O esplendor artstico e cultural
Muitas questes atraem e fascinam os que se dedicam  leitura do sculo XVIII mineiro. Trata-se da decifrao plena dos fundamentos sociolgicos que permitam anlise comparativa com fenmenos civilizatrios, similares no continente americano, ao surto de criatividade artstica e intelectual que ocorre fundamentalmente nas cidades histricas mineiras, surgidas na corrida desencadeada pela descoberta do ouro e pedras preciosas nos territrios interiores da Amrica portuguesa, particularmente em Ouro Preto, Mariana, Sabar, So Joo del-Rei, So Jos del-Rei (Tiradentes), Congonhas, Caet, Serro, Diamantina, Pitangui e Paracatu, ncleos urbanos principais e pioneiros da ocupao setecentista e irradiadores de um tipo singular de sociedade. E que abranger todos os campos do esprito humano, culminando com os ideais de liberdade poltica e autonomia econmica, inerentes s sociedades que atingem maior grau de civilizao. 
 importante lembrar que a pesquisa histrica recente assinala pioneirismo de ocupao territorial tambm no Norte Mineiro, s margens do Rio So Francisco, especialmente com a fundao de Matias Cardoso, com viajantes vindos da Bahia, dedicados  criao de gado, em perodo coincidente com a descoberta das minas de ouro.
A reviso crtica dos primrdios da ocupao do territrio, na regio minerria, assinala uma singular confluncia de fatores histricos, geogrfico/naturais, tnicos, religiosos, econmicos e polticos plasmou nas Minas do Ouro um singular tipo de sociedade que foi capaz de gerar um conjunto de homens, poetas, escritores, religiosos, pintores, ornamentistas, escultores, arquitetos, msicos, naturalistas e pensadores polticos, entre outras e variadas profisses e atividades, unidos por um sentimento de emancipao nacionalista e constante rebeldia face ao regime colonial portugus, inepto e opressor. Sociedade irrequieta, em luta e conflitos pela sobrevivncia, inicialmente em ambiente natural inspito, mescla de aventureiros de toda espcie que acorreram  regio em busca do ouro. Ocorre um certo refinamento pelo gosto artstico, trao distintivo que se forma pelo caldeamento dos fatores estimulados pelas caractersticas de uma sociedade irrequieta e libertria, submetida a sentimentos religiosos em um tempo de transformaes espirituais e que forma, muito cedo, vida urbana que permite e estimula a evoluo do pensamento e maior liberdade na criao artstica.
Torna-se claro que a fertilidade intelectual e artstica desse perodo, a partir da segunda metade do sculo XVIII, s se explica a partir da existncia, nas Minas setecentistas, de uma cultura humanstica mais ampla, com alcance alm das belas letras e artes, uma sociedade de letrados, uma Arcdia Mineira, com homens atualizados no pensamento poltico da Ilustrao e do Iluminismo que domina o sculo. Reconhecem os historiadores brasileiros e estrangeiros que ocorreu em Minas, nas cidades histricas, a primeira e grande cristalizao artstica de uma autntica cultura brasileira. A compreenso dos vetores que instruem essa sociedade, capaz de incorporar a cultura transportada pelo colonizador e dar-lhe feies prprias,  fundamental para a plena decifrao do fenmeno cultural mineiro e sua fruio como objeto de Turismo Cultural. A influncia e o exemplo das cidades histricas mineiras, no campo cultural e na organizao urbana e suas instituies,  ressaltado no livro Cidades Histricas que mudaram o Brasil, do jornalista Francisco Brant, de 2012. 
Nas novas terras americanas, segundo as melhores anlises do fenmeno sociolgico de transplantao cultural, os conquistadores espanhis encontraram os astecas, no Mxico, e os incas, no Peru, como tambm os maias em outras regies, em estgio civilizatrio mais avanado. E, por esta condio, obrigaram-se a empregar ao de conquista e dominao via desestruturao cultural e, em algumas situaes, a destruio das sociedades encontradas, em episdios que constituem um dos mais marcantes exemplos de genocdio cultural de toda a Histria da Humanidade. Nessas regies, mesmo submetidas a deliberado e agressivo processo de extino, as culturas pr-colombianas, preservadas pelos grupos tnicos e sociedades remanescentes, ainda so marcantes, seno dominantes, nas diversas manifestaes artsticas, apresentando evolues e sincretismos diversos com a influncia espanhola e o estilo barroco europeu dos sculos XVII e XVIII. 
Na Amrica portuguesa, os colonizadores encontraram grupos indgenas em estgio mais primitivo, tribal ou clnico. As cidades que se implantam na regio das minas, comeando do nada, organizadas velozmente e sob impactos de uma ocupao desordenada, observam o carter bsico portugus e no s na sua formao urbanstica e arquitetnica. 
A vida civil e religiosa, os cdigos de organizao social e administrativa, so elaborados conforme as disposies lusas, sob dominao e acompanhamento da administrao colonial portuguesa desde o incio, fortemente e quase unicamente interessada no ouro.  especfico, portanto, o fenmeno de transplantao cultural. Alm da influncia portuguesa, apenas sero incorporadas algumas prticas culturais, em menor escala e em maior tempo, vindas do negro africano, trazido como mo de obra escrava, cujo contingente populacional chegou a equiparar-se com o branco, e dos indgenas, estes sempre resistentes s tentativas de escravizao ou mesmo de integrao urbana e social.
O idioma portugus se mantm intacto e ser elemento fundamental de transmisso cultural. O tupi-guarani, falado nos primeiros tempos no Brasil pela populao aclimatada, estimulado pelos jesutas nos ncleos sob sua influncia, onde eram mais prximos os contatos com o indgena, ser proibido na Colnia. Os elementos simblicos principais das culturas asteca e inca, e mesmo dos maias, encontrados nas edificaes deixadas por esses grupos, nas suas muitas cidades e templos, e at os nossos dias em processo de descoberta e de elucidao histrica e cultural, vm revelando sociedades com organizao social avanada e conhecimentos codificados dos elementos naturais. J se vivia em cidades, com traado urbanstico e especializao de equipamentos pblicos. O que constitui questo surpreendente no caso das Minas do Ouro e suas cidades  que, embora a transplantao cultural tenha se feito de maneira absoluta, ocupando espaos vazios, e tenha a Coroa portuguesa tentado, por todos os meios coercitivos, manter a regio fechada e imune a qualquer influncia estrangeira ou ao florescimento de modos prprios de pensar e de se informar, mesmo assim, muito cedo se criou uma espcie de conscincia prpria, rebelde, irredentista e nacionalista. 
 o que demonstram os inmeros conflitos com o governo portugus, motins e aes de resistncia, particularmente nas duas primeiras dcadas do sculo XVIII. Mais tarde, desenvolvidos os ncleos urbanos, formados os diversos estamentos e classes sociais, estabelecida a vida coletiva organizada, essas manifestaes de autonomia intelectual vo se expressar com mais intensidade na criatividade artstica, na arquitetura, em algumas prticas da vida coletiva, religio, hbitos e costumes. Se a rebeldia  a reao dialtica  opresso, o surto artstico e intelectual ser o meio sociolgico de expresso dessa sociedade nascente e oprimida.
Para uma decifrao maior dessas questes, contribuiu significativamente o trabalho Ensaios sobre o Ciclo do Ouro, do professor Washington Albino, de 1978, em que discorre sobre As lies das vilas e cidades de Minas Gerais. Primeiramente, discute o papel e a influncia do ouro e pedras preciosas na riqueza de naes, construtores de prestgio e facilitadores do crdito e do movimento dos negcios. Para ele, no havia, por parte das naes colonizadoras ocidentais, experincia jurdica ou vivncia institucional, representadas por princpios normativos, sobre como tratar e gerir as novas regies mineradoras: A prtica espanhola, que poderia ser lembrada, baseou-se, inicialmente, na depredao e no saque de monumentos e de templos, onde o ouro j se encontrava extrado e trabalhado, e j integrado, portanto,  cultura local autctone. No se tratava de regies vazias e, portanto, de transplante populacional e cultural completos, mas, ao contrrio, de dominao violenta de uma cultura sobre outra, repetindo-se, de certa maneira, o modelo romano de conquista e ocupao dos territrios. Ainda no caso espanhol, havia governos estabelecidos, sociedade organizada, com normas de vida coletiva mais elaboradas e antigas. Mas na regio das minas o processo de ocupao e urbanizao ocorreu com certa autonomia na organizao das cidades, que tiveram que ser construdas do nada. Suas sociedades, sua cultura, vo adquirir traos do seu momento histrico e seus condicionantes do espao, do meio fsico, das influncias tnicas, da economia de subsistncia, das prticas coletivas.
Srgio Buarque de Holanda, no seu Razes do Brasil, faz ressalvas no caso da colonizao espanhola. Diz que, no primeiro momento, ficou ampla a liberdade ao esforo individual, a fim de que, por faanhas memorveis, tratasse de incorporar novas glrias e novas terras  Coroa de Castela, logo depois, porm, a mo forte do Estado fez sentir seu peso, impondo uma disciplina entre os novos e os velhos habitantes dos pases americanos, apaziguando colonos para maior proveito da metrpole. A dominao espanhola se mostrou favorvel  implantao de cidades e em 1563 baixou as Ordenanzas de Descubrimiento Nuevo y Poblacin, para governadores e povoadores, complementado, dez anos depois, pelas Leyes Generales de los Reynos de ndias, baixado por Felipe II. Este documento trazia normas no s para a organizao governamental como para o traado urbano: As ruas no se deixam modelar pela sinuosidade e pelas asperezas do solo; impem-lhes antes o acento voluntrio da linha reta. A construo da cidade comearia pela chamada praa maior: Quando em costa do mar, essa praa ficaria no lugar de desembarque do porto; quando em zona mediterrnea ao centro da povoao. E a praa deveria ser sempre um quadriltero. Eram feitas recomendaes especficas sobre a escolha de locais para as cidades, em geral, afastadas do mar, em locais altos. 
No caso mineiro, cidades foram plantadas pelo casusmo e vrias, como Ouro Preto, em locais inadequados, porque prximas ou junto s prprias minas. Buarque de Holanda conclui que o empreendimento de Portugal parece tmido e mal aparelhado, com relao ao domnio e organizao da colnia e, especialmente, nas minas. O esforo dos portugueses distingue-se principalmente pela dominncia de seu carter de explorao comercial, enquanto os castelhanos, ao contrrio, querem fazer do pas ocupado um prolongamento orgnico do seu. No Brasil, diz o autor, nos primeiros tempos, somente a obra dos jesutas foi uma rara e brilhante exceo. As misses jesuticas, destrudas por sua independncia, mostraram organizao superior, fraterna e cooperativa, pode-se dizer que pr-socialistas. Os espanhis, embora tambm trouxessem a inteno extrativista e exploratria, j por volta de 1530 criam universidades, circunscries religiosas e at permitem a imprensa nos territrios conquistados. No Brasil, essas iniciativas foram obras dos jesutas, sempre mal vistos pela Coroa e, ao final, expulsos.
Em 1642, desfeita a Unio Ibrica dois anos antes, com Portugal adquirindo autonomia (de 1580 a 1640, Portugal esteve anexado  Espanha), foi criado o Conselho Ultramarino destinado a concentrar a gesto das colnias. No entanto, por insuficincia de recursos de toda ordem, este Conselho, embora tivesse vida longa, at o sculo XIX, pouco influenciou no caso brasileiro e especialmente nos primeiros anos da ocupao das minas, segundo opinio dominante entre os historiadores. Em 19 de abril de 1702, foi estabelecido o Regimento dos Superintendentes, Guardas-Mores e Oficiais Deputados para as Minas do Ouro, a primeira tentativa do governo portugus de colocar ordem e impor normas no novo territrio, que vivia verdadeiro tumulto, com o deslocamento de milhares de indivduos de diversas procedncias, todos movidos pela ambio do enriquecimento fcil pelo ouro. Esse instrumento pouco ou nada valeu quanto ao nascimento e organizao das primeiras cidades. Limitou-se a estabelecer critrios aos atos de concesso de sesmarias e das chamadas datas, reas de terreno aurferas, em geral nas margens dos rios. Mas, segundo a farta bibliografia existente, a ocupao do espao urbano, como mostra muito bem o exemplo de Vila Rica, se fez de modo desordenado e at catico, por falta de um planejamento urbano. Na verdade, segundo os testemunhos mais fiis e detalhados sobre esses momentos, falhos eram os governos locais e, especialmente, na nascente Vila Rica que, s a partir de 1720, quando se instala na cidade a sede da Capitania emancipada,  que contar com algum controle pblico. 
Concordam os analistas da poca que, engolfada em contradies, a administrao mineira apresentou um movimento pendular entre a sujeio mxima ao Estado e a autonomia (Laura de Mello e Souza). O historiador Francisco Iglesias, no seu artigo Minas e a imposio do Estado no Brasil, de 1974, diz que houve centralizao poltica, imposta pela Coroa, mas no a centralizao administrativa, uma vez que a metrpole sempre reconheceu as peculiaridades locais, no vendo o Brasil como um todo, mas as suas especificidades. Este reconhecimento explica a plasticidade e alguns xitos do administrador. Ser essa maleabilidade um dos fatores que explicam o fato de Portugal ter conseguido manter ntegro o imenso territrio do Brasil Colnia. 
Em Minas,  claro que os fenmenos de aculturao que vo surgindo, representados pela manifestao de elementos prprios de formao cultural, so alimentados e condicionados basicamente pelos vetores conformadores locais da irrequieta e inslita sociedade que se vai criando, implantada no territrio virgem e direcionada pelas prprias limitaes do meio e da luta pela sobrevivncia. E marcada, sobretudo, pela especificidade de uma ocupao territorial rpida, desordenada, de difcil controle, causada por uma explosiva e rpida corrida pelo ouro. Muito cedo, como produto dessas realidades, surgiria nas minas o sentimento de resistncia a normas e controles. E da, at como defesa de seu modo e meio de vida, logo surgiria a exaltao de elementos tipicamente brasileiros, do sentido pico da vida, o canto das coisas da terra, entre outros motivos que demonstram o desejo de uma autonomia cultural, captados pela literatura que se produz nos primeiros tempos. O abrasileiramento  fenmeno que se manifesta logo nos primeiros anos, espcie de fora libertadora, espao de vida prpria, elementos de viso do mundo que surgem do prprio confronto entre a vida e o meio, em sobrevivncia difcil naquelas terras virgens, mas ricas. A esse contexto, acrescenta-se o esprito de poca, dado pelo Absolutismo e sua aliana com a Igreja Catlica, em apoio  Contrarreforma, ensejando um estilo prprio de arte, o barroco. 
Affonso vila, no seu Iniciao ao Barroco Mineiro, de 1984, afirma que transplantado em pleno vigor do Seiscentos para a Bahia e a faixa litornea do Nordeste, onde se ergueram os nossos primeiros templos de suntuosidade tpica do estilo, o barroco acompanhou a corrida do ouro e acabou por insular-se em Minas, aqui alcanando grandeza e autonomia criativa e fazendo demorar por todo o sculo dezoito a prevalncia de suas formas.  o tnus barroco que anima o inteiro organismo da sociedade mineradora  as suas festas pblicas, as suas solenidades religiosas, o cenrio de formas e cores onde elas decorrem. H que se buscar, nesta matriz cultural, ampliada com os outros fatores que condicionam o incio da sociedade mineira, as explicaes para o fenmeno artstico do sculo XVIII, que  o tempo inaugural de Minas. A religiosidade do colonizador portugus, implantada nas minas, ser a motivao bsica do esprito de suntuosidade e monumentalidade, de resto orientao seguida pela Igreja Catlica, que buscava enfatizar o poder temporal da religio atravs da pompa e do brilho exterior do culto, como forma de retomar a cristandade, como determinava a Contrarreforma. Conforma-se, mesclado desses vrios vetores, o quadro que emoldura o ambiente cultural das minas setecentistas.
Fbio Lucas, escritor e crtico literrio, estudioso da formao do mineiro, referindo-se a uma afirmao de Antnio Torres, destaca no seu Luzes e trevas  Minas Gerais no sculo XVIII, uma circunstncia que, por si,  significativa da fermentao sociolgica/cultural desta regio. Em um perodo de 20 anos, num raio de menos de 20 lguas, nasceram os quatro melhores poetas do sculo XVIII: Jos de Santa Duro (Inficcionado, Distrito de Mariana, em 1722), Manoel Incio da Silva Alvarenga (Vila Rica, 1749), Cludio Manuel da Costa (Mariana, 1729), Jos Baslio da Gama (So Jos del-Rei, hoje Tiradentes, em 1741). Os motivos nacionalistas ou do canto da terra natal dominam, como no Caramuru, de Santa Rita Duro, no Glaura e outros temas de um nacionalismo nascente de Silva Alvarenga, como tambm em Cludio Manuel da Costa, com o poema Vila Rica e outros escritos, e Baslio da Gama, em Uruguai. E todos, com exceo de Santa Rita Duro, se envolveram em processos polticos, assim como trs outros, poetas e inconfidentes, da mesma gerao e contemporneos no mesmo territrio, mesmo clima e inspirao, tambm integrantes da Arcdia Mineira: Toms Antnio Gonzaga, ouvidor de Vila Rica, onde viveu de 1782 a 1789, nascido portugus de pai e me brasileiros; Incio Jos de Alvarenga Peixoto, carioca residente em So Joo del-Rei, e Francisco de Melo Franco (Paracatu, 1757), mdico e literato, autor de Reino da estupidez, crtica  Inquisio e que o levou  priso, em Portugal. Em 1777, Francisco de Melo Franco, estudante de Filosofia e Medicina em Coimbra, foi preso pelo Tribunal do Santo Ofcio sob a acusao de heresia, naturalismo, apostasia, blasfmia e dogmatismo. Era aluno de Domingos Vandelli, lder maom, amigo e mestre de vrios estudantes brasileiros e que os influenciou na formao nacionalista e na gestao das ideias que iriam culminar na Inconfidncia Mineira. Cumpriu quase quatro anos de priso e s aps conseguiu licenciar-se em Medicina, em 1796.
