Minas, sociedade e mentalidade
O Ciclo do Ouro constitui, entre a cana-de-acar e o caf, uma espcie de parntesis na Histria do Brasil. O que ocorre nas minas difere do que ocorreria no resto da Colnia, assim como iria produzir um peculiar tipo de sociedade, com tipologia humana prpria. No chega ela a romper a unidade poltica da Colnia, mas comparece crescentemente nas suas manifestaes sociolgicas e intelectuais posteriores com traos distintos do povoamento litorneo. Neste, por ao governamental a terra foi doada com ntido sentido de povoamento e domnio territorial. Nas minas, invaso e ocupao foram espontneas, sob o fluxo migratrio criado pela expectativa de enriquecimento, incontido e sempre desordenado, aventureiro e marcado por conflitos de toda ordem.
Nas trs primeiras dcadas da ocupao territorial todas as atividades econmicas no relacionadas diretamente com a retirada do ouro e do diamante foram desestimuladas. Proibia-se a construo de novas estradas e quaisquer manufaturas, inclusive de tecidos, que teriam de vir de Portugal. A coao voltava-se especialmente para um opressivo sistema de fiscalizao e cobrana do imposto, antes e aps a revolta de 1720. No se desenvolveu, portanto, na Capitania, nestes primeiros anos, um setor econmico privado que tivesse expresso e fosse autnomo. Tal condio  apontada como estimuladora de conflitos e constantes revoltas. Diferentes sistemas de cobrana foram tentados: do quinto do ouro  capitao por escravos, ofcios e negcios, e as cotas de produo. Praticou-se o confisco de diamantes acima de 20 quilates o imposto sobre lojas e terrenos e usou-se tambm o estabelecimento de Dzimos, Entradas e Passagens para o comrcio de mercadorias, atravs do regime de contratos dados a particulares.
O governo portugus limitou-se a tentativas de ordenao dos territrios em micro extenses, igualmente interessado, a princpio, que a atividade se realizasse e que se obedecesse ao pagamento de sua parte. E essa minerao se fazia na aventurosa busca da terra mais promissora da ocorrncia aurfera, no dependeu, nos primeiros tempos, do poder real para a posse de terra, o trabalho  mais individual e implica em maior nivelamento social e seu fruto traduz-se em imediata riqueza, que no  concentrada. Segundo Roberto Simonsen (Histria Econmica do Brasil), entre 1700 e 1770, a produo do Brasil foi praticamente igual a toda produo de ouro do resto da Amrica verificada entre 1493 e 1850 e alcanou cerca de 50% do que o resto mundo produziu nos sculos XVI, XVII e XVIII. Os que nos primeiros anos acumularam acabaram por se envolver nos conflitos emboabas e foram praticamente destrudos pela administrao portuguesa que procurava se firmar e garantir o seu quinto, o que realmente s ocorre com o Conde de Assumar, Dom Pedro de Almeida, a partir de 1720, aps vencer forte resistncia da regio mineradora, especialmente Vila Rica e Ribeiro do Carmo (Mariana).
Surge deste perodo tambm o esforo da Coroa em estabelecer maior controle sobre as terras banhadas pelo So Francisco, invadidas por fazendeiros vindos da Bahia e Pernambuco, como tambm paulistas, dedicados  criao de gado, em aproveitamento das condies favorveis das terras. A mescla social que tal atividade produz  nova na realidade brasileira.  de Simonsen, ainda, a afirmao de que enquanto um senhor de engenho necessita possuir grandes cabedais para se instalar, o minerador dos aluvies brasileiros poderia ser um homem de poucas posses (...)  inegvel que se operou no serto brasileiro uma diviso de trabalho muito mais intensa do que permitia a organizao social do Nordeste brasileiro. O velho feudalismo dos senhores de engenho no se repete na sociedade que a natureza econmica do assentamento minerador produz nas Minas: Com os senhores de lavras aparece uma nova ordem de relaes sociais e econmicas, mais moderna, que contribui para enfraquecer a fora do velho feudalismo dos senhores de engenhos de acar, diz Simonsen. O homem de Minas  rebelde, aventureiro, dinmico, populista e democrtico. O senhor de engenho tem apoio do absolutismo e se torna umbilicalmente um ulico da Corte, que tem nele o esteio do colonialismo. 
