O mineiro, das minas, montanhas e da f
Entre os estudos relativos  formao de Minas Gerais, encontra-se comumente a indagao: O que  ser mineiro? H um jeito de ser que  distinto ou prprio entre as pessoas que vivem em Minas? Esta indagao ainda persiste entre os estudiosos da Histria de Minas com relao aos grupos humanos e sua sociedade que, h pouco mais de trezentos anos, ocuparam pioneiramente o territrio central do Brasil-Colnia. A resposta ocupou mais a literatura dos que os estudos da antropologia. Mas ocorre, nos ltimos 30 anos, o surgimento de uma historiografia, com viso ampliada sobre a trajetria mineira, estimulada pela vertiginosa expanso da pesquisa acadmica, sob nova orientao cientfica e amparada nos modernos meios eletrnicos, com uma fecunda nfase na Histria Social.
E que vem elaborando um conhecimento mais transversal e multisetorial da sociedade que se desenvolve logo aps a fundao dos primeiros arraiais, nos ltimos anos do sculo XVII. A Histria Colonial mineira, antes com enfoque factual, amparada nos fatos polticos e econmicos com viso impressionista, expande-se hoje para a vida social cotidiana, abrangendo o universo cultural e familiar e alcanando a vida privada. Nas ltimas trs dcadas do sculo XX so muitas as publicaes que conferem  Histria de Minas novas vertentes e dimenses elucidativas e enriquecedoras. Mas essa transversalidade no revoga, antes refora em vrios momentos, a tese, expressa por vrios autores, que a busca interpretativa dos traos sociolgicos e antropolgicos encontrados em Minas e nos mineiros, ao longo do nosso percurso histrico, na Colnia, no Imprio e na Repblica, alcanando os nossos dias, deve ser feita, precipuamente, no sculo XVIII e na sua primeira metade. Encontram-se, neste perodo, as razes da formao social e da subcultura regional.  a Minas geratriz, de Guimares Rosa, representada pelas cidades histricas, surgidas das primeiras ocupaes territoriais geradas pela busca do ouro e pedras preciosas. E ainda  possvel encontrar, nos ncleos de formao histrica mais antiga, ou naqueles mais preservados e ainda um tanto imunes  massificao padronizadora, os traos da velha Minas.
Em A est Minas: a mineiridade, Guimares Rosa detalha sua expresso: Minas geratriz, a do ouro, que evoca e informa, e que lhe tinge o nome; a primeira a povoar-se e a ter nacional e universal presena, surgida dos arraiais de acampar dos bandeirantes e dos arruados de fixao do reinol, em capitania e provncia que, de golpe, no Setecentos, se proveu de gente vinda em multido de todas as regies vivas do pas, mas que, por conta do ouro e dos diamantes, por prolongado tempo se ligou diretamente  Metrpole de alm-mar, como que atravs de especial tubuladura, fluindo apartada do Brasil.
Rosa prossegue: A que via geral se divulga e mais se refere  a Minas antiga, colonial, das comarcas mineradoras, toda na extenso da chamada Zona Mineralgica, a de montes de ferro, cho de ferro, gua que mancha de ferrugem e rubro a lama e as pedras de crregos que do ainda lembrana da forma mulher subterrnea que era a Me do Ouro, deparada nas grupiaras, datas, cavas, lavras, bocas de serra,  porta dessas velhas cidades feitas para e pelo ouro, por entre o trabeculado de morros, sob picos e atalaias, aos dias longos em nevoeiro e friagem, ao sopro de tramontanas hostis ou ante a fantasmagoria alva da corrubiana nas faces de soalheiro ou noruega, num mbito que bem congrui com o peso de um legado severo, de lstimas avaliadas, grandes sinos, agonias, procisses, oratrios, pelourinhos, ladeiras, jacarands, chafarizes realengos, irmandades, opas, letras e latim, retrica satrica, musas entrevistas, estagnadas ausncias, msica de flautas, poesia do reesvaziado  donde de tudo surge um hbito de irrealidade, hbito do passado, do mais longe, quase um esprito de runas, de paradas aventuras e problemas de conduta, um intimativo nostalgir-se, a melancolia que coerce, que vem de nveis profundos. E persistem os esteretipos do mineiro e da mineiridade, como Minas  a alma do pas, Minas  o ponto de equilbrio da Repblica, Minas  o centro. Ou, ainda, que os mineiros so conciliadores, discretos e espertos. O mineiro, sobre o que h ampla concordncia, so montanheses e por isto, como  da natureza destas pessoas,  mais fechado, mais contido mas tambm um tanto atrabilirio (Sentido e sentimento de Minas, Joo Paulo Cunha, 2018).
Com territrio de 588.384 km, divididos entre 853 municpios e cerca de 5 mil povoados, arraiais e distritos, resultantes da colonizao nmade da minerao e a agropecuria, com populao de 21.119 mil habitantes em 2020 (FJP/IBGE), Minas Gerais  um Estado mediterrneo, com algumas barreiras naturais separando-o de outros Estados, como cadeias de montanhas  a Mantiqueira, ao sul, nas divisas de Minas com So Paulo e Rio, e o Capara, a leste, na divisa com o Esprito Santo. Ou os rios que nascem em suas terras altas, como o Grande e o Paranaba, que fornecem os limites sul e norte do Tringulo Mineiro at que se juntam para formar o Paran na ponta do Tringulo; o Carinhanha, que traa a fronteira com Gois e Bahia,  esquerda do So Francisco, e os rios Verde Grande e o Verde Pequeno,  direita do So Francisco, completando a divisa com a Bahia. O So Francisco, que nasce na Serra da Canastra, no Tringulo,  o maior rio interior brasileiro e define a cultura e a geoeconomia de vasta regio, especialmente o Norte de Minas. Sua bacia drena as guas de 40% do territrio mineiro e sua calha tem 1.135 km de extenso no Estado. Completam o grande potencial hdrico mineiro os rios Grande, Paranaba, Doce e Jequitinhonha, drenando 80% das guas do Estado. Influncias socioeconmicas e culturais diferenciais exercem o rio Jequitinhonha, que d nome e cultura a toda uma imensa regio e, em menores dimenses, o Urucuia, a nordeste, e o Doce, a leste. Esses elementos naturais definiram as fronteiras de Minas, em geral nas dcadas finais do sculo XVIII, quando a fuga da minerao avana nas conquistas territoriais e amplia o mapa territorial mineiro.
Como espinha dorsal de Minas, a Serra do Espinhao, nome que lhe deu o Baro de Eschwege em 1816, escarposa a oeste e ondulada a leste, corta centralmente todo o territrio do Estado e serve como elemento de ligao dos trs principais biomas: o cerrado, no poente; as elevaes cobertas pela Mata Atlntica, no nascente, e uma pequena extenso de caatingas, ao norte. No cerrado, a subcultura dos campos rupestres no Centro-sul, por sobre as terras ferruginosas e de quartzito. Cada um desses biomas tem sua fauna e flora, com ciclo prprio de vida, compondo a rica biodiversidade natural de Minas Gerais, propiciando ocorrncias e paisagens singulares para o visitante interessado. Em 2005, a Unesco conferiu  Serra do Espinhao, de Ouro Preto a Diamantina, o ttulo de Reserva da Biosfera por sua especificidade geogrfica e variedade de flora. Publicao da Fundao Biodiversitas, de 2005, apresenta um mapa sntese com um total de 112 reas consideradas no s de alta prioridade para a conservao da biodiversidade de Minas, mas, por suas expresses temticas, como raridade, importncia biolgica de fauna e flora, necessidade de preservao permanente, entre outras.
Centro geogrfico do Brasil, Minas tem nesta condio natural, fatores importantes na definio da sua presena na Histria Nacional, conforme nos diz Nelson de Senna, na sua Corografia do Estado de Minas Gerais: Neste territrio, constitudo por um conjunto de plats, mais ou menos elevados e pelos quais se desenvolve uma srie de vales amplos, com ondulaes variveis de terreno, do alto de cujos cimos e montanhas se descobre a mais bela e uniforme paisagem natural, est o centro geogrfico do Brasil. Pois pelas vertentes a que pertencem os rios mineiros se liga o territrio de Minas aos Estados irmos do extremo sul da Repblica e s vizinhas naes platinas, atravs da bacia amplssima do Paran; e ao nordeste brasileiro, vinculando-nos at ao remoto Piau, nos prende a vasta caudal do So Francisco  rio e vale essencialmente brasileiros  que corre dos pramos da Cascata dAnta no oeste mineiro, ao seu desaguadouro final da Barra do Penedo, em costa alagoana, enquanto que para beira-mar descem, para a costa fluminense e para os litorais capixaba e baiano, as guas do Pomba e do Paraibuna; e mais para o norte rolam as guas do Rio Doce, do Jequitinhonha e do Rio Pardo. Os elos granticos e contnuos dos sistemas orogrficos irradiam de Minas para os quatro pontos cardeais do pas outros tantos braos de cadeias montanhosas que cimentam a fraternidade brasileira, na independncia do meio fsico em que vive a populao mineira.
Tanto quanto o Espinhao, a Serra da Mantiqueira tem papel fundamental na colonizao e formao de Minas Gerais. Obstculo vencido pelos bandeirantes, que j haviam ultrapassado a Serra do Mar, ela modelou os caminhos de penetrao e de fixao, ao tempo da corrida pelo ouro. Com extenso de aproximadamente 500 km, dos quais 60% em Minas, a Mantiqueira (montanha que chora, em tupi-guarani, em razo das muitas guas que descem de suas formaes rochosas) possui muitas terras altas, entre 1.200 e 2.800 metros de altitude, situando-se ao longo das divisas dos estados de Minas, So Paulo e Rio. Integra os ecossistemas da Mata Atlntica e da Mata da Araucria e possui vrias unidades de conservao, como o Parque Nacional do Itatiaia e os parques estaduais da Serra do Brigadeiro, Serra do Papagaio e Campos do Jordo (SP). Nasce na regio de Barbacena e inclina-se para o sudoeste at formar as fronteiras naturais com o Rio de Janeiro e So Paulo, at as imediaes finais de Joanpolis (SP) e Extrema (MG), e, por fim, Bragana Paulista. Nas terras altas da Mantiqueira e suas vertentes, ao norte do macio que adentra Minas Gerais, onde ocorreram as chamins vulcnicas, esto as fontes de guas minerais de Caxambu, So Loureno, Passa-Quatro, Pouso Alto e Poos de Caldas. Duas cidades mineiras, na Mantiqueira, esto entre as mais elevadas do Brasil: Monte Verde, com 1.555,5 metros e Poos de Caldas, com 1.198 metros. Do Espinhao e da Mantiqueira, surgem as guas que vo alimentar os principais rios que nascem em Minas e alcanam outros Estados. Topografia e biodiversidade, bem como a sua centralidade no mapa brasileiro, criando climas prprios em stios privilegiados pela elevao e paisagem, com gua abundante e fcil acesso, conferem  Mantiqueira a condio de excepcional propiciadora de atraes tursticas, sobretudo nas vertentes contemporneas dessa atividade. 
Varivel tambm  a altitude das terras mineiras, outra caracterstica diferenciada, a demonstrar a variada altimetria de seu territrio. Sua altitude varia de 79 metros, no municpio de Aimors, a 2.890 metros, no Pico da Bandeira, na divisa com o Esprito Santo. As caractersticas geomorfolgicas tambm integram a diversidade mineira: a chamada regio crstica, por exemplo, na qual se localiza Lagoa Santa, apresenta imensa variedade de stios arqueolgicos e paleontolgicos, um ecossistema que precisa ser protegido. A variedade natural mineira apresenta, no entanto, enorme exigncia de preservao. O desmatamento sem limites imperou por muitos anos. A extrao de minrio de ferro, a indstria siderrgica, outras mineraes, a explorao agropecuria, a explorao de madeiras naturais, causaram grande devastao, situao que comea a ser corrigida somente nos ltimos anos, com legislao e fiscalizao rigorosas. No final de 2009, o Instituto Estadual de Florestas era responsvel por 205 reas de proteo ambiental, representando 2 milhes de hectares sob regime de conservao.
Em razo de sua posio central no mapa brasileiro e de sua condio mediterrnea, fazendo fronteira com outros seis Estados, cada um exercendo constante presso por atratividade e influncia cultural e econmica, como tambm por seu elevado nmero de ncleos urbanos, alm de uma variada natureza nos seus elementos geolgicos, topogrficos e geogrficos, Minas Gerais apresenta grande diversidade cultural. Diz-se que, em qualquer direo, uma distncia de 100 quilmetros representa mudana cultural, com alteraes locais relativas ao patrimnio histrico e natural, como igualmente nos hbitos, nas festas populares e religiosas, na culinria e no artesanato. E ainda bastante singularidade, exemplaridade e, especialmente, autenticidade e originalidade nesses elementos. Eis a riqueza de Minas.
Alm da herana fsica e geogrfica, outros fatores contribuem para a singularidade dos elementos que confluem na formao da sociedade mineira, e que j so perceptveis nas zonas de minerao, desde os seus primeiros momentos. Devemos, portanto, comear pela leitura desses primeiros tempos qualquer tentativa de caracterizao da personalidade do mineiro, reconhecidamente distinta, no contexto brasileiro, e que se manifestar em vrios momentos de sua trajetria histrica. Justifica-se, com este propsito, a abordagem abrangente e totalizadora que realizamos, embora sinttica, da tricentenria Histria de Minas, alcanando at os nossos dias, de maneira a permitir avaliao mais consistente e ampla de provveis singularidades dos mineiros, compatvel com o propsito contextualizante deste trabalho e sua natureza turstico-cultural. 
Estudiosos da Histria de Minas  e no s os pioneiros, que produziram obras fundamentais, embora de contedo mais ensastico do que cientfico, mas, tambm, os mais recentes, sem o notrio carter apologtico do passado  tm destacado a existncia de um carter regional, que  possvel distinguir a partir de vrios traos comuns, particularidades e caractersticas. A tese  que ser essa personalidade peculiar, ao longo dos sculos subsequentes e atravs dos episdios em que vai se construindo a nacionalidade brasileira, que ir modelar atitudes prprias do mineiro. E no s nos fatos pertinentes  organizao social e  conduta poltica, mas, tambm, na produo cultural.
Na Histria do Brasil, o sculo XVIII mineiro prepondera e constitui, com o Ciclo do Ouro, entre a cana-de-acar e o caf, um perodo singular. O que ocorre nas minas difere do que ocorreria no resto da Colnia, assim como iria produzir um diferente modelo de sociedade, com tipologia humana prpria. No chega a quebrar a unidade poltica e cultural da Colnia, mas comparece, crescentemente, nas suas manifestaes sociolgicas e intelectuais posteriores, com traos distintos do povoamento litorneo. No litoral, por ao governamental, a terra foi doada com ntido sentido de povoamento e domnio. Nas minas, a invaso foi espontnea, sob o fluxo apaixonado da expectativa de enriquecimento, com povoamento desordenado, aventureiro e marcado por conflitos de toda ordem.
Cunhou-se a expresso mineiridade  que Afonso Arinos chamou de mineirismo  para o conjunto desses traos da conduta e da personalidade dos mineiros, questo submetida, naturalmente, a controvrsias de caracterizao ou, at mesmo, de consistncia. Mais recentemente, sob o impacto de uma nova historiografia, que revela incurses desbravadoras procedentes do Norte de Minas, vindas da Bahia e Pernambuco, concomitantemente s bandeiras paulistas, e que percorreram os rios So Francisco e das Velhas, criando caminhos de povoamento, tem se exaltado o mineiro das gerais, o geralista, criador de gado e sertanejo, como tambm digno de histria e portador de traos singulares de personalidade, tanto quanto o homem da regio da minerao. Esta regio  nas duas margens do Rio So Francisco, da foz do Rio das Velhas, em Guaicu (Rio das Velhas, em tupi-guarani)  foz do Carinhanha, a oeste, e do Verde Grande, a leste  por seu clima, topografia, fauna e flora, mais identificada com o serto nordestino e mais ligada  Bahia, por isto chamada de baianeira, ainda reivindica reconhecimento histrico e cvico. Matias Cardoso, ao norte,  hoje reconhecido como de povoamento antigo, por volta de 1680, e reivindica seu pioneirismo com data em que celebra sua fundao.
Sylvio de Vasconcellos, estudioso da alma mineira e do carter regional, j coloca a condio binria de Minas logo na apresentao do seu Mineiridade  Ensaio de caracterizao. Diz que pretende o presente ensaio despertar ateno para a possvel especificidade de uma regio brasileira, contida nos limites precisos da ocupao humana condicionada pelo ouro, no ampliada s fronteiras do territrio que se chamou Minas Gerais. Isto porque, ao que parece, as Minas diversificaram-se das Gerais, que se deitaram, posteriormente, pelos vales do Doce, do So Francisco e do Paraibuna, Rio Grande.
Reconhece-se, nos nossos dias, em todos os estudos e anlises, que Minas Gerais so muitas, com diferentes formaes histricas, naturais e sociolgicas, assim como so variados os territrios e suas economias e prticas culturais. Coexistem as Minas do pastoreio, a do caf, do serto, das estncias climticas, das montanhas, das cidades e regies de intensa minerao, como tambm as que so temporrias, as regies-pocas, dependentes dos cultivos agrcolas ou exploraes no perenes. No h a polarizao dominante sobre um nico centro de convergncia. H que se acrescentar que a condio mediterrnea de Minas Gerais e sua centralidade no mapa brasileiro estabelecem em todo o seu entorno territorial zonas ou regies de confrontao, ou de passagem e disperso cultural, tantos quantos so os Estados fronteirios. John Wirth (O fiel da balana  Minas Gerais na Federao brasileira  1889-1937, de 1992), assim como vrios outros historiadores mais recentes, que trataram da questo do regionalismo, reconhecendo uma identidade mineira diferenciada, afirma que a singularidade do Estado est na sua fragmentao. E usou a expresso mosaico mineiro, visto como um conjunto de partes, compostas por diferentes atividades econmicas e por grupos polticos envolvidos em vrios conflitos. 
Assim, so muitos hoje os mineiros, nas diversas Minas Gerais, diferencialmente marcados por seu territrio, suas atividades de sobrevivncia, sua formao e produo cultural, sob influncia de outros Estados e centros urbanos, nas zonas de fronteira, em especial. Historicamente, no entanto, nos primeiros movimentos de ocupao, nos ncleos iniciais de colonizao, dois tipos marcam sua fisionomia humana e cultural: o minerador, que se localizou nas zonas centrais do Estado, em busca do ouro e pedras preciosas, e o sertanista, este criador de gado, catrumano, porque sempre anda a cavalo, em quatro patas, expresso italiana usada por Auguste Saint-Hilaire em viagem ao Norte de Minas, em 1817. Ambos antigos e portadores, em algumas regies, at hoje, de traos originais. Em sntese, a diversidade cultural e natural seria a principal caracterstica de Minas. Por sua formao histrica, determinada por diferentes tipos de ocupao, como por sua variada natureza, propiciando diferentes condies geogrficas, Minas apresenta nessa diversidade uma condio diferencial. E que concretiza sua vocao cultural e turstica, potencializada por ainda encontrarmos, em vrias regies e sociedades, heranas genunas e originais dos primitivos tempos, com autnticas tradies setecentistas. 
O Movimento Catrumano ganha voz e apoios fortes no Norte de Minas e expressa muito bem o que a diversidade de formao gera de ambiguidades e incompreenses. Na sua tese Mineiros e baianeiros  Englobamento, excluso e resistncia (UnB, 2006), Joo Batista de Almeida Costa, da Unimontes, diz que sua pesquisa visa compreender a ambiguidade vivida pelos norte-mineiros perante o fato de serem, ao mesmo tempo, includos com valor negativo na mineiridade e dela excludos, como tambm os meios que mobilizam para resistir  imagem totalizadora de Minas Gerais que inviabiliza sua especificidade cultural e identitria. A dor  tambm sentida pelos mineiros perante a eroso dessa imagem, assentada nas virtudes da civilizao gerada na regio montanhosa do Estado, quando da explorao do ouro. E conclui: O dilogo interior de baianeiros e mineiros desvela, para alm do discurso e das prticas hegemnicas, os paradoxos e principalmente o inevitvel duplo vnculo existente entre eles, sustentado pelo desejo do baianeiro de ser mineiro e pelo medo que o mineiro tem de ser baianeiro. 