A esses autores e seus escritos coube construir os cdigos poticos, mticos e figurativos adequados  expresso do jeito brasileiro  o nosso peculiar modo de falar do amor, como a a graciosidade queixosa e meiga de Gonzaga, ou a pungente gravidade do lamurioso Cludio, como diz Edward Lopes, em Metamorfose  A poesia de Cludio Manuel da Costa (Unesp, 1997). Edward Lopes procura reabilitar Cludio perante os muitos detratores, que insistem em ver seus escritos como somente enquadrveis na ideologia e nos valores portugueses e o julgam pelos depoimentos prestados nos Autos de devassa, quando preso na Casa dos Contos, dias antes de sua morte. E repele a crtica que no v em Cludio nem em seus companheiros um repertrio arcdico com ligao com o localismo mineiro ou brasileiro, como tambm desprovido de evidncias antilusas. O fato  que Edward Lopes v no perodo o mais importante ciclo artstico do Brasil colonial, alinhando-se ao lado do Romantismo e do Modernismo como as trs fases decisivas da Histria da Civilizao Brasileira. Martins de Oliveira (Histria da literatura mineira, 1963) afirma que de Cludio correr sempre a notcia de que fora senhor absoluto, em lngua portuguesa, dos segredos da grande poesia. Ombreando com os sonetistas mais famosos do mundo, seja do porte de um Dante, ou de um Petrarca, seja da estatura de Cames, fez-se dono de notabilssima bagagem literria. 
Rogrio Faria Tavares, jornalista e escritor, presidente da Academia Mineira de Letras (2019/2020), diz que em trezentos anos Minas Gerais legou ao pas vrios dos expoentes mais refinados da produo literria brasileira. O livro Literatura Mineira: trezentos anos, de 2020, publicado pelo BDMG Cultural, organizado por Jacynto Lins Brando, traz a mais completa e atual leitura da produo literria mineira nos trs sculos, em textos de professores, pesquisadores e crticos literrios, tornando-se referncia indispensvel aos interessados na literatura mineira. Os autores realizam ensaios temticos dos autores de todos os tempos da histria mineira e sua rica, farta e excepcional obra, chegando at  atualidade, revelando uma vida interior, refletida no apego  memria e o apreo pelas letras, traos atribudos aos mineiros. Verifica-se, nesta excepcional publicao, como a literatura percorre de cabo a rabo os 300 anos de Minas Gerais .... e como ela, em extemporaneidade, se faz contempornea de seu tempo e se diversifica, diz Jacynto Lins Brando. 
Alguns autores concordam que Cludio Manuel da Costa, autor de vasta obra, com refinada elaborao e reconhecido pendor potico, criara em Vila Rica, em 1768, usando o pseudnimo de Glauceste Satrnio, uma Arcdia Ultramarina, tendo como integrantes os principais inconfidentes poetas. Persiste a notcia de que Cludio pertencera tambm  Academia Braslica dos Renascidos, sediada na Bahia, que acabou fechada por determinao do governo portugus por v-la como instituio de inspirao manica e conspiratria. Cludio, poeta e advogado, homem culto, inconfidente, tem sua vida e obra descritas, com viso abrangente e atualizada, em Claudio Manuel da Costa, poeta das Minas Gerais, de 2019, de Andra Sirihal Werkema. Quanto a Toms Antnio Gonzaga, poeta e ouvidor de Vila Rica, que tornou-se o autor mais conhecido e estimado em lngua portuguesa pela doura dos versos, intensamente amorosos e, acima de tudo, pelo desfecho trgico, pungentssimo da sua vida, golpeada de maneira to brutal, afirma Martins de Oliveira. Seu livro Marlia de Dirceu teve dezenas de edies e foi traduzido em vrias lnguas. E seu Carta Chilenas, potico e poltico, inconfidente,  referncia da Ilustrao mineira do perodo, nas crticas  gesto colonial portuguesa e na afirmao do sentimento de rebeldia dos mineiros nos anos finais do sculo XVIII.
Justamente quando se inicia a decadncia econmica, com a exausto do ouro, registrada pela queda de produo a partir de 1750, floresce em Vila Rica um esplendor cultural. Os escritos produzidos j expressam, segundo Edward Lopes, os dizeres iluministas e os ideais enciclopedistas, ao gosto da Ilustrao, que toma conta da segunda metade do sculo XVIII. Os valores ideolgicos exprimem a afirmao do primado da razo, da experincia e da anlise, para o conhecimento de qualquer fenmeno, de qualquer realidade; o apego  noo pr-romntica do retorno  natureza como espao de harmonia; a perspectiva antropocntrica do humanismo iluminista, cujo suporte  o conceito civil da igualdade (no se trata, ainda, como a Revoluo Francesa acentuar, da igualdade universal entre as pessoas, mas, sim, da discriminativa igualdade entre os iguais); os postulados da liberdade e da fraternidade; a crena no progresso da humanidade, por meio do desenvolvimento das cincias positivas, matematizveis e experimentais, com o descarte explcito dos dogmas do catecismo mofado da Escolstica; a decadncia das ideias absolutistas, como reconhecimento da necessidade de adoo do regime de governo republicano, mais consentneo com a viso laica da modernidade do Estado.
Para ele, o legado literrio do Brasil para o patrimnio cultural portugus crescer, de maneira notvel, na segunda metade do sculo XVIII, com o aporte das novidades que lhe so carreadas pelas obras da Escola Mineira, como as Obras poticas (1768) de Cludio Manuel da Costa, em especial o poema Vila Rica, O Uruguai (1769), de Baslio da Gama, o Caramuru (1781), de Santa Rita Duro, as Cartas chilenas (1789) e Marlia de Dirceu (1792), de Toms Antnio Gonzaga. Em Silva Alvarenga (O desertor das letras) e Francisco de Melo Franco, destacam-se as stiras  pedagogia bolorenta da Escolstica e o apoio  reforma da Universidade de Coimbra. Silva Alvarenga, nascido em Vila Rica, autor do poema Glaura, muda-se para o Rio, cria um clube literrio,  preso em 1794, acusado de conspirar contra o governo e a religio, permanece dois anos e meio na priso,  posto em liberdade por clemncia de d. Maria I. Morre em 1814.
As Cartas chilenas, versos apcrifos satricos que circularam em Vila Rica, vo suscitar grande debate na literatura brasileira quanto  sua autoria. Retratam a vida colonial em fins do sculo XVIII, com crticas cidas e irnicas ao governador Lus da Cunha e Menezes, conde de Lumiares, chamado de Fanfaro Minsio, e que permaneceu em Vila Rica de 1783 a 1788, quando foi substitudo pelo visconde de Barbacena. Refletem o pensamento iluminista e demonstram a existncia, em Vila Rica, de um nascente pensamento inconfidente, de carter irredentista e resistente ao jugo governamental incompetente. Alguns autores as atriburam por algum tempo a Cludio Manuel da Costa, hoje comprovada a autoria de Toms Antnio Gonzaga. A partir da dcada de 1950, graas a estudos de Afonso Pena Jnior, Afonso Arinos de Melo Franco, Alberto Faria e, especialmente, do fillogo portugus Rodrigues Lapa, com o seu As cartas chilenas  um problema histrico e filolgico, MEC/1958, a autoria ficou consagrada a Toms Antnio Gonzaga. O historiador Tarqunio Jos Barboza de Oliveira, com Cartas chilenas  fontes textuais, de 1972, que efetuou extensa pesquisa histrica, documental e genealgica em Vila Rica, onde residiu por 11 anos, apresenta novas sustentaes em favor de Gonzaga. Persiste a polmica quanto  data de circulao dos versos, apcrifos, em Vila Rica, se no ano final da presena de Lus da Cunha ou no ano posterior  sua substituio, j com o visconde de Barbacena. 
O fenmeno artstico/cultural que ocorre na regio das minas se estende, com maior ou menor escala,  rede de cidades, com feies sociolgicas prprias, surgidas da corrida pelo ouro e pedras preciosas. Ser essa corrida a motivao inicial de povoamento do territrio mineiro, complementado pelos caminhos de abastecimento. A produo de vveres, vindos de onde a qualidade das terras era melhor, e onde no prevalecia a monocultura extrativa mineral, ser um segundo maior motivo de abertura de novos territrios de ocupao. Duas questes, interdependentes, transporte e abastecimento, sero as dificuldades maiores de todo o perodo colonial. De um lado, a dependncia de vveres externos que evitassem as crnicas crises de fome. De outro, a necessidade do escoamento do ouro em condies seguras. Pesquisas recentes sobre os primeiros caminhos e estradas no territrio das Minas do Ouro destacam a primazia histrica do Caminho do Serto, da Bahia e do Rio So Francisco, que ligava Salvador, capital brasileira at 1763, a Sabar. E, um pouco mais tarde, j nos anos finais do sculo XVIII, pelo Rio das Velhas, a Vila Rica e Ribeiro do Carmo, hoje Mariana.
Incluem-se nesse sistema urbano, j existente ao final da primeira dcada do sculo XVIII, um conjunto de cidades formadas no entorno dos primeiros ncleos, quase todos localizados s margens dos percursos do Caminho Velho, Caminho Novo e Caminho dos Diamantes, hoje reunidos sob a denominao de Estrada Real. O Caminho Novo, direto do Rio a Vila Rica,  implantado pelo governo colonial alguns poucos anos mais tarde, encurtando o percurso. O Rio das Velhas ser a grande via de penetrao, assim como o grande atrativo ser a aurfera Serra do Espinhao, espinha dorsal de Minas, na expresso inaugural do baro E.L von Eschwege, mineralogista alemo, que estudou as riquezas minerais do Estado, no princpio do sculo XIX, quando residente em Vila Rica, onde viveu de 1810 a 1821. Ambos, rio e serra, que correm juntos, arcaro e orientaro os caminhos de entrada e fixao no novo territrio. Esse sistema urbano vai gerar, especialmente entre a segunda e a terceira dcada de sua existncia, a classe mdia integrada por artesos e artistas, filhos da terra, que marcaro singularmente a fisionomia cultural mineira. 
Bastaria lembrar Antnio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, Patrono das Artes Plsticas Brasileiras, que nasceu em Vila Rica, em 1737/8, e morreu em 18 de novembro de 1814, filho de pai portugus e me negra escrava, cone e matriz de uma escola de escultores, santeiros/entalhadores, de tradio at hoje muito viva em Minas, com flagrante influncia em artistas/artesos de reconhecido valor pelo refinamento de suas obras. Germain Bazin, conservador-chefe do Museu do Louvre, Paris, visitando Minas, apaixonou-se pela obra de Aleijadinho e publicou, na Europa, seus LArchitecture Religieuse Baroqueau Brsil (1956) e Aleijadinho et la sculpture baroque au Brsil (1963), este tambm editado no mesmo ano no Brasil. Obra monumental, lanou Antnio Francisco no mundo. Para Bazin, nos ltimos anos do sculo galante, num pas perdido do outro lado do Atlntico, um mestio produz esta obra sublime, a ltima apario de Deus evocada pela mo do homem. Aleijadinho e sua obra genial, ornamentista e arquiteto, e fundamentalmente escultor, mundialmente reconhecido, objeto de extensos e aprofundados estudos analticos so, cada vez, mais vistos como resultantes do cadinho sociolgico dessa sociedade inicial das Minas do Ouro. 
As fontes pioneiras e mais valiosas sobre Aleijadinho so dois artigos de Rodrigo Jos Ferreira Bretas, mineiro de Cachoeira do Campo, publicados no Correio Oficial de Minas, em 1858, sob o ttulo Traos biogrficos relativos ao finado Antnio Francisco Lisboa, distinto escultor mineiro mais conhecido pelo apelido de Aleijadinho, em que cita o vereador de Mariana, Joaquim Jos da Silva, contemporneo do mestre. No Registro dos Fatos Notveis da Capitania, de 1790, escrito por ordem rgia assinada pela rainha d. Maria I, a 20 de julho de 1782, que determinava  Cmara de Mariana assentar em livro prprio fatos e casos mais notveis, dignos de histria, o vereador afirma que, com efeito, Antnio Francisco, o novo Praxteles, honra igualmente a arquitetura e a escultura. E mais: Admira-se a inveno, o equilbrio natural ou composto, a justeza das dimenses, a energia dos usos e costumes e a escolha e disposio dos acessrios com os grupos verossmeis que inspira a bela natureza. 
Precioso e enriquecedor publicao sobre Aleijadinho  do promotor pblico e historiador Marco Paulo de Souza Miranda, O Aleijadinho revelado, de 2014, que pesquisou em Portugal a genealogia da famlia do pai de Aleijadinho, Manoel Francisco Lisboa, a sua vinda para Minas Gerais, a constituio familiar. E, o mais importante, pesquisando o Livro de Batismo da Igreja de Antnio Dias, onde Aleijadinho foi batizado e est enterrado, encontrou registro com data de 1737, bastante verdadeiro pela citao dos nomes. Antes, as atribua-se como datas de nascimento de Aleijadinho 1738 e 1730, sempre um elemento de divergncias entre vrios pesquisadores. Atualizaes sobre Aleijadinho, vida, obra e meio esto no livro Aleijadinho  200 anos, de 2014, Editora Graphar, com coletnea de artigos e com pinturas alusivas de Carlos Bracher.
Assim como a vida de todo artista famoso, tambm a de Aleijadinho  recortada de mistrios e fragmentaes, a comear pela data de seu nascimento, se 1730 ou 1738 ou, conforme publicao recente, em 1737, confuso causada inicialmente pela discrepncia entre estas duas primeiras datas e a certido de batismo e o registro da morte. E tambm pelo erro no sobrenome do pai, Manoel Francisco Lisboa, chamado Costa no registro de bito. Hoje, a maioria dos autores prefere as datas de 1737/38. Sua fama, e a valorizao comercial de seus trabalhos, levam a que lhe atribuam a autoria de muitas obras, mveis e imveis, em quantidade superior at ao seu tempo de vida. Igualmente discutida  a natureza de sua doena, objeto de intensas pesquisas envolvendo especialistas de renome e vrias publicaes, que a tentam diagnosticar a partir dos relatos de suas leses, com especulaes sobre a impossibilidade de exercer trabalho manual pela perda dos dedos e da mobilidade manual. Sua doena, ou leso por acidente, se manifesta em 1776, segundo seu primeiro bigrafo, Rodrigo Ferreira Bretas, e os diagnsticos variam de lepra, artrite reumatoide, um tipo raro de sfilis com comprometimento cerebral e outras, para fixar-se, nos ltimos anos, em porfiria, patologia rara, mas sobre a qual h razovel concordncia e que foi formulada aps a exumao de seus supostos ossos. 
A Associao Mdica de Minas reuniu especialistas para discutir o tema, mas no houve concordncia nos diagnsticos. Em 1970, aps participar de uma mesa-redonda com especialistas da Faculdade de Medicina da UFMG, o mdico Tancredo Furtado publicou O Aleijadinho e a medicina, analisando vrias hipteses e concluindo pela lepra nervosa. Em 1998, o mdico Geraldo Barroso de Carvalho publica livro em que analisa as patologias possveis e conclui que Aleijadinho teria sofrido duas graves enfermidades: a porfiria cutnea tardia e a hansenase. Em 2018, no livro Aleijadinho  200 anos, Editora Graphar, que traz artigos que atualizam vida e obra do artista,  luz de novas pesquisas e leituras, Geraldo Barroso, dermatologista e hanseniologista, publica texto em que reafirma sua opo pela hansenase, aps novos estudos sobre a doena e sua manifestao em Aleijadinho. A opinio de Barroso  hoje a mais aceita. 
O mdico Geraldo Guimares da Gama publicou, em 2004, trabalho em que fala em derrame cerebral por acidente fsico, como a queda de um andaime e na sfilis terciria. Adverte, no entanto, que Vila Rica do sculo XVIII, e at anos recentes, teve grande incidncia de leprosos, a ponto de uma ordem do governo, de 18 de maio de 1788, conforme relatrio juramentado dos mdicos Toms Belo Aquino e Manoel Fernandes Santiago, encontrado no Arquivo Pblico Mineiro, fez confinar, sob escolta, no arraial de So Bartolomeu, todos os portadores do mal de So Lzaro, incluindo os de aparncia suposta ou duvidosa, moradores de Vila Rica, sem exceo alguma. Aleijadinho, no entanto, embora residente nessa poca, no foi incomodado. E  fato que era conhecido e que sua doena no o impediu de trabalhar at dois anos antes de sua morte, em 1814, quando j apresenta sintomas claros de deformao. 
H mistrio tambm sobre sua formao profissional e artstica, provavelmente originria do pai, portugus e emrito construtor Manoel Francisco Lisboa, como tambm sobre a inspirao de vrias criaes, na imaginria e na arquitetura, supostamente incompatvel com sua condio intelectual.  certo, no entanto, que teve mestres de valor e renome, lia e escrevia corretamente e teve acesso a gravuras e livros sacros. Vrias obras e mesmo sua existncia chegaram a ser contestadas por autores de renome e, mesmo nos nossos dias, procura-se desmistificar o artista, com questionamentos amplos que envolvem a formao de sua reputao, as fontes da biografia, as atribuies de obras e o que foi produzido pelos seus ajudantes. Mas Aleijadinho continua Patrono das Artes Plsticas brasileiras, smbolo da brasilidade artstica, objeto de estudo e de publicaes, cone maior da criatividade e da genialidade do excepcional acervo produzido no sculo XVIII mineiro, mestre e matriz de uma escola de escultores que ainda hoje diferencia Minas Gerais. 
Intensamente discutidas so as caractersticas estticas da obra de Aleijadinho e sua insero no sculo XVIII mineiro ou, mais especificamente, como produto de um meio como o que ocorre em Vila Rica. Conviveu com revoltas, com o autoritarismo da Metrpole, com a derrama e a exausto do ouro e com a Inconfidncia Mineira de 1789, e certamente conheceu vrios inconfidentes. Mas  e sobretudo  criou obra com personalidade distintiva, com refinado desenho e acabamento, na madeira e na pedra-sabo, hoje classificada como de vinculao ao estilo rococ. Orlandino Seitas Fernandes, no artigo Sobre a arte do Aleijadinho: abrasileiramento e valorao, de 1968, diz: Quer nas esculturas, quer na arquitetura, vemos na obra de Aleijadinho um abrasileiramento que em Minas se produz, consciente ou inconscientemente, prenunciando, acompanhando e reafirmando um nacionalismo que, em termos polticos, foi expressado na Inconfidncia. Distinguem o seu estilo pela graciosidade das suas composies, inclinando-se para as fachadas onduladas e curvas, para as torres cilndricas, para a supresso dos cantos vivos, para a transio suave dos planos. Para Celso Kelly, que exilou-se em Ouro Preto, fugindo da ditatura de Floriano Peixoto, sob o impulso de foras mais poderosas do que a conveno e o conformismo, foi um desbravador de caminhos, bandeirante como os fundadores de Vila Rica, no nas picadas do serto, porm nas atrevidas solues artsticas que so hoje o verdadeiro ouro das antigas cidades da minerao.