A administrao portuguesa se dissimular modestamente  sombra dos senhores de engenho, diz Roger Bastide. As minas, ao contrrio, se impulsionaram pela autossuficincia, o autonomismo e a insubmisso. Os mineiros vivem num Estado cercado de serras, do tamanho da Frana, e so conhecidos como o povo montanhs. Tem uma identidade regional distinta que remonta s razes do sculo XVIII (Minas Gerais  O fiel da balana  1889/1937, John Wirth, Paz e Terra, 1982).  ainda do brazilianist John Wirth a observao de que todos os Estados brasileiros so criaes polticas mas nenhum tem a variedade de paisagens que constitui o patrimnio singular de Minas Gerais. As fronteiras do Estado no definem uma regio geopoltica coerente. Refletem, antes, a convenincia colonial portuguesa, isto , seu desejo de isolar Minas Gerais desde a primeira corrida do ouro do mundo moderno, de 1690 a 1740. A povoao da regio das minas  acelerada, sob o impulso da descoberta e pesquisa de ouro e pedras preciosas. Nas minas a povoao  rpida como tambm  veloz o atingimento de vida urbana compatvel com os grandes centros da poca. Revela-se a Serra do Espinhao como aurfera, principalmente em sua extenso sul. Dela correr o ouro para o Rio das Velhas e os riachos que abasteciam sua bacia hidrogrfica e que se tornaro o principal meio geogrfico de penetrao territorial. 
De 1500 a 1822, data da Independncia, foram criadas em todo Brasil 220 Vilas (ttulo de reconhecimento de cidade concedido pela Coroa Portuguesa), das quais perto de uma centena estavam na regio aurfera, mais da metade destas surgidas no sculo XVIII. Explica-se o fato de Minas Gerais ter hoje 853 municpios e perto de cinco mil povoados e distritos. Nos primeiros anos do sculo XIX, So Paulo tinha cerca de 150.000 habitantes e Minas j tinha 500.000. A transferncia de populao se faz em poucos anos, difundida a notcia dos primeiros descobrimentos nos ltimos anos do sculo XVII. Charles Boxer (Idade do ouro do Brasil, 1969) diz que durante os primeiros 60 anos do sculo XVIII a corrida do ouro provocou a vinda, de Portugal, de aproximadamente 600 mil pessoas, em mdia anual de 8 a 10 mil. Em 1709 estima-se que 30 mil pessoas estavam ocupadas em atividades mineratrias, agrcolas e comerciais na regio aurfera. 
Passados os primeiros anos, a regio mineradora produz trs ncleos de ocupao razoavelmente definidos: o primeiro constituindo uma regio em que se incluam Vila Rica, Mariana, Sabar, Santa Brbara, Baro de Cocais, Caet, Santa Luzia, Itabira e Moeda; outra compreendendo So Jos del-Rei, hoje Tiradentes, e So Joo del-Rei e povoados menores como Prados. Ritpolis, Lagoa Dourada, Resende Costa, So Brs do Suau e Congonhas; e outra, mais distante, compreendendo Conceio do Mato Dentro, Serro, Diamantina, Minas Novas. E muitos povoados, antigos arraiais. Estas regies so entrecortadas por caminhos antigos e, embora mantenham suas caractersticas gerais, vo apresentando algumas diferenas na arquitetura e nos traos sociais, como ainda hoje se observa. Nas minas, e de maneira marcante na regio do Tripu, Vila Rica e Ribeiro do Carmo (hoje Mariana), faz-se a confluncia cultural de todas as raas que ali aportaram e como sugere e exige a sua prpria posio geogrfica central.
Passados os primeiros anos de fixao das vilas, de marcada desorganizao social, prpria da busca ambiciosa da fortuna imediata e fcil, sucede o estabelecimento de uma sociedade j com os contornos da vida urbana integrada.  de Antonil (Cultura e opulncia do Brasil, Andr Joo Andreoni, 1711), que ter visto Vila Rica com os prprios olhos, a afirmao: Sobre essa gente, quanto ao temporal, no houve at o presente coao ou governo algum bem-ordenado e apenas se guardam algumas leis que pertencem s datas e repartio dos ribeiros. Aventureiro por imposio da prpria atividade que o trouxera quela terra e o obrigava sempre a ocultar o produto de sua descoberta dos competidores e do fisco, introvertido e desconfiado, escondendo o arrojo subjacente  sua personalidade de pioneiro e desbravador, o homem das minas enfrentava ainda outras dificuldades prprias da geografia mineira, as montanhas, quase sempre escarposas, algumas de difcil transposio e dificultadoras tambm da prpria atividade mineratria. Introvertido por esperteza, mas de ouvido atento, aventureiro porque sempre em busca de novos veios de ouro, o mineiro  desconfiado por decorrncia da prpria luta pela sobrevivncia e poltico por necessidade de estar informado dos fatos e ocorrncias bem como dos ordenamentos pblicos relativos  repartio da terra, fiscalizao e tributao.
