 a 1767, conforme atividade documentada.  autor do risco e tambm construtor das matrizes de Conceio de Antnio Dias (1727), Santa Efignia e da Igreja do Carmo (1766), trabalhando tambm em vrias outras intervenes em capelas e edificaes civis. Destaca-se tambm Jos Pereira dos Santos, do Porto, com vrios trabalhos entre 1737 e 1762 incluindo a Igreja de Nossa Senhora do Rosrio de Ouro Preto, de planta curvilnea. Foi construtor de So Pedro dos Clrigos, de Mariana, tambm curvilnea, sendo ambas igrejas projetadas por outro portugus, Antnio Pereira de Souza Calheiros. Atribui-se a Antnio Francisco Pombal, irmo de Manoel Francisco Lisboa e tio de Aleijadinho, o planejamento do magnfico interior da Matriz do Pilar, embora haja tambm citao de autoria do engenheiro militar Pedro Gomes Chaves. Entre os entalhadores, executores de trabalhos magnficos, conforme opinio de especialistas que estudaram a arte sacra mineira, e que integraram uma verdadeira escola de artistas de elevada qualidade escultrica, encontram-se Francisco Xavier de Brito, Jos Coelho Noronha, Francisco de Faria Xavier, que trabalharam tambm em outras cidades mineiras.
As obras de talhas dos altares e outros acabamentos ornamentais dos templos, ao lado da exuberncia dos seus douramentos, que elevam o aspecto monumental das igrejas setecentistas mineiras, resultam do trabalho de vrios mestres, autores de preciosas criaes demonstrativas do preciosismo do barroco mineiro. Francisco Xavier de Brito, escultor e entalhador, que veio do Rio, onde deixou obra preciosa na Igreja da Penitncia, introduz em Minas as linhas de um novo gosto formal nas talhas da Capela Mor da Matriz do Pilar de Ouro Preto, onde trabalhou por volta de 1746 (Breve histrico da arte religiosa, Affonso vila, 1984). Seu trabalho, que passou a ser chamado de estilo Brito, influenciou outros entalhadores, como Felipe Vieira Servas e Jernimo Felix Teixeira, que trabalharam na Igreja de Santa Efignia e na Matriz de Conceio de Antnio Dias. O estilo foi levado tambm para edificaes religiosas de outras cidades pelo entalhador Jos Coelho Noronha, que deixou vrias obras de grande valor.
Ter tambm tido influncia no prprio Aleijadinho que, conforme  justo supor, conviveu com estes mestres e certamente visitou suas obras. Aleijadinho desenvolveu seus ornatos, j no estilo rococ, especialmente na Igreja de So Francisco de Assis, onde adota uma linguagem decorativa aberta agora na leveza e alegria dos seus motivos e formas, e que triunfar como as prprias tendncias do pensamento clarificado e racionalista de fins do sculo XVIII (Affonso vila). De imenso valor so tambm as obras de Francisco Vieira Servas, que trabalhou nas igrejas de So Jos e Carmo de Ouro Preto, mas com trabalhos magnficos nas Igrejas do Rosrio e Carmo de Mariana, Carmo de Sabar, Bom Jesus de Congonhas e So Francisco de So Joo del-Rei. Companheiro de Aleijadinho na decorao de muitas igrejas, outro artista excepcional  o pintor Manoel da Costa Atade, que deixou trabalhos em vrias edificaes religiosas e particulares em vrias cidades. Com trabalhos de reconhecida qualidade, merecem citao tambm os pintores Manuel Rebelo e Souza, Joo Baptista de Figueiredo e Joo Nepomuceno Correia e Castro.