Guimares Rosa, mais uma vez, no seu A est Minas: a mineiridade, retrata essa viso de Minas, das tantas Minas: Seu orbe  uma pequena sntese, uma encruzilhada; pois Minas Gerais  muitas. So, pelo menos, vrias Minas. E descreve:  a Mata, cismontana, molhada ainda de marinhos ventos, agrcola ou madeireira, espessamente frtil.  o Sul, cafeeiro, assentado na terra-roxa de declives ou em colinas que europeias se arrumam, quem sabe uma das mais tranquilas jurisdies da felicidade deste mundo.  o Tringulo, saliente avanado, recorte, franco.  o Oeste, calado e curto nos modos, mas fazendeiro e poltico, abastado de habilidades.  o Norte, sertanejo, quente, pastoril, um tanto baiano em trechos, ora nordestino na intratabilidade da caatinga, e recebendo em si o Polgono das Secas.  o centro corogrfico, do vale do Rio das Velhas, ameno, claro, aberto  alegria de todas as vozes novas.  o Noroeste, dos chapades, dos campos-gerais que se emendam com os de Gois e da Bahia esquerda, e vo at ao Piau e ao Maranho, ondeantes. 
No caldeamento dessas variveis, do meio natural, da histria, da sociologia, se forma o mineiro, que Rosa classificou com os seguintes caracteres: Acanhado, afvel, amante da liberdade, idem da ordem, antirromntico, benevolente, bondoso, comedido, canhestro, cumpridor, cordato, desconfiado, disciplinado, discreto, escrupuloso, econmico, engraado, equilibrado, fiel, fleumtico, grato, hospitaleiro, harmonioso, honrado, inteligente, irnico, justo, leal, lento, morigerado, meditativo, modesto, moroso, obstinado, oportunidade (dotado do senso de), otrio, prudente, paciente, plstico, pachorrento, probo, precavido, po-duro, perseverante, perspicaz, quieto, recatado, respeitador, rotineiro, roceiro, secretivo, simplrio, sisudo, sensato, sem nenhuma pressa, sagaz, sonso, sbrio, trabalhador, tribal, taciturno, tmido, utilitrio, virtuoso. E ainda  possvel encontrar essa mineiridade, s vezes alterada pelo natural esgaramento provocado pelo tempo, mas ainda em meio ao enleio e o imaginrio farto e saudoso do mineiro sonhador, especialmente do interior.
Entre os muitos ensaios de caracterizao do mineiro, sobressai-se Voz de Minas, de 1945, Alceu Amoroso Lima. Realiza profunda anlise da alma mineira e aponta vrios traos da sua personalidade, certamente mais ntidas ao seu tempo, nos meados do sculo XX. Diz ele que o mineiro  antes de tudo um sbrio. Sbrio no comer, no vestir e no falar. Sbrio no modo de sentir e de viver. E prossegue: H uma grande medida, sempre natural e nunca forada, no modo de sentir e de pensar do povo montanhs. Raramente se deixa arrastar por grandes entusiasmos. Suas paixes so arrebatadas e instantneas. Antes recalcadas e tenazes. Essa sobriedade no  uma mutilao. No  disciplina imposta. No  nada de acrescentado e muito menos dissimulado.  algo de absolutamente nativo. 
A descoberta de ouro e prata no Mxico e, especialmente, no Peru, que se tornou sede do vice-reinado espanhol nas Amricas, sediado em Lima, sempre foi motivo de indagao comparativa de Portugal, surpreso por no encontrar, no Brasil, iguais riquezas no mesmo meridiano. No Mxico, a explorao das minas de prata de Tasco, Zultepeque e Pachuca, e, no Peru, de Porco, Carangas, Andacava, Oruro e Chaquiapu, geraram riquezas imensas para os espanhis. Em 1545, nas Cordilheiras do Alto Peru, foram descobertas as famosas minas de prata de Cerro Rico de Potos, ativas at por volta de 1800, com grande renome na Europa pelo que produziram de riqueza para a nao espanhola. Muitos mitos, sonhos com uma terra distante, originrios da Amrica espanhola, falavam da existncia de um Eldorado, reluzente de ouro e prata, nas terras interiores da Colnia, alimentavam o imaginrio e a cobia dos portugueses, entre eles o que dava notcia da existncia de uma serra resplandescente ou de uma Lagoa Dourada ou do Vupabuu, nas terras situadas a oeste. Mas, mesmo assim, as expedies pioneiras no lograram encontrar essas riquezas. 
As primeiras notcias da existncia de ouro no Brasil, no territrio mineiro, ocorrem em momento de grande dificuldade para Portugal, vivendo crise econmica e financeira, em decorrncia ainda da Guerra da Restaurao, em que se libertava do domnio espanhol (1580 a 1640), a chamada Unio Ibrica, e s efetivamente concluda em 1668, com o reconhecimento, pela Espanha, da independncia portuguesa. Alm disto, Portugal perdera a exclusividade dos mercados do Oriente para a Inglaterra e a Holanda. 
Por sua vez, os franceses, que no reconheciam o Tratado de Tordesilhas, criaram, em 1555, a Frana Antrtica no Rio de Janeiro, e edificaram, na Ilha Sergipe, o Forte Coligny. Em 1612, invadiram o Maranho e ali fundaram a Frana Equinocial, sob a liderana de Daniel de La Touche. E, por duas vezes, em 1711, tentaram se estabelecer no Rio de Janeiro. Os holandeses se estabeleceram no Nordeste, na Bahia e em Pernambuco, de 1624 a 1640, exigindo grande esforo para sua expulso. O comrcio de pau-brasil e a exportao de acar, mercadoria de alto valor produzida nos canaviais de Pernambuco, concentraram tambm, em grande parte, a ateno e os esforos da administrao colonial nos primeiros 150 anos. Mas, no caso do acar, j se encontrava reduzido o seu comrcio, pela dificuldade do transporte e pela concorrncia. De outro lado, Portugal j conhecia o valor do ouro, extremamente valorizado na Europa, extrado de suas colnias na frica Ocidental. 
Explorar melhor a colnia brasileira, ocup-la (e no s na sua extensa costa), tornou-se uma estratgica necessidade e motivou determinaes e apoios a expedies que se aventurassem pelas terras interiores. At ento, passados quase dois sculos de presena portuguesa, ela se fazia quase que unicamente pela costa brasileira, donde o territrio das minas vai inaugurar efetivamente a penetrao e conquista do at ento desconhecido interior. Frei Vicente do Salvador, autor de Histria do Brasil  1500 a 1627, chamou a presena dos portugueses de carangueja por manterem-se, at ento, somente na praia. 
At 1650, sculo e meio aps a chegada lusitana ao Brasil, seu domnio territorial no passava de uma estreita faixa de terra ao longo da imensa costa. O ncleo urbano mais afastado era So Paulo, cidade fundada em 25 de janeiro de 1554, prxima ao pioneiro arraial de So Vicente, no Planalto do Piratininga, que havia sido iniciado em 1532 por Martim Afonso de Souza. 
O Tratado de Tordesilhas, entre Portugal e Espanha, assinado a 7 de junho de 1494 por Dom Joo II e os Reis Catlicos espanhis, destinado a separar as possesses portuguesas a oriente e as espanholas, a ocidente, era uma linha imaginria, jamais traada com exatido, mas acabou sendo um obstculo tambm imaginrio  penetrao territorial. Em 1534, Dom Joo III, rei de Portugal, cria as Capitanias Hereditrias, que pouco renderam, levando a Coroa a nomear, em 1545, um governador-geral do Brasil, Tom de Souza, que instala seu governo na Vila Velha, origem da cidade de So Salvador da Bahia de Todos os Santos, iniciada em 1537 pelo seu primeiro donatrio, Francisco Pereira Coutinho. A cidade de So Sebastio do Rio de Janeiro s ser fundada em 20 de janeiro de 1556, por Estcio de S. Todo o vasto interior do Brasil permanecia desconhecido e no oferecia facilidades a expedies. Ao sul e sudeste, duas barreiras eram obstculos imensos  penetrao: a Serra do Mar e a Serra da Mantiqueira, de difcil transposio. 
O atual territrio de Minas Gerais integrava as Capitanias de Porto Seguro, Ilhus, Esprito Santo, Paraba do Sul e So Vicente, enquanto uma parte do Tringulo Mineiro situava-se alm da linha de Tordesilhas que, se tivesse prevalecido, faria desta regio mineira uma possesso espanhola.
Em 1671, segundo menciona Affonso de Escragnole Taunay, o ento governador-geral, visconde de Barbacena, baixa instrues recomendando o apoio a quaisquer iniciativas que visem  descoberta de minas de ouro, prata e pedras. Abre-se, com essas instrues, o chamado ciclo bandeirante. A partir da, existem relatos de vrios historiadores, a maioria de origem paulista, dando conta de um grande nmero de expedies que adentraram o territrio e teriam alcanado a regio mineira. Mas sem descobrir ouro ou deixar colonos. A mais significativa dessas expedies foi a de Andr de Leo, realizada em 1601, que seguiu o curso do Paraba do Sul at a entrada da Mantiqueira, pela Garganta do Emba, relatando ter atingido as nascentes do Rio So Francisco e do Paraopeba. No encontrou as sonhadas minas de prata ou de ouro, motivao principal da entrada. Andr de Leo retornou a So Paulo em abril de 1602 e sua viagem foi relatada pelo mineralogista holands Wilhelm Jost Glimmer, participante da expedio, conforme a Histria natural do Brasil, publicada em Amsterd, em 1648, por George Marcgraff. O gelogo americano Orville Adalbert Derby, fundador do Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro, em 1895, por inspirao de Dom Pedro II e, atendendo indicao do historiador Capistrano de Abreu, realizou pormenorizada conferncia no Instituto sobre esta expedio, concluindo ter ela seguido caminho que, mais tarde, seria mais ou menos o trilhado por Ferno Dias Pais. Outra expedio teria sido a de Loureno Castanho Taques, em 1657, conforme citado por Baslio de Magalhes no seu Expanso do Brasil Colonial. O autor atribui a esta expedio o mrito de ser a primeira a entrar no Serto dos Catagus.
O incio efetivo de um povoamento mais extensivo do territrio das minas s se dar com a bandeira do potentado paulista Ferno Dias Pais, que parte de So Paulo em julho de 1674. Sua excurso  iniciativa planejada, incentivada e financiada parcialmente pela Coroa. Aproveitava-se a sua grande experincia de sertanista, um homem j de 66 anos ao iniciar a expedio, pois teria nascido em 1608. Vrias entradas anteriores, em diferentes pocas e territrios, foram incentivadas, mas no produziram descobertas encorajadoras de fluxos migratrios. A bandeira seguiu trajeto ainda hoje em discusso por quase todos os historiadores. Passou por Taubat, Pindamonhangaba e Guaratinguet, venceu a Serra do Mar pela famosa Garganta do Emba, ou por Atibaia, alcanou as terras altas da Mantiqueira, entrou em Minas por Passa Quatro, passando por Pouso Alto, Baependi (pouso bom ou alegre, em tupi-guarani) e Cruzlia, atravessou os rios Verde e Grande e atingiu Ibituruna (serra negra, em tupi-guarani), possivelmente o primeiro arraial de Minas, segundo a maioria dos historiadores. Neste instante, j estava prximo do Rio das Mortes e da regio onde mais tarde se fundaria So Joo del-Rei e So Jos del-Rei, hoje Tiradentes, e demais cidades integrantes da futura Comarca do Rio das Mortes (o nome decorre, segundo a verso mais usual, das constantes mortes causadas pelos intensos conflitos entre colonizadores indgenas da regio). De Ibituruna (serra negra), onde teria permanecido por seis meses (Diogo de Vasconcelos afirma tratar-se do primeiro povoado de Minas Gerais), alcanou Lagoa Dourada e, em seguida, a regio de So Pedro do Paraopeba (rio do peixe chato, em tupi-guarani), hoje Vargem de Santana, municpio de Belo Vale, s margens do Rio Paraopeba, e que tambm reivindica a primazia entre as cidades mineiras. A bandeira cruzou a Serra da Moeda, chegou s imediaes de Betim e Lagoa Santa e estacionou na Quinta do Sumidouro, pequena localidade s margens do Rio das Velhas, pertencente ao distrito de Fidalgo, hoje municpio de Pedro Leopoldo. Ferno Dias Pais teria morrido a, na Quinta do Sumidouro, onde morou, ou ento quando tentava retornar a So Paulo, em 1681, fato que a historiografia no elucida. H notcias de que seu filho, Garcia Rodrigues Pais, teria levado seu corpo de volta a So Paulo.
Publicaes mais recentes veem na bandeira de Ferno Dias Pais uma empresa, denominao mais apropriada para seus interesses, sua constituio e seu financiamento, mas, e sobretudo, pelo estmulo pblico a essa iniciativa de alto interesse da administrao colonial portuguesa, qual seja o desbravamento do interior brasileiro e a busca do ouro e pedras preciosas. Vrias cartas de Dom Pedro, prncipe regente de Portugal, estimulavam os paulistas a realizar incurses em busca de riquezas minerais. Entre 1672 e 1764, tempo de planejamento da empresa, o governador-geral Afonso Furtado de Castro Rio de Mendona enviou ao sertanista Ferno Dias Pais vrias correspondncias, louvando a misso e prometendo honras e mercs se conseguisse seu intento, que era, como primeiro objetivo, descobrir as minas de prata e de ouro do Sabarabuu e a Serra das Esmeraldas, ao norte. O termo Sabarabuu designava amplo territrio e no s a regio do Rio das Velhas. A 30 de outubro de 1672 foi concedida a Ferno a patente de governador de toda a gente que fosse com ele e dos novos territrios, o que demonstra a preparao bem antecipada de sua bandeira. 
Ferno Dias nunca encontrou as esmeraldas, mas h a hiptese atual de que a regio prxima ao Rio Piracicaba, entre Nova Era e Itabira, onde foram descobertos a partir de 1974 vrios e ricos veios de esmeraldas, poderia ser a to procurada mina do Sabarabuu. De Nova Era at Tefilo Ottoni, situa-se uma dos maiores veios pigmatticos do mundo, fazendo at hoje desta regio uma das maiores produtoras de pedras preciosas.
Na sua obra A grande vida de Ferno Dias Pais, Affonso de Escragnolle Taunay transcreve documentos que conferem ao bandeirante Matias Cardoso a precedncia na entrada em territrio mineiro, com a misso de facilitar o trabalho de Ferno Dias, indicando caminhos, descobrindo trilhas indgenas e fazendo roas. Matias Cardoso teria sido o primeiro a alcanar Ibituruna e, assim, seu real fundador, ao estabelecer ali uma feitoria, em 1672. A 20 de julho de 1674, vspera da partida, Ferno Dias escreve carta em que diz que viajar com quarenta homens brancos, afora eu e meu filho, e sditos meus brancos, e tenho quatro tropas s de moos meus com toda a carga de mais importncia no serro onde est o capito Matias Cardoso, esperando por mim, o qual me mandou pedir gente escoteira com plvora e chumbo. 
A bandeira de Ferno Dias, ou ramificaes da sua expedio, que se tornou fundadora de vrias cidades mineiras, partiu do Sumidouro para o Norte, passando pela Serra do Cip e alcanando as regies do Serro Frio, (atual Serro), Itamarandiba e Itacambira, sempre em busca da famosa Serra das Esmeraldas, lenda que sempre povoou a mente dos bandeirantes. Os trajetos finais, a presena de expedies complementares desbravando novos territrios, a fundao de arraiais, os fatos ocorridos no arraial do Sumidouro, onde teria enfrentado motins, obrigando-o a enforcar o prprio filho natural rebelado (o mameluco Jos Dias Pais), a conduta de Manoel de Borba Gato (genro de Ferno Dias) e os territrios por onde andou, e de vrios sertanistas da comitiva, so fatos obscuros e controversos. A presena e a extenso dos territrios percorridos por Borba Gato  um dos captulos em discusso, a comear pelo assassinato de Rodrigo Castelo Branco. Castelhano de nascimento, perito em minerao, com experincia adquirida em viagem ao Peru, tornou-se emissrio de Dom Pedro ao Brasil com a misso de pesquisar minas de ouro, prata ou pedras preciosas. Com o ttulo de superintendente-geral das novas regies, deixou So Paulo em 1681 em busca de notcias da expedio de Ferno Dias Pais, trazendo consigo Matias Cardoso, que havia estado na bandeira pioneira e que retornara a So Paulo. No se entendendo sobre o comando e o destino do que restava da bandeira, Rodrigo Castelo Branco teria sido morto em 1682, ao lado do Sumidouro, no arraial que hoje se chamada Fidalgo, por Martinho Dias, subordinado de Borba Gato, que passou  histria como coautor do assassinato.
O crime determinou a fuga de Borba Gato e dos restantes da bandeira, que espalharam-se pela regio, alguns subindo o Rio das Velhas e fixando-se, mais tarde, na regio do Sabarabuu, em Roas Grandes e Sabar, fundadas, portanto, por volta de 1682 a 1684, e onde se descobriram vrias minas de ouro. Datam desta poca tambm os primeiros povoados que dariam origem a Lagoa Santa, Sete Lagoas, Santa Luzia, Caet, Morro Vermelho e outros lugarejos prximos. Borba Gato viajou para outras regies, inclusive o Centro-norte, na regio de Guanhes, mas acabou anistiado e orientou novas expedies, recebendo honrarias e misses do governo colonial, inclusive a de superintendente da regio das minas, vindo a ter papel de destaque nos primeiros anos do sculo XVIII. Sabar , portanto, um dos primeiros ncleos urbanos de Minas, quase duas dcadas antes do efetivo povoamento das cabeceiras do Rio das Velhas, Mariana e Ouro Preto.
To logo desbravado e conhecido o Caminho do Serto ou da Bahia, vindo pelos rios So Francisco e das Velhas, Sabar tornou-se o primeiro e maior ncleo urbano da Capitania. E o foi no s pelo ouro farto, mas por ser o entroncamento para o comrcio de vveres e gado, vindos da Bahia e regio norte, destinados a abastecer o territrio das minas, inadequado para a produo de mantimentos. De Sabar, originaram-se vrios outros povoados nas regies prximas, na medida em que iam sendo descobertas novas minas, fosse ao norte ou ao sul, ou em direo s nascentes do Rio das Velhas, na Serra do Ouro Preto. Entre eles, Nova Lima (chamou-se inicialmente Congonhas de Sabar e, em 1891, Vila Nova de Lima, em homenagem ao seu ilustre filho Augusto de Lima, governador do Estado), Raposos, Rio Acima e outros.  amplo o reconhecimento, por todos os autores e estudiosos dos primrdios de Minas, que a bandeira de Ferno Dias, e vrias expedies que gerou, deixaram muitas feitorias e povoados. Sua expedio uniu o litoral  Mantiqueira, ao Rio das Velhas e ao Nordeste mineiro e indicou o primeiro caminho de penetrao, denominado inicialmente como Caminho dos Paulistas e, depois, Caminho Velho, j com trajeto alterado, usado por vrios outros sertanistas, nos anos finais do sculo XVII. 