Ser em Congonhas do Campo onde Aleijadinho mais se revelar. Implanta o conjunto escultrico da Baslica de Bom Jesus de Matosinhos  erguido pelo portugus Feliciano Mendes em 1757  nos anos de 1796 a 1808, j doente, compreendendo no s os profetas, mas as cenas da Via-Sacra, encarnadas (pintadas) por Manoel da Costa Atade e Francisco Xavier Carneiro, e colocadas nas capelas dos Passos, posteriormente construdas. O visitante, de imediato, sente a fora espiritual que emana do conjunto da Baslica do Bom Jesus de Matosinhos  as capelas dos Passos, os Profetas no adro da Igreja, dispostos na colina que domina o espao, a mil metros de altitude, contemplando o horizonte desenhado pela Serra de Ouro Branco, a leste, e pela Serra de Santo Antnio, ao oeste e ao norte. Ao longe, os cumes continuados das muitas serras fazem a paisagem tpica de Minas Gerais. Tudo isso compe a beleza plstica do conjunto, de singela suavidade, mas que encanta e atrai logo no primeiro instante. Muitas so as imagens usadas pelos que buscaram definir a impresso que o conjunto lhes deixou. A sua harmonia, leveza e integrao levou Germain Bazin a ver ballet sacro, tema j anteriormente adotado na arte barroca religiosa, sempre monumental e grandiosa. Encantamento  a palavra que usa Franklin de Oliveira como a nica capaz de traduzir a instantnea iluminao que se deflagrara em nosso esprito quando, subindo a coluna em que est a Baslica do Bom Jesus de Matosinhos, defrontamo-nos com a frontaria do adro, no qual as figuras dos Profetas do Antigo Testamento monumentalizam a contemplativa paisagem de Congonhas do Campo. Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira explica que esta grandiosa cenografia barroca descende em linha direta dos famosos sacromontes europeus, teatros simblicos encenados para que os cristos, impossibilitados de viajar  Terra Santa, pudessem realizar peregrinaes de substituio (Patrimnio Mundial do Brasil, Unesco, 2001).
Carlos Drummond de Andrade v os Profetas, um colquio de esttuas, em uma assembleia insurgente e conclui que inspiram um ntido sentido irredentista. Conspiram por sobre as montanhas de Minas e levantam suas advertncias aos que, perdidos nas coisas terrenas, se esqueceram do transcendente sentido deste mundo, que os profetas se incumbem de anunciar. Aleijadinho fazia parte da legio de oprimidos a que tudo se negava. E via fracassar a recente tentativa de liberdade com os inconfidentes. Sua arte ainda resistia  passagem do estilo. Sua idade e a doena ainda mais lhe inquietavam a alma. Nos Passos e nos Profetas, ele se liberta e outra no poderia ser sua manifestao do que a de estigmatizar a tirania, poltica, social e racial, de que era vtima, junto com os seus iguais. Esse era seu ambiente e essa era a tragdia de Minas, exaurida de sua riqueza a ensaiar os primeiros passos de sua libertao.  importante lembrar que foram esculpidos ao tempo em que Minas passava pelo drama da Inconfidncia de 1789. 
Drummond se estende na decifrao dos profetas:  Sobre o Vale profundo, onde frui o Rio Maranho, sobre os campos de congonhas, sobre a fita da estrada de ferro, na paz das minas exauridas, conversam entre s os profetas. E prossegue: A onde os ps a mo genial de Antnio Francisco, em perfeita comunho com o adro, a Baslica, a paisagem toda - magnficos, terrveis, graves e eternos  eles falam de coisas do mundo que, na linguagem das Escrituras, vo se transformando.
Afonso Arinos de Melo Franco (Belo Horizonte, 1905; Rio, 1990; jurista, historiador, poltico udenista, professor, ensasta e crtico, sobrinho do escritor Afonso Arinos) ser o primeiro a ver o sentido irredentista de sua obra, o cunho no conformista  no sei qu de revolucionrio, de subversivo  que se exprime na prpria esttica, expressa pela deformao voluntria dos verdugos e soldados romanos, e na escolha das frases que coloca nas cartelas dos Profetas. Existe em tudo  diz Arinos  um trao marcado de rebeldia. J antes, Mrio de Andrade, diante do adro de Congonhas, dissera: Um marxista poderia falar em conscincia de classe. Pensava nas condies humana e social do artista, uma vida e seu martrio, a luta libertria dos povos de Minas, o trao conspiratrio que imprime aos Profetas, a proclamar sua bblica conscincia de que os injustos sero castigados por uma ordem social baseada na justia e na igualdade.
As capelas, dispostas na colina, refletem, na via dolorosa de Cristo, a opresso reinante e, sobretudo, a recusa da palavra do justo e do fraterno. Drummond (Canto Mineral, 2018) faz analise interpretativa dos textos contidos nas cartelas dos Profetas, onde Aleijadinho colocar a advertncia e o antema que dirigem aos mpios: Habacuque, brao esquerdo levantado, investe contra os tiranos: Oh Babilnia, Babilnia, eu te arguo, eu te arguo oh tirano da Galileia; mas a ti, oh Deus benigno, canto em salmos. Jeremias clama a sorte da sua raa: Eu choro o desastre da Judeia e a runa de Jerusalm e rogo ao meu povo que queira voltar ao Senhor. Abdias, mos ao alto, prev a runa da prepotncia: Eu vos arguo, idumeus e gentios. Anuncio-vos e vos prevejo pranto e destruio. Isaas diz: Depois que os serafins celebram o Senhor, um deles trouxe aos meus lbios uma brasa com uma tenaz. E prosseguem as mensagens, cheias de pressgios e metforas, em que alguns veem aluses  runa das minas exauridas e ao protesto dos inconfidentes. No Morro do Maranho, em Congonhas, estaria o anfiteatro que exprime a tragdia de Minas e do seu povo, nos anos de passagem para o sculo XIX.
Atribui-se a Dom Silvrio Gomes Pimenta, arcebispo de Mariana a partir de 1909, o trabalho Apontamentos biogrficos de Antnio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, publicado em 1881, documento encontrado no Museu Imperial, em Petrpolis. Outros aspectos da vida e trabalho de Aleijadinho so conhecidos por documentos diversos, desenhos, recibos e livros de irmandades, para as quais prestou servios. Artista genial, filho de escrava, com doena que lhe dar o apelido e vida de mrtir, ir morrer pobre, em casa modesta, desamparado, em estado fsico deplorvel, conforme relato da parteira Joana Lopes, sua nora. Em vida, trabalhou intensamente em Vila Rica, Mariana (chafariz da Samaritana), Caet, Baro de Cocais, Rio Pomba, So Joo del-Rei, Jaguara, Sabar, Congonhas, Catas Altas, Serra Negra, Tiradentes. Entre as obras, a Igreja de So Francisco de Ouro Preto e o conjunto de Profetas e Passos de Congonhas so obras-primas de reconhecimento mundial. Est enterrado no altar de N. S. da Boa Morte, primeiro  direita de quem entra na Matriz de N. Sra. da Conceio de Antnio Dias, Ouro Preto. 
Inigualvel mestre na pintura de perspectiva  Manoel da Costa Atade, j no rococ, com magnficas obras, que ornam os mais famosos templos mineiros, expoente maior e inspirador de uma escola, amplamente reconhecida e disseminada nos sculos XVIII e XIX, que nasceu em Mariana, em 1762, e morreu em 1830. Foi parceiro de Aleijadinho em vrias obras. Destacam-se tambm os marianenses Manoel Rebelo de Souza, autor da pintura da S, e Joo Batista Figueiredo, autor da excepcional pintura da nave da Igreja de N. S. do Rosrio de Santa Rita Duro, anterior e provvel mestre de Atade. Estudos mais contemporneos atribuem  escola de Mariana a condio de um ncleo bsico que exerceu influncia geogrfica, atingindo todo o territrio das minas no sculo XVIII. Bastaria constatarmos as pinturas de Atade e dos discpulos dessa escola nos forros das igrejas da prpria Mariana, Ouro Preto, Santa Brbara, Itaverava, Nova Era, Itabirito, Caet, Sabar e Ouro Branco, alm de pinturas isoladas, como as que o prprio Atade realizou em Conceio do Mato Dentro e no Recolhimento do Caraa, onde se encontra sua famosa Santa ceia.
Em 1818, j com 56 anos, Atade pleiteia de Dom Joo VI a criao de uma escola de desenho e arquitetura em Mariana. Junta atestado da Cmara de Vereadores de que era professor de Artes de Arquitetura e Desenho, sendo dadas bastante provas de que no  s capaz de pr em praxe o risco das cartas geogrficas dos animais e plantas, aves e outros produtos da natureza, como explicar e instruir aos que se quiserem aproveitar. Sua obra mxima encontra-se no forro de So Francisco de Assis, de Ouro Preto, obra-prima do gnero no mundo luso-brasileiro, trabalho que adquire monumentalidade pela extenso da abboda e seu formato especial, com chanfros laterais para maior elevao vertical. Composies similares encontram-se nas capelas-mores da matriz de Itaverava e de N. Sra. do Rosrio de Mariana. 
O Tejuco (Diamantina) desenvolveu, no Ciclo dos Diamantes, uma escola de pintura igualmente reconhecida por vrios pesquisadores. Rodrigo Melo Franco de Andrade destaca o guarda-mor Jos Soares de Arajo como expoente dessa escola, que inclui Manoel Alves ou Alvarez, Silvestre Almeida e um annimo que realizou trabalhos na Capela do Bonfim. Nas igrejas de So Francisco de Assis e do Amparo, nas Mercs e Bonfim, existem obras de valor e expresso comparveis aos melhores pintores da Minas colonial. 
O fenmeno artstico mineiro inclui dezenas de mestres-artesos nos seus ofcios, como Manoel Francisco Lisboa, pai do Aleijadinho, portugus de Odivelas, que teria chegado a Vila Rica em 1724, tido na Colnia como o grande arquiteto, construtor, mestre e avaliador da Fazenda Real, criador dos mais expressivos monumentos do Ciclo do Ouro em vrias cidades; Francisco Xavier de Brito, portugus, introdutor no Brasil do estilo chamado Nacional Portugus ou joanino, que executou os seis altares laterais da Igreja da Ordem Terceira de So Francisco da Penitncia, no Rio, entre 1735 e 1730, e que se mudou para Minas, onde trabalhou intensamente;  autor dos mais belos retbulos de Minas, comparado por alguns a Aleijadinho, pela qualidade artstica do seu trabalho; morreu em Vila Rica em dezembro de 1751; Francisco Vieira Servas, portugus (1720-1811), tambm artista de renome, com vrios trabalhos de elevado valor artstico; Jos Pereira Arouca, mestre-construtor, que executou os principais monumentos civis e religiosos de Mariana; Francisco de Lima Cerqueira, portugus, grande mestre construtor, residente em Vila Rica, mas que construiu, em So Joo del-Rei, as Igrejas de So Francisco e Carmo, onde faleceu em 1811; Jos Coelho de Noronha, Joo Gomes Martins, abridor de cunhos, pintor e desenhista requintado, tido como mestre e instrutor de Aleijadinho na arte do relevo, e Joo Nepomuceno, pintor. Merecem lembrana nomes como Antnio e Manuel Francisco Pombal, Pedro Gomes Chaves, Antnio Pereira de Souza Calheiros, Francisco Xavier Carneiro, Jernimo Felix, Joo de Carvalhais, Domingos Moreira de Oliveira, Bernardo Pires da Silva, Antunes Costa, Joo de Carvalhais, Verssimo Vieira da Mota e diversos outros, muitos annimos, com presena em mais de uma centena de edificaes religiosas ou civis, como arquitetos e autores de riscos, entalhadores, escultores e pintores, que nos legaram preciosos edifcios, como tambm ricos retbulos em magnficos altares e plpitos, na madeira e na pedra. 
Merece citao o Mestre de Piranga, designao de um artista ou escola-ateli, com vasta produo no Vale do Rio Piranga, prximo a Ouro Preto e Mariana. A questo, quanto  identificao de autores, intriga pesquisadores h vrias dcadas. O restaurador Adriano Ramos e o historiador Clio Macedo Alves relataram, em 2009, terem identificado em esculturas encontradas na Baslica de Bom Jesus de Matosinhos, em Santo Antnio do Pirapetinga, o Bacalhau, distrito de Piranga, imagens sem dvidas de autoria do Mestre de Piranga, e que documentos do IPHAN, encontrados no arquivo desta instituio em Mariana, comprovam como sendo de autoria do mestre entalhador Antnio de Meireles Pinto, portugus e branco, o qual atuou em vasta regio. Ele, e seu provvel irmo, Jos de Meireles Pinto, vieram de Portugal e seus trabalhos tm plena identificao estilstica com a escola denominada Mestre de Piranga. Relatam ainda que a imagem de N. Sra. das Mercs, da matriz da cidade de Mercs, de autoria comprovada de Antnio de Meireles Pinto, pesquisada por Adriano Ramos, possui todas as caractersticas do Mestre de Piranga, ou seja, estrabismo, panejamento acentuado na altura dos ombros, cabelos em zigue-zague e querubins com as mesmas particulares atribudas ao escultor chamado Mestre de Piranga. 
Igualmente deve ser lembrado o Mestre Valentim, nascido na Vila do Serro, em 1744, filho de me escrava e pai branco, que realiza sua formao artstica em Minas, transferindo-se para o Rio de Janeiro por volta de 1766, onde se tornar autor das principais obras de ornamentao. At hoje, espalhados pelo territrio mineiro, santeiros de alta expresso artstica, eruditos ou populares, tornam diferenciada esta arte mineira, internacionalmente reconhecida. Extensa e ilustrada pesquisa de Jos Alberto Nemer (A mo devota  santeiros populares das Minas Gerais nos sculos XVII e XIX; Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2008) revela a extenso da devoo popular ao imaginrio religioso e a rica produo dos santeiros nos diversos territrios mineiros.
Minas tambm produziu naturalistas, botnicos e mineralogistas de renome nacional, que deixaram pesquisas e estudos at hoje citados nas obras especializadas. Dois deles, botnicos, so o padre Joaquim Velloso de Miranda, que nasceu em 1742, no Inficcionado (hoje Santa Rita Duro, Mariana), e o frei Jos Mariano da Conceio Veloso (nascido em 1747, em So Jos del-Rei, hoje Tiradentes). Formados em Coimbra, ambos cumpriram vrias misses para a Coroa portuguesa na pesquisa de elementos naturais, inclusive mineralgicos, mas, sobretudo, da flora americana, brasileira e mineira, enviando colees no s para Portugal, como, tambm, para outros jardins botnicos europeus. O primeiro trabalhou na formatao de um estabelecimento botnico em Vila Rica, criado em 1798, por deciso da Coroa portuguesa, implantado no Passa-Dez,  entrada de Ouro Preto. Este seria o segundo jardim botnico criado no Brasil, dez anos antes do Jardim Botnico do Rio de Janeiro, fundado em 1808 por deciso de Dom Joo VI. O primeiro fora implantado em Belm do Par. A cidade possuiu outra instituio botnica, no sculo XVIII, aproveitando as margens acidentadas do Crrego do Xavier, que desce da Rua Padre Rolim  Ponte do Pilar, hoje parcialmente restaurado e adaptado a visitas tursticas com o nome de Parque Horto dos Contos. No Passa-Dez, foram cultivadas vrias espcies nativas, em especial o ch-da-ndia e o bicho-da-seda, por orientao portuguesa. No seu antigo casaro, funcionou escola agrcola. Uma instituio, com a denominao de Jardim Botnico, ter sido reinaugurada em 1825, conforme citao contida nas Efemrides mineiras, de Jos Pedro Xavier da Veiga, de 1897. Por sua vez, Jos Mariano, que seria primo de Tiradentes, a quem teria transmitido conhecimentos de plantas curativas,  o autor principal da obra Flora fluminense, em onze volumes, at hoje importantssima no seu ramo. Teria ainda ajudado na formao do Jardim Botnico do Rio de Janeiro. 
Tambm com nomes semelhantes so os naturalistas Jos Vieira Couto (nascido em 1752, no Arraial do Tejuco), que estudou Matemtica e formou-se em Filosofia em Coimbra, e Jos Vieira Couto de Magalhes (tambm nascido no Tejuco, em 1837, e que faleceu em 1898, no Rio). O primeiro escreveu, em 1801, Memria sobre a Capitania de Minas Gerais, resultado de pesquisas sobre ocorrncias minerais na Comarca do Serro e parte da regio norte da Capitania. Para demonstrar a viabilidade econmica da explorao, enviou para Portugal amostras de ouro, prata, ferro, cobre, chumbo, estanho, enxofre e nitro, com as descries cientficas, alm de consideraes sobre as causas da decadncia da minerao. O segundo foi poltico, militar, escritor e folclorista brasileiro. Estudou no Seminrio de Mariana, formou-se na Academia Militar do Rio de Janeiro, bacharelou-se pela Faculdade de Direito de So Paulo. Foi o iniciador da navegao a vapor no Planalto Central brasileiro. Foi conselheiro e deputado por Gois e Mato Grosso. Presidiu as provncias de Gois, Par, Mato Grosso e de So Paulo, cargo que ocupava na Proclamao da Repblica. Fundou, em 1876, o primeiro observatrio astronmico de So Paulo. Falava vrias lnguas e publicou, entre outros estudos, Viagem ao Rio Araguaia, em 1863, O selvagem, em 1876, e Ensaios de antropologia, em 1894.
Estudos mais recentes destacam a figura de Jos lvares Maciel, nascido em Vila Rica em 1760 (morreu em Angola, em 1804), tambm formado em Coimbra, qumico e mineralogista, como o lder de maior formao e convico ideolgica entre todos os inconfidentes de 1789. Aps Coimbra, foi para a Inglaterra onde, em Birminghan, estudou indstrias siderrgicas e manufaturas txteis. Por volta de 1788, encontrou-se em Coimbra com Jos Joaquim da Maia, que havia se avistado com Thomas Jefferson, embaixador dos Estados Unidos na Frana e com quem tratara da independncia brasileira. Em Vila Rica, cumpriu misso dada pelo governador de realizar prospeces minerais em Sabar, entre outras. Maciel pregava o desenvolvimento da Capitania, com a criao de fbricas de ferro e de uma universidade. Degredado para Angola, acabou fundando por l sua desejada fbrica de ferro.