E, sobretudo,  homem da montanha, naturalmente mais cuidadoso ao andar, evitando os precipcios. E sua vida, rude e isolada, o obrigava a ter na mo de obra escrava mais do que servial mas o companheiro de trabalho do qual dependia em um nvel elevado de lealdade em razo da prpria natureza do trabalho comum. No h, nas Minas, a grande oposio entre o senhor e escravo ocorrida, por exemplo, nos engenhos de acar. Minerador, homem das montanhas,  obrigado a certos comedimentos e a ser convivente com seus escravos. Esses condicionantes, aqui colocados de maneira sucinta, marcam indelevelmente o tipo psicolgico do mineiro e so reconhecidos como traos de personalidade inconfundveis herdados de sua formao histrica. Capitania e Provncia, Minas contribui mais que qualquer outra regio para a exaltao dos sentimentos nativistas e a aspirao da Independncia por razes decorrentes de sua origem e luta pela sobrevivncia.  farta a literatura que procura distinguir um carter singular dos mineiros. 
Nelson de Sena, na Coreografia do Estado de Minas Gerais, de 1922, inaugura o tema: Foram sempre os mineiros gente conservadora de tradies e de hbitos, aferrados  terra e ao lar, temente a Deus e  lei, de poucas e descansadas falas e nenhuns amores pela exibio e patacoadas... No meio desta aparncia moleirona e aptica, repassada de uma certa astcia inata, so os mineiros, em geral, escravos fiis da palavra empenhada, destemerosos opositores do despotismo, amigos leais da ordem, extremados na defesa de sua f religiosa, da honra de seus lares e da independncia de suas crenas polticas. O tempo passa e muda esteretipos mas ainda  possvel identificar no mineiro tradicionalista, especialmente nas cidades interioranas e nas atividades rurais, estes traos distintivos dos mineiros, resultado de pouco mais de trs sculos contados desde o incio do povoamento do territrio. Distinta do senhor de engenho, a figura do senhor de minas de ouro ou pedras  fundamental  afirmao das cidades e o desenvolvimento de sua vida social e econmica.  ele que presidir o ordenamento das novas relaes sociais, sempre e fundamentalmente conspirando contra a administrao colonial, inepta e casustica at na represso.  questo interessante na Histria Colonial Mineira a apropriao vultosa realizada pelas muitas fortunas que se fizeram no perodo de maior produo aurfera, possibilitando a expanso urbana e o investimento em edificaes de maior porte e valor arquitetnica e artstica. Diz-se que os mineiros, perante o fisco real, aprenderam a falar nas entrelinhas e as elites a praticar a ostensiva conciliao, procedimentos herdados destes tempos em que a apropriao de alguma riqueza, subtrada da ganncia da corte colonizadora, exigia esses subterfgios e disfarces de conduta. Fbio Lucas diz que O mineiro foi-se formando tangido pela astcia da ocultao. O cerco fiscal levou-o a esconder sua fortuna ou as exteriorizaes de riqueza. 
A vigilncia social estimulou de um lado a delao e, de outro, a reserva. A poltica fiscal-cezarista do Absolutismo portugus entrou em conflito com variados interesses gestados na dinmica da produo aurfera e do sistema financeiro que a suportava (Luzes e trevas  Minas Gerais no sculo XVIII, Humanitas, 1998). A Inconfidncia Mineira, que teria envolvido muitos mais pessoas do que os condenados, ampliou a conduta reservada, precavida, ao p do ouvido, pouca conversa, embora sempre atenta aos fatores e novidades. O trao libertrio/conspirador  decorrncia natural desta situao de imanente conflito e que ter na Inconfidncia, em 1789, seu ponto alto. Tornaram-se conspiradores padres, militares, comerciantes, funcionrios graduados e os mais abastados da Colnia e, sobretudo, os intelectuais e artistas, cujo Iluminismo forneceu o suporte ideolgico s aspiraes de autonomia. Este conflito torna-se concreto logo nos primeiros anos, com a Guerra dos Emboabas, depois com a sublevao de 1720 contra o quinto do ouro e as casas de fundio e a execuo de Felipe dos Santos, e em muitos outros episdios de motins e revoltas, ocorridas durante todo sculo XVIII em quase todas as regies da Capitania. O grande interesse de Portugal na Capitania e sua constante rebeldia faz com que seja instalado um aparato judicirio, com quatro comarcas, em Vila Rica, Rio das Mortes, Sabar e Serro, enquanto e outras capitanias criou-se apenas uma comarca. 