Ferno Dias  considerado o fundador de Minas Gerais e a Histria de Minas, concordam os historiadores, comea efetivamente em 1674. Ser com base nas suas orientaes e informaes que ir desencadear-se, poucos anos mais tarde, a corrida pelo ouro, que ocupar de maneira ampla e definitiva o territrio mineiro.  por Minas, portanto, que se inicia a presena portuguesa no territrio interior da colnia, at ento desconhecido. Mas a descoberta do ouro, em larga escala, s ocorrer entre 1696 e 1704, conforme opinio da maioria dos historiadores, sem que se possa definir, com preciso, data e local do primeiro achado. 
As descobertas se daro nas jazidas aurferas encontradas ao longo da Serra do Espinhao, a mais antiga formao geolgica mineira e, de maneira concentrada, nos percursos iniciais do Rio das Velhas, que nasce na regio denominada Cachoeira das Andorinhas, em Ouro Preto, hoje rea de proteo ambiental. Os achados logo se estendem aos ribeires afluentes, pertencentes  Bacia do Rio So Francisco, de um lado da Serra, e s cabeceiras dos rios Paraopeba e Doce, de outro. Os primeiros exploradores atingem os leitos do Rio Piranga e do Ribeiro do Carmo, que se juntam com os rios Gualaxo de Cima e Gualaxo de Baixo e o Piracicaba, formando o Rio Doce, regies tambm aurferas e que logo recebero vrios povoados. Seja em direo  Serra do Caraa, passando por Camargos, Bento Rodrigues, Inficcionado (Santa Rita Duro), Catas Altas, Brumal, Santa Brbara e Baro de Cocais, estes ltimos alcanados tambm pelos que vinham de Sabar ou Caet, ou em direo ao sul, onde sero plantadas as sementes iniciais de vrios arraiais mineradores, nas regies prximas que vo de Mariana a Ponte Nova, passando por Diogo Vasconcelos, Acaiaca e Barra Longa e vrios lugarejos, hoje distritos de Mariana. Outra direo de ocupao, tambm a partir de Mariana, levava at Rio Piracicaba e Joo Monlevade, passando por Rio Doce, Dom Silvrio (antiga Sade) e Alvinpolis (antiga Paulo Moreira).
Os textos histricos mais antigos, como j dito, confirmam tentativas de entradas no Norte de Minas, chegando a alcanar o mdio Rio So Francisco, vindas de Salvador, capital brasileira at 1763 e centro urbano mais populoso do Brasil. Mas revelam tambm a presena de bandeirantes paulistas, dividindo a conquista territorial. Povoada a regio das minas, tornada objeto da cobia portuguesa, opera-se a mudana da capital da colnia para o Rio de Janeiro, mais prximo da explorao aurfera, que j exigia maior controle e presena governamental. A Histria do Brasil registra as entradas pioneiras de Francisco Espinosa e Aspicuelta Navarro, em 1554, de Sebastio Fernandes Tourinho, em 1573, de Antnio Dias Adorno, em 1574, vindos do Norte, e de Marcos de Azevedo, em 1611, que teria alcanado o territrio mineiro pelo Rio Doce e descoberto as primeiras esmeraldas. Outras entradas ocorreram tambm por So Paulo na primeira metade do sculo XVII, mas sem deixar povoados ou relatos de descobertas, conforme relatos bastante imprecisos. 
Cidades como Matias Cardoso, cuja igreja matriz mostra a data de 1674, Gro-Mogol, Espinosa, Manga, So Francisco, Pedras de Maria da Cruz, So Romo, Januria, Janaba e Montes Claros tiveram origens em incurses muito antigas, a partir de 1670 e at os anos finais do sculo XVII. O arraial de Matias Cardoso, inicialmente chamado Morrinhos (a localizao primitiva  incerta), fundado pelo bandeirante paulista que teria retornado  regio ainda como integrante da bandeira de Ferno Dias Pais, foi ponto de passagem e reabastecimento para todas as caravanas entre o Norte e o Sul, especialmente as vindas da Bahia, pelo Rio So Francisco. Sua antiguidade  reconhecida e amplamente citada nos documentos mais antigos. Dele partiu o movimento colonizador em direo  foz do Rio das Velhas, em Guaicu, hoje do municpio de Vrzea das Palmas, e em direo ao vale do Rio Verde Grande, a leste. Bandeirantes paulistas como Matias Cardoso, Janurio Cardoso e Antnio Gonalves Figueira, este fundador de Montes Claros, tiveram papel de destaque na colonizao dessas regies e como fundadores de vrias cidades. Figueira, cunhado de Matias Cardoso, integrou a bandeira de Ferno Dias Pais, esteve na Bahia e no Cear, no combate aos ndios e, em 1694, fixou-se no mdio So Francisco e percorreu os sertes dos rios Pardo e Verde. Fundou trs fazendas, entre elas a chamada Montes Claros. Neste local, bem mais tarde, por volta de 1764, implantou-se, no entorno de igreja, o primitivo Arraial das Formigas, mais tarde Montes Claros, que cresceu com a criao de gado, que abastecia Pitangui, e a extrao de salitre. O movimento Catrumano, que trata da recuperao da primazia e da importncia histrica do Norte de Minas, reivindica para Matias Cardoso a primazia histrica entre as cidades de Minas.
Pelo menos duas dcadas antes do sculo XVIII, j se tinha notcia de currais e fazendas, com criao de gado, estabelecidas ao longo do So Francisco, alcanando a foz do Rio das Velhas, em Guaicu, e que viriam a ter papel fundamental no abastecimento da regio das minas, quase toda inadequada, pela geologia e topografia, para a agricultura e a pecuria. Muito antes do descobrimento das minas, sabia-se que nas ribeiras do Rio das Velhas e do So Francisco havia mais de cem famlias paulistas entregues  criao de gado (Capistrano de Abreu, Captulos de Histria Colonial). Esses paulistas tinham ido para a Bahia e Pernambuco, contratados pelo governo colonial baiano, para lutar contra ndios rebelados, no que tinham experincia. O Caminho do So Francisco, Caminho Geral do Serto ou da Bahia, tornou-se uma grande via de penetrao no territrio mineiro, interligando as cidades baianas e pernambucanas com a regio do Sabarabuu (Sabar), da qual se tem notcia, junto com o arraial de Roas Grandes, desde 1684, como j se disse, atribuindo-se sua fundao a Borba Gato ou  sua gente, dispersos aps o crime do Sumidouro. 
Inovadora, conferindo  regio a primazia histrica nem sempre reconhecida,  a pesquisa histrica de Mrcio Santos, Bandeirantes paulistas no serto do So Francisco  Povoamento e expanso pecuria de 1688 a 1734, concluda em 2006 e que acrescenta informaes reveladoras sobre a ocupao do Norte de Minas e do Vale do So Francisco, ainda muito pouco estudada. Para Mrcio Santos, estas regies foram pioneiramente percorridas por paulistas. Persistem, no entanto, divergncias de opinio entre historiadores ilustres quanto  predominncia de paulistas ou de baianos na regio. Expedies vindas da Bahia, quando j conhecido o caminho do Rio So Francisco, j teriam encontrado vrias fazendas de gado de paulistas.  significativo lembrar que as terras  esquerda do Rio So Francisco pertenciam a Pernambuco, enquanto as terras  direita do grande rio, at a barra do Rio das Velhas, em Guaicu, pertenciam  Bahia, condio que gerou discusses entre os governadores coloniais destas capitanias at a terceira dcada do sculo XVIII. H vrios registros de desavenas quanto  vigncia e extenso territorial de seus atos administrativos. 
J na passagem para o sculo XVIII o trnsito torna-se intenso neste caminho, o qual serviu, nos primeiros tempos, como via de emigrao em direo  regio das minas, a ponto de Ordem Rgia, de 1701, seguida pela publicao de um Regimento Especial para a Regio das Minas, em 1702, estabelecerem proibio total de acesso de pessoas e mercadorias da Bahia e de Pernambuco para as minas. Esse Regimento das Minas, que durou at o final do sculo XVIII, com as mudanas introduzidas, disciplinava toda a atividade de extrao do ouro e, especialmente, tratava da cobrana do quinto para a Coroa portuguesa. As proibies no foram suficientes para impedir que o caminho se tornasse, em todo o perodo da minerao, a principal via de escoamento de ouro contrabandeado, em razo da dificuldade de fiscalizao. A nica exceo foi concedida para o comrcio de gado, destinado ao abastecimento das regies mineradoras, em especial para os ncleos urbanos pioneiros que se formaram em torno de Sabar, como Santa Luzia, Lagoa Santa, Caet, Morro Vermelho e os que se situavam nos dois caminhos principais para Vila Rica e Ribeiro do Carmo (Mariana): de um lado, o caminho que passava por Raposos, Nova Lima, Honrio Bicalho, Rio Acima, Acuru, Ana de S, atravessando o Rio das Velhas, o povoado de Soares, Casa Branca (hoje Glaura), So Bartolomeu e Cachoeira do Campo, alcanando-se Vila Rica por estrada elevada, no cume da serra, passando pelo chafariz de Dom Rodrigo (ainda ntegro, implantado pelo governador Dom Rodrigo Jos de Menezes, em 1786), pequena localidade denominada Chapu de Sol, runas do Curral de Pedra e entrando na cidade pelo Passa-Dez ou pelos atuais bairros do Veloso e So Cristvo. Neste trecho, ainda so vrias as reminiscncias desse antigo caminho, embora hoje existam muitas variantes.
De outro, deixava-se Sabar em direo a Morro Vermelho, passando por Caet, alcanando o povoado de Cocais e seguindo para Baro de Cocais (antigo Presdio de So Joo Batista do Morro Grande), Santa Brbara, Brumal, Catas Altas, Inficcionado (Santa Rita Duro), Bento Rodrigues e Camargos, chegando a Ribeiro do Carmo. Este ltimo trajeto fazia a ligao com o Caminho dos Diamantes, brao ao norte da Estrada Real, ligando Baro de Cocais com Itabira, Bom Jesus do Amparo, Ipoema, Senhora do Carmo, atravessando a Serra do Cip, Morro do Pilar, Conceio do Mato Dentro, Crregos, Santo Antnio do Norte, Itapanhoacanga, Alvorada de Minas, Serro, Trs Barras, Milho Verde, So Gonalo do Rio das Pedras, Vau, Diamantina e Minas Novas. 
De 1674 e at os ltimos anos do sculo XVII, a primeira via de penetrao conhecida e bastante utilizada  o trajeto seguido pela bandeira de Ferno Dias Pais, que liga as povoaes paulistas  regio do Rio das Velhas. Esse trajeto, j no territrio mineiro, com variaes adaptativas, ser o chamado Caminho Velho, de 823 quilmetros, consolidado nos ltimos anos do sculo XVII, partindo de Parati, porto de embarque do ouro mineiro para Portugal, passando por Cunha, Guaratinguet e Lorena, em So Paulo e, em Minas, por Passa Quatro e Itanhandu, Itamonte, Capivari, So Sebastio do Rio Verde, Pouso Alto, So Loureno, Caxambu, Baependi, Cruzlia, Traituba, Carrancas, Capela do Saco, Caquende, So Joo del-Rei, Santa Cruz de Minas, Tiradentes, Bichinho, Prados, Lagoa Dourada, Casa Grande, Entre Rios de Minas, So Brs do Suau, Alto do Maranho (em Congonhas do Campo), Miguel Burnier, Engenheiro Correia, Santo Antnio do Leite, So Gonalo do Amarante (hoje Amarantina), alcanando, por fim, Cachoeira do Campo e seguindo para Vila Rica e Ribeiro do Carmo. A partir de Cachoeira, passando por So Bartolomeu e Glaura, atingia-se o caminho para Sabar. Partindo de Mariana, poder-se-ia chegar a Sabar, passando por Camargos, Bento Rodrigues, Santa Rita Duro e o caminho j citado. Entre Sabar e Cocais e Baro de Cocais, passando por Morro Vermelho e Caet (mato dentro, em tupi-guarani), havia, como j descrito, caminho antigo que permitia a ligao com a estrada para Diamantina. Esses trajetos hoje so bem conhecidos, pesquisados e levantados, como partes do conjunto de caminhos coloniais mineiros, integrados sob o nome de Estrada Real, projeto turstico que ainda aguarda nova implementao. 
Em 1693, a Coroa portuguesa cria a Capitania do Rio de Janeiro, incluindo So Paulo e o territrio das minas. Em 1697,  designado governador Artur de S e Menezes que, em 1700, empreende viagem  regio das minas do Rio das Velhas, conforme relatos documentais incontestveis. Trazia a recomendao do rei de Portugal de explorar as minas de que j se tinham notcias, logo aps os primeiros descobrimentos. Esteve em Ribeiro do Carmo e Vila Rica e foi at Sabar, passando por vrios arraiais, nomeando administradores e representantes do governo colonial, estabelecendo normas e tomando medidas que representaram passos importantes no estabelecimento de governo na regio das minas. Ficou na regio das minas por mais de um ano e h depoimentos dando conta de que voltou rico ao Rio de Janeiro. Foi sucedido em 1705 por Fernando Martins Mascarenhas de Lencastre, o qual, por sua vez, passou o cargo a Antnio de Albuquerque Coelho de Carvalho, em 1709, quando ento se d a criao da Capitania de So Paulo e Minas do Ouro. A misso de Albuquerque era pacificar a regio, restabelecendo a ordem nos distritos mineradores envoltos ainda nos resqucios da Guerra dos Emboabas. Albuquerque tinha experincia em assuntos coloniais e fora governador do Gro-Par (1685-1690) e do Maranho (1690-1701). Neste ltimo posto, chefiara a resistncia  invaso dos franceses de Caiena (Guiana Francesa). Albuquerque agiu com prudncia, mas exigiu obedincia e fidelidade ao rei, conseguindo dilogo com paulistas e emboabas (portugueses, baianos e outros vindos de regies no paulistas), inclusive visitando Caet, Sabar e outras cidades. Governar at 1710, sendo sucedido por Dom Brs Baltazar da Silveira. Em 1717, foi nomeado para o cargo Dom Pedro Miguel de Almeida e Portugal, o famoso conde de Assumar, que ir permanecer at 1721, logo aps a criao da Capitania das Minas do Ouro em 1720. Atritado, questionado por suas atitudes, principalmente a morte de Felipe dos Santos, o conde de Assumar ser substitudo por Dom Loureno de Almeida, que governar at 1732. Seguir-se- Andr de Melo e Castro, conde de Galveas, de 1732 a 1735, quando, ento,  nomeado Gomes Freire de Andrade, conde de Bobadela, que ocupara o cargo por trs vezes, de 1735 a 1736, de 1737 a 1752 e de 1759 a 1763, revelando, por iniciativas e obras, o mais profcuo governador da Capitania. 
Com incio ainda em 1700, e por influncia de Artur de S e Menezes, foi contratado o sertanista Garcia Rodrigues Pais, filho de Ferno Dias Pais e um dos participantes da Bandeira de 1674, para implantar o Caminho Novo, com 467 quilmetros, do Rio a Vila Rica  no incio nada mais do que uma picada para pedestres, aprimorada ao longo de vrias intervenes futuras visando torn-la carrovel. Em 1763 a capital da Colnia transfere-se de Salvador para o Rio, mais prximo da regio das minas do ouro. Quando de sua contratao, Garcia j se estabelecera como sesmeiro em duas propriedades na regio, uma s margens do Rio Paraibuna e outra em Borda do Campo, prximo a Barbacena e Antnio Carlos. Pelo Caminho Velho, mais longo, a viagem podia demorar quase dois meses. O Caminho Novo, bem mais curto, reduzia a viagem  metade do tempo e passa rapidamente a ser a grande via de todos os que demandavam a regio das minas que, finalmente, torna-se independente da pioneira influncia das vilas paulistas. Os imigrantes no paulistas passaram a ter um caminho prprio, fora das vilas e estradas dos antigos bandeirantes. O Caminho dos Diamantes, de Ouro Preto ao Tejuco, hoje Diamantina, terceiro brao da Estrada Real, contava 433 quilmetros. 
Relatos antigos do como certa a presena de sertanistas na regio do Serto dos Catagus (primeira denominao dada  regio das minas) por volta de 1692, passando por Itaveraba (pedra-relmpago) e Guarapyranga, hoje Piranga, e alcanando o Tripu, avistando-se o Itacolomi (ita-curumi, pedra-menino). A atual regio de Conselheiro Lafaiete promovia a ligao entre os caminhos Velho e Novo, o primeiro vindo da Comarca do Rio das Mortes, conforme trajeto j citado, e o segundo procedente do Rio, passando por Porto Estrela, Mag, Petrpolis, Itaipava, Pedro do Rio, Secretrio, Inconfidncia, Monte Serat, Posto de Registro do Paraibuna, na divisa de Minas com o Rio, Simo Pereira, Matias Barbosa, Juiz de Fora, Ewbank da Cmara, Santos Dumont, Antnio Carlos e Barbacena, na regio historicamente conhecida como Borda do Campo, denominao que compreendia todo o territrio do terminal norte da Serra da Mantiqueira. Primitivamente, Barbacena denominou-se Arraial do Registro do Campo (posto de fiscalizao do transporte de ouro e mercadorias), que se transformou no arraial da Borda do Campolide e, posteriormente, recebeu o nome do visconde de Barbacena, governador e capito-general da Capitania de Minas, ao tempo da Inconfidncia. E seguia-se por Carijs (denominao surgida pela existncia, na regio, de tribo indgena dos carijs), vindo depois a se chamar Queluz de Minas e, hoje, Conselheiro Lafaiete. 
 direita, seguia-se para Ouro Branco e o antigo arraial do Itatiaia, j no alto da Serra do Ouro Branco e, percorrendo o trajeto ainda hoje mais conservado da Estrada Real, passava-se ao lado dos distritos de Santa Rita de Ouro Preto e Lavras Novas e o povoado da Chapada, alcanando-se Vila Rica e Ribeiro do Carmo. No outro caminho,  esquerda, j na vertente de descida da Serra do Ouro Banco, aps percorrer metade do trecho da atual Estrada Real, ia-se para as regies a montante de Vila Rica, ou seja, em direo aos atuais distritos de Rodrigo Silva (antigo Jos Correia) e So Julio, hoje Miguel Burnier, Engenheiro Correia, Santo Antnio do Leite, com uma variante para So Gonalo do Amarante (hoje Amarantina), atingindo Cachoeira do Campo, a regio do Tripu e Vila Rica, atravs do Passa-Dez de Baixo e, da, at o Bairro das Cabeas. Para os que desejavam ir para Sabar, de Cachoeira do Campo podia-se seguir para Casa Branca, caminho to antigo quanto o que partia de Mariana para Diamantina, passando pela Serra do Cip.
Havia variante, aberta mais tarde, que passava por regio denominada Capo do Lana, alcanava Jos Correia e o Tripu, entrando em Vila Rica tambm pelo atual Bairro das Cabeas. Para Sabar, a partir de Casa Branca, o caminho antigo passava sobre o Rio das Velhas na Ponte de Ana de S (antiga fazenda na margem do rio), subia-se para Acuru (rio de pedras, em tupi-guarani), passando em Rio Acima, Raposos, Nova Lima. Para quem viesse pelo Caminho Velho, em direo a Vila Rica, aps passar por So Joo del-Rei, So Jos del-Rei (hoje Tiradentes), Santa Cruz de Minas, Bichinho, possivelmente Coronel Xavier Chaves, Prados, Lagoa Dourada, Entre Rios e So Braz do Suau, poderia seguir para o Sabarabuu,  esquerda, passando por Congonhas do Campo e So Julio (hoje Miguel Burnier), ou  direita, alcanar Ouro Branco e a pequena localidade de Itatiaia, no alto da serra. 
A atual cidade de Itabirito (pedra de ferro ou que risca vermelho, em tupi-guarani), ao p do pico que leva o seu nome, avistado em toda a regio, mas hoje quase todo destrudo pela minerao, tem seu incio em 1709, com a chegada  regio dos bandeirantes Luiz de Figueiredo Monterroio e Francisco Homem Del Rey,  procura de ouro. Mas s em 1752  o arraial reconhecido como distrito de Vila Rica. So antigas as famosas minas da Cata Branca (desabada em 1844) e do Crrego Seco, posteriormente exploradas por ingleses. Chamou-se inicialmente Arraial de N. Sra. da Boa Viagem de Itaubyra, posteriormente Itabira do Campo e depois Itabirito. Em 1887 foi inaugurada sua estao da Estrada de Ferro Dom Pedro II.