Outro mineiro ilustre foi Manuel Ferreira da Cmara Bittencourt e S, o famoso Intendente Cmara (Itacambiruu, 1762; Bahia, 1835). Bacharelou-se em Coimbra em Leis e Filosofia, viajou  Inglaterra, Frana, Sucia e Alemanha, fixando-se em Freiburg, onde estudou qumica e metalurgia. Pertenceu a vrias instituies cientficas europeias e foi o primeiro intendente do Distrito Diamantino. Implantou a primeira fbrica de ferro em Minas, no Morro do Gaspar Soares, em Morro do Pilar, comarca do Serro Frio, que produziu por algum tempo, a partir de 1815. A produo de ferro em Minas s foi liberada a partir de 1795, por alvar de Dom Rodrigo de Souza Coutinho (1797-1812). Outro alvar, de 1803, nomeou Manuel Ferreira da Cmara Intendente-Geral das Minas. Manteve intenso dilogo com os viajantes e cientistas que visitaram Minas, como Saint-Hilaire, Eschwege, Spix e Martius, Mawe.
Entre os inconfidentes figuravam vrios letrados, formados na Europa, assim como clrigos de renome, como o cnego Lus Vieira da Silva, residente em Mariana, nascido no distrito de Lobo Leite, Congonhas, professor de Filosofia no Seminrio, orador sacro, proprietrio de biblioteca que continha 241 ttulos e 556 volumes, no s de Teologia, mas, tambm, da cultura clssica, como dos enciclopedistas e pensadores libertrios (O Diabo na Livraria do Cnego, Eduardo Frieiro, 1957). O valor de sua biblioteca no estava na quantidade, mas na qualidade dos livros. Entre os clrigos de Mariana, professores do Seminrio, dirigentes da sede diocesana, encontravam-se vrios homens de formao cultural elevada.
O fenmeno humano/cultural mineiro apresentou vrias interpretaes entre historiadores e socilogos. Wilson Martins, no seu famoso Histria da inteligncia brasileira - Vol. I, 1500/1794, diz que, ao contrrio do que sugere uma observao superficial do fenmeno, o processo sociolgico que a figura do Aleijadinho pode simbolizar de forma magnfica no  o da ascenso social do mulato.  o da constituio, quela altura perfeitamente caracterizada, de uma nova raa histrica e, por isso mesmo, de uma nao com a clara conscincia de si mesma. No s Aleijadinho ou Atade, mas dezenas de mestres, de sucessivas geraes de mulatos, surgidos e formados nesse caldo cultural,  que vo permitir s cidades histricas mineiras o surto artstico do chamado Ciclo do Ouro. Ser ainda Wilson Martins quem dir que um sculo depois, Slvio Romero daria expresso a esse axioma de sociologia e histria num postulado que, apesar das aparncias, nada tem de preconceituosamente racista: A nao brasileira, se tem um papel histrico a representar, s o poder fazer quanto mais separar-se do negro africano, do selvagem tupi e do aventureiro portugus. Ou seja, ser quando surgisse o brasileiro.
Luiz Carlos Villalta, em artigo para Tempo e histria, de 1992, sob o ttulo O diabo na livraria dos inconfidentes, cita os obstculos  circulao de livros na Colnia e fornece outras informaes sobre a censura. Desde a colonizao do territrio at 1768 havia a censura sob os cuidados da Inquisio, do Juizado Ordinrio e do Desembargo do Pao. Mas foi criada, neste ano, a Real Mesa Censria, aumentando o rigor do processo de seleo e proibio de publicaes. Criou-se um Index Expurgatrio, com proibio de livros contrrios  religio, moral,  cultura,  ordem poltica vigente. D. Maria I instituiu, em 1787, um novo organismo, que era a Comisso-Geral para o Exame e a Censura de Livros. Entre as proibies, os franceses lideravam, especialmente os pensadores da Ilustrao, como DAlembert, Buffon, Diderot, Condorcet, Brissot, Montesquieu, Raynal, Rousseau, Voltaire, Mably, Condillac, Helvetius, La Mettrie, Marmontel. Outros pensadores, de outras nacionalidades, como Hobbes, Spinoza, Cesare Beccaria, Rosseo, Milton, Thomas Paine, Locke e Thomas Morus tambm eram proibidos pelos portugueses, assim como escritores, filsofos, artistas e, inclusive, pensadores catlicos. Mas isto no impediu que, entre os inconfidentes, os padres e homens de formao europeia, fossem encontradas vrias dessas obras em suas bibliotecas, e no s em Mariana ou Vila Rica, conforme os Autos de Sequestros relativos s bibliotecas encontradas com alguns inconfidentes. Villalta procedeu a uma valiosssima pesquisa analtica das bibliotecas dos inconfidentes, referidas nos Autos de Sequestros dos Bens dos conjurados, reveladora da personalidade dos seus proprietrios e do quanto algumas publicaes conseguiram fugir do cerco portugus e do catolicismo inquisidor. Exemplo ilustrativo  a biblioteca do cnego Lus Vieira, inconfidente de Mariana, onde foram encontradas, entre outras, Esprito das Leis, de Montesquieu, e a Enciclopedia, de Diderot e DAlembert, livres-pensadores, a servio de uma nova ordem poltica. 
Outro tema em discusso, ainda referente ao surto cultural mineiro setecentista, tem ocupado a ateno de vrios interessados no fenmeno. Ora, como poderiam florescer letras e artes em Minas, contrariando a realidade socioeconmica, de brutal restrio a qualquer circulao de ideias ou de comunicao por quaisquer meios com os centros mais evoludos? Germain Bazin chega a indagar: No  curioso que tal florescimento, exigindo grandes recursos financeiros emanados de um povo inteiro, coincida com o momento em que se completa a decadncia de Minas Gerais? Sabemos que a atividade mineral, e nela especialmente o ouro e pedras preciosas,  universalmente restritiva da circulao de pessoas e bens. A regio das minas foi mantida fechada pela Coroa portuguesa por quase um sculo, no bastassem a distncia e os caminhos difceis. A Carta Rgia de 25 de maro de 1725, e a Ordem de 29 de abril de 1727 mandam suspender a abertura de caminhos da regio das minas para Mato Grosso. Novas ordens, de 30 de abril de 1727 e de 15 de novembro de 1730, probem a abertura de uma nova estrada de So Paulo para Minas. O Conselho Ultramarino, a 26 de outubro de 1733, probe abrir estrada para Gois. E veta qualquer tipo de ocupao ou colonizao do territrio do Esprito Santo. Outros alvars probem a abertura de estradas para minas descobertas ou a descobrir. No era permitida a imprensa nem escolas mdias. A explicao plausvel  que a leitura e circulao de livros, entre eles vrios proibidos, ou propagadores de ideias francesas, j se fazia como resistncia cultural e, portanto, integrante do fenmeno de criao intelectual e artstica mineiro. Como j se disse, Portugal sempre tentou evitar que surgisse uma nova nao, desejando, apenas, extrair riquezas.
A Inconfidncia Mineira j recebeu crticas de alguns historiadores por no ter tido conflitos concretos, luta e resistncia. A questo da interao entre ideias e prticas polticas costuma ser abordada de uma e outra maneira conforme a perspectiva terica dos debatedores, diz Srgio Paulo Rouanet no seu instigante artigo As minas iluminadas  a Ilustrao e a Inconfidncia, em Tempo e histria, Companhia das Letras, 1992. Para Rouanet, no tocante  Inconfidncia Mineira, de qualquer maneira, no h quem negue a influncia das ideias. Para alguns autores, inclusive, elas foram tudo  os fatos  que foram marginais. E afirma Rouanet: Esta  a posio de Afonso Arinos. Para ele, do ponto de vista da justia rgia, os fatos no tinham existncia real. Tratava-se de visitas que alguns se faziam, para conversar e jogar gamo. As conversas, coisa imaterial,  que tinham vida. Os Autos de devassa s do notcia de conversas. A devassa se fazia com o sentido de apurar delitos de intenes, crimes de ideias. Foi o que disse o advogado defensor, Jos de Oliveira Fagundes: tudo no passava de um criminoso excesso de loquacidade e entretenimento de quimricas ideias, que se desvaneciam to logo os rus se separavam. Os fatos so a matria morta da Inconfidncia, as ideias, as do iluminismo franco-americano, sua substncia viva. 
O que os Autos de Sequestro dos Bens dos inconfidentes mostram como  que o pensamento iluminista entrara em Minas. Vm do Iluminismo as ideias e posies anticolonialistas, o antidespotismo, o antiescravismo, o antimilitarismo e as primeiras ideias sociais. E, marcantemente, segundo cita Srgio Paulo Rouanet (Tempo e histria), o anticlericalismo: Como se sabe, a cruzada antirreligiosa foi a grande bandeira da Ilustrao. Ela teve duas vertentes, uma desta, com Voltaire e Rousseau, que pregava a religio natural, sem templos e sem cultos, e outra materialista, com Holbach e Diderot, que negava a existncia de Deus. Ambas tinham em comum a condenao da Igreja e a denncia do clero, cmplice da tirania e instigador do fanatismo, pela mentira e pela manipulao.
Para Rouanet, as ideias da Ilustrao funcionaram como a grade intelectual dentro da qual os revolucionrios viam e pensavam sua realidade. O mundo era percebido segundo categorias descritivas extradas do direito natural e do empirismo, sobre um fundo normativo que inclua pressupostos subjacentes e no questionados, como a autonomia e a universalidade da razo, o poder da educao para arrancar os homens das trevas, a perfectibilidade do homem, a onipotncia da poltica e a f na dignidade e liberdade do homem. Ainda conforme Rouanet, duas entidades so onipotentes no iluminismo: a razo e a natureza. Elas conduziriam a batalha da luz contra as trevas. A Ilustrao queria iluminar o mundo e, para isto, toma como tema constante a luta entre as trevas e a luz. Rouanet busca em Holbach o esclarecimento: A superstio e a tirania invadiram o mundo, fazendo dele um crcere tenebroso, cujo silncio s  perturbado pelos clamores da mentira, ou pelos soluos que a opresso arranca dos cativos que aprisiona. Sempre vigilantes, essas duas frias impedem a luz de abrir passagem em sua morada escura. Esse  o discurso ilustrado, por onde perpassou o discurso inconfidente mineiro, revelado nos Autos de devassa, mas tambm nos versos dos rcades rebelados. Na opresso do jugo colonial, rude e bronco, forja-se a opinio rebelde, nos cnones da Ilustrao, e que, ao longo da construo da cultura mineira, constituiria um trao identitrio das minas sempre irredentistas. Em sntese, o barroquismo surge de um compromisso profundo com a Igreja, que foi o fator maior de unidade. O arcadismo significou o rompimento com o esprito da contrarreforma e uma opo definitiva ao Iluminismo e  Ilustrao. E estas mudanas, nas ltimas dcadas do sculo XVIII, ocorreram em meio a vrias transformaes em Minas: o esgotamento do ouro, o surgimento de uma elite ilustrada, a densidade populacional urbana, a Independncia Americana de 1776 e a gesto colonial portuguesa, entre inepta e opressora, impedimento qualquer iniciativa de desenvolvimento econmico da Colnia. 
Francisco Curt Lange, musiclogo austraco, radicado no Uruguai, encontrou, nos anos em torno de 1945, nas sacristias das velhas matrizes mineiras, partituras que revelaram intensa produo musical no sculo XVIII, com compositores e instrumentistas de surpreendente qualidade. Revelaram-se as cidades histricas como ncleos urbanos intensamente musicais, com criaes prprias de refinada composio, apresentadas nas igrejas, sales e casas de pera. A atividade musical no foi reduzida durante o sculo XIX. Os bispos mineiros tinham especial orgulho de produzir e veicular boa msica nos ofcios religiosos, a exemplo das antigas catedrais europeias. Logo na criao da Diocese de Mariana, em 1745, foram criados cargos musicais de chantre, mestre-de-capela e organista. As irmandades sempre zelavam pela qualidade da msica em suas igrejas. Os Te-Duns e as Missas Solenes Cantadas integravam os calendrios anuais religiosos em diversas ocasies. As bandas civis e das corporaes militares tambm sempre tiveram apoio destacado das comunidades e dos governos. Na msica de cmara, existiam as liras, para saraus e apresentaes teatrais, com os msicos sendo objeto de valorizao social. 
O Museu da Inconfidncia, em Ouro Preto, recebeu e guarda precioso acervo cedido por Curt Lange em 1984, por solicitao do ento secretrio de Estado de Cultura, Jos Aparecido de Oliveira, composto por missas, cantatas, oratrios, antfonas e at peras, incluindo o canto coral. Essa documentao havia sido levada por Curt Lange para o Uruguai, onde residia, por no confiar na sua conservao nas igrejas mineiras, onde muitas se perderam  partituras criadas por msicos e compositores como Joaquim Emerico Lobo de Mesquita, padre Jos Maurcio Nunes Garcia, padre Joo de Deus Castro Lobo, Jernymo de Souza Lobo, Tristo Jos Ferreira, Marcos Coelho Neto, pai e filho, Incio Parreira Neves, Francisco Gomes da Rocha. E tambm Anna Maria dos Mrtires, do Tejuco, o padre Domingos Simes da Cunha, de Paracatu, Joaquim de Paula Souza, de Prados, Manoel Dias de Oliveira, de Tiradentes, Padre Manoel Cabral Camelo e Antnio dos Santos Cunha, de So Joo del-Rei. E muitos annimos, autores de partituras que so executadas hoje por grandes orquestras e nos melhores teatros do Brasil e do exterior. A obra de Lobo de Mesquita  um importante conjunto da literatura musical brasileira, que possibilita a compreenso do gosto construdo pelas influncias napolitana e portuguesa na msica executada em cerimnias fnebres no Brasil, afirma Rodrigo Teodoro de Paula, em Memria Sonora (As Minas setecentistas, 2007).
A antiga Comarca do Rio das Mortes, onde esto So Joo del-Rei, Tiradentes, Prados, Dores de Campos, Rezende Costa, ainda hoje tem intensa atividade musical. Em So Joo del-Rei, como resultado do trabalho de alguns pesquisadores, em especial o da professora e pesquisadora Anna Maria Parsons, de Tiradentes, o Instituto de Musicologia Jos Maria Neves recuperou e guarda excepcional acervo musical, incluindo partituras antigas e originais dos sculos XVIII e XIX. Duas corporaes musicais sanjoaneses destacam-se na Histria da Msica em Minas: a Lira Sanjoanense, que tem como precursora a Companhia de Msica, surgida em 1776, uma das mais antigas das Amricas em atividade, e a Orquestra Ribeiro Bastos, surgida em 1790 e que, em 1840, recebeu o nome do maestro Francisco Jos das Chagas, para, finalmente, em 1859, adotar o nome do maestro Martiniano Ribeiro Bastos, que regeu o conjunto at 1912. Em todo esse tempo, diversos muitos msicos se destacaram, entre eles o notvel padre Jos Maria Xavier, nascido em 1819, que nos deixou vrias composies sacras, por exemplo, o famoso Ofcio de Trevas, nome popular do Matinas e Laudes. 
Em Mariana e seus distritos, est viva uma dezena de bandas e o antigo Palcio dos Bispos, monumental casaro restaurado e mantido pela Fundao Cultural da Arquidiocese, abriga hoje o Museu da Msica, onde precioso e raro acervo de partituras e documentos, incluindo antigos instrumentos musicais, surpreende especialistas de todo o mundo.
Ser em mutao, alcanado pela crise filosfica que domina todo o sculo XVIII, o homem das minas, que migrara para um novo mundo e lutava pela sobrevivncia numa sociedade em formao, ter nas encenaes, nas festas e no ostentatrio, canais de expresso de sua viso do mundo e seus conflitos. O carter teatral, estimulado pelo esprito barroco, estilo da Contrarreforma tridentina, j era parte da pedagogia jesutica, que o adotava no ensino e na catequese religiosa. A inspirao esttica e temtica centrava-se no teatro de Pedro Caldern de La Barca (dramaturgo e poeta espanhol, viveu de 1600 a 1681, com vasta produo de autos sacramentais, comdias religiosas, de amor e de cimes, zarzuelas e textos filosficos), com encenaes que vo se transferir tambm para as minas. Em sua obra metafrica El grande teatro del mundo, que estreia em 1645, expressa a ideia de que o mundo  um grande teatro, no qual os homens atuam na presena do Deus Pai e de uma corte celestial. A obra que interpretam  sua prpria vida e o cenrio  o mundo. As peas de Caldern La vida es sueo e El grande teatro del mundo, muito encenadas, revelam o nascimento do estilo barroco e sua forma de ver o mundo. A prpria Igreja implanta as igrejas-teatros, com faustosa ornamentao visando atrair, enlevar e at ofuscar os sditos e, ao mesmo tempo, transmitir contedos ideolgicos, conforme as recomendaes da Contrarreforma tridentina. Nas procisses, nos desfiles, nas comemoraes pblicas, nos carnavais, mesmo nas festas do calendrio religioso, a teatralidade sempre foi o elemento de atrao. O Triunfo Eucarstico de Vila Rica, de 1733,  o exemplo do espetculo completo, com todas as linguagens. A pera, como espetculo e gnero mltiplos,  uma criao barroca.
O gosto pelas encenaes  comum  sociedade da poca. O teatrinho de bolso, de Chica da Silva, j estaria em funo entre os anos de 1753 a 1771, em Diamantina. Em 1841, a cidade recebeu o famoso Teatro Isabel, demolido em 1912. A Casa da pera, de Vila Rica, inaugura-se em 1770 e  o mais antigo teatro das Amricas em funcionamento, frequentado tambm pelos aristocratas e com programao extensa. J em 1768, Cludio Manoel da Costa apresenta, no Palcio dos Governadores, sua pea O Parnaso obsequioso, em homenagem ao jovem governador conde de Valadares. Em So Joo del-Rei, funcionou teatro de 1775 a 1782 e, em 1893,  inaugurado o belo Teatro Municipal. Em 1819, inaugura-se a Casa da pera de Sabar, raro exemplar arquitetnico da poca. Cidades como Juiz de Fora, Paracatu, Campanha, Lavras, Barbacena, Itabira, So Jos del-Rei (Tiradentes), Santa Luzia, e muitas outras, possuam teatros, nos quais se apresentavam no s atores, mas tambm msicos e marionetes. Danas de salo, espetculos circenses e rodeios tambm integravam o calendrio de espetculos. Em vrias outras cidade, no sculo XIX, construram-se teatros.
Em claro paradoxo com o regime de opresso imposto pela Coroa portuguesa, sempre temerosa de expanses intelectuais, inibidora de processos educacionais, da imprensa e das manifestaes do livre pensamento, as cidades histricas mineiras, em especial em Mariana, Vila Rica e So Joo del-Rei, possuam homens de boa formao intelectual, formados na Europa.