Pode-se dizer que a estrutura social era relativamente simples. Os brancos podem ser divididos entre a nobreza local, em sua totalidade funcionrios da Coroa e militares e os mais abastados concessionrios de minas e grandes comerciantes. Desde logo criou-se uma sociedade com uma classe mdia de homens livres, entre brancos e mulatos que exerciam as profisses de ofcios. Significativa  a presena, desde muito cedo, de homens de cor j livres, fator certamente decorrente do tipo de atividade econmica, que  a busca relativamente livre da extrao mineral nos primeiros anos, levando a uma razovel distribuio da riqueza local. 
Na segunda metade do sculo ocorre transformao na economia mineira. A minerao em decadncia expulsa populao para outras regies, em busca de sobrevivncia em terras mais frteis. A Capitania, excludos os ndios, era superior a 300 mil habitantes e o nmero de escravos era equivalente ao de brancos, em vrios momentos. A sociedade era uma mistura de raas: novos emigrantes brancos, segunda e terceira gerao de brancos nascidos na Capitania, de novos escravos e os nascidos em cativeiro, os pardos e mulatos j constituindo um segmento libertos presentes nos novos estamentos sociais, alguns j ocupando cargos burocrticos, os grandes proprietrios morando nas cidades ou fazendas, tudo isto compondo um quadro de aparente mobilidade e elasticidade social, pois prevaleciam restries de cor especialmente para a frequncia em igrejas e irmandades, constitudas por categorias raciais e econmicas.
Merece meno a publicao Uma viso sobre as enfermidades dos negros, em 2019, do mdico e estudioso da Histria da Medicina, Geraldo Barroso, que relata ter existido em Vila Rica, por volta de 1801, uma pioneira escola de medicina, organizada e ministrada pelo cirurgio Antnio Jos Vieira de Carvalho, formado em Portugal, que chegara  cidade em 1779 como mdico-militar do Real Hospital Militar de Vila Rica, que atendia o Regimento de Cavalaria Regular da Capitania. Trazido para Vila Rica pelo governador Rodrigo Jos de Menezes, o mdico obteve autorizao, a 17 de junho de 1801, do regente de Portugal, Dom Joo, para ministrar aulas de Anatomia, Arte Obstetrcia e Cirurgia e que funcionou por muitos anos, com presena de outros professores. Ser mais um pioneirismo da Minas colonial no ensino da Medicina no Brasil, que ocorre sete anos antes da criao das duas primeiras escolas de Medicina no Brasil, a primeira a 18 de fevereiro de1808, na Bahia, em Salvador e, a segunda, no mesmo ano, no Rio, por atos de Dom Joo VI.
Em Desclassificados do ouro, de 1982, Laura de Mello e Souza desfaz o mito de que as regies mineradoras e, de modo especial, Vila Rica, viveram uma espcie de esplendor, com a riqueza do ouro mas, em grande medida, um falso fausto. Para ela a riqueza foi enganadora e foi apangio de poucos, e teria sido consagrada pela ritualizao do barroco da opulncia. Se a sociedade de ento enriqueceu alguns, criou, no entanto, um enorme contingente de desclassificados sociais, pobres, sem profisso e atividade certa, analfabetos, perambulando pela regio, negros sem pouso, criminosos, levando as cmaras municipais a pedir constantes providncias para conter abusos, crimes, agresses e roubos. 
A antiga tese da passividade dos negros, mesmo quando submetidos a maus tratos, se desfaz em pesquisas mais atuais: registra-se que nos sculos XVIII e XIX, a ocorrncia de muitas revoltas dos negros e que, entre 1711 e 1798, existiram em Minas cerca de 126 quilombos (A negao da ordem escravista, Carlos Magno Guimares, 1986). O maior deles, o Quilombo do Ambrsio, na regio de Ibi, durou vrios anos. lvaro da Silveira, em Narrativas e Memria, de 1924, informa que localizou, entre Ibi e So Gotardo, vestgios do quilombo, ruinas, valas e trincheiras. E relata que no local existia o Povoado do Quilombo e um crrego chamado Quilombo do Ambrsio. O Quilombo foi destrudo em 1746 por ordem do governador Gomes Freire de Andrade (Negros e quilombos em Minas Gerais, Waldemar de Almeida Barbosa, 1972. Pesquisas posteriores tem concordado com esta localizao. Estudos mais recentes vem destacando que a mo de obra escrava exerceu misso social e econmica fundamental, em ofcios alm da minerao, como carpinteiros, mestres de oficina, pedreiros, calafates, barbeiros, ourives, ferreiros, cozinheiros e como fabricantes de acar, cachaa, sapateiros, condutores de animais, alfaiates. 