Por volta de 1696, chega  regio de Itaverava o coronel Salvador Fernandes Furtado de Mendona, conduzindo comitiva de sertanistas e que sara de Taubat em 1695, vindo pelo Caminho Velho. A 16 de julho de 1696, ele acampou s margens de um rio, a que deu o nome de Ribeiro do Carmo, j que era dia de N. Sra. do Carmo. Descobriu-se ouro, em veios riqussimos, e o coronel assentou arraial, inicialmente na regio do Mata-Cavalos, rea mais elevada da atual cidade de Mariana e origem da cidade. 
A notcia das descobertas motivou, em Taubat, a excurso de Antnio Dias de Oliveira, que deixa a cidade em abril de 1698, com a determinao de explorar o Tripu, do qual j se possuam razoveis informaes. Antnio Dias alcana a regio vindo pela Borda do Campo (regio de Barbacena), e da ao Rodeio (proximidades do atual distrito de Miguel Burnier, antigo So Julio) e Serra do Pires, ultrapassando o ribeiro da atual Cachoeira do Campo e chegando ao Campo Grande, regio do alto da Serra do Ouro Preto. Avanando na direo sul, na manh do dia 24 de junho de 1698, dissipada a bruma constante no cume da serra, do seu ponto mais alto, que permite magnfica vista de toda a regio, ele contempla o Itacolomi do outro lado do vale profundo onde corre o Tripu. O ouro aluvionado, a princpio retirado com as bateias nos leitos dos crregos e, depois, com a canalizao da lama retirada das encostas, nos chamados mundus, determinou o incio de Vila Rica.
Em 1700, transfere-se para a regio do Rio das Mortes o bandeirante Tom Portes del-Rei, procedente de Taubat, com famlia e agregados, estabelecendo-se onde seria o ncleo inicial de povoamento, junto ao rio. A crise de fome logo levou antigos mineradores a plantar roas, expandindo-se o arraial. A historiografia registra, contudo, que o territrio no era de todo desconhecido, uma vez que por ele passara em 1674 a bandeira de Ferno Dias Pais, que teria permanecido por bom tempo em Ibituruna ou, mais adiante, em Santana do Paraopeba, reabastecendo-se. Alguns historiadores, entre eles Diogo de Vasconcelos, sustentam que Ibituruna teria sido o primeiro arraial mineiro. Mas  fato incontestvel que o incio efetivo do povoamento da regio se deu a partir do arraial plantado por Tom Portes del-Rei, em local onde o rio poderia ser transposto e que passou a ser conhecido como Porto Real, Porto da Passagem ou Porto Real da Passagem, origem de So Joo del-Rei. O arraial recebeu esta denominao em homenagem ao rei de Portugal, Dom Joo V, dado pelo governador Dom Brs Baltasar da Silveira, em 1713, quando de sua elevao  vila. A descoberta de ouro, em 1702, pelo prprio Tom del-Rei, em local um pouco acima, num crrego da margem direita do Rio das Mortes que o descobridor chamou Santo Antnio, acelerou ainda mais o fluxo populacional. Este seria o ncleo inicial do arraial de Santo Antnio, pouco depois chamado de Arraial Velho e, em 1718, elevado  vila, sob o nome de So Jos del-Rei, hoje Tiradentes. Pouco depois Tom foi morto por seus escravos e substitudo por seu genro, Antnio Garcia da Cunha (Afonso de Escragnolle Taunay, em Relatos sertanistas). 
Os primeiros documentos, anteriores a 1709, quando a Coroa portuguesa criou a Capitania de So Paulo e Minas do Ouro  fato que representa o primeiro reconhecimento oficial do novo territrio  falavam em regio das minas, ou serto dos catagus, referindo-se aos indgenas que a habitavam. Ou ento, um pouco mais tarde, em minas do Ribeiro do Carmo e Vila Rica, espalhadas por todo o territrio, em vrias direes, onde ocorresse o ouro. Antonil (pseudnimo de Joo Antnio Andreoni), que publica Cultura e opulncia do Brasil por suas drogas e minas em 1711, refere-se  regio, dita dos Cataguases, como das minas de ouro que chamam gerais. A denominao de gerais (Valdemar de Almeida Barbosa, em Histria de Minas, vol. 1) visa, portanto, tanto assinalar a amplitude do territrio onde j se minerava ouro como tambm as vrias minas. A fixao de Minas Gerais, como o nome da nova capitania, com citao em documentos oficiais, s vai ocorrer a partir de 1730, quando da nomeao do conde de Galveas, Andr e Melo e Castro, em 1732, como governador e capito general das Minas Gerais. Independentemente desta origem histrica, a denominao Minas Gerais, na interpretao contempornea de alguns, enseja a diferenciao quanto aos traos de personalidade e modo de vida, e mesmo quanto ao territrio, entre o homem das minas, o mineiro/minerador e homem das montanhas, e o homem das gerais, do serto, dos planaltos e veredas do Norte. 
Os condicionantes humanos e econmicos envolvidos nessa aventura inicial da colonizao mineira, entre outros fatores naturais relativos ao territrio e  luta pela sobrevivncia, fornecem os elementos bsicos e primrios  conformao de Minas e dos mineiros.  possvel aquilatar o esprito aventureiro de quem se dispe a entrar em terras desconhecidas, agrestes, inspitas e hostis, em busca de um incerto eldorado. Nos primeiros momentos, j se interpunha a Serra do Mar, com escarpas insuperveis, levando os descobridores de caminhos a realizar grandes voltas at alcanar os contrafortes mais acessveis da Mantiqueira. At o final do sculo XVIII ainda se dizia que Minas comea onde terminam as estradas. A luta pelo domnio do territrio aurfero, difcil pela prpria topografia montanhosa, pelo constante conflito com os ndios, pela falta de estradas e de meios adequados de transportes; os precrios sistemas de explorao do ouro aps esgotado o aluvio; a difcil subsistncia alimentar; a luta pela segurana e pela sobrevivncia fsica; o caldeamento tnico em sociedade rarefeita de mulheres brancas a partir das trs matrizes, o branco europeu, o negro africano e o indgena; o esforo pelo estabelecimento das primeiras organizaes da vida coletiva urbana, partindo do nada, complementam a viso dessa poca e j fornecem os elementos sociolgicos que ajudaro a entender a feio da sociedade em gestao.
Na formao do mineiro, a partir das contribuies tnicas  sociedade que se mescla no sculo XVIII, alguns autores tm apontado influncias que ajudam a explicar alguns traos de conduta. At 1760, foi grande o fluxo de portugueses e alguns estrangeiros para as minas. Diz Oliveira Viana (Populaes meridionais do Brasil) que sadios e fortes campnios do Douro, do Minho e das Beiras, srios, sbrios, honrados, de feitura patriarcal e ndole plcida, predominaram na vinda. E informa que o trao da hospitalidade origina-se desses povos, em geral do meio rural, como tambm e principalmente dos aorianos que vieram para o Brasil, onde  tradicional a farta mesa com biscoitos, pes, queijos e doces para os visitantes. Da serem os mineiros  acrescenta Oliveira Viana  dentre os vrios grupos regionais das nossas populaes, talvez aqueles em que mais se conservam os aspectos lusitanos de nossa cultura. Nos mineiros, principalmente, essas afinidades de temperamento e de costumes com o luso do norte parecem-nos perfeitamente discernveis, especialmente no tocante  organizao da famlia. O portugus  tambm uma raa essencialmente domstica. 
Outro componente racial tem sido citado, como lembrou Guimares Rosa: Numerosssimos judeus, manipuladores de ouro, teriam vindo para as minas. Augusto de Lima Jnior, no artigo Mineiros e paulistas de origem judaica (cf. Syllas Agostinho Ferreira, Achegas sobre a presena judaica, Revista do Instituto Histrico e Geogrfico, volume XXIII, 2000), afirma que muitos cristos-novos, de origem sefardita, vindos do Mediterrneo, especialmente de Portugal e Espanha, vieram para as Minas no sculo XVIII. J o historiador Joo Camilo de Oliveira Torres aponta outro fato que teria provocado a vinda de pequenos burgueses para as minas: a Justia. Desde cedo vieram degredados e fugitivos. Nada melhor que a confuso do Mundo Novo para esconder quem tinha contas a prestar com os tribunais civis e eclesisticos. No existem, no entanto, estatsticas confiveis.
A mescla social que a minerao produz ser algo novo na Colnia. Roberto Simonsen, na sua Histria econmica do Brasil, diz que enquanto um senhor de engenho necessita possuir grandes cabedais para se instalar, o minerador dos aluvies poderia ser um homem de poucas posses. E mais: Operou-se no serto do Brasil uma diviso do trabalho mais intensa do que permitia a organizao social do Nordeste brasileiro. O velho feudalismo dos senhores de engenho no se repete na sociedade que a natureza econmica do assentamento minerador produz nas minas. E conclui: Com os senhores das lavras aparece uma nova ordem de relaes sociais e econmicas, mais moderna, que contribui para enfraquecer a fora do velho feudalismo dos senhores de engenhos de acar. O homem das minas  forosamente rebelde, aventureiro, democrtico e populista. Estas so condies de sua sobrevivncia, em meio hostil e em atividade incerta. E o autonomismo e a insubmisso acabam por ser suas foras empreendedoras, at porque so essenciais  sua mobilidade territorial e psicolgica. 
A primeira publicao mais detalhada sobre os primeiros anos  do jesuta Florentino Antonil, j citado, com descries mais pormenorizadas sobre Vila Rica e a regio. Antonil, que esteve na Provncia em 1704, descreve o arraial de Vila Rica e seu entorno, onde mineravam cerca de 30 mil almas, sobre as quais no havia governo algum, nem ministro nem justias que tratassem ou pudessem tratar do castigo dos crimes, que no eram poucos, principalmente de homicdios e furtos. Apesar de ter passado pelas censuras civis e eclesisticas, o livro de Antonil acaba proibido por falar sobre o ouro farto e ensinar como alcanar as minas. Uma segunda edio s foi possvel em 1838. Nenhum outro estrangeiro escrever sobre as minas, proibidos de entrar na regio. Os primeiros viajantes estrangeiros, em geral naturalistas interessados na geologia, fauna e flora da regio, s foram autorizados alguns anos aps a presena de Dom Joo VI, que instalou governo e corte no Brasil em 1808, fugindo das tropas de Napoleo Bonaparte, que invadiram Portugal. A regio das minas, considerando-se apenas os que mineravam em extensa regio de entorno do Vale do Tripu, por volta de 1728, chegou a ter populao de 80 mil almas, dos quais 11.521 eram escravos, havendo 332 vendas e 335 oficinas diversas (Arquivo Pblico Mineiro, S.C., Cd. 24). 
Neste quadro de desordem e intensa disputa territorial, no demoram a surgir os conflitos pelo domnio das regies aurferas, como a luta feroz (1707 a 1709) entre paulistas e emboabas (que usavam botas de cano longo), denominao esta aplicada a todos os migrantes vindos de outras regies, portugueses, baianos, pernambucanos e outros, com combates e perseguies que configuram uma guerra territorial de largas propores, seja pelo alcance dos territrios conflagrados ou pelo elevado nmero de combatentes e populaes atingidas. Divergem, at hoje, os muitos autores que dedicaram pesquisas a esse conflito, o qual passou  Histria com o nome de Guerra dos Emboabas: uns o valorizam extraordinariamente, classificando-o como primeira guerra civil no Brasil e primeira manifestao de um sentimento nativista, de autonomia e rebelio contra o jugo portugus; outros o veem apenas como disputas e escaramuas pelo domnio das terras frteis em ouro. Publicaes mais recentes veem o conflito como de grandes propores, com combates, muitas mortes e repercusses decisivas na ocupao e povoamento do territrio mineiro. 
Os paulistas, primeiros a chegar  regio, considerando-se com direitos naturais  posse plena das terras que haviam descoberto, chegaram a enviar, por meio da Cmara Municipal de So Paulo, ao governador da Capitania, Artur de S e Menezes, requerimento pedindo exclusividade na outorga de terras na regio das minas. O governador negou a concesso, alegando serem tambm os outros habitantes do Brasil igualmente vassalos de Sua Majestade. 
O primeiro conflito teria ocorrido no Arraial da Ponta do Morro, ou Arraial do Rio das Mortes, onde um paulista matou um forasteiro, portugus, gerando uma reao armada de perseguio ao assassino, conforme registram Antonil, os historiadores Rocha Pita e Diogo Vasconcelos e, mais recentemente, o pesquisador Eduardo Canabrava Barreiros (Episdios da Guerra dos Emboabas, 1984). Desde os primeiros momentos de ocupao da regio, nas duas margens do Rio das Mortes, onde o ouro era encontrado e se fixaram os primeiros grupos humanos, foi conflituosa a relao entre paulistas e os outros migrantes, em constante animosidade. A esse incidente inicial, acontecido no final de 1707, que serviu mais para acirrar os nimos, se sucederia outro, em Caet, quando os paulistas agrediram um portugus, a quem acusavam de roubo. Manoel Nunes Viana, comerciante de gado vindo da Bahia, portugus, reagiu com os outros forasteiros, dando incio ao conflito que se ampliou em Caet e terras vizinhas e logo se estendeu a Sabar, onde os paulistas, expulsos de Caet, se fortificaram. 
Foram atacados por Manoel Nunes Viana, homem de posses e protetor dos forasteiros, tanto portugueses como os procedentes de outras regies e pases, e que se tornou logo o chefe dos emboabas. A ao dos emboabas radicalizou-se de forma ampla em toda a regio do Rio das Velhas, depois que os paulistas, em assembleia, julgando-se fortes e com direito natural s terras, anunciaram que iriam expulsar todos os forasteiros.
Borba Gato, paulista, depois de recuperado seu prestgio com a Coroa e sendo nomeado a 6 de maro de 1700 guarda-mor no Rio das Velhas, regio do Sabarabuu, vinha recebendo instrues do governador-geral para restringir algumas atitudes de Viana. Este se julgava representante do dono das terras e prestava obedincia  Bahia, sede do governo da Capitania a que ainda estavam ligadas amplos territrios da regio das minas,  margem direita do Rio So Francisco. A dura conduta de Borba Gato, que chegou a decretar a expulso de Nunes Viana da regio das minas, teria ampliado a revolta dos emboabas, gerando um quadro de confrontao propcio ao conflito. 
Nunes Viana, portugus de nascimento, que vivera na Bahia, tornou-se forte comerciante de gado conduzido pelo Caminho do Serto, seguindo o Rio So Francisco e o Rio das Velhas. Vindo para Minas, sediando-se em Caet, transformou-se tambm fazendeiro e minerador e representava o famoso potentado baiano Antnio Guedes de Brito e seus descendentes, os quais diziam possuir, por sesmarias antigas, toda a margem direita do Rio So Francisco  cerca de 160 lguas de terras, da Bahia at as nascentes do Rio das Velhas. O conflito teria tambm como elemento causativo a disputa, at ento sub-reptcia, em torno do mando e domnio da zona mineradora, e que vem  tona com os conflitos relativos ao abastecimento de gneros alimentcios. Era imenso o temor da fome, que j matara e provocara a fuga da regio. O certo  que a demarcao definitiva das capitanias da Bahia e da Minas do Ouro s se dar, como j dito, na dcada de 1720. 
Em meio ao conflito, Nunes foi aclamado, em encontro em Cachoeira do Campo, governador das minas pelos revoltosos, reinis, baianos, pernambucanos e outros vindos de vrias partes do Brasil e do mundo, os quais, em mais um combate, haviam expulsado os paulistas. Nunes Viana  apoiado especialmente pelos mais ricos, donos de minas, os chamados potentados, verdadeiros donos de todo o territrio, por sua riqueza e poder, em regies ainda sem governos e leis bem estabelecidas. 
Sobre ele, divergem as interpretaes: para alguns,  mero oportunista, defensor de interesses pessoais, ditador; enquanto outros o veem lder consciente do sentido da revolta. Isaas Golgher, no seu Guerra dos Emboabas, de 1982, diz que Nunes Viana constitui o primeiro governo legtimo que apareceria nas terras americanas, oriundo da vontade do povo e Minas teve o seu primeiro governador eleito e sustentado pela fora das armas. Foram empossadas as autoridades, conferidos os poderes e distribudas as funes e responsabilidades. Os paulistas, brasileiros, nesta viso, representariam os verdadeiros representantes do novo pas, lutando pela posse e autonomia poltica, contra os forasteiros. O fato  que Nunes Viana, chefe inconteste dos emboabas, participante direto dos conflitos, mais tarde acabar perdoado pela Coroa e se tornar um aliado do governo colonial. 
Expulsos os paulistas de Caet e de Sabar, e ainda de Cachoeira do Campo, Nunes Viana entrou triunfalmente em Vila Rica. Em Cachoeira, onde os paulistas haviam levantado fortificaes contra os emboabas, travou-se grande batalha em territrio prximo  cachoeira, na entrada do distrito. Nunes Viana enviou expedies a Ribeiro do Carmo (Mariana) e Guarapyranga (hoje Piranga), que foram repelidas pelos paulistas. A vitria decisiva dos portugueses e outros estrangeiros ocorreu em 1708, em combate em local prximo ao arraial da Ponta do Morro (depois So Jos del-Rei e hoje Tiradentes), s margens do Rio das Mortes. Ali aconteceu, em lugar ainda no identificado, o famoso episdio do Capo da Traio, no qual cerca de 300 paulistas foram assassinados aps renderem-se aos emboabas, fato que teria grande repercusso em todas as minas. Alguns historiadores identificam o Capo da Traio como situado um pouco abaixo da atual ponte sobre o Rio das Mortes, na entrada de So Joo del-Rei, prximo a Tiradentes. 
Outro fato que demonstra o clima de revolta nas minas, bem como a extenso do conflito emboaba, foi o ocorrido com Dom Fernando Martins Mascarenhas de Alencastre, governador e capito-general da Capitania, sediada no Rio, a que ainda pertencia o territrio. Com o objetivo de pacificar a regio e informado do episdio do Capo da Traio, resolve viajar s minas, em maro de 1709. Embora viajasse com tropa regular, o governador foi obrigado, no Rio das Mortes, a retroceder e retornar ao Rio, fugindo de um ameaador cerco realizado pelos emboabas, chefiados pelo prprio Nunes Viana. A Guerra dos Emboabas ainda encontra muitas verses, mas o fato  que Nunes Viana, homenageado em Caet, com esttua em praa pblica, passa  Histria do Brasil como o primeiro governante efetivamente escolhido pelo povo, em desafio ao regime colonial. 
Uma publicao mais recente, extensa e completa, com anlises e interpretaes mais atuais,  o de Adriana Romeiro, Paulistas e emboabas no corao de Minas Gerais, de 2008. Ela identifica um projeto baiano para as minas do ouro, retrata os vrios conflitos de mando entre os governadores das capitanias do Rio, de So Paulo e Minas do Ouro e da Bahia, bem com os muitos interesses pblicos e privados envolvidos. Reconhece o conflito como o despertar do nativismo em solo mineiro, a pungente luta do colonial contra o metropolitano. Mas acrescenta que a disputa em torno da jurisdio administrativa da zona mineradora, at ento sub-reptcia e surda, veio  luz com toda a fora por ocasio do problema do abastecimento de gneros essenciais s populaes que ali viviam. A escassez de vveres j provocara debandada das populaes nas grandes crises de fome dos anos 1698 e 1699 e entre 1700 e 1701. Os gneros alimentcios tornaram-se escassos e caros nas zonas de minerao e o abastecimento, sobretudo de gado, vindo da Bahia, pelo Caminho do Serto, atravs dos rios So Francisco e das Velhas, era negcio rendoso. Nunes Viana, representante de potentados baianos, era comerciante de gado e via seus interesses cada vez mais contestados pelos paulistas. Enfim, tratava-se de uma contenda de mercado e de acesso  terra aurfera, alm de estranhamento tnico. 