Os rigores do regime colonial imposto  regio das minas atingiram todos os setores. As restries  viagem e  presena de religiosos j comeam em 1709, quando Carta Rgia probe o deslocamento de religiosos do reino s minas. As restries culminam com duas determinaes rgias, uma de 1726, e, outra, de 1732, proibindo o estabelecimento de ordens religiosas em Minas, em conventos e mosteiros. A Coroa sempre temeu as ordens religiosas, trauma decorrente das famosas Misses Jesuticas, do Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai, experincia de colnias autnomas, que Portugal e Espanha destruram em ao conjunta. Desbravadores, ousados, os jesutas criam na confluncia dos trs pases o que se chamou de Imprio Jesuta, com economia socialista, leis prprias e refratrias  dominao colonialista. Sua destruio  um dos genocdios mais cruis praticado pelos espanhis com consentimento portugus. Na regio das minas, muitos relatos informam que grande nmero de clrigos, vagando pelo territrio, faziam mais mal do que bem pelo mau exemplo, inclusive tornando-se mineradores gananciosos.
Inegavelmente, num pas sem imprensa, sem jornais, sem livros ou comunicaes, era o plpito a nica tribuna por onde se divulgavam as ideias e opinies, diz Pereira dos Reis, no seu O colonialismo portugus e a Conjurao mineira, de 1964. Somente em 1772 se permitir a criao, em Mariana, Vila Rica e So Joo del-Rei, das trs primeiras escolas pblicas de ler, escrever e contar. At ento, toda a educao de base era sustentada pela Companhia de Jesus, situao que persistiu at 1759, quando os jesutas foram expulsos do Brasil pelo marqus de Pombal (Sebastio Jos de Carvalho e Melo, primeiro-ministro de Dom Jos I, de 1756 a 1777), interrompendo todo um importante, seno nico, sistema de ensino organizado. 
Mas o fato  que nas cmaras municipais e nas academias literrias que vo surgindo, estas sempre vigiadas e vistas como instituies libertrias e contrrias ao regime colonial, nas lides polticas e religiosas, nas formulaes jurdicas, registram-se manifestaes e demonstraes de certo requinte intelectual. E vrios so os exemplos de modernidades, como assinala Joo Antnio de Paula no seu precioso trabalho Razes da modernidade em Minas, Ed. Autntica, 2000. Na sua evoluo urbana e como sociedades organizadas, as cidades histricas de Minas daro vrios exemplos e demonstraes de pioneirismo, de avanos, de condutas de modernidade, em singular processo sociolgico, inerente ao surto de criatividade que as distinguir no mbito da prpria Histria do Brasil. Essas cidades logo vo abrigar um tipo de estamento social mais refinado, em geral com formao europeia, que se distinguir pelo valor humanstico, fenmeno que se amplia ao longo do sculo XVIII e se estende ao sculo XIX, e que constituir um trao distintivo da identidade regional, conforme reconhecido e assinalado por vrios viajantes estrangeiros que percorrem o territrio mineiro na primeira metade do dezenove. Pode-se dizer que a sociedade que se forma nas minas, pioneira em vrias formas de vida urbanizada no Brasil, acabar adquirindo algumas manifestaes de pensamento autnomo e genuno, at por uma espcie de reao ao rigor do colonialismo, como se procura demonstrar. Sob vrios aspectos, Minas Gerais tem singularidade no relativo  recepo-aclimatao de certas criaes da modernidade. Vo se desenvolver em Minas Gerais vrios sistemas  um sistema urbano, um sistema estatal, um sistema cultural, um sistema religioso, um sistema monetrio-mercantil  que tm especificidades no quadro brasileiro, diz Joo Antnio de Paula.
Bastante ilustrativas dessa identidade, pois constituram ncleos de destacada influncia na sua formao educacional, cultural e religiosa, so trs instituies mineiras com amplas repercusses nos sculos subsequentes. So elas o Seminrio de Mariana, o Colgio e Seminrio do Caraa, em Catas Altas e a Escola de Minas, de Ouro Preto. As duas primeiras instituies so matrizes de um tipo de educao religiosa, mas com acentuado cunho humanista e cvico, marcante em vrios aspectos da vida poltica e intelectual mineira. O irmo Loureno, figura mstica e misteriosa, de origem portuguesa, sobre quem foram feitas vrias especulaes quanto  sua verdadeira identidade e origem (seria o ltimo vivo da famlia Tvora, de Carlos Mendona Tvora, perseguida pelo marqus de Pombal, que queimou onze de seus membros, por ter patrocinado atentado contra o rei Dom Jos I, em 1758), surge em Diamantina, onde se torna membro da Ordem Terceira Franciscana, em 1763. Vocacionado para a funo missionria, em seu sonho mstico, em 1774, funda ermida em local distante, de difcil acesso, ao sop de um dos contrafortes do Espinhao, hoje Serra do Caraa, municpio de Catas Altas. Ali, na serra confrontante, a natureza desenhou enorme caraa. Ao morrer, em setembro de 1719, deixa seu patrimnio para Dom Joo VI e cita sua origem, contrariando o mito de pertencer  famlia Tvora. O rei encarrega os padres lazaristas, da Congregao da Misso, com sede no famoso Priorado de So Lzaro, em Paris, Frana, fundada por So Francisco de Paula, em 1640, de continuarem a obra. Em 1820, chegam ao Caraa os lazaristas portugueses padres Leandro Rabelo Peixoto e Antnio Ferreira Vioso (este, futuro bispo de Mariana), que fundaram o famoso educandrio religioso e vrias instituies educacionais em outras cidades. Tinha incio o perodo que se chamou Caraa portugus.
O Seminrio do Caraa ser dirigido por lazaristas franceses de 1854 a 1903, tornando-se ncleo de formao religiosa e cvica, com um rigoroso padro escolar, por onde passaram vrias geraes de padres e homens pblicos. O primeiro superior francs  o padre Miguel Maria Spolis, iniciador de um perodo ureo, que se consolida a partir de 1867, quando  diretor o padre francs Jlio Clavelin, o qual ser o construtor da igreja gtica. No seu perodo, o nmero de alunos oscilou entre 350 e 400. O curso de humanidades era de sete anos e o aluno tinha que sair falando latim. Destacam-se, neste perodo, vrios professores, homens de cultura religiosa e de humanidades. O Caraa foi visitado por Dom Pedro I e a imperatriz, d. Amlia, em 1831, e por Dom Pedro II e d. Tereza Cristina, em 1881. Como era de seu costume, Dom Pedro II registrou francos elogios ao educandrio em seu dirio de viagem (Anurio do Museu Imperial de Petrpolis, vol. XVIII). Mas anotou, tambm, a discusso filosfica, durante aula de Teologia Dogmtica, com o professor e padre Chanavat, sobre o Placet, ou seja, a aprovao rgia para nomeaes pontifcias, matria controversa e que gerara a famosa Questo Religiosa (1871-1875). O professor defendeu a prevalncia da Igreja sobre as nomeaes, de forma absoluta, no que discordou Dom Pedro II, travando-se discusso que exigiu a interveno do diretor. O colgio perdurou at 1979, quando foi parcialmente destrudo por incndio e, hoje, restaurado, transformou-se em local de recolhimento e descanso, em meio a uma rea de proteo ambiental. 
O Seminrio de Mariana foi criado em 1750, por Dom frei Manoel da Cruz, primeiro bispo de Mariana, tornando-se centro de ensino e formao de larga influncia em Minas e no Brasil. A direo pedaggica foi entregue aos jesutas, at sua expulso do Brasil, em 1759 pelo Marqus de Pombal. Ambas as instituies, cultistas e austeras, tornaram-se escolas matrizes na formao do pensamento mineiro, de acendrado conservadorismo religioso, mas avanadas em certas posies polticas e nacionalistas e, fundamentalmente, difusoras de posturas ticas e cvicas de larga influncia em vrias geraes de mineiros e na prpria identidade regional. 
A Escola de Minas resulta de iniciativa direta de Dom Pedro II, preocupado com a estagnao econmica da Provncia de Minas Gerais, outrora prspera no Ciclo do Ouro, com rico subsolo inexplorado. Pedro II, homem com viso mundial, formada em viagens ao exterior e vinculao com vrias academias de cincias europeias, preocupava-se com o desenvolvimento dos conhecimentos mineralgicos no Brasil e com a transplantao de tecnologias minerais que j tinha visto na Europa e nos EUA. Ele busca apoio na Escola de Minas de Paris, que envia o jovem mineralogista Claude Henri Gorceix, dotado de excelente formao acadmica, rigor cientfico e reconhecida aplicao profissional, com vocao para a pesquisa e o ensino. Organizada e dirigida por Gorceix, a escola inicia suas atividades em Ouro Preto, em 1876. Os professores franceses Armand de Bovet, Arthur Thir e Paul Ferrand foram trazidos por Gorceix.
Entre os brasileiros que ajudaram Gorceix a organizar a escola, estavam Archias Medrado, Lenidas Botelho Damsio, Francisco von Erven e Bernardino A. de Lima. A escola formou geraes de engenheiros de minas, gelogos e metalurgistas e se consolidou como ncleo de formao, pesquisa e desenvolvimento do conhecimento brasileiro nessas reas e mais em matemtica aplicada, construo de grandes usinas siderrgicas, barragens, pontes, ferrovias e petroqumica, tendo como orientao doutrinria bsica o desenvolvimentismo econmico, mentalidade disseminada entre seus alunos e que vo liderar vrias iniciativas de explorao mineral e implantao de usinas. Surgiram da escola tambm os principais cdigos minerais brasileiros. A Escola de Minas, juntamente com a Escola de Farmcia, criada em 1839, ao tempo da Regncia, foram os ncleos pioneiros da Universidade Federal de Ouro Preto, surgida em 1969, e que, em 2020, apresenta vasta extenso de cursos universitrios.
Estas escolas, especialmente o Caraa e a Escola de Minas, representam bem o esprito mineiro, e at seus aspectos contraditrios, segundo Jos Murilo de Carvalho, no prefcio ao livro Minas Gerais  o fiel da Balana, do brasilianista John Wirt. Para ele, de um lado, o espiritualismo beirando, s vezes, a fuga mstica da realidade, bem simbolizado na torre gtica que surpreende o visitante na solido da Serra do Caraa; de outro, o senso prtico e a razo cartesiana transmitidos aos alunos de Gorceix no cenrio barroco de Ouro Preto. Entre o jansenismo religioso dos lazaristas e o desenvolvimentismo econmico avant la lettre de Gorceix, dividiu-se muitas vezes o caminho de Minas. Saram do Caraa e da Escola de Minas presidentes da Repblica, governadores, professores, polticos, empresrios, engenheiros e tcnicos de alto nvel, que vo constituir a elite brasileira capaz de promover, sobretudo a partir de 1930, o desenvolvimento econmico. Antes, a elite dirigente era formada, sobretudo, por bacharis em Direito. J no sculo XX, por ato do ento presidente do Estado, Artur Bernardes, surge em 1926 a Universidade Federal de Viosa, ncleo e matriz de conhecimentos, hoje com reconhecimento internacional pela excelncia acadmica no ensino, extenso e pesquisa nos campos da agricultura, pecuria, veterinria e reas correlatas.
No sculo XIX, os colgios de orientao religiosa, notadamente os franciscanos, predominantemente dirigidos por religiosos holandeses, iro prover as populaes mineiras de vrias cidades de educao slida, constituindo um captulo importante da formao educacional do Estado, reconhecidamente de melhor qualidade em relao aos outros Estados brasileiros. Deve-se tambm s ordens religiosas femininas a formao de professoras, por meio das escolas normais. 
H crescente concordncia quanto  necessidade de maiores estudos comparativos do fenmeno mineiro com os primeiros ncleos civilizatrios ocorridos nas Amricas, dando-se destacada nfase nos surtos de criatividade artstica/cultural. Ouro Preto/Mariana, expresses urbanas maiores das cidades mineiras surgidas na corrida pelo ouro, por diversas caractersticas que dariam singularidade ao fenmeno, sediariam uma terceira onda civilizatria, tese que j suscitou pesquisas e dissertaes acadmicas, mas ainda carente de maior aprofundamento. A primeira ocorrera na Pennsula do Yucatn, no Mxico, com os astecas. A segunda iniciou-se com os incas e suas ramificaes tribais e que produziram Lima, no Peru, e Quito, no Equador, ambas com seus centros histricos inscritos pela Unesco como Patrimnios Culturais da Humanidade, como Ouro Preto e Diamantina. No Mxico, Peru e Equador, a criatividade artstica, expressa concretamente nas artes plsticas, reflete marcadamente a presena espanhola, mas sem perder razes e motivos dos primeiros povos pr-colombianos. A exemplaridade, nesses casos,  o principal elemento a justificar o tombamento universal. J a antiga Vila Rica, como tambm a cvica e religiosa Mariana, resultantes da aventura humana na corrida pelo ouro e a ocupao dos territrios interiores da Colnia, mostram um harmonioso conjunto urbano setecentista, produto da tcnica construtiva colonial luso-brasileira, com uso de materiais locais, como a canga, o itacolomito e a pedra-sabo, em meio  criatividade dos artesos locais, dando feies prprias ao barroco jesutico dos primeiros tempos. 
A histria oficial da Ciudad de Mxico remonta a 1325, com a cidade asteca de Tenochtitln, conquistada, destruda e refundada por Hernn Corts em 1524. Seus tesouros culturais abrangem todos os ramos da criatividade humana. Sua arte tem estilo e identidade prprios, heranas nicas das antigas culturas asteca e maia, a influncia espanhola e a evoluo mexicana. Curiosamente, embora tenha passado  Histria como sanguinrio destruidor da cultura asteca, Corts recusou-se, aps o completo domnio espanhol, a destruir templos e outras construes da cultura local, exigncia da Igreja Catlica interessada em impor sua doutrina nica. J Quito guarda as influncias dos incas, dos aborgenes shyris e dos espanhis. Assistiu  luta de Ataualpa e Francisco Pizarro e guarda o ttulo de Relicrio del Arte en Amrica, com destaque para sua famosa Escuela Quitea. Lima, no Peru, com o nome de Cidade dos Reis, tambm fundada por Francisco Pizarro em 1534, j em 1543 torna-se o Vice-Reinado do Peru e obtm a ateno e favores do governo espanhol, do qual foi a capital americana at a independncia. Hoje, a Grande Lima estende-se por mais de 100 km ao longo da costa e abriga cerca de 8,4 milhes de habitantes, um tero da populao peruana. Em 1551, implanta sua primeira universidade, por ato do vice-rei Antnio de Mendona, que tambm ali instalar, em 1553, a Universidade do Mxico, que gozar, como a de Lima, de todos os privilgios da famosa Salamanca. No final do sculo XVI, cria-se a Universidade de Santo Antnio de Cuzco, alm de diversos colgios. Livros podiam ser impressos e circular livremente na colnia espanhola e tambm no foram proibidas algumas indstrias, como a famosa fundio de Puebla, no Mxico. Tecidos de l, algodo e linha eram fabricados em Lima e Acapulco. Lima torna-se sede de diocese em 1541 e mantm imprensa regular a partir de 1584. 
Mas ser somente a partir de meados do sculo XX que comear a ser removido o grande silncio cultural que se abateu sobre a Amrica Latina e, especialmente, sobre os povos da Mesoamrica, habitantes dessas regies h mais de trs milnios. Os atos de independncia das colnias espanholas se deram em datas prximas  declarao brasileira. Mas, sempre fragilizadas por conflitos internos, ainda vivendo os traumas do genocdio inicial realizado pelos espanhis, acabaram por perder-se no subdesenvolvimento poltico e econmico e que alcana, em maior ou menor grau, a todos os pases. Os gritantes desnveis pessoais e regionais de renda, os governos populistas, as prolongadas ditaduras reacionrias e sanguinrias, a submisso a polticas imperialistas internacionais exploradoras de suas riquezas naturais, pouco deixando para as populaes nativas, a falncia dos sistemas educacionais e culturais, explicam o estgio de subdesenvolvimento desses pases, ainda na primeira dcada do sculo XXI, quando comeam a experimentar um novo tempo, com governos progressistas, voltados para a explorao de suas vocaes econmicas em proveito dos seus povos. 
Deve-se  Unesco, a partir da dcada de 80 do sculo XX, ao inscrever Lima e Quito na lista dos Patrimnios Culturais da Humanidade, o reconhecimento da exemplaridade/unicidade dos seus acervos histrico-culturais. Seus centros histricos, tombados em 1978, guardam preciosidades histricas, arqueolgicas e artsticas nas dezenas de museus, igrejas e casas de cultura, abrigando edificaes portadoras de arquitetura de grande expresso plstica e singularidade construtiva. Ouro Preto obter o ttulo somente em 1980. 
O arcabouo antropolgico em que se forma o homem das minas, os mecanismos de transmisso cultural, os condicionantes do meio, da economia, da religio, do regime poltico, o incio das primeiras vilas e a vida coletiva, entre outros fatores, fornecem elementos de anlise a serem estudados nessa perspectiva da terceira onda cultural nas Amricas. De particular importncia seria o estudo comparativo das evolues urbanas, das instituies governamentais e de surtos culturais. No caso mineiro, Laura de Mello e Souza, no Civilizao em Minas, ao referir-se s cidades que se formam na Colnia, diz: pode-se falar que existia, pela primeira vez na Amrica Portuguesa, um verdadeiro sistema cultural.
O Absolutismo, regime poltico de sustentao da Contrarreforma, tem em Portugal e Espanha propagadores fortes. O Barroco, estilo do Absolutismo e que serve  Igreja e aos reis,  exportado para as colnias e ser um instrumento coadjuvante no controle e governo das novas sociedades. Particularmente na Amrica espanhola, o Barroco ser forte arma para a dominao e ser usado para justificar a selvagem destruio das culturas encontradas, j estruturadas religiosamente. Com Torquemada (Toms de Torquemada, 1420-1498, frade dominicano, inquisidor-geral dos reinos espanhis), a Inquisio espanhola j atingira o pice histrico da intolerncia, da tortura e do assassinato em nome de Deus. Atribui-se a Torquemada a realizao de cerca de 2.020 autos de f contra vrios tipos de crimes de religio. Em Minas, h ampla concordncia de que o Barroco nunca serviu ao poder, mas, antes, foi forma de expresso prpria da sociedade nascente. O Barroco, embora dominante como pensamento e forma de ver o mundo, foi apropriado pela criatividade local, pela via da arte sacra e da arquitetura ornamental, com expresses que demonstravam rebeldia e liberdade. De resto, a arquitetura e a arte sacras nunca em Minas se fizerem com o patrocnio governamental, mas pela economia e pela mo do povo que comeava a se organizar pelo nico caminho permitido, que era os das sociedades religiosas. 