A minerao, a princpio a cu aberto, rios e riachos, que recolhiam a eroso provocada por chuvas e ventos das montanhas, mas logo depois nos tuneis cavados nas rochas tambm pelo brao humano, usou intensa e majoritariamente a mo de obra escrava. Roberto Martins, no seu extraordinrio livro Crescendo em silncio  A incrvel economia escravista de Minas Gerais no sculo XIX, republicado em 2018 com novas pesquisas e desenvolvimento da sua tese basica, nos d dados da presena de escravos na Capitania nos sculos XVIII e XIX. Em 1717, cita o autor, a Capitania tinha uma populao escrava de 33 mil pessoas, nmero que aumenta gradativamente a cada dcada, alcanando 96.541 em 1735 e 188.941 em 1786, quando a extradio do ouro j reduzira. Outro interessante quadro mostra que em 1819 Minas Gerais liderava no Brasil o nmero de escravos, com 168.543, enquanto a Bahia, segunda em populao negra, tinha 147.263 escravos. Em quase todo o perodo analisado, em Minas, sobretudo, a populao branca excedia em pequeno nmero a populao negra e os chamados pardos. 
Interessante  que em 1872, oito anos antes da abolio, pela mesma estatstica, Minas tinha 306.425 escravos, argumento utilizado por Roberto Martins para sustentar sua tese de que a agropecuria, o caf e a economia centrada nas fazendas, contraria a tese amplamente divulgada pela historiografia de que Minas apresentava, aps o Ciclo do Ouro, extrema pobreza. A mo de obra escrava localiza-se majoritariamente nas fazendas e em pequenos negcios intermedirios, oficinas, fbricas de ferro e ferramentaria, servios urbanos na construo e domiciliares.  importante lembrar que o Brasil foi um dos ltimos pases a abolir a escravido, o que ocorre somente m 1888, resistindo mesmo s proibies do trfico negreiro por vrios atos governamentais e atitudes de outros pases, especialmente a Inglaterra.
Levantamento de 1776, citado por Tarqunio Jos Barboza de Oliveira e Kenneth Maxwel, atribudo a Jos Joaquim da Rocha, autor de pesquisas demogrficas e de mapas da Capitania, tidas como as mais fidedignas, mostram que a populao total era de 309.769 pessoas. Vila Rica tinha 78.616 pessoas, sendo 49.7889 homens e 28.829 mulheres. Da populao total, 7.847 eram homens brancos, 7.891 pardos e 33.961 pretos. Haviam 28.829 mulheres, sendo 4.832 brancas, 8.810 pardas e 15.187 negras. Sabar era a comarca mais populosa, com populao de 99.567l pessoas, sendo 60.366 homens e 39.210 mulheres. Os negros somavam 17.011 da populao branca masculina e, entre as mulheres, 5.746 eram brancas, 16.725 pardas e 16.239 negras. 
Sylvio Vasconcellos diz que a minerao extensiva, no contrabalanada por vrias atividades agrcolas ou pastoris; o isolamento da rea para melhor controle da produo aurfera; as sucessivas revoltas populares contra a administrao real; a debilidade e tergiversao desta, limitao do nmero de escravos destinados a uma mesma explorao e a promiscuidade entre brancos e negros, promovida pelo tipo de trabalho que cumpriam e a escassez de mulheres brancas, levaram  formao de uma sociedade eminentemente urbana, aberta, liberal e progressiva. E de cor morena.
De grande importncia antropolgica  o caldeamento racial ento ocorrido.  certo que, nesse ambiente mineiro, ocorreu o delineamento do homem brasileiro, com franca insero social e formao de uma classe mdia majoritria, com a predominncia do mulato, tipo novo, que no se formara da estrutura social vigente no Nordeste e Norte da Colnia, onde a sociedade era discriminatria, fechada e conservadora, caracterstica da grande propriedade rural ou da sociedade setorizada, que distanciava racial e economicamente os extremos branco e negro. Hoje, a historiografia nacional de carter sociolgica e interpretativa, e no s as correntes de pensamento expressas nas obras de Gilberto Freire (Casa grande e senzala, Sobrados e Mocambos), Viana Moog (Bandeirantes e Pioneiros) ou Buarque de Holanda (Razes do Brasil), situa neste tipo de sociedade que se formou nas reas de minerao a existncia dos fatores determinantes da origem do mulato, de pele morena, mas no s distinto pela colorao epidrmica como por traos psicolgicos especficos, singularmente decorrentes da situao em que se originou e formou, entre eles a criatividade artstica. 