Ser constante tambm o combate aos ndios, ora para escravizao, ora para dizimao. Chegaram a ser utilizados como mo de obra na minerao e no plantio, mas sempre resistentes  escravizao. Capturar ndios, para prover mo de obra escrava, foi a motivao de vrias bandeiras que, em breve tempo, compreenderam a dificuldade de mant-los em cativeiro e com bom rendimento no trabalho. Estimula-se, ento, a introduo do elemento africano para fazer o servio inspito nas minas. O historiador Oiliam Jos (Indgenas de Minas Gerais  Aspectos polticos e etnolgicos) identificou 73 povos ou tribos indgenas no territrio mineiro. O grande tronco dos Cataguases (habitantes do mato ralo ou cerrado), da raa G ou Tapuia, seminmades, ocupava desde o Sul de Minas at o Tringulo Mineiro, o So Francisco, parte do Oeste e o Campo das Vertentes. Dominavam, portanto, todo o planalto da Mantiqueira. Da a denominao primitiva de Serto dos Cataguases para a regio das minas. Em constante luta entre suas tribos, com vrias denominaes, entre elas os carijs, constituram temido obstculo  penetrao dos colonizadores. Vrias expedies foram organizadas para aprisionar ndios ou elimin-los, culminando com um grande extermnio e o afastamento, para regies distantes, dos remanescentes. Entre os grandes estudiosos da presena indgena em Minas est o historiador Nelson de Senna, tambm autor de vrias publicaes sobre a cultura popular e o folclore mineiros.
Com os primeiros povoados, discute-se a criao das instituies civis e tenta-se colocar normas para organizao das sociedades nascentes. A presena de religiosos logo nos primeiros momentos da corrida pelo ouro levar a Coroa portuguesa a adotar medidas coercitivas de sua presena. A partir de 1709, por determinao do governo portugus, fica proibida a presena de ordens religiosas nas minas. Com maior instruo, mas nem por isto com maior compromisso com a moral crist, mineradores ambiciosos, exemplos perniciosos e solidrios entre si, os frades e os conventos sempre sero vistos como perigosos para a Coroa. Os conventos e mosteiros, isolados ou verdadeiras fortalezas, sempre tentam manter-se fechados ao poder civil. Teixeira Coelho, do Tribunal da Relao do Porto, inclui os padres seculares na mesma ordem de preocupao: Os clrigos so revoltosos, que faltam com pasto espiritual s ovelhas, que so ambiciosos, simonacos, e que so rebeldes em pagar os quintos, permanecendo no mais a isto obrigados, ocultando os escravos na repartio das bateias.
O nico mosteiro de que se tem notcia em Minas  de N. S. da Conceio de Macabas, em Santa Luzia do Rio das Velhas, construdo em 1730 por Flix da Costa, sob a forma de Recolhimento Feminino. J em 1714, Flix teria construdo a Fazenda das Minhocas, s margens do Rio das Velhas, com o mesmo objetivo. Em 1749, abrigava 70 mulheres, entre religiosas e pessoas comuns, e mais 14 escravos. Abrigou vivas e mulheres casadas que ali buscavam proteo, refgio e paz, algumas internadas  fora pelos maridos como punio para o adultrio, segundo Jnia Furtado, em Chica da Silva e o contratador de diamantes  o outro lado do mito, 2003. Em 1806, no auge da Casa de Recolhimento, outro registro revela que 86 mulheres estavam ali internadas e uma centena de escravos trabalhava na fazenda. No Imprio, transformou-se em convento e educandrio. Situado s margens do Rio das Velhas, Macabas tornou-se fazenda de porte como entreposto de comrcio vindo da Bahia. Sua capela, devotada a Santa Rita, bem como uma ala do convento, teriam sido custeadas pelo famoso contratador Joo Fernandes de Oliveira, de Diamantina, que ali internou nove filhas tidas com Francisca da Silva de Oliveira, a Chica da Silva, para receberem boa educao. Uma delas, vivendo com o padre Rolim, inconfidente do Serro, teve cinco filhas, tambm internadas em Macabas por ocasio da Inconfidncia Mineira. Em 1926, a Ordem da Imaculada Conceio  Concepcionistas, de origem portuguesa, assumiu a administrao do mosteiro, com o regime de claustro. Nele viveu, no sculo XIX, a irm Germana, tida como mstica e santa. 
Na falta das ordens primeiras e seus conventos, e tambm dos padres seculares ou diocesanos, proliferam em Minas as ordens terceiras, irmandades e confrarias, de leigos, com suas igrejas cumprindo misso alm da meramente religiosa. Sero, na verdade, as nicas organizaes da sociedade civil na Capitania, cumprindo trajetrias de grande relevncia histrica e social at o sculo XX. Elas construram igrejas, cuidavam do calendrio religioso, administravam os cemitrios, provinham assistncia espiritual aos seus irmos, cuidavam das exquias e sepultamentos. Organizadas por segmentos e estamentos sociais, adquiriram vrias vezes o papel de corporaes de ofcio, realizando a defesa dos profissionais filiados. Dois livros tratam desta questo com profundidade, Associaes religiosas do Ciclo do Ouro, de Fritz Teixeira de Salles, de 1963, e Os leigos e o poder, de Caio Csar Boschi, de 1986. E, nas cidades histricas de Minas, as irmandades ainda exercem a antiga misso de cuidar das igrejas e do calendrio de festas, organizando procisses e outros eventos religiosos.
Em todo o perodo colonial, ocorre notria resistncia s normas da Coroa portuguesa, que estar em constante conflito com o novo territrio, sempre rebelde, por todo o sculo XVIII. O carter meramente exploratrio da gesto colonial, as proibies de todas as iniciativas que pudessem estimular o conhecimento e a implantao de indstrias prprias iro despertar naturalmente resistncias. Todos esses fatores, prprios e singulares s sociedades surgidas da minerao do ouro e pedras preciosas, plasmaram um tipo de civilizao que  mpar no contexto brasileiro e que ter desdobramentos amplos, com vrios pioneirismos na formao da sociedade urbana nacional e seus fundamentos sociolgicos. 
Sero tais fatores subjacentes a esse tipo de sociedade, entre outros da conjuno histrica e da natureza, que viriam permitir um surto intenso de criatividade artstica e cultural, que lhe daria feies prprias, a ponto de levar ao reconhecimento universal, pela Unesco, como patrimnios exemplares, Ouro Preto, Diamantina e o conjunto da Baslica de Bom Jesus de Matosinhos, igreja, profetas e passos de Congonhas, como testemunhais de um perodo da histria humana nas Amricas, considerados acervos a serem preservados para a Humanidade. Fatores, ainda, que levaram essa sociedade, constituda nas cidades histricas de Minas, a sonhar com a autonomia poltica e econmica, conquistando presena importante na Histria do Brasil. E que, em diversos momentos, contriburam para a formao da nacionalidade brasileira, no s no despertar do sentimento nativista, mas na construo de instituies polticas, jurdicas e civis. Como explicar este florescimento cultural considerando as imposies do Pacto Colonial, os constrangimentos pela dominncia do trabalho escravo, as precarssimas condies de transporte e comunicao?, indaga Joo Antnio de Paula em Razes da modernidade em Minas, de 2000.
Alceu Amoroso Lima, no seu A voz de Minas, de 1946, diz que o fenmeno mineiro  condicionado, todo ele, pela montanha. A montanha representa horizonte limitado, ritmo lento de andar, economia extrativa, vontade dominando a imaginao, vida sbria e difcil, concentrao psicolgica e disperso demogrfica. A montanha , antes de tudo, limitao do horizonte. Limitao no sentido geogrfico e psicolgico do termo. A terra se levanta em grandes serranias, que separam toda a regio do resto do pas. Sobe-se a Minas. O mineiro desce ao litoral e a outros Estados. Minas est em dois planos. Para se chegar ao corao da provncia  preciso passar por duas serranias. Cada uma delas basta para fechar o horizonte. Para dar a toda a regio o seu aspecto de isolamento. A terra  spera e deserta. O homem se sente pequeno e perdido. O campo, por mais amplo que seja, permite ser cruzado em todos os sentidos. A filosofia autoriza a esperana de uma derrubada. A montanha, a verdadeira montanha,  inabitvel, inspita, fechada. Levanta-se como um obstculo. Como uma negao. Como um limite. Se a colina  o sorriso da terra, a montanha  a cara fechada.  o sobrolho abaixo.  a barreira. O homem da montanha sente, a cada momento, o horizonte fechado. Da a sua taciturnidade. Sua concentrao. Sua fidelidade. A sociologia mineira  condicionada, antes de tudo, por esta limitao de horizonte.  uma sociologia concentrada.  uma sociologia de integrao.  uma sociologia essencialmente orgnica e sensata, no mecnica e aventureira. Tese compartilhada pelo historiador Joo Camilo de Oliveira Torres no seu clssico O homem e a montanha, de 1944, entre muitos outros textos de sua vasta, erudita e pioneira produo. Para Joo Camillo as montanhas determinam uma espcie de submisso do homem, dando ainda mais fora a caractersticas morais e de temperamento, como a tristeza e certas dificuldades de comunicao.
Como corolrio deste tema  significativo lembrar o que disse Franklin de Oliveira, no seu Morte da memria nacional, de 1966, aps longa viagem de investigao jornalstica s cidades histricas mineiras, realizada dois anos antes: Estou profundamente convencido de que ningum compreender o Brasil, na complexa densidade de suas razes e, portanto, estar em condies de empreender com sbia lucidez a tarefa ciclpica de sua transformao, se no conhecer toda a intimidade da civilizao do ouro e dos diamantes: sua estrutura econmica, a sua ordem poltica, a sua dimenso espiritual. Temos em Minas no s o que o Brasil foi mas o que o Brasil  e o que poder vir a ser. 
Elementos fundadores dessa sociedade mineradora ajudam a explicar os fenmenos que marcaro sua trajetria singular. Ela se forma muito rapidamente, sob o impacto da descoberta das minas de ouro. Em trs dcadas formam-se cidades nas minas com populao igual s cidades que, na costa brasileira, a presena portuguesa havia levado dois sculos para construir. Isto  verdade, por exemplo, para So Paulo e So Vicente, no Planalto do Piratininga, ncleos iniciais da colonizao portuguesa no Sudeste. Logo novos desbravadores iro percorrer extensamente o territrio e descobrir novos rios aurferos. A diversidade da formao das regies, tanto geogrfica quanto topogrfica ou geolgica, entre outros fatores, como clima ou aclividade, no foram obstculos para a fixao dos povoados. Outras expedies entram e avanam pelo territrio. Formam-se novos arraiais e ampliam-se os primeiros ncleos, alimentados pela continuidade da explorao mineral e outras atividades econmicas exigidas pela sociedade que se formava. 
Vencedores do conflito com os paulistas, os emboabas haviam escolhido chefes territoriais e at um governador, Manoel Nunes Viana, como j dito. Poderoso, rico, Nunes Viana cumpriu papel importante nos primeiros anos do territrio. A busca de terras frteis, essenciais  lavoura de subsistncia, evitando-se as sucessivas crises de fome,  outro motivo de ampliao da conquista regional. Albuquerque d o seu nome aos primitivos arraiais de Vila Rica, posteriormente retirado por Dom Joo V. Com presena forte, mas sem perder o dilogo, torna-se o primeiro organizador do novo territrio. Mas, pela frente, a Coroa portuguesa ter ainda muitas dificuldades para efetivamente estabelecer controles efetivos sobre a regio e cobrar seus impostos.
Povoam-se rapidamente as encostas da atual Serra do Ouro Preto e toda a regio do entorno, bastante aurferas, at hoje marcadas pelas intervenes de desmonte de terras e implantao de mundus, para recolhimento e canalizao da lama aluvional aurfera. Entre Vila Rica e Ribeiro do Carmo, a minerao  intensa em todas as vertentes da Serra do Ouro Preto. Em busca do ouro de aluvio, pesquisam-se intensamente os cursos dgua, como o Sobreira, o Caquende, o Xavier e o Funil, que descem da serra. Um pouco mais tarde, esgotados os leitos dos rios,  que se cavam as betas, tneis perfurados na rocha, de que Ouro Preto  farto e que revelam o duro trabalho dos escravos africanos. 
A Serra do Ouro Preto, extenso sul do Espinhao e, em especial, o Morro de Santo Antnio, j em Passagem de Mariana, so palmilhados por entradas de antigas minas, sarilhos de ventilao, muralhas de pedra ou canga, de antigas moradias e outras edificaes, testemunhos da intensa explorao ali ocorrida, a ponto de Dom Pedro II, em visita  regio, em 1881, ter dito que ali se encontrava a Pompeia brasileira.
A formao geolgica das minas  que se dava denominao ao tipo de ouro: o ouro preto, encontrado em mistura com o vandio, tinha mais valor por sua concentrao. No Inficcionado (hoje Santa Rita Duro, distrito de Mariana), o ouro misturado foi chamado de ouro podre, assim como ocorreu tambm em algumas minas na Serra do Ouro Preto. O ouro branco, de pouco rendimento, mais plido, originou a denominao da cidade de Ouro Branco. 
 intensa a corrida  regio. Novos paulistas, portugueses, baianos, pernambucanos, aventureiros de toda espcie correm s minas, atrados pela possibilidade do enriquecimento fcil. A febre generalizada pelo ouro no permite o plantio de vveres e acontecem crises de abastecimento e fome coletiva, logo nos primeiros momentos. No entorno de Ouro Preto, distritos como So Bartolomeu, Glaura (denominada Santo Antnio da Casa Branca at 1943, quando recebe o nome do poema Glaura, em homenagem ao seu autor, Manoel Incio Silva Alvarenga, nascido em Ouro Preto), Santo Antnio do Leite e Amarantina surgem e desenvolvem-se pela fertilidade de suas terras, quando a fome obriga a busca de reas de plantio. O mesmo acontece com Mariana e os vrios distritos localizados em solos mais frteis. Na regio das minas, o territrio  ngreme e de pouca fertilidade. S bem mais tarde surgiro as fazendas de abastecimento, nos limites das regies aurferas, e que vo legar a Minas magnficas casas coloniais rurais, hoje transformadas em pousadas e que constituem um atrativo turstico forte. Muito cedo se consolidara o comrcio de gado, vindo pelos rios So Francisco e das Velhas, inicialmente da Bahia e das fazendas-currais, que se instalam no territrio mineiro ao longo do rio, trecho que dispe de excelentes clima e pastagens para a engorda.
Regies de belas e muito antigas fazendas so Santana dos Montes, Itaverava, Conselheiro Lafaiete, as cidades da Comarca do Rio das Mortes, de Barbacena e a rea de Rio Pomba, Piau e Ub, de um lado, e de Matosinhos, Santa Luzia, Taquarau, estas margeadas pelo Rio das Velhas, so exemplos de propriedades produtivas que alimentavam a regio das minas. So as chamadas fazendas de abastecimento, de que Minas ter dezenas delas, primeiramente para abastecer a regio da minerao e, posteriormente, para fornecer vveres para o Rio de Janeiro. As fazendas  margem do Rio das Velhas possuam portos para desembarque de cargas vindas tanto por este rio quanto pelo So Francisco, como mostram a Fazenda das Formigas, a fazenda do Convento de Macabas e a famosa Jaguara. Esta ltima chegou a abrigar at duas mil pessoas, nos diversos afazeres produtivos. Trata-se de um tema que j vem sendo bem analisado. Minas e os currais  produo rural e mercado interno de Minas Gerais, 1674-1807, de ngelo Alves Carrara, de 2007, por exemplo,  um rico e inovador estudo desta questo, especialmente sobre a colonizao do Norte de Minas a partir do Rio So Francisco e o intenso comrcio com a regio das minas.
O desbravamento do territrio mineiro perdurou por todo o sculo XVIII. Mas foi a partir de 1760, quando ocorreu a escassez do ouro, provocando a fuga da minerao, que houve intenso movimento de busca de novos territrios. O governo colonial passou a incentivar expedies em regies at ento inexploradas, no s com o intuito de descobrir novas minas, mas, tambm, de ampliar o seu domnio territorial e produzir outras riquezas. Somente de 1750 a 1759 foram concedidas cerca de 1.200 sesmarias de um total de quase 8.000 estabelecidas desde os primeiros anos da ocupao. Os anos de 1780 a 1789 apresentam-se como os mais crticos para a economia, seguindo-se nova leva de concesso de sesmarias, como poltica colonial de substituio da minerao exaurida. A minerao tornara-se atividade de risco, incerta aos que no possuam meios suficientes para buscar veios mais profundos. A busca do sustento transferiu-se para a agricultura e o pastoreio. Surgem as grandes fazendas, sustentando as vilas agrcolas, ncleos urbanos formados no pela presena do ouro, mas por possurem terras melhores para o plantio. A atividade rural  naturalmente dispersa, amplia fronteiras e marcar a fisionomia humana, econmica e poltica do sculo XIX, ocupando principalmente o Sul de Minas e a Zona da Mata, para abastecer especialmente o Rio de Janeiro. 
Essa ocupao, aliada ao intenso fluxo migratrio dos primeiros tempos, far de Minas Gerais a capitania mais populosa da Colnia, condio que permaneceu durante o Segundo Imprio e alcanou a Repblica. Somente nas duas primeiras dcadas do sculo XX  que Minas perder populao para So Paulo. A disperso da populao, ainda pela exausto do ouro, levar os mineiros at o territrio de Gois, onde ainda deixaro ncleos urbanos formados sob os ditames da sociedade mineradora. Sero tambm os mineiros que iro povoar Mato Grosso e o Norte do Paran, j em busca de boas terras para a atividade agrcola, no sculo XIX. A presena mineira se far tambm no Norte e Nordeste de So Paulo, para onde foram os mineiros de Arax, Paracatu e do Tringulo Mineiro, no final do sculo XVIII e primeira metade do sculo XIX, conforme levantamento completo sobre o povoamento dessas regies, realizado por Mrio Leite, em Paulistas e mineiros  plantadores de cidades, de 1961.
A partir de 1720, abre-se novo territrio de povoamento com a descoberta dos diamantes.  a fundao do Distrito Diamantino, oficializado somente em 1729, com a explorao realizada sob controle e incentivo da Coroa, e que vai gerar Diamantina e vrios outros ncleos menores. Esse fato compe um relato  parte na Histria de Minas, pela sua economia singular e um regime colonial opressivo, implantado na regio, devido s restries impostas pela Coroa portuguesa  entrada e sada de pessoas e ao controle da extrao de diamantes. Diamantina  um captulo especial na formao de Minas, rico de fatos e personagens, como as figuras dos intendentes e contratadores, funcionrios da administrao colonial portuguesa, encarregados de estimular a extrao de diamantes e fiscalizar o envio da parte da Coroa. E que, quase unanimemente, se envolveram em corrupo, entre outras histrias que fazem parte hoje do rico inventrio popular sobre a regio.  conhecida a histria do contratador Joo Fernandes de Oliveira e de Chica da Silva, objeto de pesquisas que demonstram o estilo de vida e o carter da sociedade diamantinense. Joo Fernandes foi o contratador de 1743 a 1771, com sucessivos contratos, e era considerado,  poca, um dos sditos mais ricos de toda a Colnia. Dspota, temido, viveu com Chica da Silva, filha de escravos, com quem teve filhas e a quem deu casa e igreja, edificaes conservadas no ncleo histrico de Diamantina. 