O barroquismo, como estilo de arte e de vida, j aparece no Triunfo Eucarstico de 1733, em Vila Rica, festa comemorativa de inaugurao da Igreja do Pilar, mas j mostrando uma sociedade irrequieta, irreverente, transgressora de padres, conforme o relato de Simo Ferreira Machado e a interpretao reveladora de Affonso vila. A descrio do desfile, minuciosa, permite ver o quanto o ldico, o sonho e o fantasioso j permeavam a vida em Vila Rica. O homem das minas, sob esse conjunto de normas e influncias,  um ser permanentemente atormentado, dividido. Martins de Oliveira, na sua Histria da literatura mineira, ao referir-se ao ureo Trono Episcopal, festa realizada em Mariana, em 1748, para receber o primeiro bispo, Dom Manoel da Cruz, cita vrios religiosos e suas publicaes destinadas a homenagear o primeiro bispo e o novo bispado. Esses religiosos permanecero reunidos para a administrao da diocese e criao do Seminrio N. Sra. da Boa Morte, em 1750, que vai se tornar uma academia cultista/religiosa na velha cidade. A festa de regozijo pela entrada do bispo em Mariana teve tambm procisso, folguedos, danas e desfiles de rua, mas o seu ponto alto, que a diferenciou, foi uma espcie de certame literrio, com apresentao de vrios textos e poemas, revelando pendores e talentos.
Martins de Oliveira lembra ainda a discutida Arcdia de So Joo del-Rei, seus integrantes e publicaes e que sempre foram locais de rebeldia pela propagao de ideias libertrias. A exausto do ouro, que j acontece por volta de 1750, aprofundar as contradies de toda ordem. A luta pela sobrevivncia cria descontentamentos e insatisfaes. Culpa-se o regime colonial, antidesenvolvimentista, limitador de iniciativas e autonomias. Aceleraro os extremos sociais e a luta de classes, agora urbanas, prximas, vivendo sob a mesma regulao e um territrio comum. Amplia-se a ocupao territorial. Aventuras e xodos, as situaes crticas pessoais e coletivas, os horizontes de sobrevivncia restritos, moldam tipos humanos raros.  o caldo de cultura que ensejar o surto artstico. 
O mundo colonial, na Amrica espanhola ou portuguesa, apresenta similaridades extremas a partir das sociedades que se formam e a cultura barroca, que as domina, e que se entrelaa com um estilo de vida. De resto, impera as matrizes ibricas, espanhola e portuguesa, que estiveram sob o mesmo domnio de 1580 a 1640, e onde imperou um catolicismo conservador, contrarreformista, apoiador e sustentador da Inquisio.  o que vo revelando estudos mais recentes, ao mesmo em que assinalam a distncia entre estes pases quanto  cooperao, intercmbio e trocas culturais. Somente na literatura h certa difuso, por meio da leitura de autores mais conhecidos. Angel Rama, pensador uruguaio (Literatura, cultura e sociedade na Amrica Latina, UFMG, 2008) define muito bem esses mundos: Aquele mundo contraditrio da colnia, onde o esplendor convivia com a pobreza, onde o arabesco intelectual extremamente refinado era contemporneo da crueldade mais bestial, onde o churrigueresco, ao alcanar o seu exaltado desvario, captava a reverncia do povo indgena e do conquistador, onde a cobia foi uma paixo miservel que corria desenfreadamente junto ao ascetismo intelectual de muitos mrtires, onde o vulgar ia de brao dado com o aristocrtico, no poderia ter encontrado melhor expresso do que esta forma fantstica aprisionada pela fantasia, pois jogava com a coexistncia dos extremos para resolv-los num nico espetculo do homem e seu destino. Essa matriz sociolgica se aplica perfeitamente  sociedade colonial mineira, especialmente nos primeiros tempos.
Mas cada ocorrncia tem sua tipicidade. Estudos comparativos podem desvendar aspectos fundamentais para uma objetiva categorizao. Ser possvel construir um paradigma, um modelo descritivo, certamente til para uma sociologia explicativa? Publicaes recentes na linha metodolgica da transversalidade, com nfase na Histria Social, tm desvelado aspectos inteiramente novos da sociedade que se forma nas cidades histricas de Minas, decodificando mitos e smbolos, dando-lhe realismo, despojado do natural, mas anti-histrico sentimento ufanista e nativista, que dissemina e alimenta verses heroicas e picas. Discute-se, inicialmente, at que ponto o memorialismo mineiro, em especial a obra dos ensastas e no tanto dos historiadores, assim como os textos literrios, de cunho mais impressionista, desprovidos de anlise transversal propiciada pela Histria Social, sacralizaram o Ciclo do Ouro mineiro, glorificando o passado pela exaltao de um desejado esplendor artstico, sustentado por pretensa riqueza econmica.
E tudo isto ampliado pelo imaginrio sobre Minas, sustentado por tantos episdios, desde as primeiras lutas emboabas at a Inconfidncia, que transita entre o sonho de poetas, padres e militares, e certa dimenso pica, estimulada pelas figuras mticas de Aleijadinho e de Joaquim Jos da Silva Xavier, o Tiradentes. Discute-se at que ponto o sentimento nativista, orgulhoso da histria regional recheada de elementos picos e alimentado pela elite ilustrada que escreveu as primeiras letras sobre a Histria de Minas, o fez numa linha notoriamente orgulhosa e exaltativa da sociedade que se cria no sculo XVIII. Esse contexto, recheado de surrealismo,  caracterstica da Amrica Latina, em contraposio  viso do mundo e modo de vida dos povos anglo-americanos, que tm origem no moralismo protestante-calvinista, conforme vasta literatura existente, que procura interpretar o racionalismo desenvolvimentista norte-americano em comparao ao latino.
Fontes importantes para o conhecimento realista e circunstanciado da formao mineira, usos, costumes, tradies, cultura e religiosidade dos mineiros, suas cidades, o meio fsico, economia e organizao social, so os relatos publicados pelos viajantes estrangeiros que percorreram o territrio, conheceram as cidades histricas e outras regies do Estado. Esses viajantes, todos eles homens de formao elevada, em geral naturalistas interessados em conhecer vida, a geologia, fauna e flora da Amrica do Sul e do Brasil, s puderam entrar no territrio mineiro com a vinda de Dom Joo VI, em 1808. Antes, o acesso era proibido pela Coroa portuguesa, que temia a cobia estrangeira sobre os territrios do ouro e pedras preciosas da Colnia. Esses viajantes, quase todos amparados por governos ou instituies estrangeiras, representavam o grande interesse dos pases europeus em conhecer o novo continente e, especialmente, o Brasil, que fez por longo tempo a felicidade de Portugal. Minas Gerais, com suas cidades do sculo XVIII, provncia mineralgica, era atrativo especial para os naturalistas que nos deixaro preciosos depoimentos. Sero eles os primeiros classificadores da fauna e da flora de Minas e do Brasil, em mais um pioneirismo mineiro para a cultura brasileira.
O primeiro deles foi o gelogo ingls John Mawe, que publicou em 1818 Viagens pelo interior do Brasil, em que diz, sobre Vila Rica, que nada na vizinhana corresponde  magnificncia do seu nome. Mas faz elogios aos jardins de Vila Rica, s residncias e suas comodidades. Destaca a beleza da Rua Direita e assinala, com certa surpresa, que havia teatro com cenrios bonitos e atores passveis. John Luccok, que morou no Brasil de 1808 a 1818, esteve em Vila Rica e escreveu Notas sobre o Rio de Janeiro e partes do Sul do Brasil, publicado em 1820. Descreve Vila Rica, suas casas, a religiosidade popular, mas desagradaram-lhe certas condutas da populao local, em que destacou a grande presena de negros e mulatos, em situao de pobreza. Auguste de Saint-Hilaire, naturalista francs, foi quem mais viajou por Minas Gerais, deixando amplos e minuciosos relatos de extraordinrio valor como fonte histrica sobre todos os aspectos da vida na Colnia. Em 1816 e 1817, fez duas longas viagens pelo territrio mineiro, reunidas sob o nome de Viagens pelo interior do Brasil, publicadas em Paris, em 1852. A leitura dos seus relatrios sobre o territrio, fauna e flora, vida e sociedade, economia, descritas em detalhes,  fundamental para quem deseja se aprofundar sobre Minas Gerais, sua formao e organizao social e urbana, no s da rea de minerao, mas, tambm, de outras regies do Estado. Observador rigoroso, formou coleo com mais de 30 mil espcies, entre vegetais e insetos, das quais cerca de 4.500 desconhecidas, que ajudou a classificar. Faz elogios e crticas aos mineiros e seus costumes, mas  justo e objetivo nas suas observaes. Outro ingls, o reverendo Walsh, publicou Notcias do Brasil (1828-1829). George Gardner, que esteve no Brasil entre 1836 e 1841, publicou Viagens ao interior do Brasil, em Londres, em 1846. 
De grande valor histrico-cientfico so os relatos do bvaro Karl Friedrich Fhilipp von Martius, botnico, etnlogo e naturalista, que viajou pelo Brasil de 1817 a 1820, incluindo Minas Gerais, recolhendo vasto material para seu herbrio. Publicou Flora brasiliensis, em 40 volumes, e tambm Natureza, doenas, medicina e remdios dos ndios brasileiros, em 1844.  considerado o pai da Etnologia brasileira. Com Johann Baptist von Spix, zologo e naturalista, seu companheiro de viagem pelo Brasil, publicou Viagem pelo interior do Brasil, entre outros estudos. Outros visitantes que merecem destaque so Francis de la Porte, Conde de Castelnau, chefe de misso francesa ao Brasil em 1843, que publicou Expedio s regies centrais da Amrica do Sul, incluindo relato de visita a Minas Gerais, Charles James Fox Bunbury, que escreveu Viagem de um naturalista ingls ao Rio de Janeiro e Minas Gerais  1833-1835, Ernest de Courcy, que publicou Seis semanas nas minas de ouro do Brasil, j em 1889. James W. Wells, engenheiro ingls, que esteve em Minas de 1873 a 1875, trabalhando na Estrada de Ferro Dom Pedro II, lanou, em 1886, Trs mil milhas atravs do Brasil  do Rio de Janeiro ao Maranho, com informaes detalhadas sobre o interior de Minas Gerais, suas populaes, economia, meio fsico, condies de trabalho.
Destaque, pelo volume de suas observaes, merece o naturalista e viajante ingls Richard Burton, a servio do governo ingls, autor de Viagem de canoa de Sabar ao Oceano Atlntico e Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, resultados de excurso que realizou em 1868 a Minas Gerais. Preciosas so suas informaes sobre a vida mineira, com observaes detalhadas sobre Ouro Preto e outras cidades. Seus escritos so um depoimento vasto e importante como fonte histrica e sociolgica.
Dois pintores e desenhistas, um francs e um alemo, vo retratar as primeiras imagens de Minas Gerais, paisagens naturais, tipos humanos, aspectos da vida e dos costumes da primeira metade do sculo XIX. O primeiro  Jean-Baptiste Debret (1768-1848), de Paris, que estudou Belas Artes e Engenharia e chegou ao Brasil, em 1816, como integrante da Misso Artstica Francesa, e que fundou, no Rio, uma academia de artes e ofcios, mais tarde transformada em Academia Imperial de Belas Artes. De volta  Frana, em 1831, publicou Viagem pitoresca e histrica ao Brasil (1834/1839), com vrias pranchas sobre Minas Gerais, especialmente Ouro Preto. Sua obra, caracterizada como pintura histrica, constitui acervo valioso para a Histria do Brasil e de Minas. 
O segundo foi Johann Moritz Rugendas (1802-1858), de Augsburg, que estudou Belas Artes em Munique e viajou por todo o Brasil, de 1822 a 1825, pintando pessoas, paisagens e costumes. Passou grande perodo em Minas, em 1824. Rugendas chegou ao Rio em 1821, para integrar a expedio cientfica do baro Georg Heinrich von Langsdorff (1774-1852), alemo, nascido em Wollstein, que se tornou cnsul do czar da Rssia no Brasil, mdico, interessado em Histria Natural e em desvendar a Amrica portuguesa, um mundo que permaneceu desconhecido em razo das proibies defensivas e protecionistas da Coroa. A abertura se deu aps a chegada de Dom Joo VI ao Brasil em 1808. Langsdorff, que j realizara diversas excurses em vrias partes do mundo, percorreu grande parte do Brasil, mas acabou enlouquecendo, com perda da memria, em 1830, durante viagem ao Mato Grosso, retornando  Europa. Rugendas permaneceu por conta prpria no Brasil e publicou Viagem pitoresca ao interior do Brasil, com desenhos e aquarelas realizados durante suas viagens. 
Merece citao o mdico, botnico e zologo dinamarqus Peter Willian Lund, que veio ao Brasil em 1825 e percorreu as provncias do Rio e So Paulo. Em 1832, retornou definitivamente ao Brasil, fixando-se em Minas Gerais. Em 1842, um seu relato informa ter visitado cerca de 200 cavernas nas regies de Curvelo e Lagoa Santa e descrito 115 espcies de animais, entre os quais os famosos tigres-de-dentes-de-sabre e uma preguia-gigante. Em 1843, encontrou vestgios de um homem pr-histrico, que ficou conhecido como Homem de Lagoa Santa. Repentinamente, em 1845, encerrou suas pesquisas e enviou todas as suas colees, com mais de 20 mil itens, para o rei Cristiano VIII, da Dinamarca, abrigadas em museu de Copenhague. No mais retornou  Europa, falecendo em Lagoa Santa em maio de 1880. Com ele trabalharam o zologo Johannes Theodor Reinhardt (1816-1882) e o botnico Eugenius Warming (1841-1924), autores de vrios trabalhos de pesquisas, ambos iniciadores, no Brasil, do conhecimento e sistematizao de suas especialidades. Warming publica em 1840 um dos primeiros estudos mundiais de fitoecologia. 
Publicao completa dos trabalhos de Lund ocorreu em 1888, com o Museo Lundi. Em 1859, ao publicar o famoso A origem das espcies, Charles Darwin faz seis citaes de Lund, a regio de Lagoa Santa e os seus achados paleontolgicos, que julga virem em apoio  sua tese da evoluo biolgica das espcies. O Museu do Homem, de Paris, e o de Copenhagem, possuem crnios do Homem de Lagoa Santa. Lund, pioneiro da Arqueologia e da Paleontologia no Brasil, chamou a ateno para a regio mineira de Lagoa Santa a Curvelo, despertando dezenas de pesquisas e expedies cientficas que hoje j comprovaram a existncia do homem na regio h 30 mil anos. Lagoa Santa homenageia Lund e Warming com um cemitrio exclusivo, levantado por inspirao da Academia Mineira de Letras em 1935. Lund encontrou-se algumas vezes com Henri Gorceix, fundador da Escola de Minas de Ouro Preto e recebeu apoio de Dom Pedro II, que foi em Lagoa Santa, em 1881, para conhecer o trabalho. Infelizmente um ano aps a sua morte. Minucioso e completo levantamento sobre Lund, suas pesquisas e sua importncia histrica e cientfica est em P.W. Lund e as grutas com os ossos de Lagoa Santa, dos dinamarqueses Birgitte Holten e Michael Sterli, de 2011, obra atualssima sobre vida, obra, pesquisas e importncia cientfica de Lund. 
A partir de 2009, o Governo do Estado implanta na regio dois projetos que visam  sua proteo em face de novas investidas destruidoras, especialmente da indstria cimenteira, e tambm dar aproveitamento turstico  sua vocao arqueolgica. E obteve promessa do governo dinamarqus de devolver a Minas, uma vez demonstrada a segurana de sua devida conservao, vrios achados de Lund e que se encontram hoje em instituies museolgicas e cientficas na Dinamarca. Os projetos so a Linha Lund e o Parque Arqueolgico do Sumidouro, que integram o Circuito Turstico das Grutas, implantados parcialmente. J na dcada de 70 do sculo XX, por solicitao da UFMG, Darcy Ribeiro e Oscar Niemeyer elaboraram anteprojeto de um Museu do Homem para Lagoa Santa, no implantado. 
Hoje, a regio de Lagoa Santa  citada internacionalmente e foi intensamente pesquisada por vrias expedies cientficas. Em 1975 expedio franco-brasileira, coordenada pela arqueloga francesa Anette Laming-Amperaire, descobriu na Gruta Lapa Vermelha, em Pedro Leopoldo, o crnio de uma mulher, entre 20 e 24 anos, que se chamou de Luzia, e que estudos posteriores determinaram sua antiguidade entre 12.500 a 13 mil anos. A reconstituio de seu crnio mostrou feies do tipo dos aborgenes da Austrlia ou do negroide africano. A descoberta suscitou debates em todo o meio cientfico internacional por suscitar questes relativas  antiguidade do crnio, a emigrao no territrio americano e a origem racial. Os paleontlogos Walter Neves, da USP, e Andr Prous, da UFMG, contriburam com estudos posteriores relativos ao valor cientfico da descoberta de Luzia. Infelizmente, um incndio no Museu Nacional, no Rio, em 2018, danificou o crnio, reconstitudo parcialmente.
Ser mero ensaio literrio, desprovido de verdade histrica ou comprovao cientfica, dizer que o mineiro, especialmente aquele da Minas Geratriz, de Guimares Rosa, nascido e formado nas cidades histricas, que transita entre a precauo e a aventura, aprofundar sua personalidade com o trauma da devassa da Inconfidncia de 1789, fixando o trao do equilbrio, da introverso, da vocao para a conciliao? Trao tambm assentado na centralidade geogrfica, que amalgama os contrastes e faz a juno dos extremos. E que  precavido, ouve mais do que fala, um tanto disfarado, mas austero e sbrio, com inclinao para as coisas do esprito? E sempre libertrio e democrata, como  essencial ao minerador, com gosto pela poltica e pela conspirao, como mostra sua histria e seus embates em todos os episdios da vida pblica? Esse mineiro existe ainda, no sculo XXI, com a sociedade marcada pela vida urbana veloz e competitiva, pela substituio da dominante economia extrativa mineral e agrria pela grande indstria e empresas de servio, provocadoras de grande mobilidade espacial da populao? Existiu e persiste, enfim, um carter mineiro?