Germain Bazin, conservador-chefe do Museu do Louvre, de Paris, em visitas a Minas, apaixonou-se pela arte sacra mineira e especialmente pela obra de Antnio Francisco Lisboa, a que dedicou dois livros: Arquitetura Religiosa no Brasil, de 1956, e Aleijadinho e a escultura barroca no Brasil, de 1963. Esta ltima, obra monumental, de refinada anlise esttica e estilstica, lanou Aleijadinho nos crculos mundiais de estudiosos da Histria da Arte. Para Bazin, nos ltimos anos do sculo galante num pas perdido do outro lado do Atlntico, um mestio produz esta obra sublime, a ltima apario de Deus evocada pela mo do homem. Para Bazin, conforme diz Myriam Ribeiro de Oliveira (O Aleijadinho e sua oficina, Capivara, 2002), o escultor brasileiro Antnio Francisco Lisboa  o ltimo produtor de talento na tradio da imaginria crist de carter naturalista, ou seja, aquela na qual os recursos da policromia unem-se aos da escultura para a sugesto de vida nas imagens, acentuando sua carga emocional.
 imensa a lista de obras documentadas de Antnio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, em diversas cidades mineiras, pertencentes a monumentos pblicos mas tambm em colees particulares. Em Ouro preto so elas: chafariz do Palcio dos Governadores; busto do Chafariz do Alto da Cruz; risco do altar-mor de So Jos; medio do risco de Nossa Senhora do Carmo; risco arquitetnico e vrias esculturas em So Francisco de Assis, risco do altar-mor, barrete do altar-mor, como a portada, medalho e seus elementos ornamentais do frontispcio, lavabo da sacristia, plpitos do Arco-Cruzeiro, risco para altares laterais; quatro anjos de Nossa Senhora do Pilar; retbulos de So Joo, Nossa Senhora da Piedade, Santa Quitria e Santa Luzia da Igreja do Carmo; relevo de Almas do Purgatrio e portada da Igreja de Bom Jesus de Matosinhos; mesa e quatro cadeiras para o Palcio dos Governadores; risco para um Casa de Aougue. Atribui-se ao artista a execuo de vrias obras de mobilirio e estaturia, sem comprovao documental. Aleijadinho trabalhou tambm em Sabar, Rio Pomba, So Jos del-Rei, Tiradentes, Baro de Cocais, Congonhas. 
Atribuem-lhe obras em Mariana, Santa Rita Duro e Caet (conforme relao de Vida e obra de Antnio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, Sylvio de Vasconcellos, 1979). Em 1951 o IPHAN, tentando dar objetividade e certificao ao debate relativo s autorias atribudas a Aleijadinho, publicou Relao das obras de Antnio Francisco Lisboa. Esta listagem, junto com as obras relacionadas por Germain Bazin no seu livro (Aleijadinho e a escultura barroca no Brasil, publicado em 1963 na Frana e em 1971 no Brasil), resultante de minucioso levantamento e estudo apurado de estilo e caractersticas, constituem ainda hoje fontes fundamentais para as atribuies. Posteriormente, atravs de um convnio do IPHAN com a Fundao Vitae, a relao foi atualizada com base em estudos das ltimas trs dcadas incorporados ao Inventrio de Bens Mveis e Integrados de Minas Gerais.
Aleijadinho, por seu renome, o valor comercial de suas obras, sua vida de artista e mrtir, ainda com algumas obscuridades, a excepcionalidade de seu talento mltiplo, suscita naturalmente polmicas, algumas de boa inteno e valor acadmico. Outras meras exploraes especulativas. A polmica situa-se preponderantemente no ramo da imaginria/estaturia. Neste campo destaca-se a publicao O Aleijadinho e Sua Oficina, trabalho de Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira, Olinto Rodrigues dos Santos Filho e Antnio Fernando Batista dos Santos (Edit. Capivara, 2002). Intensamente estudado, Aleijadinho teve sua vida e obras pesquisadas em todos os aspectos pelos historiadores e arquitetos do IPHAN e por um grande nmero de especialistas em Histria da Arte, brasileiros e estrangeiros, com farta indicao documental, busca de arquivos, anlises estilsticas comparativas. E so muitos os documentos, registros inquestionveis, de sua vida e obras, patrocinados pelo IPHAN. A publicao mais recente, completa em todos os elementos que o envolvem,  de Ivo Porto de Menezes, arquiteto, professor emrito da Escola de Arquitetura da UFMG e da Escola de Minas, diretor do Arquivo Pblico Mineiro, arquiteto do IPHAN, autor de imensa bibliografia sobre a arte mineira (Antnio Francisco Lisboa, Editora C/Arte, 2014). No livro, publica relao pormenorizada das obras do mestre, entre comprovadas e as atribudas.