Em 1731, o distrito foi demarcado e providncias foram tomadas para dificultar o acesso s lavras, por meio de altas taxas de capitao. Entre 1734 e 1739, a explorao de diamantes foi proibida e estabeleceu-se uma administrao prpria para a regio, constantemente ampliada conforme fossem anunciados novos achados de diamantes. A primeira demarcao alcanava o Tejuco, hoje Diamantina, e mais Gouveia, Milho Verde, So Gonalo, Chapada, Rio Manso, Picada e P-do-Morro, surgidas da minerao ou da busca de terras mais frteis para a atividade agrcola. Em 1745, a Coroa chegou a proibir o livre acesso s terras demarcadas, com as entradas sendo feitas apenas nos Registros, onde eram cobrados os direitos de entrada, inclusive sobre gneros alimentcios e escravos. Em 1771, como uma nova tentativa de evitar desvios e gestes corruptas, a Coroa assumiu a extrao e comercializao de pedras, com o diamante sendo declarado monoplio rgio. Foi criada a Real Extrao dos Diamantes e editado um Regimento Diamantino, que se tornou conhecido como o Livro da Capa Verde, com normas rgidas relativas  retirada e transporte do diamante, bem como a organizao administrativa do distrito. Implantou-se uma Junta da Administrao-Geral dos Diamantes, constituda por um intendente, um fiscal e trs caixas, subordinados a Lisboa e, portanto, autnomos com relao ao governo da Provncia.
No havia cmaras municipais, juzes ou outras reparties pblicas, mas apenas o intendente e seus funcionrios, com poderes absolutos, o que no eliminou as histrias de corrupo e desvios. A Extrao Real teria sido o exemplo mais acabado do despotismo metropolitano, revelando sua face mais cruel, que em seu af tributarista teria sido capaz de alterar toda a sociedade e a economia da Demarcao (O Livro da Capa Verde  O regimento diamantino de 1771 e a vida no distrito diamantino no perodo da Real Extrao, Jnia Ferreira Furtado, 2008). O regimento aplicou-se at 1808, quando o esgotamento das lavras se tornou crtico, ocorrendo presso da sociedade diamantinense no sentido da busca de alternativas para a sua sustentabilidade econmica. E j o governo no conseguia impedir o contrabando e exercer o controle dos servios pblicos locais. 
No seu Memrias do Distrito Diamantino, publicado em 1868, obra fundamental para a compreenso desta regio e deste perodo, Joaquim Felcio dos Santos trata da ocupao do territrio, informa sobre o achado dos diamantes e as primeiras lavras, a formao do arraial do Tijuco (Diamantina), a busca do ouro na regio do Serro do Frio, as excurses pelo Jequitinhonha e, sobretudo, aspectos da vida diamantinense, a gesto colonial, o contrabando e o garimpo, as rebelies e roubos, a falncia da minerao. O conjunto arquitetnico preservado, sua histria e seus acervos patrimoniais e artsticos, sua formao um tanto diferenciada das primeiras vilas do ouro, seu enclausuramento, razo maior da sua imutabilidade urbana e arquitetnica, levaram Diamantina a obter, em 1999, o ttulo de Patrimnio Cultural da Humanidade, concedido pela Unesco. 
A diferenciao de Diamantina encontra razes interessantes: viveu dois sculos por conta do diamante, condio que induziu a certo requinte de vida aos que o comercializavam, bastando ver a vida de fausto dos contratadores e de certas camadas da populao, muito tpica dos novos ricos; o fechamento da regio levou-a sofrer menos influncias externas, mantendo-se uma sociedade mais estanque; induziu tambm a certa sociabilidade como meio de suportar a convivncia interna; o diamantinense permaneceu em isolamento, determinado pelo distanciamento geogrfico e no se expandiu na ocupao do territrio do entorno, deserto e inspito, imprprio ao ruralismo. O diamantinense  o mais urbano dos mineiros, talvez o mais civilizado, o mais fino no trato e o mais alegre, diz Sylvio de Vasconcellos, no Mineiridade. Os estilos e solues arquitetnicas, expressos especialmente em suas construes religiosas, possuem traos prprios, diferindo de Ouro Preto e Mariana. Interessante  que, no Serro, ncleo originrio da ocupao do Tijuco (Diamantina), origem de vrios troncos de ilustres famlias mineiras, geograficamente muito prximo daquela, os traos de personalidade j so bem outros: introverso, recolhimento, sisudez, viso nostlgica da vida e do mundo, pouco dada a maiores aberturas e alegrias, seno aquelas da religio e da vida familiar. O mesmo se d com Conceio do Mato Dentro, antiga Conceio do Serro, separada da regio central do Estado pela Serra do Cip, de difcil transposio at h pouco tempo. E que, infelizmente, no preservou seu conjunto urbano setecentista, a exemplo do Serro e Diamantina. 
So extensos e detalhados os relatos de viajantes estrangeiros que, na primeira metade do sculo XIX, visitaram Diamantina e que j a distinguem das outras cidades da Provncia, por certo refinamento educacional e a existncia de famlias mais abastadas. As restries no conseguiram evitar o crescimento populacional, que chegou a atingir perto de 100 mil habitantes na primeira dcada do sculo XIX. Um relato precioso da vida diamantinense, na segunda metade do XIX,  encontrado em Minha vida de menina, de Helena Morley, na verdade Alice Dayrell Caldeira Brant (1880-1970), publicado em 1942. Filha de pequeno minerador descendente de ingleses, Alice descreve a vida na regio, seus costumes arraigados, relaes sociais e contradies, com estilo castio e surpreendente.
Na dcada de 30 do sculo XVIII, quando se inicia a ocupao do territrio de Gois, abre-se o chamado Caminho da Picada de Gois, percorrendo regies at ento inexploradas destes dois Estados. Em 1736, o governador Gomes Freire de Andrade assina despacho permitindo a construo do caminho, com incio em Pitangui e So Bento do Tamandu, nome primitivo de Itapecerica. E tambm, com uma variante, partindo de Oliveira. A partir desta autorizao e ainda pela notcia de descoberta de ouro em Gois, trs outros caminhos surgiram: um vindo de So Romo, no Norte de Minas, ligando Gois  Bahia e a Pernambuco; outro procedente tambm de Pitangui e um terceiro passando pela foz do Rio Abaet, onde transpunha o So Francisco. Outra verso diz que a Picada de Gois comeava em So Joo del-Rei, passando por Santa Rita do Rio Abaixo, hoje Ritpolis, prximo  Fazenda do Pombal, onde nasceu Tiradentes em 1746, quando a propriedade pertencia a So Jos del-Rei. E da passava em So Tiago, seguia para Morro do Ferro (So Joo Batista), Oliveira, Formiga, Bambu, So Pedro de Alcntara (Ibi), Arax, Serra do Salitre, Patrocnio, Carabandela (Coromandel) e Paracatu, alcanando Gois. Por ela passavam os que vinham de So Paulo, pelo Caminho Velho, aps atingir So Joo del-Rei. Os trajetos multiplicam-se ao longo dos anos e hoje  difcil definir os caminhos primitivos ou mesmo saber onde comeava a Picada, conforme relatam os historiadores que tm se debruado sobre esse tema. 
A Picada de Gois, cujo incio e verdadeiro trajeto permanecem imprecisos, se tornaria um nome amplo designativo de uma larga faixa do territrio do Oeste e iria marcar tambm a mudana da economia mineira: no lugar de concesso de datas para minerao, solicitavam-se terras agricultveis destinadas  lavoura e  criao de gado. Saint-Hilaire, em viagem  regio, em 1819, percorrendo de So Joo del-Rei at Itapecerica, antigo So Bento do Tamandu, passando por Oliveira, destaca a vocao agrcola dessa rea. A Picada de Gois ser ainda responsvel pela ocupao do Tringulo e Noroeste do Estado, onde se localizam as terras com melhor vocao agropecuria, percorridas, em grande parte, pelo Rio Paranaba. 
O governador Gomes Freire concedeu vrias autorizaes e sesmarias a interessados na abertura da Picada e na colonizao dos novos territrios, na esperana de descobrir novas minas, assim como ocorrera com o territrio de Gois. Mas, principalmente, assegurar-se do domnio de amplas regies at ento bastante desconhecidas. A Picada de Gois adquire, nesse contexto, importncia histrica decisiva na formao territorial de Minas Gerais, possibilitando a incluso das regies de Paracatu e do Tringulo Mineiro. A incorporao do Tringulo s ocorrer, oficialmente, por alvar de 4 de abril de 1816, assinado por Dom Joo VI, atendendo a abaixo-assinado dos moradores de Arax. E ocorre justamente porque coube aos mineiros ocupar esse territrio, denominado Serto da Farinha Podre, no qual o primeiro arraial foi Desemboque, atual distrito da cidade de Sacramento (simplificado de Santssimo Sacramento), que surgiu por volta de 1740. Dele partiram as expedies que iriam desbravar a regio, como So Domingos do Arax, atual Arax (planalto, de viso alta, em tupi-guarani). 
Famoso tambm, na regio, foi o Quilombo do Ambrsio, que alguns pesquisadores situam entre Arax e Ibi (antigo So Pedro de Alcntara), enquanto outros dizem referir-se a uma regio ampla, para onde negros fugidos da minerao iam buscar refgio. Pesquisas no conclusivas chegaram a localizar o Quilombo do Ambrsio em Ibi, onde existe um Crrego do Ambrsio e um Crrego do Quilombo, chegando a gerar um pedido de reconhecimento ao IPHAN, em 2002, que no prosperou. So inmeros, no entanto, os registros histricos de ataques de negros a fazendeiros e comitivas da regio. Famosa tambm  a resistncia dos ferozes ndios caiaps, habitantes primitivos dessa rea,  presena dos novos colonizadores. Expedies de extermnio foram organizadas pelo governo colonial. 
Documentos histricos situam o Serto da Farinha Podre no territrio limitado, ao norte, pelo Rio Paranaba, divisa com Gois; ao sul, pelo Rio Grande, divisa com So Paulo, rios que se uniam na ponta para formar o Rio Paran e, a leste, pelas serras da Canastra e da Marcela. A denominao Tringulo Mineiro s foi consolidada na dcada de 1870 e atribuda ao mdico francs, morador de Uberaba, Franois Henry Trigantdes Genettes, figura bastante conhecida e influente em toda a regio e com um longo e intrigante histrico de vida.
Ao lado da Picada, ou por sua influncia, nasceram ou cresceram Oliveira (N. Sra. de Oliveira), encruzilhada entre a regio de So Joo del-Rei e os novos territrios, um dos ncleos que enviou colonizadores para Gois e centro de produo e comercializao de gneros alimentcios, como Campo Belo, Passatempo, Piumhi, Formiga, Bambu, Farinha Podre (surgida em 1807, hoje Uberaba, palmito amargoso, na linguagem caiap). E propiciou a ocupao do Noroeste Mineiro, revelando terras de elevada qualidade produtiva, em municpios como Patrocnio, So Gotardo, Coromandel, Ibi, Patos de Minas, Carmo do Paranaba, Presidente Olegrio, e muitos ncleos de menor porte, originados j no sculo XIX, onde esto as melhores e mais frteis terras de Minas, que logo sediaram muitas fazendas, transformando-se em centros de produo agropecuria. So Pedro da Uberabinha (primeiro nome de Uberlndia, denominao adotada somente em 1929), surge em 1818, quando se fixa na regio, vindo do Desemboque, seu fundador Joo Pereira da Rocha. Mais ao norte, a qualidade das terras permitiu, como at hoje, uma melhor produtividade agropecuria, realizando o abastecimento de Gois e Mato Grosso e especialmente as regies das minas descobertas nestes dois novos territrios. Um relato mais atual da ocupao dos territrio do Tringulo Mineiro e do Alto Paranaba est em Nos confins do Serto da Farinha Podre  Povoamentos, conquistas e confrontos do Oeste de Minas de Mrio Lara, de 2009.
Pitangui (rio de crianas, em tupi-guarani) foi o principal ncleo urbano dispersor de exploradores do serto, ao Norte de Minas, regio pouco povoada at meados do sculo XVIII. A cidade foi fundada por paulistas que fugiam do cerco e dos massacres emboabas e que sempre mantiveram a cidade isolada de outras invases de estrangeiros. A descoberta de ouro na sua regio, assim como em Abaet e no Rio Grande provocou o povoamento do Oeste de Minas e do Alto So Francisco, estimulado ainda pelo fluxo migratrio determinado pela exausto da minerao nas regies de Ouro Preto e de Sabar. Notabilizou-se por constantes revoltas, oferecendo contnua resistncia ao regime colonial portugus, e foi a cidade mineira que enviou o maior nmero de combatentes voluntrios para a Guerra do Paraguai. Orgulha-se de ser um centro de civismo, demonstrado em vrios episdios em que foi preciso tomar posio em defesa da nao. Hoje, um movimento cvico objetiva dar ao Centro-oeste de Minas o reconhecimento histrico pela importncia que teve na formao de localidades e conquista de novos territrios. Hoje, pelo porte de suas cidades, amplia-se sua importncia econmica e cultural. Participam desse movimento cidades como Divinpolis, Itana, Nova Serrana, Abaet, Pitangui, Par de Minas, Lagoa da Prata, Pompu, Santo Antnio do Monte e Bambu, entre outras da regio. 
Um caminho que vinha de So Romo, entreposto comercial forte,  margem do Rio So Francisco, alcanava Paracatu, desde o incio muito aurfero e destacando-se na criao de gado, cujos rebanhos enviava para a regio das minas e depois para Gois. Paracatu, que recebeu o ttulo de Vila do Prncipe, dado por d. Maria I em 1796, foi povoado por gente da Bahia por volta de 1720, embora haja notcia da presena, na regio, do bandeirante paulista Loureno Castanho Tacques, em torno de 1680, conforme registros de historiadores antigos. Toms do Lago Monteiro, primeiro habitante a se destacar, declarou-se como sendo da Cidade da Bahia, Salvador, ao solicitar patente de coronel para melhor combater o gentio e procurar o ouro. Um pouco mais tarde, a descoberta de minas de ouro no Paracatu, riqussimas e at hoje em explorao, viria a atrair novos fluxos populacionais, desenvolvendo este antigo ncleo urbano, um dos mais antigos de Minas Gerais. At a definio dos limites territoriais entre Minas, Bahia, Pernambuco e Gois, ocorrida somente na terceira dcada do sculo XVIII, Paracatu (peixe-bom em tupi-guarani), assim como quase toda a regio  margem esquerda do Rio So Francisco, pertencia a Pernambuco. Curvelo e outras cidades do Norte de Minas pertenciam  Bahia. Devemos ao historiador e pesquisador Antnio de Oliveira Mello vrios trabalhos de pesquisa e divulgao histrica e cultural de Paracatu e Patos de Minas e suas regies.
As notcias de penetrao de viajantes procedentes do territrio do Esprito Santo so raras, uma vez que era visto e mantido pelas autoridades coloniais portuguesas como uma barreira natural entre a regio das minas e o mar, e por temerem a presena de invasores estrangeiros, cobiosos de participar da corrida pelo ouro. Quaisquer conexes terrestres ou fluviais, e mesmo a fixao de povoadores, ainda que meros fazendeiros, foram proibidas pela Coroa portuguesa a partir de 1733, com normas rgias determinando punies severas para os transgressores. Imps-se o monoplio da estrada para o Rio de Janeiro para a comunicao com as minas. As reas que ficavam a leste dos ncleos urbanos ligados  minerao tornaram-se territrios proibidos. S com o esgotamento do ouro e a presena de Dom Joo VI, em 1808,  que as proibies foram abrandadas, levando o governador capixaba, Francisco Rubim, a determinar a abertura de um caminho entre Vitria e Vila Rica. A estrada, denominada So Pedro de Alcntara, estaria concluda em 1814, mas foi abandonada uma dcada depois. Somente em 1912, o ento governador Jernimo Monteiro, preocupado com a questo de divisa com Minas, realizou novas obras de reabertura da via. Importante lembrar que o territrio capixaba teve presena colonial j no sculo XVI. O trajeto para o Esprito Santo, que em 2009 comea a ser transformado em estrada turstica, partia de Ouro Preto, passava por Mariana, Acaiaca, Barra Longa, Ponte Nova, Oratrios, Jequeri, Abre Campo, Pedra Bonita, Matip, Santa Margarida, So Jos do Manhuau, Lus Burgo, Manhuau, Reduto, Martins Soares, Manhumirim, entrando no Esprito Santo e passando, no trajeto inicial, pelas cidades de Prncipe e Luna.
Caminho natural, o Rio Doce permaneceu por quase todo o sculo XVIII fechado a incurses de domnio territorial e sua colonizao s se dar no sculo seguinte, com desenvolvimento efetivo somente no sculo XX. Alm das florestas tropicais, fechadas e com inmeros perigos, havia a presena dos ndios botocudos, canibais, terror dos brancos e de outros ndios, que geraram vrios contos que assustavam geraes de mineiros e que foram exterminados por vrias expedies especialmente armadas para esse fim. A Carta Rgia de 13 de maio de 1808, que permitiu o incio da navegao no Rio Doce,  tambm uma declarao de guerra aos botocudos. Eles representaram, no entanto, por longo perodo, fator dificultador  ocupao da regio. O serto do Rio Doce, de Haruf Salmen Espindola (SP, Edusc, 2005),  uma completa pesquisa histrica sobre a ocupao regional. 
A colonizao, com o estabelecimento de convivncia pacfica com as tribos indgenas, se deve, em grande parte, ao francs Guido Thoms Marlire, que chegou a Vila Rica em 1811, e ali foi inclusive preso, sob suspeita de ser espio de Napoleo Bonaparte. Chegou ao posto de alferes do Exrcito de Napoleo e viveu vrios conflitos no conturbado perodo e que l viveu. Embora francs de nascimento, fez carreira no Exrcito de Portugal e integrou a guarda militar que trouxe Joo VI ao Brasil, em 1808. Solto, reintegrou-se por ordem rgia ao Regimento de Cavalaria sediado em Vila Rica e, em 1813, foi enviado em misso de pacificar os ndios rebelados na regio do Presdio de So Joo Batista do Morro Grande, hoje Baro de Cocais. Em 1824, aps prestar novos servios na pacificao de indgenas, vai para o posto de Diretor-Geral dos ndios e, pouco depois, j promovido ao posto de tenente-coronel, por ato de Dom Pedro I,  nomeado comandante de todas as Divises Militares do Rio Doce, criadas para combater os ferozes ndios botocudos, da Bacia do Rio Doce, inimigos de outras tribos e considerados selvagens com os quais era impossvel estabelecer qualquer convivncia.  considerado o fundador de So Domingos do Prata, Marlieria, Guidoval, Cataguazes, Ub, Rio Pomba, Astolfo Dutra, e outras, onde existiam aldeamentos indgenas. 
Morreu em 1836 e vrias cidades, por onde exerceu sua misso, possuem marcos de homenagem  sua memria. De sua convivncia deixou relatos de grande valor antropolgico e histrico sobre as populaes indgenas mineiras, seu primitivismo, sua organizao tribal, unies, lnguas, alimentao, medicina natural, sobrevivncia, territrios, doenas, costumes e observaes minuciosas que at hoje servem aos pesquisadores. Seu trabalho tornou-se objeto de interesse de estudiosos e naturalistas que visitaram Minas no sculo XIX. Em 1928, foi inaugurado monumento, na estrada Ub-Leopoldina, onde se l:  memria de Guido Tomas Marliere o desbravador das selvas e civilizador dos ndios, abrindo estradas e semeando ncleos de populao. Em Marliere, o civilizador, de 1958, William Jos apresenta valioso trabalho de pesquisa de vida e obra de Marlire.
Bem mais tarde  que o governo colonial permitir a ocupao de vastos territrios fronteirios entre Minas e o Esprito Santo. Nos anos finais do sculo XIX e primeiros anos do sculo XX, haver colonizao estrangeira nessas terras bastante montanhosas, especialmente por imigrantes alemes. At 1956, Minas e Esprito Santo disputavam o domnio de extensa regio denominada Contestado, na fronteira entre os dois Estados, e onde, at a definio final territorial, imperava a desordem e o crime por falta de leis e governos estabelecidos.