O fato  que esse mineiro e seus traos originrios do sculo XVIII, bem como uma possvel especificidade do seu carter e da singularidade da sociedade urbana que constituiu, e que gerou um surto artstico e cultural nos legando patrimnio artstico excepcional, foram bastante cantados e exaltados pelos poetas, pensadores, historiadores e socilogos, mineiros, brasileiros e estrangeiros. Ao mesmo tempo, Ouro Preto, cidade tida como centro originrio da formao e difuso da cultura mineira e tambm inspiradora do sentimento nacionalista-libertrio brasileiro e da conscincia preservacionista do patrimnio cultural, foi lembrada por todos os estudiosos da Histria do Brasil. Igualmente Mariana, bero de vrios episdios inaugurais e da formao de Minas, sempre foi objeto de ateno e referncia, assim como So Joo del-Rei, Serro e Diamantina, beros de vrios brasileiros ilustres, matrizes de linhas de pensamento, de afirmao de traos ticos e humanistas entre os mais ldimos da nao brasileira. O sculo XVIII mineiro, do Ciclo do Ouro e seus inmeros fatos, conquistas, ocorrncias e evolues, torna-se captulo especial da histria brasileira. Francisco Adolfo de Varnhagem (1816-1878), diz que o sculo XVIII na Histria do Brasil  o sculo de Minas (Histria Geral do Brasil, 1857). Artur Cezar Ferreira Reis, ento presidente do Conselho Federal de Cultura, no prefcio  monumental  edio da obra de Germain Bazin O Aleijadinho e a escultura barroca no Brasil, de 1971, diz que as Minas Gerais iam compor, est visto, uma rea diferente no quadro da vida que os luso-brasileiros estavam montando no Brasil em formao. E conclui: Dela iriam emergir, como fora estranha, as expresses telricas do urbanismo, da arquitetura, da imaginria, da msica sacra, das letras arcdicas, mas, tambm, rebeldes.
J se disse que a historiografia mineira  a maior do Brasil e vai muito alm da obra de carter meramente histrico. Ora com tratamento ensastico, ora potico, como roteiros de visita, crnicas e prosas, quase sempre como tentativas de decifrao da alma mineira, todos abordaram os vrios aspectos e fatos da formao de Minas. So relatos que exaltam Minas e os mineiros, a partir das figuras picas dos bandeirantes, das ousadias e aventuras da conquista e dominao territorial, o esprito de rebeldia, o contnuo sentimento de autodeterminao. O surto artstico. O sentimento libertrio. E no so relatos irreais, invenes ou exageros nativistas e que,  luz da pesquisa histrica contempornea, vo naturalmente sendo reinterpretados por novas pesquisas, anlises transversais e uma notria riqueza de informaes. De resto, esse  o processo histrico em que no s o instrumental de pesquisa e o desvendamento so maiores como tambm mudam as mentalidades.
As referncias bsicas e pioneiras, fontes mais antigas dos primeiros momentos de Minas, encontram-se nas obras de Pedro Taques de Almeida Pais Leme, Notcias das Minas de So Paulo e dos sertes da mesma Capitania, que trata dos antecedentes da formao de Minas, e Antonil (Andr Joo Andreoni), Cultura e opulncia no Brasil, de 1711, que relata os primeiros anos de ocupao da regio das minas. O poema pico Vila Rica, de Cludio Manoel da Costa, divulgado e impresso no Rio, em 1839, mas escrito em meados do sculo XVIII, tornou-se referncia no relato dos primeiros momentos de ocupao das terras mineiras. Cludio faz a louvao, em versos, aos fundadores da Capitania das Minas do Ouro, criada em 1709, em especial ao governador Antnio de Albuquerque Coelho de Carvalho, que d incio  organizao cvica e administrativa do novo territrio, entregue  desenfreada corrida pelo ouro. A partir de meados do sculo XIX, o movimento republicano faz a divulgao dos inconfidentes e de Tiradentes, reproduzidos em textos, palestras, esculturas e pinturas. Nas primeiras dcadas do sculo XX, a exaltao aos mineiros ser feita pelos modernistas paulistas. Foram campanhas notoriamente de cunho nacionalista, apologticas porque buscavam razes, fatos e causas idealistas, mas, e por isto mesmo, amparadas na singularidade do processo histrico mineiro e na exemplaridade da sua produo cultural.
Entre os poetas que sentiram e cantaram Ouro Preto, j na Repblica, mineiros e no mineiros, encontram-se Raimundo Correia (1859-1911), que, perseguido pelo presidente Floriano Peixoto, durante o estado de stio, implantado em 1892, refugiou-se na velha cidade, reconhecida como territrio de liberdade, dando aulas de Direito; Olavo Bilac (1865-1918), que tambm se exilou em Ouro Preto, em 1893, com vrios artigos reunidos na coletnea Crticas e fantasias, publicado em 1904. Fugindo do regime autoritrio de Floriano Peixoto vieram tambm para Ouro Preto Carlos de Laet, Valentim Magalhes, Gasto da Cunha, Coelho Neto. Foram recebidos e abrigados por Afonso Arinos, ento residente em Ouro Preto. Com Olavo, veio inicialmente para Ouro Preto o pintor francs mile Roude, que estava no Brasil, desde 1880, para decorar o Palcio do Catete, no Rio, envolvendo-se em poltica, e que foi contratado em 1894 para documentar o arraial de Curral del-Rei. Celebraram Ouro Preto os escritores Bernardo Guimares (1825-1884), Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), o escritor Coelho Neto (1863-1934), com Por montes e vales, de 1899, Manuel Bandeira (1886-1968), com o seu Guia de Ouro Preto, de 1938, Ceclia Meireles (1901-1964), com seu Romanceiro da Inconfidncia, Vinicius de Moraes (1913-1980), que residiu por breve tempo na cidade, Henriqueta Lisboa (1904-1985), Bueno de Rivera (1911-19820) ou a escritora Raquel de Queiroz (1910-2003). Emlio Moura e Murilo Mendes (Contemplao de Ouro Preto, A viva de Ouro Preto, MEC-1954) trataram da paisagem, clima e cor de Ouro Preto em vrios poemas. Os primrdios da literatura do Estado esto bem estudados na Histria da literatura mineira, de Martins de Oliveira, de 1963. Lcia Machado de Almeida publicou roteiros de Passeios a Ouro Preto (1980), Sabar e Diamantina. Fontes permanentes de informao so as Efemrides Mineiras  1664-1897, de Jos Pedro Xavier da Veiga, publicado em 1897, e a Histria antiga e Histria mdia de Minas Gerais, de Diogo de Vasconcelos, cujo primeiro tomo surgiu em Ouro Preto em 1901. Merece lembrana Lcio Jos dos Santos, com sua A Inconfidncia Mineira  o papel de Tiradentes, de 1922.
Outo Preto  pioneiro na imprensa, como revela Xavier da Veiga, criador e diretor do Arquivo Pblico Mineiro, que levantou a histria das publicaes, de 1807 a 1897. Os primeiros jornais surgiram aps a Independncia: Compilador Mineiro, de 1823, Abelha do Itacolomi, de 1824/25, e O Universal, 1825/42. O padre Jos Joaquim Viegas de Menezes foi o precursor na impresso, com a tcnica de gravura a buril. A historiadora Francelina Ibrahim Drummond, em tese de mestrado na UFMG. de 1995, divulga ter encontrado na Biblioteca Nacional a coleo completa de O Recreador Mineiro, primeira revista literria de Minas Gerais, fundada em Ouro Preto pelo editor e livreiro Bernardo Xavier Pinto da Fonseca. Francelina revelou tambm outras publicaes que comprovam atividade literria intensa, livros e jornais.
Entre os analistas da alma mineira, com tentativas de descrio de um tpico e distinto carter regional mineiro, diferenciado do resto do Brasil, com textos literrios, com carter apologtico, incluem-se Carlos Drummond de Andrade e Guimares Rosa em diversos escritos, Alceu Amoroso Lima (A voz de Minas), Sylvio de Vasconcellos (Mineiridade), Murilo Mendes, Pedro Nava, Ceclia Meireles, Afonso Arinos de Melo Franco e Affonso vila, entre muitos outros, mineiros, de outros Estados e estrangeiros. H que se acrescentar equipe qualificada de arquitetos e historiadores liderados por Rodrigo Melo Franco de Andrade e Lcio Costa, que analisaram e instruram dezenas de processos de tombamento do acervo histrico e artstico monumental mineiro, desde 1937. E uma lista de estrangeiros dedicados a analisar o fenmeno mineiro.
Drummond e Rosa sintetizam as duas vertentes principais da formao cultural mineira e da sua personalidade regional. Drummond, de Itabira, da montanha e do ferro,  homem da Minas minerria e reflete a melancolia saudosista dos primeiros tempos, da aventura da ocupao territorial e a busca do ouro, sempre ensimesmado e triste, impregnado de dvidas, questionamentos e incertezas, sempre curioso dos mistrios da alma humana, barroco, dualista, dividido, mas extraindo da sua dor a sensibilidade para sua percepo do mundo e sua poesia. Jos Miguel Wisnik traa magistral percurso, na poesia e artigos de Drummond (Maquinao do Mundo  Drummond e a minerao, 2018), de Drummond com relao a Itabira e a destruio do Pico do Cau, da sua infncia e a explorao inglesa. E alude tambm  minerao do Pico do Itabirito (O Pico de Itabirito, 1965), por capitais ingleses e brasileiros e o esforo pela preservao do seu perfil geogrfico, objetivo de tombamento pelo IPHAN, anulado pelo regime militar de 1964 e restabelecido aps a ditadura, mas j desfigurado. E lembra tambm o famoso artigo Triste Horizonte, de 1976, em que reage contra a destruio da Serra do Curral pela minerao como tambm a ocupao dos adros das Igrejas da Floresta e So Jos, em Belo Horizonte, por lojas e estacionamentos. Seu artigo, com grande repercusso, impede a minerao de alterar o perfil da Serra. 
Guimares Rosa, de Cordisburgo, entrada do serto, de chapades e veredas,  homem das gerais, do norte vaqueiro e catrumano, que anda em quatro patas, a cavalo, observador das condutas rudes pela sobrevivncia, cheia de sortilgios, na luta contra a natureza adversa e a sociedade dos homens fortes, com normas e linguagem prprias, num mundo onde o limite  o infinito, mas tambm dualista como todo mineiro, resvalando entre o local e o universal, entre Deus e o diabo, a f e a descrena, a moral e o desejo, o agir e o falar, tal como manda o serto, tortuoso, mtico e metafrico. Em ambos, Drummond e Rosa, a alma  mineira e deles no sai, como  muito prprio nos modernistas, lamentosos de ter deixado sua terra, vtimas da fatalidade de que Minas exporta minrios e mineiros. 
A verdade, hoje consagrada pela viso histrica contempornea,  que Ouro Preto, como conjunto representativo de um sistema urbano setecentista, criado pelo pico movimento de busca do ouro, se tornou no Brasil uma espcie de cone de alguns sentimentos fundamentais a partir dos quais se forma nossa nacionalidade ou identidade nacional. Significativamente, representou, pelos vrios episdios de rebeldia, mas principalmente pela Inconfidncia Mineira, um exemplo sempre lembrado como locus de origem do iderio e do sentimento de independncia, de autonomia, de liberdade poltica e econmica. A campanha republicana, necessitando de bases histricas para fundamentar sua formatao doutrinria, foi buscar na velha cidade, na figura de Tiradentes, como tambm dos inconfidentes, sempre cercados por uma aurola de heris e mrtires e, em menor escala, em Felipe dos Santos, os nomes e histrias que precisava para pregar a implantao do sistema representativo, em substituio ao regime monrquico. 
 fato inconteste que a campanha republicana, assim como os movimentos nacionalistas do sculo XIX, colocaram Ouro Preto na atualidade das discusses histricas e polticas. A velha capital mineira, preservada pela prpria pobreza a que foi levada pela exausto do ouro, com dificuldade para encontrar atividade econmica substituta, at pela inadequao de suas terras para a agropecuria, alm do distanciamento geogrfico de centros mais evoludos, permaneceu quase imutvel com relao  sua feio e tipologia urbana e arquitetnica formadas nos primeiros anos do sculo XVIII. 
E foi em Ouro Preto novamente, bem como, em menor escala, em Mariana e nas cidades histricas de Minas, que a mentalidade preservacionista, que renasce com a Proclamao da Repblica, vai buscar inspirao para propor e reivindicar aes de proteo e conservao. A Repblica nasce no Brasil sob a inspirao positivista e de seu lema Ordem e Progresso, que necessita sustentar-se num passado proclamadamente glorioso, destino indesvivel da jovem nao na construo do seu futuro, agora liberada da monarquia imobilista, agonizante e asfixiante. Ouro Preto, uma vez mais, justificar o pensamento preservacionista brasileiro. Ela era o prprio passado, congelado, tangvel, bastante ntegro, com seus casares e igrejas preservadas, carregadas de histria, de vultos, poetas, dramas e martrios. E tambm com um passado de propalado e cantado fausto, de opulncia e riqueza, contexto que contribuiu para o surgimento de uma arte verdadeiramente nacional no perodo colonial, arte esta que podia ser vista na arquitetura dos velhos casares, nas igrejas, chafarizes e pontes, nos trabalhos de Aleijadinho, Vieira Servas, Xavier de Brito, Atade e de toda uma legio de artistas de diversos ramos e excepcionais qualidades. Chegou-se a dizer que ela era uma espcie de Pompeia viva. E o sentimento libertrio, sempre irredentista, de Ouro Preto e cidades histricas de Minas, em luta contra o jugo portugus, fornecia os elementos picos e revolucionrios fundamentais para a formao de uma conscincia de resistncia, que o embate com a Monarquia exigia. 
O interessante  que a Repblica, que tanto usou a cidade e seus vultos, exaltando seu passado e sua conservao para sustentar a necessidade de um futuro de progresso, acabar por motivar a mudana da capital para Belo Horizonte em 1897, lanando Ouro Preto em novo ciclo de decadncia econmica. No se concebia a capital de Minas naquele local topogrfica e geologicamente inadequado, o vale do Tripu, quando a Repblica exigia avanos, transformaes e crescimento. Metade da populao, reparties pblicas e seus funcionrios transportam-se para a nova capital e a velha cidade esvazia-se, entra em crise econmica, uma vez mais. Casares inteiros ficam abandonados. A imobilidade urbana acentua-se e ser, novamente, a causa da preservao da cidade. Manuel Bandeira, no seu j citado Guia de Ouro Preto, diz que, na sua decadncia econmica, que remonta s ltimas dcadas do sculo XVIII, no houve dinheiro para abrir ruas, alargar becos, restaurar monumentos. Na reparao dos prdios envelhecidos, a economia levou sempre a alterar o menos possvel. Em casas novas ningum pensava.
Ouro Preto mantm-se quase inalterada at a dcada de 50. As escolas de Minas e de Farmcia eram as atividades principais. Manifesto dos professores da Escola de Minas foi entregue a Getlio Vargas, em 1944, pelo professor e fsico Francisco de Assis Magalhes Gomes, propondo a transferncia do estabelecimento para Belo Horizonte. Sustentava o documento que a cidade no oferecia condies para a presena de professores e de troca de conhecimentos indispensvel a uma escola de engenharia, com a evoluo tecnolgica por que passava o mundo. Muitos professores efetivamente mudaram, transferindo-se para a UFMG, inclusive o professor Magalhes Gomes, onde fundou um Instituto de Pesquisas Radioativas, montando um reator atmico destinado a pesquisas. Durante muitos anos, os professores da escola dividiam-se entre os mudancistas e os que desejavam permanecer em Ouro Preto.
Com o tombamento, em 1938, Ouro Preto adquire certo alento turstico, incentivado tambm pelo Grande Hotel e o Museu da Inconfidncia, ambos de 1944. Tm incio as mineraes de bauxita e de ferro. Mas ser a presena do grupo canadense da Alcan, em 1952, comprando a fbrica de Saramenha, modernizando e ampliando a produo de alumnio, que a cidade tomar novo alento econmico, com a criao de empregos, a gerao de novas receitas pblicas e a expanso dos bairros populares Bauxita e Saramenha, que circundam as instalaes industriais. Com o nome de Eletroquisa a Alcan foi criada em 1934 por Amrico Rene Gianetti, engenheiro formado pela Escola de Minas. D-se um surto de expanso populacional e urbana, a cidade acorda, mas comear a enfrentar novas questes, entre elas, a ocupao irregular dos morros circundantes, em especial nas fraudas da Serra do Ouro Preto, destruindo reminiscncias da minerao ocorrida no sculo XVIII. E nem o IPHAN nem a Prefeitura souberam oferecer opes de ocupao, fora dos limites da malha urbana e alm do alcance do olhar comprometedor.
Ouro Preto vai sendo redescoberta ou relembrada nacionalmente a partir da dcada de 1920, por meio de visitas e artigos que vo revelando a existncia, entre as montanhas de Minas, de uma cidade com heroica e cvica histria e com a autenticidade de um verdadeiro museu aberto. Mas que, aps a mudana da capital para Belo Horizonte, em 1897, ficou entregue  prpria sorte, estagnada, vtima de inescrupulosos antiqurios que saquearam obras de arte e mobilirio precioso. Algumas expedies pioneiras se inscrevem nesta linha, como a viagem realizada, em 1916, por Alceu Amoroso Lima e Rodrigo Melo Franco de Andrade, com a consequente publicao de textos que reivindicavam proteo para a cidade e seus monumentos. Ambos se tornariam apaixonados defensores da preservao da cidade colonial. 
Mrio de Andrade, na Revista do Brasil, relata visita a Ouro Preto e Mariana, em artigo de 1920. Viera a Mariana em 1919 visitar o poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens e conheceu, em profundidade, as duas cidades histricas. Desta viagem resultar o interesse dos modernistas no sculo XVIII mineiro e as cidades histricas mineiras. Gilberto de Alencar , mineiro de Santos Dumont, publicou livro com o ttulo Cidade do sonho e melancolia, aps viagem realizada em 1926, durante a qual encontrou a velha cidade em profunda decadncia. Gilberto enfatiza a necessidade urgente de intervenes que pudessem reverter o quadro de decadncia em que agonizava a terra dos inconfidentes. E deplorava o esquecimento de Vila Rica, perdida entre montanhas, bero das ideias liberais no Brasil (e onde se tramou a Repblica) quando ainda no se fizera a Revoluo Francesa. Anos depois, escrever Tal dia  o batizado, alusivo  senha dos inconfidentes para a deflagrao do movimento insurrecional. 