Nas primeiras cidades do Ciclo do Ouro formam-se tambm as classes mdias, artesos, pedreiros, pintores, entalhadores e mestres de cantaria, serralheiros, bombeiros, msicos e homens prticos, indispensveis  vida urbana e  manuteno do casario e servios pblicos bsicos, atendendo s demandas da vida coletiva e urbana.
A historiografia contempornea vem enfatizando um novo perfil da tipologia humana das sociedades coloniais brasileiras. A vinda de africanos, em grande nmero, criar uma sociedade negra e morena tambm nos grandes centros da colonizao espanhola, especialmente Mxico e Peru, assim como Salvador, no Brasil, desde os primeiros anos da ocupao colonial. A colonizao do Novo Mundo inaugura tambm a experincia da africanizao da mo de obra em grande escala. Na Amrica Portuguesa, vilas e cidades do litoral, tais como Olinda e Recife, Rio de Janeiro, Belm, So Lus, as do Recncavo Baiano e as reas de minerao, principalmente as de Minas Gerais, Mato Grosso e Gois, tambm conheceram, umas mais do que as outras, essa africanizao e essa hibridao intensas, movimento de dimenses incomparveis na poca moderna (Escravido, mestiagem e histrias comparadas, Eduardo Frana Paiva e Isnara Pereira Ivo, organizadores, Edies UESB, 2008). 
Dizem estes autores que nestas regies desenvolvem-se as prticas da populao negra e mestia por trs sculos: festas, associaes religiosas, cultos tradicionais e mesclados, ritmos, comidas, tcnicas, lnguas e saberes os mais diversos circularam intensamente. E ainda: Reis negros foram eleitos nestas cidades, mulheres africanas e mestias dominaram o pequeno comrcio de alimentos nas ruas e vendas, ocorreu mobilidade social e ascenso econmica, tcnicas de minerao e de fundio inalteradas ou adaptadas foram empregadas, alimentos e remdios foram traficados, explorados ou aclimatados, alforrias e coartaes foram conquistadas pelos escravos. Ocorre tambm uma reviso importante quanto  participao de negros e mulatos na criao artstica que resultou no surto cultural de Minas nos sculos XVIII e XIX. Ocorreu um silncio quanto  participao escrava e forra nos primeiros estudos e publicaes sobre a produo artstica e patrimonial, mesmo quando o foco fosse uma sociedade escravista em que o mundo do trabalho era quase exclusivamente dominado pelos escravos. O tema da escravido e condies de vida da populao negra desperta maior interesse da historiografia mais recente. Exemplo alusivo est em No serto das Minas  Escravido, violncia e liberdade (1830-1888), de Alysson Luiz Freitas de Jesus, de 2007. 
O prprio Sylvio de Vasconcellos (Vida e obra de Aleijadinho, Brasiliana,1979), arquiteto e historiador emrito, diz que O Brasil, at o sculo XVIII, era integralmente e s portugus (....) portuguesa era a maioria da populao pondervel, os usos e costumes, as ferramentas e o modo de ser da colnia. Com ressalva para Antnio Francisco Lisboa, filho de portugus branco com escrava negra, bem como os msicos mulatos, revelados no sculo XX, que eram os nicos destacados na historiografia. Igualmente no se identificava na ornamentao das igrejas quaisquer elementos de origem africana, mesmo nas de devoo negra, exceo para a Igreja de Nossa Senhora do Rosrio e Santa Efignia do Alto da Cruz, em Ouro Preto, onde bem recentemente se vem identificando alguns smbolos africanos, de origem Iorub, como cascos de tartarugas, bzios e de flora. E as imagens de santos e demais aluses so negras. O que se explica, historicamente, tambm pela origem da igreja, que revela ter sua construo originria de um conflito com a Igreja do Padre Faria, de devoo tomada pelos brancos. E at hoje a histria-lenda de Chico, rei na frica, se liberta em Vila Rica, descobre a Mina da Encardideira, hoje aberta  visitao, e recria seu reinado com um squito que o acompanhava  Igreja. 