Realiza-se na regio das minas, intensa miscigenao racial, incentivada pela falta de mulheres brancas. Nasce o mulato, o homem pardo, que ter papel importante como formador das classes mdias e por sua habilidade para os ofcios e profisses artesanais, contribuindo majoritariamente para o surto artstico que ocorre por todo o sculo XVIII.  de grande importncia histrica e antropolgica o caldeamento racial ento ocorrido. Deu-se, no territrio das minas, o delineamento do homem brasileiro, com predominncia do mulato, tipo novo, que no se forma na estrutura social vigente em outras regies da Colnia, discriminatria, elitista, fechada e conservadora, caractersticas da grande propriedade rural ou da sociedade setorizada, que distanciava racial e economicamente os extremos, ou seja, branco e negro. A historiografia de carter sociolgico e no s as correntes de pensamento expressas nas obras de Gilberto Freire (Casa-grande & senzala e Sobrados e mocambos), Viana Moog (Entradas e bandeiras) ou Buarque de Holanda (Razes do Brasil), situam nesse tipo de sociedade que se formou, nas reas de minerao, a origem do mulato, distinto no s por sua colocao epidrmica, mas por traos psicolgicos especficos, singularmente decorrentes da situao em que nasceu. Em particular, destaca-se seu pendor artstico, na imaginria, na ornamentao escultural em madeira e pedra, nas diversas profisses construtivas. Sobressaram tambm no talento musical.
Germain Bazin, buscando as razes do temperamento barroco do mulato, diz: Tornada instvel pelo choque de sangue, a alma destes mestios est sujeita aos impulsos mais contraditrios. De temperamento apaixonado, so levados  fantasia,  sensualidade e a um misticismo grosseiro, alimentado pela superstio. Isto tudo contribui para a atmosfera barroca de Minas Gerais no sculo XVIII  os negros e mestios no eram os ltimos a animarem as ruas com espetculos que, entre eles, tomaram uma forma particularmente estrepitosa e ruidosa. O surgimento e ascenso social do mulato correspondem, portanto, ao prprio nascimento da sociedade colonial, como fora e expresso de poder e grupo social organizado, inclusive em irmandades e igrejas prprias.  neste momento que ocorre a fragmentao do status at ento existente entre o poder reinol metropolitano e os grupos econmicos nascentes na Colnia, como assinala Fritz Teixeira de Salles na sua busca das origens da conscincia nacional na obra literria setecentista.
A harmonia social, do ponto de vista e do interesse da Coroa, tinha base na ordem econmica, de caractersticas nitidamente feudais, estruturada a partir do senhor de engenho e mo de obra escrava, bipolaridade rigorosa do Ciclo do Acar. Entre a casa do senhor de engenho e sua senzala, pouca era a miscigenao. A sociedade minerria, alm do contato prximo, imposto pela convivncia parceira indispensvel  prpria atividade, no campo e na cidade, exige categorias econmicas diversas e diferenciadas, propicia a formao do mercado produtor e consumidor de bens intermedirios, o que s  possvel com uma nova classe social, de homens livres, artesos e comerciantes em sua maioria, que altera o equilbrio de foras do rgido e dualista regime que tinha base na economia rural e que no permitia deslocamentos interclasses. De resto, a construo de cidades, em ritmo rpido, exigiu a formao de mo de obra intensa nos diversos ofcios da construo. 
O sincretismo religioso ter feies prprias nessa sociedade que se forma, sobretudo pela aculturao produzida pela herana africana e o embate com a religio catlica. A populao negra, africana, aprisionada pelos traficantes e comercializada em toda a regio das minas, ir incorporar prticas religiosas prprias ao catolicismo, como forma de convivncia possvel. Recria, no territrio mineiro, os reinados e reizados, com a eleio de reis congos, exaltando os santos negros So Elesbo, So Benedito, Santa Efignia e N. Sra. do Rosrio. Os congados e moambiques, existentes em quase todas as regies que contaram com a presena de africanos e seus descendentes, tornaram-se manifestao cultural-religiosa tpica da populao negra. Negras razes mineiras  Os Arturos, de Nbia Pereira de Magalhes Gomes e Edimilson de Almeida Pereira (Maza Edies, 2000),  publicao valiosa sobre as manifestaes atuais afro-brasileiras e, em especial, sobre os Arturos, comunidade negra de Contagem. Em Afrografias da memria, Leda Maria Martins, em precioso trabalho, revela rituais, cnticos, imagens e sons, vida e celebraes das comunidades afro-brasileira, com base, especialmente, na Irmandade de N. Sra. do Rosrio do Jatob, de Belo Horizonte. Essas devoes originaram-se nas colnias portuguesas na frica desde o sculo XV. 
Por longo perodo, o catolicismo portugus realiza processo de entrelaamento com religies africanas, em sincretismo que implicaria em absorver santos tirados de linhagens reais negras. No Brasil, o processo de cristianizao dos negros se intensifica ao final do sculo XVII, em especial devido aos traumas deixados pelas lutas contra Palmares, clebre quilombo que teve, como principal lder, Zumbi dos Palmares. A catequese, realizada por missionrios jesutas, tornou-se elemento fundamental do amlgama cultural. Algumas igrejas catlicas, de devoo negra, como Santa Efignia de Ouro Preto, so magnficos exemplares desse sincretismo, com seus santos negros e diversos elementos ornamentais retirados da fauna e flora africanos, os quais podem ser identificados entre os elementos ornamentais deste templo, como bzios, cascos de tartaruga, folhagens africanas e outros de clara origem iorub. E essa herana reflete-se nas prprias prticas e cultos. A presena da cultura negra nos altares e plpitos das igrejas de sua devoo, existentes por toda Minas, ainda  captulo a ser mais profundamente estudado, certamente acarretando a reviso de algumas interpretaes de elementos ornamentais do barroco, sempre considerados como criaes da elite branca, condicionada pelos cnones da Igreja Catlica.
A histria ou lenda de Chico Rei, soberano na frica, feito escravo e alforriado em Vila Rica, que descobre a Mina da Encardideira, fica rico, liberta o filho, nico que sobreviveu na vinda da frica em condies terrveis, a bordo de navio negreiro. Organiza novo reinado, com corte, rei, rainha, prncipes e cortejo real, que, no Ciclo de N. Sra. do Rosrio, saa do bairro de Antnio Dias, onde supe-se que Chico Rei morava, junto  mina cuja descoberta ainda hoje lhe  atribuda, e seguia at a Igreja de Santa Efignia. Diz a tradio ter sido ele o financiador da construo da Igreja de N. Sra. do Rosrio e Santa Efignia do Alto da Cruz, com seu ouro farto. Na culinria, nas prticas de ofcios e profisses, nas crendices populares, na fala, no canto, nas esculturas e ornatos, no artesanato, manifestam-se, portanto, as influncias da matriz negra.
A personalidade do bandeirante/minerador enseja consideraes bvias, mas importantes, na caracterizao da sociedade que se forma nas minas. Alm do trao da ousadia, inerente ao sertanista, homem disposto a tudo, que arrisca a vida, famlia e posses, que parte em direo ao desconhecido, h que se concluir que o minerador, tanto quanto o montanhs,  sempre introvertido e reservado como convm a quem extrai e comercializa ouro e pedras preciosas. Mas tambm democrtico, pois necessita do apoio solidrio de companheiros para a sobrevivncia em ambiente isolado e inspito. Deve estar disposto a sempre mudar, em busca de novo veio. E, por isto, torna-se arraigado  terra e ao seu valor, mas precisa estar aberto a novas investidas territoriais. Nesta atividade haver sempre competitividade acelerada seja pelo domnio do territrio ou pela busca de meios de suprimento. Naturalmente aventureiro,  tambm libertrio. Foge de governos e do fisco. Ouve mais do que fala. Cuidadoso porque desconfiado, traos inerentes a quem busca e tem ouro, objeto de cobia universal. Precavido e ento austero, face s incertezas do futuro. Esperto e sempre poltico, pois precisa informar-se e acompanhar os fatos e tendncias dos governos que sempre querem apoderar-se de parte do ouro. Torna-se sovina para sobreviver. Conversa com pudor. Conspira. Compreende a necessidade da poltica. Mas prefere as entrelinhas e a inferncia.  tambm homem de montanha, que precisa caminhar com cuidado.
Esses traos vo se mesclar, um tanto mais tarde, com o do vaqueiro/fazendeiro, que se impe na vida econmica da colnia pela prpria expanso territorial que promove com seu rebanho e por sua importncia como fornecedor de cereais, laticnios e carne. A minerao e a agropecuria abrem fronteiras e criam povoados, paragens, vilas, levando Minas Gerais a ter o maior nmero de municpios e povoados de todos os Estados brasileiros. O mineiro torna-se municipalista e ruralista. Os que habitam o serto do So Francisco, na regio Norte de Minas, especialmente do territrio que se inicia na foz do Rio das Velhas e  limitado com a Bahia pelos rios Carinhanha, a oeste, e Verde Grande e Verde Pequeno, a leste, mas tambm os que habitam os vales dos rios Jequitinhonha e do Mucuri, tm seus traos, destacados e cantados, em especial por vrios estudiosos e pesquisadores da vida mineira, como tambm por violeiros, cordelistas, artistas populares, exaltadores da vida sertaneja, nas fazendas, no folclore, na culinria, no artesanato, na criao de gado, na luta contra a seca, deplorando a vida difcil e o recurso extremo do xodo rural, na busca por vida melhor no sul mais rico. O relato de Riobaldo Tatarana, em Grande serto: veredas, de Guimares Rosa,  documento precioso sobre vida, territrio, linguajar, prticas e viso do mundo do mineiro sertanejo, vagueiro e catrumano. 
Nos ltimos anos comeam a surgir trabalhos de pesquisa sobre a histria do Vale do Jequitinhonha, ou o vale das sombras, por s receber energia eltrica, com fornecimento regular, pela Cemig, a partir de 1978. O Vale ainda guarda vrios bolses de pobreza, ausncia de servios pblicos, com clima adverso e pouca diversificao econmica. Em 1987 surge o Movimento Cultural do Jequitinhonha, que realizou por muitos anos um famoso festival e divulgou seu valor cultural, saberes e fazeres do Vale, folclore e cultura popular e seu modo de viver e muitos artistas. Na divulgao do Vale destaca-se Tadeu Martins, artista e promotor cultural. Ainda hoje muito pobre, mas contando com cultura regional que lhe confere identidade prpria, o Vale  colonizado tardiamente. Em O Vale dos Boqueires  Histria do Vale do Jequitinhonha, de Lus Santiago, de 1999, encontramos o percurso histrico da regio e questes mais atuais. 
A administrao colonial, a partir do Tejuco (Diamantina), manda instalar postos militares  margem do rio, para combater os ndios sempre muito ferozes em toda a regio e guarnecer fazendas e os primeiros garimpos de pedras preciosas, que se mostravam muito promissores. O quartel principal postou-se em Jequitinhonha (antigo So Miguel do Jequitinhonha), mas outros postos foram instalados em vrios pontos, s margens do rio. Em um deles, Berilo, Tiradentes serviu por algum tempo como alferes do Regimento de Cavalaria da Capitania. A partir da cidade do Serro (Serro do Frio), partem vrios colonizadores para o Jequitinhonha, implantadores de cidades como a Freguesia de N. Sra. do Bom Sucesso das Minas Novas do Fanado e Araua, dois outros ncleos pioneiros da regio. Serro  Trs sculos de histria, de Aluzio Ribeiro de Miranda, de 1972,  rica e abrangente fontes histrica sobre a cidade, um dos mais antigos ncleos da formao mineira, com longas tradies culturais e humansticas.
Trs dcadas aps as primeiras descobertas do ouro e j o territrio mineiro possua pelo menos 20 cidades de porte. O reconhecimento do novo territrio vai sendo feito pela Coroa portuguesa com a presena de administradores e criao das circunscries polticas e religiosas. Em 1711, criam-se as trs primeiras vilas: Ribeiro do Carmo (Mariana), a 8 de abril; Vila Rica, a 8 de junho, e N. Sra. da Conceio do Sabar, a 17 de junho, implantadas pelo governador Antnio de Albuquerque, que organiza e pacifica as minas, embora curto tenha sido o seu governo, de 11 de junho de 1709 a 13 de agosto de 1713. So Joo del-Rei recebe o ttulo em 1713. Em 1714, so reconhecidas as vilas do Prncipe (Serro) e Vila Nova da Rainha, atual Caet. A Vila de N. Sra. da Piedade de Pitangui obtm o ttulo em 1715 e, em 1718,  a vez de So Jos del-Rei, hoje Tiradentes. Em 1730, o arraial e N. Sra. do Bom Sucesso das Minas Novas do Fanado, atual Minas Novas,  elevado a vila, seguindo-se ento um interregno de 50 anos sem qualquer outro ttulo. Por essa poca, j o territrio das Minas do Ouro possua mais de 40 freguesias e dezenas de pequenos povoados e arraiais. 
O modelo de organizao municipal portugus, transplantado para o Brasil, e que vigorou at a Independncia, tinha por base jurdica as chamadas Ordenaes do Reino, Afonsinas, Manuelinas e Filipinas, alteradas e modernizadas mais tarde por Dom Sebastio de Carvalho, marqus de Pombal, primeiro-ministro de Dom Jos I (rei de Portugal de 1750 a 1777), a partir de 1756. A relao entre governantes e governados se fazia, na maioria dos assuntos, pelas cmaras municipais eleitas, que dispunham de poderes bastante amplos, na verdade um tanto confundidos com os poderes do governador-geral nomeado pelo rei. Eram compostas por dois juzes ordinrios, um juiz de fora, trs vereadores, um procurador e um tesoureiro. A Constituio de 1824, aps a Independncia, reconhece o poder municipal, institui cmaras em todas as cidades e vilas, com vereadores eleitos, funes deliberativas e administrativas, inexistindo a figura do prefeito. O vereador mais votado era o presidente da Cmara, modelo at hoje vigente em Portugal.  o sistema dos pelouros, no qual os vereadores distribuem entre si a gesto municipal. Era rigorosa a fiscalizao de seus atos pelo Conselho-Geral da Provncia, embrio da futura Assembleia Legislativa, e pelo presidente da Provncia. Nesse sistema, os municpios perderam alguns poderes, sobretudo a funo judicante, que se especializou pela organizao efetiva dos servios da Justia. 
Com a Proclamao da Repblica, as cmaras municipais foram dissolvidas e institudos os conselhos de Intendncia Municipal, com membros nomeados pelo governo do Estado.  um perodo de centralismo poltico dos governadores. Em 1905, criou-se a figura do intendente municipal, que vai perdurar at 1930, quando nasceram as prefeituras, com todas as funes executivas dos municpios. As cmaras passam a ter funo meramente legislativa e de fiscalizao dos atos do Executivo. A Constituio de 1934 ampliou a autonomia municipal, determinando a eleio de prefeitos e vereadores. O golpe de 1937, que implantou o Estado Novo getulista, cassou a eletividade dos prefeitos e cmaras, s restabelecida com a Carta de 1946, que trouxe a redemocratizao do pas. A autonomia local foi restaurada e fortalecida. Iniciou-se o movimento municipalista. Com o regime militar de 1964, os municpios perdem poder, que s retornar com a Constituio de 1988, quando alcanam a condio de terceiro membro da Federao. A Constituio autoritria de 1967, e sua emenda de 1969, nas capitais, cidades histricas, estncias hidrominerais e cidades consideradas de interesse da segurana nacional determinavam que os prefeitos fossem nomeados pelo presidente da Repblica, o que vigorou por uma dcada. Um amplo relato histrico e documental est em Arraiais e vilas del-Rei  Espao e poder nas Minas setecentistas, de Cludia Damasceno Fonseca, de 2011.
Vila Rica segue seu curso e ganhar expresso prpria, com presena cultural e poltica na Histria do Brasil. Por volta de 1720, Vila Rica apresenta vrios povoados primitivos, criados desde os anos iniciais da corrida aurfera, conforme as minas encontradas. A princpio, o arraial do Padre Faria, de um lado, interligado ao de Antnio Dias, passando pelo Alto da Cruz e Santa Efignia e, de outro, o do Pilar, ou do Ouro Preto, que logo se expande pela acelerada ocupao dos arruamentos que cortam os bairros do Rosrio, antigo Caquende, e Cabeas. Na encosta da serra, surgem os ncleos, chamados bandeirantes, do Taquaral, So Joo Batista, Ouro Podre, Piedade e Santana, cada um com suas capelas, at hoje preciosos registros histricos dessas ocupaes primitivas em busca do ouro que descia da Serra do Ouro Preto. A capela de So Joo Batista, na vertente da Serra do Ouro Preto, no terreno mais elevado,  a mais antiga de toda a regio, de 1698.  o marco histrico e geogrfico da chegada da bandeira de Antnio Dias de Oliveira, fundador de Ouro Preto, com quem veio o padre Joo Fialho Faria, mais bandeirante do que padre, fundador do povoado com seu nome e que retornaria a Guaratinguet alguns anos depois.
Esse arquiplago de povoados primitivos se adensa, ocupando os espaos vazios com a construo de moradias. O encontro se dar com a ocupao gradativa do Morro de Santa Quitria, hoje Praa Tiradentes, notadamente a partir de 1747, quando se implanta o novo Palcio dos Governadores, com formato de um forte de quatro pontas, hoje alterado, projeto do arquiteto militar portugus Jos Fernandes Alpoim, enviado por Dom Joo V, rei de Portugal. Alpoim desempenhou tambm a misso de desenhar o um traado geomtrico para Mariana, que em 1745 tornou-se sede de Diocese e foi elevada  categoria de cidade por Dom Joo V. A Casa de Cmara e Cadeia, atual Museu da Inconfidncia, ser construda a partir de 1784.
Ouro Preto e Mariana, apesar das desfiguraes, ainda guardam os mais significativos conjuntos da arquitetura colonial brasileira. Contrariamente  orientao espanhola, que aplicou nas suas colnias as Leys Generales de los Reynos de ndias, adotado por Felipe II em 1573, e que contemplava sempre a Plaza Mayor ou a Plaza de Armas, a administrao colonial portuguesa no trouxe para o Brasil orientao urbanstica. Ressalvada a exceo de Mariana, por razes muito especficas, pioneira no Brasil pelo traado geomtrico, Ouro Preto crescer espontaneamente, assim como as outras cidades do perodo, sem planejamento ou regularidade, com as edificaes se colocando  margem do caminho principal, indicando certa linearidade, mas, tambm, uma polinuclearizao, assim como ocorre com Salvador e Rio de Janeiro.  o traado medieval, que cresce por onde  possvel, sem orientao urbanstica ou geomtrica. 
A arquiteta Lvia Romanelli dAssumpo, especialista do SPHAN, indica, quanto ao traado das cidades, como principais elementos delineadores, o seguimento, quando possvel, de uma mesma curva de nvel, o desvio de obstculos, o acompanhamento de cursos dgua ou mesmo de cumeadas de serras, objetivando melhor orientao e economia. No caso ouro-pretano, a topografia tornar ainda mais desfavorvel qualquer ocupao mais uniforme. A regra geral, aleatria,  a construo de igrejas nas elevaes, em torno das quais uma praa ou adro centralizam a vida social, criando ncleos diferenciados nas cidades. Ento, na falta da Plaza Mayor, as igrejas sero o foco organizador da vida e da malha urbana. A Praa Tiradentes, em Ouro Preto, nica exceo, implantada tardiamente, pela unio natural dos dois ncleos primitivos, se faz por fora de uma maior presena da autoridade colonial na antiga Vila Rica, que construiu o Palcio e a Casa de Cmara e Cadeia.