Gustavo Barroso, tambm em 1926, realiza viagem a Minas, que motivou a sua proposta de criao de um rgo pblico para cuidar da proteo e preservao do patrimnio histrico e artstico brasileiro. Carlos Drummond de Andrade e outros escritores e jornalistas mineiros, matriculados no pensamento modernista de busca de um passado ilustre autenticamente brasileiro, vo destacar o surto de criatividade artstica do sculo XVIII ocorrido em Vila Rica e outras cidades histricas mineiras. Martins de Oliveira (Histria da literatura mineira) escreve sobre poetas e literatos mineiros do perodo, revelando escritores de qualidade na Minas colonial, mesmo submetida  represso que tentava anular qualquer forma de pensamento criativo ou independente. Comea-se a valorizar a poca colonial e, particularmente, o sculo XVIII, e as cidades que formou passam a ser vistas como locais de origem das razes de uma identidade brasileira, em substituio aos valores importados da Europa, ainda dominantes na cultura nacional. De grande valor histrico  seu estudo sobre a Arcdia do Rio das Mortes, de 1959.
H que se reconhecer tambm os ncleos civilizatrios implantados em Mariana, cidade dos bispos, a Roma brasileira, pioneira em vrios ndices da cultura, da nacionalidade e da vida urbana. Como tambm em So Joo del-Rei, sede de imensa comarca, rica por suas terras e seu comrcio, bero de homens e ideias, como tambm o antigo Serro do Frio, ncleo irradiador da ocupao territorial de vasta regio, onde esteve Ferno Dias, centro de famlias nobres fundadores de Minas. E ainda Sabar, mais antiga, em regio central, ligando os fluxos humanos que vinham do Norte, pelo So Francisco/Rio das Velhas e a regio do Tripu, certamente o ncleo urbano que mais gerou outras cidades, em todas as direes. Essas cidades, povoados primitivos da Minas do Ouro, entre tantos outros menores e menos conhecidos, sero cpias exatas das vilas portuguesas Braga, Guimares ou Viana do Castelo, do Norte de Portugal, ncleos de onde vieram os maiores contingentes de portugueses. 
O surto artstico no se estende ao sculo XIX. A sociedade apazigua-se. Passa de mineradora a semi-industrial e, sobretudo, agropastoril. Desenvolvem-se novas relaes humanas e econmicas. Ao homem das minas, acrescenta-se o homem rural. Surgem as grandes fazendas e as cidades agrcolas, novas formas de sobrevivncia, mais estvel e arraigada  terra, por isto conservadora. A sua produo artstica torna-se devocional, com oratrios e esculturas sacras, de carter religioso, domiciliar, recatada. A pintura torna-se acadmica. Proliferam os motivos franceses, holandeses e italianos, buscados como referncia para as obras de ornamentao. A Misso Francesa, trazida por Dom Joo VI, em 1816, bem como outros artistas vindos mais tarde, j ao tempo de Dom Pedro II, vo exercer influncia estrangeira na arte de Minas. As paisagens europeias, neves dos Alpes ou moinhos holandeses, retratos da Paris mundana, lricos e ingnuos, vo dominar os motivos das estamparias nas fbricas de tecidos. Em um e outro caso, registrava-se alguma antropofagia, com a substituio das paisagens europeias pelas montanhas de Minas.
Incentivados por Mrio de Andrade, os modernistas realizam histrica viagem a Minas Gerais na Semana Santa de 1924, em caravana destinada a mostrar o interior brasileiro ao poeta de origem sua Blaise Cendrars (que veio ao Brasil a convite de Paulo Prado), estiveram em So Joo del-Rei, Tiradentes e Ouro Preto os principais lderes do movimento modernista, Mrio de Andrade, Oswald de Andrade, Godofredo da Silva Teles, Tarsila do Amaral, Ren Thiollier e Olvia Guedes Penteado, que acabavam de promover a Semana de Arte Moderna, de 1922, marco cultural em direo a uma nova leitura da arte brasileira. O Movimento Pau-Brasil, lanado pelo Manifesto Pau-Brasil (1924), de Oswald de Andrade, encontrou inspirao na visita a Minas. Em 1928, Mrio de Andrade publica extenso estudo sobre Aleijadinho (O Aleijadinho e sua posio nacional), documento que efetivamente lana o artista mineiro nos meios intelectuais brasileiros. Em 1938, Manuel Bandeira, afinado com o pensamento modernista, publica seu famoso Guia de Ouro Preto. Com produo e anlises fecundas e sistematizadas, encontram grande repercusso as opinies de Lourival Gomes Machado, expressas em vrias publicaes sobre o acervo artstico mineiro. Com vasta erudio, aplicada ao estudo dos monumentos mineiros e sua arte, atribui-se a ele a tese da especificidade do Barroco produzido em Minas Gerais. 
Merece registro a viagem, j relatada, de Mrio de Andrade ao poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens, ento juiz municipal. Mrio o encontra na Rua Direita de Mariana, hoje museu, da qual fez o seguinte relato: Em Mariana, a Catlica, fui encontr-lo na escuridade de sua casa de trabalho, sozinho e grande. E foi uma hora de inesquecvel sensao a que vivi com ele. Na tristura cinza do aposento pude dizer-lhe pausadamente, em calma, as linhas coisas que eu sentia sobre sua arte desacompanhada e incompreendida. Falei-lhe depois do descaso em que deixaram os nossos. Sorriu, num meigo perdo, e recompensou-me com afeto, dando-me versos. Mrio viu Mariana e Ouro Preto, conheceu obras do mestre Aleijadinho e da inscrustou na ideia central do modernismo a necessidade de repensar o Brasil, buscando suas razes e fontes originais, com carter prprio, libertando-se de uma arte importada.
Foi nesta decadente, mas preservada Ouro Preto, em movimento extensivo a outras cidades histricas, em especial  prxima Mariana, que os modernistas descobriram as razes de uma cultura brasileira, capaz de fornecer uma gramtica, seno uma preciosa sintaxe do modernismo brasileiro. Nos casares adaptados aos materiais, nas solues construtivas locais e nos gostos de artfices, nas fachadas e talhas das igrejas, nas esculturas e ornatos, nos altares e plpitos cobertos de ouro, descobriram um Barroco Mineiro. Descobriram, na intensa criatividade artstica de todos os ramos, na criao potica, nas ideias libertrias e nas rebeldias em busca de autonomia poltica, os sintomas de uma sociedade autenticamente brasileira, distinta do resto do mundo, com cnones prprios de vida, pensamento e arte. E que precisa ser vista e decifrada, nos seus simbolismos e significados, marcantes na formao da brasilidade. 
E que, sobretudo, como dever bsico da ptria, era preciso preservar e difundir. Interessante lembrar que o movimento modernista procurou fazer da famosa Semana de Arte Moderna de 1922, no Teatro Municipal de So Paulo, no mais um sarau artstico-literrio, mas um brado de alerta e advertncia contra uma compreenso lrica e irrealista do Brasil vigente  poca. Assumia, portanto, postura poltica quando propagou que no era mais possvel ver a cultura como inofensivo adorno (dispensvel) das camadas sociais mais abonadas. Nessa linha, as crticas se estendiam a outros campos, inclusive o da economia dependente, a explorao do trabalho e questes afins, que penalizavam um Brasil que espera da Repblica indispensveis modernizaes.
A criao da Inspetoria de Monumentos Nacionais, proposta por Gustavo Barroso, em 1934, como apndice do Museu Histrico Nacional, que havia sido criado em 1922, tambm por sua inspirao, igualmente tomou Ouro Preto como exemplo de cidade que abrigava monumentos preciosos e altamente necessitados de ao conservadora dos governos. O museu chegou a promover algumas intervenes restauradoras em edificaes civis e religiosas de Ouro Preto. Props-se ao presidente Vargas a concesso  cidade do ttulo de Monumento Nacional, o que ocorre em julho de 1933, por meio de decreto. Este ato foi uma inspirao para a criao da Inspetoria de Monumentos Nacionais. Em 1931, o prefeito Joo Batista Ferreira Veloso, por decreto municipal, atendendo  necessidade de manter o estilo colonial caracterstico da cidade de Ouro Preto, probe a construo, no permetro urbano, de prdios e edifcios em desacordo com suas caractersticas arquitetnicas. No mbito municipal,  ato pioneiro na preservao da cidade.
Em 1937, com a criao do Servio do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional, a Inspetoria foi extinta. As aes e os servios de proteo ao patrimnio histrico e artstico passaram a ter a orientao dos modernistas paulistas e mineiros, que haviam, atravs especialmente de Mrio de Andrade, inspirado a criao do SPHAN ao ministro Gustavo Capanema, tambm mineiro, que assumira o Ministrio da Educao, em 1936, a convite de Getlio Vargas. Foi Capanema que, por indicao de Carlos Drummond de Andrade, seu chefe de gabinete, solicitou a Mrio de Andrade a elaborao de relatrio sobre a cultura brasileira e a criao de servio de defesa patrimonial, posteriormente transformado no Decreto-Lei 25, assinado por Vargas, e at hoje em vigncia como documento-bsico que orienta a poltica de proteo do patrimnio cultural brasileiro. A viso tradicionalista de Gustavo Barroso, homem de viso conservadora radical, foi sucedida pela postura modernista, com quem tinha certo antagonismo conceitual tanto quanto a procedimentos e direo das aes de proteo. Barroso chegou a publicar, em 1928, o texto A cidade sagrada, no qual fazia propostas concretas de restaurao de Ouro Preto, que via como exemplo mais importante de um glorioso passado brasileiro. 
Mas sero os funcionrios do SPHAN, um ano aps a criao do servio, em 1938, que iro realizar o tombamento da cidade, junto com outras cidades histricas de Minas. Nos seus primeiros anos, a equipe do SPHAN, integrada por especialistas recolhidos em todo o Brasil, dedica-se a realizar levantamentos e elaborar propostas de tombamento de monumentos de notrio valor cultural, com risco de perda ou desfigurao irreversvel. Ouro Preto ser o 39 bem tombado, com inscrio no Livro de Belas Artes. Sero tambm os tcnicos da instituio que iro reivindicar e propor  Unesco, ideia alimentada desde 1970, a incluso de Ouro Preto na lista mundial de Patrimnios Culturais da Humanidade. Em 1977, tendo o Brasil assinado a Conveno de Proteo do Patrimnio Mundial, Cultural e Natural, de 1972, reiniciam-se os levantamentos para uma consulta quele organismo internacional, obtendo-se o ttulo em 21 de abril de 1980, entregue solenemente  cidade naquele ano. A Unesco reconhecia Ouro Preto como monumento, conjunto ou lugar notvel, perfeitamente enquadrvel nos artigos da Conveno. A velha cidade foi a terceira, na completude do seu conjunto urbano, a ser inscrita na lista do Patrimnio Mundial. 
Tem sido preocupao da Unesco, e dos rgos de proteo brasileiros, a incontrolvel e inadequada expanso urbana da velha cidade, conforme descrito em captulo prprio desta publicao. Mas a opinio dominante  que o futuro de Ouro Preto, que o presente j permite enxergar, ser consolidar um ncleo histrico preservado, circundado por reas de menor valor histrico e artstico ou de absoluta ocupao desordenada. Nas elevaes e morros, que a topografia acidentada permite contemplar de qualquer ponto de observao, se instala, incontrolavelmente, ocupaes de baixa qualidade, com um irreversvel comprometimento paisagstico. Esta  uma realidade inexorvel, determinada pela injusta e gritante desigualdade regional e pessoal da distribuio de renda que vitima a sociedade brasileira. A reduo da taxa de expanso demogrfica brasileira, e tambm do xodo rural prximo  cidade histrica, ocorrncias bem recentes, tm diminudo a expanso urbana, que vem ocorrendo em reas dos distritos, especialmente Cachoeira do Campo, assim como nas cidades prximas, a exemplo de Mariana e Itabirito. Uma ameaa representou o crescimento da Universidade Federal de Ouro Preto, com a criao de novos cursos, demandando novas moradias para alunos e professores.
Numa sntese, podemos dizer que Ouro Preto, na sua tricentenria histria, teve muitos ciclos: a colonizao rpida, na pica e tumultuada corrida pelo ouro; a urbanizao acelerada em trs dcadas e a consolidao de uma sociedade j barroca no seu estilo de vida; um fausto ligeiro, mas que chegou a requintes na arquitetura e na ornamentao; a exausto do ouro e a decadncia econmica, com a expulso de populao e a mudana do perfil socioeconmico; o inconformismo com a Inconfidncia, que marca o surgimento da conscincia nativista e autonomista no Brasil e a ideia de repblica e, durante a longa noite do Imprio, ora foi fiel ora rebelde  monarquia brasileira. Na campanha pela Repblica,  smbolo de rebeldia, expresso pelos inconfidentes e Tiradentes. Em 1897, deixa de ser capital, perde prestgio e populao, entra em longo perodo de decadncia econmica, que a preserva.  descoberta pelo movimento modernista, na dcada de 20, e tombada pelo SPHAN em 1938. No cresce por todo esse longo tempo, at 1952, quando tem incio o ciclo do alumnio, com a canadense Alcan explorando as grandes jazidas de bauxita de Saramenha, hoje extintas, e onde surgiu uma nova cidade, atrada pelo emprego industrial. A partir da dcada de 50, ocorre explosiva expanso demogrfica, acompanhando a elevada taxa de crescimento populacional brasileiro e o processo de concentrao urbano-industrial em regio de baixa fixao do homem  sua terra natal, pela inadequao de suas terras para a agropecuria. Com algumas excees, entre outros motivos estritamente locais, esse  o percurso das cidades histricas mineiras, em geral empobrecidas e, quando essa estagnao econmica foi severa e persistente, mais preservadas por falta de recursos da populao local para expanses ou intervenes de reconstruo. E, se ainda abrigam patrimnios culturais, prestam-se ao Turismo Cultural e tornam-se destinos de viajantes, sua nova vocao e hoje uma grande potencialidade econmica de Minas Gerais. 
Com abordagens histricas inovadoras, com leituras ampliadas de novos aspectos da vida social mineira, com realismo no tratamento histrico-elucidativo, com quatro tomos sobre a Capitania e a Provncia, com marcado cunho revisionista contemporneo, o mais abrangente estudo sobre Minas Gerais e sua formao,  Histria de Minas Gerais (Autntica, 2007), sob coordenao dos historiadores Maria Efignia Lage de Resende e Luiz Carlos Villalta. Rene grande grupo de estudiosos, especialistas setoriais, com formao acadmica rigorosa, tratamento transversal e amplo, quase sempre realizando revises e algumas desconstrues.  o que ocorre com vrios aspectos e fatos do sculo XVIII, tradicionalmente valorizado e agora mais realisticamente desvendado, enquanto o sculo XIX, pouco estudado e menosprezado,  positivamente redescoberto. Outro exemplo so os trabalhos de Laura de Mello e Souza, bastante elucidativos da realidade econmica e social do sculo XVIII mineiro e os desclassificados sociais, criminologia, pobreza e conflitos e rebelies, que desmistificam o difundido e cantado esplendor mineiro, ou de uma Vila Rica onde o ouro farto tornava todos ricos. Jos Murilo de Carvalho, tambm fecundo pesquisador, apresenta vrios trabalhos atualizadores e que permitem viso expandida, e por isto mais realista, da formao mineira.
Esto nesta mesma direo atualizadora e amplificadora historiadores e crticos literrios, pesquisadores contemporneos da Histria de Minas, a maioria com vinculao ou carreira acadmica, construtores de uma ampla e inovadora bibliografia histrica, como Jos Murilo de Carvalho, Laura de Mello e Souza, Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira, Fbio Lucas, Caio Csar Boschi, Mrcio Jardim, Carla Maria Junho Anastsia, Luciano Raposo Figueiredo, Maria Arminda do Nascimento Arruda, Francisco Iglesias, Luclia de Almeida Neves, Adalgisa Arantes Campos, Jnia Ferreira Furtado, Melnia Silva de Aguiar, Leda Maria Martins, Joo Pinto Furtado, Douglas Cole Libby, Otvio Dulci, Carlos Magno Guimares, Eduardo Frana Paiva, ngela de Castro Gomes, Jos Newton Coelho Menezes, Joo Antnio de Paula, Carla Junho Anastasia, Adriana Romeiro, Carlos Filgueiras, Antnio de Oliveira Mello, Mariza Guerra de Andrade, Mrcio Santos, Fernando Correia Dias, Flvio Marcus da Silva, Cristina vila, Guiomar de Grammont, Amlcar Martins, Roberto Martins, Lucas Figueiredo, Heloisa Starling, Jos Maria Rabelo. Com teses de mestrado e dourado, ampliaram-se extraordinariamente, nos ltimos anos, os trabalhos acadmicos sobre a Histria de Minas abrangendo todos os aspectos da vida econmica, poltica e social em especial dos sculos XVIII e XIX.
Nos nossos dias, como destino turstico, com renome internacional, Ouro Preto e outras cidades histricas mineiras necessitam evoluir para a qualificao e refinamento da sua cadeia de prestao de servios aos visitantes e, certamente, como j ocorre com algumas cidades europeias, dentro de alguns anos ter que limitar a presena de visitantes e veculos no seu centro histrico. Com relao a Ouro Preto so claras as vocaes da cidade para os segmentos do Turismo Cultural, Turismo de Eventos e Negcios, com nfase nos conclaves educacionais, e o Vivencial, com base no seu patrimnio cultural e artstico, sua condio de centro educacional, seus atrativos dados pelos parques e reas de proteo ambiental circundantes e por alguns de seus distritos, que ainda possuem edificaes do sculo XVIII e apresentam condies para as novas modalidades do Turismo Rural, Ecolgico e de Aventuras.
A trajetria de Ouro Preto se repete em menor escala em outras cidades histricas de Minas. Diamantina j obteve o ttulo da Unesco (1999), como tambm o Conjunto da Baslica de Bom Jesus de Matosinhos (1985), em Congonhas, onde esto os Profetas de Aleijadinho e as capelas dos Passos. Restam, ainda bastante ntegras nos seus ncleos histricos originrios, entre as cidades histricas do sculo XVIII, apenas Ouro Preto, Mariana, na sua parte histrica, Diamantina, Tiradentes, Serro, parte de So Joo del-Rei. Outras cidades possuem hoje apenas conjuntos parciais ou no entorno de monumentos preservados.
Finalmente, cabe, na concluso destes comentrios, texto de Lourival Gomes Machado, estudioso da Histria de Minas e do Barroco Mineiro: Esta Minas dos rcades e da Inconfidncia, que constitui a culminncia e o fecho de trs sculos de existncia anteriores  trasladao do Estado portugus, esta mesma Minas ainda possui mais um ttulo a proclamar, entre os mais altos, que a colocam na histria de nossa sociedade: o de haver desenvolvido uma cultura cujo avano e cujo requinte podem ser avaliados, com exatido, pela capacidade de assimilar inteiramente os padres europeus para, em profunda reelaborao, formular seus prprios valores e conceitos no que presentam de mais bsico, isto , na prpria estrutura mental que os gera e sustem (Barroco Mineiro, Lourival Gomes Machado, 1973).