Citaes relativas  participao escrava e africana s aparecem na historiografia sobre a produo artstica mineira aps a comemorao do centenrio da Abolio, com destaque para o trabalho das historiadoras da arte Cristina vila e Maria do Carmo Andrade Gomes, que comentam a insuficincia de estudos sobre a participao dos negros no Barroco Mineiro, embora sua influncia se faz notar nos prprios domnios da arte, da msica e da literatura. Para as autoras, a produo artstica mineira esteve submetida, por um lado aos cnones estticos dos modelos eruditos europeus e por outro teve seu contedo rigidamente ordenado pelos preceitos da Contrarreforma Catlica (O negro no Barroco Mineiro: o caso da Igreja do Rosrio de Ouro Preto, Cristina vila e Maria do Carmo Gomes, 1988).
 questionada, na atualidade, a opinio dominante entre os pioneiros historiadores, que nas obras artsticas e arquitetnicas o domnio sempre foi dos brancos, mestres e oficiais reinis, restando aos negros e mestios a atuao como auxiliares para as tarefas mais rduas e mais simples. Wilson Martins, na sua extraordinria Histria da Inteligncia Brasileira (Volume I  1550 a 1794, Ed. Cultrix, 1972), diz que a afirmao do mulato como fora intelectualmente e artisticamente criadora no significa que houvesse desaparecido o preconceito social inseparvel de uma sociedade escravocrata mas revela indiretamente uma modificao profunda que seria incorreto ignorar. E mais: Com efeito, no se trata de uma ascenso do mulato e sim da ascenso do brasileiro. Alm disto, esses mulatos, livres e salariados, prenunciam uma sociedade em que a conscincia econmica, como fator mental, faz a entrada.
Martins, na anlise deste processo social, afirma que a terceira fase do processo ser marcada justamente pela gerao do Aleijadinho e ser aquela em que a superioridade social, e certamente econmica, do branco, comea a ser contrabalanceada pela superioridade intelectual e artstica do mestio ou, mais precisamente, aquela em que todos, identificados pelo contato emotivo do grande teatro de Deus que  a igreja barroca, comeam a ter conscincia obscura de sua solidariedade essencial. E conclui: O processo sociolgico que a figura do Aleijadinho pode simbolizar de forma magnfica no  o da ascenso do mulato;  a constituio, quela altura perfeitamente caracterizada, de uma nova raa histrica e, por isso mesmo, de uma nao com a clara conscincia de si mesma.
German Bazin, diretor-conservador do Louvre de Paris, que visitou Ouro Preto pela primeira vez em 1945 e conheceu o acervo artstico deixado pelo sculo XVIII, com especial dedicao ao estudo da vida e obra de Antnio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, pesquisando as razes do temperamento barroco do mulato, nos diz: Tornada instvel pelo choque de sangue, a alma destes mestios est sujeita aos impulsos mais contraditrios. De temperamento apaixonado, so levados  fantasia,  sensualidade e a um misticismo grosseiro, alimentado pela superstio. Isto tudo para a atmosfera barroca de Minas no sculo XVIII  os negros e os mestios no eram os ltimos a animarem as ruas com espetculos que, entre eles, tomaram uma forma particularmente estrepitosa e ruidosa. Os mulatos demonstram talento e criatividade artsticas, com presena destacada em todas as aes, obras, iniciativas e criaes que vo integrar o imenso acervo artstico do esplendor do Ciclo do Ouro.
O surgimento e ascenso social do mulato corresponde ao nascimento da sociedade colonial, como fora e expresso de poder e grupo social organizado.  neste momento que ocorre fragmentao do status at ento existente entre o poder reinol metropolitano e os grupos econmicos nascentes na Colnia, assinala Fritz Teixeira de Salles (Vila Rica do Pilar, 1982) na sua busca das origens da conscincia nacional na obra literria brasileira setecentista.  por essa poca que a Corte comea a restringir o poder municipal das Cmaras, at ento de acesso restrito aos homens bons da vila.  que a harmonia social, do ponto de vista e do interesse da Coroa, tinha at ento base na ordem econmica, de caracterstica nitidamente feudal, estruturada a partir do senhor de engenho e a mo de obra escrava, bipolaridade rigorosa do Ciclo do Acar. A sociedade minerria exige categorias econmicas diversas e diferenciadas, propicia a formao do mercado produtor e consumidor de bens intermedirios. Surge, ento, uma nova classe social, de homens livres, artesos e profissionais prestadores de servios bsicos e tambm comerciantes, em sua maioria, que altera o equilbrio de foras do rgido e dualista regime que tinha base na economia rural.
O componente indgena no conjunto racial dos dois primeiros sculos mineiros merece reconhecimento. At meados do sculo XIX as populaes indgenas eram vistas como inimigas. As tentativas de escravizar ndios eram difceis pela prpria herana cultural. Calcula-se que em Minas existiam cerca de 80 tribos, com populao calculada em 400 mil. E os remanescentes, em nossos dias, sobrevivendo em condies precrias, no passam de 15 mil, segundo dado do IBGE, reconhecidos pela Funai. Os grupos existentes so: Krenak, na regio de Resplendor, no Leste do Estado, os Maxacali, em Ladainha, Tefilo Ottoni, Bertpolis e Santa Helena de Minas, no Vale do Mucuri, os Pankararu, em Araua e Coronel Murta no Vale do Jequitinhonha, os Patax, em Carmsia, Senhora do Porto, Guanhes, Aucena, Governador Valadares, no Vale do Rio Doce e em Itapecerica, no Centro-oeste, os Xacriab, em So Joo das Misses e Itacambari, na regio Norte, os Xukuru-Kariri, numa fazenda da Funai, em Caldas, no Sul, os Kaxix, em Martinho Campos e Pompeu, na Regio Central. Os Aran, em Coronel Murta, os Aran-Caboclo, tambm em Coronel Fabriciano, os Mucuri, em Campanrio. A Funai reconhece outros grupos menores, sem dados atuais, como os Pataxs em Bertpolis, os Tux, em Pirapora, os Awa-Katur, em Arax e Uberlndia. Pode-se dizer que as condies de vida destes grupos remanescentes, bastante precrias, indicam um processo de extino em curso. 
A ocupao territorial de Minas, nos anos finais do sculo XVIII, encontrou feroz resistncia dos ndios botocudos, do Vale do Rio Doce. Dom Joo VI, logo aps a chegada ao Brasil, assinou no dia 13 de maio de 1808 Carta Rgia, pedida pelo governador da Capitania, Pedro Maria Xavier de Atade e Melo, determinando o uso de tropas do Regimento Regular de Cavalaria de Minas para impedir invases praticadas pelo botocudos, descritos como antropfagos. A Carta diz que os ataques no s devastam todas as fazendas naquelas vizinhanas como tambm os indgenas passam a praticar as mais horrveis e atrozes cenas de brbara antropofagia, ora assassinando os portugueses, ora dilacerando os corpos e comendo seus tristes restos (Legislao indigenista no sculo XIX, 1808-1889, Manuela Carneiro da Cunha, 1992).
Na atualidade, como atrativos tursticos e culturais de Minas, adquirem fama e reconhecimento duas prticas herdadas da diversidade da formao mineira: a culinria, resultante de uma rica e variada cozinha, e o folclore, com as suas excepcionais manifestaes nos diversos ramos da cultura popular. As matrizes culinrias portuguesa, afro-brasileira, indgenas e de migraes de vrios povos, conferem a Minas uma apreciada cozinha, de fama internacional, que se apresenta hoje nas melhores mesas e que retoma presena nas casas tradicionais. Entre as iguarias de fama internacional o queijo e a cachaa mineiros, com premiaes internacionais e um avano e sofisticado preparo.
A cultura popular, nas expresses de um riqussimo folclore, apresenta variedade, criatividade, singularidades e muitas matrizes regionais e no uso de diferentes materiais. E mantm vivas tradies e prticas relativas aos modos de viver, as festas e celebraes, a religiosidade e crendices, o artesanato, cnticos e danas, as heranas africanas dos grupos de congadas e folias, os folguedos, a medicina popular. Fundada em fevereiro de 1948, por grandes nomes da cultura mineira, como Ayres da Matta Machado Filho, Nelson de Sena, Antnio Joaquim de Almeida, Lcia Machado de Almeida, Francisco Incio Peixoto, Henriqueta Lisboa, Joo Camilo de Oliveira Torres, Saul Alves Martins, Tabajara Pedro e muitos outros, a Comisso Mineira de Folclore mantm-se ativa com reunies, palestras, livros e revistas, divulgando e registro manifestaes de diversas regies do Estado. Entre seus presidentes, em tempos atuais, destacam-se Antnio de Paiva Moura, Domingos Diniz, Sebastio Rocha, Carlos Felipe Marques Horta, Jos Moreira de Souza.