Mariana tambm tem expanso rpida e se revelar, na histria mineira, a cidade-matriz de Minas em razo de seus pioneirismos. Urbs celulla mater  seu dstico histrico, como j foi dito. Foi a primeira capital, de 1709 a 1720, quando se criou a Provncia de So Paulo e as Minas do Ouro.  uma das trs primeiras vilas, em 1711, junto com Sabar e Vila Rica. Implanta a primeira cmara de vereadores, tambm em 1711. Sedia o primeiro bispado, em 1745, criado pelo papa Bento XIV, por solicitao de Dom Joo V.  o quinto do Brasil. E tambm o primeiro arcebispado, em 1908. E obtm, tambm em 1745, o ttulo de cidade, igualmente por deciso de Dom Joo V, que lhe d o nome de sua esposa, Maria Ana dustria, em substituio  j ento chamada Vila de Ribeiro do Carmo. 
Com o desenho geomtrico, outro trao pioneiro de Mariana entre as cidades histricas brasileiras, a antiga vila se prepara para ser sede de um bispado. No seu ncleo histrico, bastante preservado, o traado de quarteires quadrangulares se mantm ainda, favorecido pelo terreno plano. O primeiro bispo, Dom Frei Manoel da Cruz, s foi empossado em Mariana em outubro de 1748, vindo de So Lus do Maranho por terra, em viagem que durou um ano e dois meses, em que percorreu quatro mil quilmetros, pelos sertes do Maranho, Piau, Bahia e Minas. Sua entrada e posse em Mariana foram comemoradas com festas e celebraes que passaram  Histria sob o nome de Aureo Throno Episcopal, ttulo dado por autor desconhecido a livro editado em Lisboa, em 1749, pelo cnego Francisco Ribeiro da Silva e que relata o fausto e o brilhantismo da festa, com luxo e ostentao. Por oito dias consecutivos, precedentes da solenidade, sinos repicaram, cavaleiros desfilaram, fantasias, carros alegricos, saraus, discursos, concertos, sermes e uma espcie de concurso literrio integraram o programa, revelando traos da sociedade do ouro, no seu auge, como o seu gosto pela ostentao, pelas festas e desfiles. O bispo, portugus de nascimento, de personalidade controversa e centralizadora, servir mais ao rei do que ao papa e dele dizem que acumulou inimigos e enorme fortuna em ouro. Morreu em Mariana em 1769. Sua vida e obra, com detalhes de sua viagem e festas de recepo, foram registrados pelo escritor mineiro Lus Giffoni, no livro Dom frei Manoel da Cruz, publicado em 2008. O autor refez, pessoalmente, todo o trajeto do bispo do Maranho a Mariana.
Dom Frei Manoel da Cruz se revelar um empreendedor. Cria o Seminrio de Mariana, inaugurando o ensino religioso em Minas e que ser o responsvel pela formao intelectual e religiosa de dezenas de geraes, at hoje em funcionamento.  o incentivador da construo da Igreja de So Francisco, em Mariana, e de vrias outras nas principais cidades da poca. Alis, Mariana ser pioneira tambm no ensino normal, formando professoras e acolhendo jovens moas pobres, com o Colgio Providncia, criado em 1847, iniciativa de irms vicentinas, trazidas da Europa por Dom Antnio Ferreira Vioso, bispo da cidade a partir de 1843 e que, com o padre Leandro Rebelo Peixoto e Castro, tambm lazarista e portugus, fundou o Colgio e Seminrio do Caraa, ampliando a obra iniciada pelo irmo Loureno, que morrera em 1919. Dom Vioso fundou vrios educandrios em Minas e no Rio,  tido como reformador da vida religiosa no Estado e deixou reputao de homem santo. Em 1908, o bispado de Mariana se torna arquidiocese e o primeiro arcebispo, Dom Silvrio Gomes Pimenta, homem de vasta cultura, abre processo de canonizao de Dom Vioso, aps escrever a sua biografia. O processo tramita no Vaticano. 
As vrias primazias de Mariana, os acervos histricos, artsticos e documentais preservados, os templos repletos de obras de arte, a histria da Arquidiocese e dos bispos, o papel dos seus dois seminrios, sua intensa participao nos atos polticos e cvicos da nao brasileira nos seus mais de trs sculos de existncia, na conquista da Independncia, na vida poltica do perodo imperial como tambm na Repblica, conferem  cidade uma posio singular na Histria de Minas e do Brasil. Por tudo isto, recebe de Getlio Vargas, em 1945, o ttulo de Cidade Patrimnio Nacional e, em 1938,  tombado pelo SPHAN o seu conjunto urbanstico e paisagstico. Em Mariana, assim nascem as Minas Gerais, de 2016, Roque Jos de Oliveira Camello publica pesquisa histrica sobre a cidade, da sua fundao aos nossos dias. Todo ano, a 16 de julho, Mariana recebe o Governo do Estado em celebrao ao Dia de Minas, conforme lei estadual aprovada pela Assembleia Legislativa. 
H concordncia de pensamento de que as cidades histricas mineiras mais preservadas devem sua conservao ao empobrecimento de sua populao aps a minerao e at os nossos dias. Sem recursos para obras, sem vitalidade econmica, imobilizadas, as populaes de Ouro Preto e Mariana, por exemplo, pouco investiram em novas construes ou em intervenes desfigurativas. O crescimento se fez perifericamente, produto do xodo rural, em habitaes pobres e clandestinas, em reas de ocupao de risco. 
A respeito da trajetria de Ouro Preto, por exemplo, Rodrigo Melo Franco de Andrade faz a seguinte descrio: Caracterizada pela disposio em vrios nveis numa topografia ngreme, carrega as marcas de sua histria  riqueza inicial, um perodo de rpido desenvolvimento, um sculo e meio de poder administrativo e prestgio, seguidos por um declnio gradual, empobrecimento e perda de status. Ouro Preto amparou-se no servio pblico, como sede do governo estadual. Mariana, sede do bispado, Roma brasileira, viveu dos servios da religio e tambm da minerao. Perdendo a condio de capital do Estado em 1897, Ouro Preto passar por perodo de estagnao ainda maior. Uma redescoberta da antiga Vila Rica, bem como de outras cidades histricas mineiras, s se dar efetivamente a partir da dcada de 1920, quando paulistas, criadores e participantes do movimento modernista a visitam e nela veem o smbolo de uma identidade nacional e fonte de uma cultura autntica brasileira. Como consequncia desse reconhecimento, em julho de 1933 Ouro Preto recebe o ttulo de Monumento Nacional e, em 1938,  tombada pelo SPHAN.
No entorno de Ribeiro do Carmo e Vila Rica, surge, logo nos primeiros anos de ocupao territorial, na medida em que novos veios de ouro iam sendo descobertos, cerca de meia centena de povoados, formados nos anos finais do sculo XVII e nas duas primeiras dcadas do sculo XVIII, hoje distritos e municpios, com sua fisionomia urbana ainda marcada pelos casares coloniais e igrejas, com ruas de traado irregular, seguindo o caminho natural primitivo. A aclividade, no caso de Ouro Preto, bem como a formao geolgica instvel, em especial devido ao filito grafitoso dominante, impem a conurbao das edificaes, ligadas e amparadas, pela parede nica ou coladas. As igrejas, por sua vez, ocupam os altiplanos, com viso ampla, smbolos da prevalncia do poder temporal sobre o secular. E as antigas matrizes, quase sempre seguindo o estilo jesutico dos primeiros anos, de canga (minrio de ferro pobre) at por volta de 1730 e depois pedra nos alicerces e nos cunhais, quase sempre conjugados com madeira nos outros elementos estruturais, sempre imponentes e elevadas, retilneas no frontispcio e no corpo quadrangular da construo, com duas sineiras quadradas, nascem com a devoo dedicada  padroeira do povoado original. 
Novas igrejas vo representando as ordens religiosas na medida em que se conformam as classes e estamentos sociais, abrigando, em seus altares, plpitos e demais elementos ornamentais, o nascente barroco colonial mineiro, que vai adquirindo caractersticas prprias conforme elementos condicionantes locais, seja pelas caractersticas humanas e sociolgicas das sociedades que se formam ou pelo uso de materiais locais, como o itacolomito e a pedra-sabo. Logo a regio estar intensamente povoada. 
 ilustrativo desta constatao o fato de que o municpio de Ouro Preto, com extenso de 1.245 km, no final da primeira dcada do sculo XXI tenha 13 distritos e cerca de 60 povoados, em processo de expanso. Os distritos so Cachoeira do Campo, Glaura (antiga Santo Antnio da Casa Branca), Amarantina (antigo So Gonalo do Amarante), Santo Antnio do Leite, Santo Antnio do Salto, Rodrigo Silva (antigo Jos Correia), So Bartolomeu, Miguel Burnier (antigo So Julio), Engenheiro Correia, Santa Rita de Ouro Preto, Lavras Novas, Antnio Pereira e a sede do municpio. O mesmo ocorre com Mariana, com 9 distritos: Passagem de Mariana, Furquim, Padre Viegas, Cachoeira do Brumado, Monsenhor Horta, Santa Rita Duro, Cludio Manoel, Camargos e Bandeirantes. E havia o distrito de Bento Rodrigues, destrudo pela lama do rompimento da barragem do Fundo, da Samarco. Cada distrito possui vrios pequenos povoados, na sua totalidade originrios do sculo XVIII, com casario e igrejas preciosas na arquitetura e na talha artstica, com culinria e artesanatos singulares, alm da beleza natural, compondo a diversidade cultural e natural de Minas, seu principal diferencial quanto  vocao e potencialidade tursticas.
Nenhuma regio, em todo o Brasil, povoou-se to rapidamente quanto o territrio das minas. Em Vilas e cidades do Brasil Colonial, Aroldo Azevedo observa que, de 1500 a 1822, foram criadas no Brasil 210 vilas, sendo 159 na regio das minas. E isto se deu em menos de 100 anos, perodo da corrida do ouro. Estatstica relativa a Portugal, confirmada por vrios autores, revela que a populao que se transferiu para o Brasil, em dois sculos, chegou a 800 mil pessoas, enquanto a populao total do pas era de pouco mais de 2 milhes, obrigando o governo a adotar medidas coercitivas para essa migrao. E, desse contingente, grande parte teria vindo para as minas. Ao final do sculo XVII, o Brasil tinha perto de 100 mil habitantes, entre eles, em torno de 18 mil ndios e 14 mil negros. O Nordeste abrigava 70% dessa populao. As concentraes principais estavam na Bahia, com 23 mil habitantes, e Pernambuco, com 18 mil. So Paulo tinha 15 mil habitantes.
Para se bem aquilatar o alcance do surto populacional das cidades mineiras do perodo,  importante estabelecer comparaes com outros pases, de formao bem mais antiga. Em 1776, censo populacional apontava a populao residente nas quatro principais comarcas mineiras como de 319.769 pessoas, com a seguinte distribuio: Vila Rica, 78.618 pessoas; Rio das Mortes, 82.781 pessoas; Sabar, 99.576 pessoas e Serro do Frio, com 58.794 pessoas. A populao da Nova Inglaterra (EUA), colonizada 100 anos antes, era a seguinte: Boston, 16 mil pessoas; Philadelphia, 40 mil; New Port, 11 mil; Charleswton, 12 mil e New York, 25 mil, totalizando 104 mil pessoas (Annuario Demographico de Minas Geraes, Anno I, 1928, Imprensa Oficial de MG; Bruchey, S.D. citado in Razes da modernidade em Minas Gerais, de Joo Antnio de Paula). Em 1806, a populao mineira atingia 406.915 pessoas e, ao final do sculo XIX, em 1900, um total de 3.594.471 pessoas. 
Joo Antnio de Paula, no seu j mencionado Razes da modernidade em Minas Gerais (Ed. Autntica, Belo Horizonte, 2000), cita a criao de um sistema urbano, integrado por vrias cidades, todas surgidas da corrida pelo ouro, com caractersticas similares, vivendo desde cedo uma singular luta de classes para a sobrevivncia, numa sociedade irrequieta, multirracial e multifacetada. Estes sero os fatores decisivos para explicar o surto cultural que se desenvolve no sculo XVIII mineiro. Implanta-se em Minas Gerais, em pouco tempo, uma sociedade urbana, uma rede articulada de ncleos urbanos que se estruturam rapidamente. A concentrao urbana  que permite o estabelecimento de outros sistemas, o econmico, o religioso, o estatal e o monetrio-mercantil. As cidades permitem um novo padro de sociabilidade, permitem novas relaes polticas e econmicas, moldam novos costumes, sensibilidades, mentalidades.  na vida coletiva que se desenvolve a cidadania, impe-se a democracia como sistema poltico e se estabelecem normas de convivncia. A vida urbana, com todas as suas conquistas e consequncias, implanta-se em Minas rapidamente e protagoniza uma experincia ainda muito nova, seno nica at ento no Brasil. 
Francisco Iglesias, historiador dedicado ao estudo da formao mineira, destaca a singularidade da civilizao que se forma nas minas. Diz que a economia original configura sociedade que tambm  original. E analisa a originalidade, que se basearia em trs pontos: economia mineradora, que cria mercado interno e estimula a sociedade  diversificao econmica, indispensvel  sobrevivncia de uma sociedade; forte centralizao poltica e rgido aparelho tributrio e de Justia e possibilidades para os grupos mdios, produto de um processo de urbanizao bastante intenso. Celso Furtado destaca trs caractersticas marcantes da sociedade minerria que se forma no novo territrio: mais democrtica e com maiores oportunidades que a sociedade dos engenhos de acar, com grande mobilidade social e um mercado interno, criado pela necessidade das relaes de produo e consumo em ncleos urbanos nascentes. A rede de cidades cria um mercado consumidor, de bens e servios, com o ouro como moeda, forte e valorizada. Acumula-se o capital, vetor fundamental para o investimento. Os mercados de construes e de abastecimento se estabelecem. Cria-se a concorrncia. 
Concordam os historiadores desses primeiros tempos que a rede de cidades que se forma em Minas, nas duas primeiras dcadas do sculo XVIII, ensejar a primeira civilizao urbana brasileira, com feies prprias. Os componentes raciais e humanos, a herana religiosa e a relativa diversidade cultural, que vo interagir nos primeiros povoados, atrados pelo ouro, ao se organizarem forosa e rapidamente em ncleos urbanos, como condio de sobrevivncia e fixao, formaro um caldo de cultura singular, fermento e matria-prima para uma criatividade exemplar que se manifestar ao longo do sculo XVIII. O isolamento geogrfico de Minas, que deixa essas cidades em acentuado imobilismo econmico e social por dois sculos, permite manter ntegros certos traos de personalidade formados nos primeiros anos de povoamento e organizao comunitria. Os mineiros, at meados do sculo XX, aqueles das comunidades interioranas conservadas, preservaram uma identidade regional distinta, at hoje encontrada em vrias comunidades interioranas de menor porte ou mais distantes.
Outro fator  preponderante. Trata-se da religiosidade do homem desse princpio do sculo XVIII. A religio que se transporta para as minas, que vem junto com os primeiros exploradores, traz os cnones do catolicismo contrarreformista, estabelecidos pelo Conclio de Trento, a partir de 1549. A Igreja Catlica, diante do avano do protestantismo na Europa, celebra claro entendimento com os reis, apoiando as condutas do Estado absolutista, chegando at a uma aceitao tcita da concepo popular da teoria da origem divina dos poderes reais, mas exigindo, em troca, apoio no combate aos resistentes a Roma, fossem as doutrinas originrias do pensamento luterano ou outras classificadas de heresias. Com apoio dos reis catlicos, a Igreja armou-se para conter o protestantismo, ameaando com a priso, processos, torturas e at a morte, por intermdio da famosa Inquisio, que chegou at Minas pela diocese de Mariana, de onde partiram as temidas Visitaes do Santo Ofcio da Inquisio para vrias cidades. 
Na Pennsula Ibrica, Portugal e Espanha foram os principais apoiadores da Contrarreforma catlica e se transformaram em propagadores do Barroco absolutista, de aspectos severos, graves, e adeptos dos elementos ornamentais da tradio cannica. 
O Barroco, como estilo de arte, expressar o absolutismo dos reis e se transformar em claras mensagens e tentativas de recomposio da f.  a igreja/teatro, que visa captar e enlevar a ateno e renovar a crena dos fiis, desviada pelo luteranismo e outras heresias. O Barroco que chega a Minas, nos primeiros anos, ao tempo de Dom Joo V, apresenta-se, no estilo e no aspecto, com semblantes severos e expresses graves, seguindo rigorosamente os preceitos cannicos nos seus elementos simblicos e figurativos. Visava impressionar os fiis, amedront-los e reconquistar sua ateno. A igreja torna-se repleta de smbolos, quer prender a ateno pela profuso de ornatos, mas, tambm, pela lembrana de que a salvao tem um caminho nico, que  a Igreja Catlica, conforme as Sagradas Escrituras. 
O homem do sculo XVIII  um ser atormentado. De um lado, a Igreja lhe cobra fidelidade s Sagradas Escrituras, como fonte nica e incontestvel de revelao de verdades sobre os homens e todas as coisas da terra e do cu. De outro, j comea a ser alcanado pelo racionalismo iluminista e pelas ideias polticas que pregam um novo ordenamento no seu modo de pensar, dado pela observao do mundo natural. No campo poltico, surgem a monarquia constitucional ou a repblica, em oposio ao Absolutismo. O iluminismo enciclopedista de Diderot e DAlembert e tantos outros pensadores da Ilustrao, o pensamento liberal, que fala em repblica constitucional, de Voltaire, de Rousseau e Montesquieu e de vrios outros, vo desaguar na Independncia Americana de 1776 e na Revoluo Francesa de 1789. Muitos mineiros, com formao europeia, retornavam a Minas com essas ideias revolucionrias formando nas cidades histricas mineira e, especialmente em Vila Rica, uma sociedade de pensamento. O homem setecentista comea a voltar-se para a observao da natureza, a cincia e a tcnica, sob o incentivo da Ilustrao e Iluminismo europeus, e questiona a f revelada como verdade nica, que no permite o primado da racionalidade. Debate-se Coprnico, Galileu e Descartes. Esta dicotomia religiosa e ideolgica torna o homem do sculo XVIII um ser dividido, cindido, dicotmico, dualista, flutuante entre duas instncias de crenas bsicas sobre vida e morte, no cu ou nas coisas terrenas.  um ser atormentado, sob a ameaa do castigo do inferno pela Contrarreforma, mas j avanado na descrena pela prpria observao da vida e das coisas da natureza, que tm leis prprias cada vez mais observadas, e que homens como Descartes, Coprnico, Giordano Bruno ou Galileu Galilei comeavam a desnudar.
Simo Ferreira Machado, cronista portugus, que em 1733 assiste  festa de inaugurao da nova edificao da Matriz do Pilar, que classifica de suntuosa e, ao mesmo tempo, sacra e profana, acaba descrevendo, com detalhes, a primeira demonstrao do barroquismo nascente e que passou  Histria com o nome de Triunfo Eucarstico. No dizer de Simo Ferreira Machado, no relato publicado em 1734, Vila Rica era a cabea de toda a Amrica, prola preciosa do Brasil, isto quando ainda tinha pouco mais de trs dcadas de existncia. A Solene Trasladao do Divinssimo Sacramento da Igreja de Nossa Senhora do Rosrio para um Novo Templo da Senhora do Pilar, nome dado  festa, durou trs dias e encerrou-se com um grande cortejo, dele participando todos os estamentos sociais, devidamente paramentados, numa grande manifestao popular multicolorida, com elementos sacros e profanos, ricos e variados figurinos, cavaleiros, figuras da mitologia, encenaes e coreografias, tornando-se uma demonstrao de um nascente estilo de vida e de arte, prprios daquela sociedade, de claro gosto barroco.  a transplantao de uma mentalidade e um estilo de vida, diz Affonso vila, no seu Resduos seiscentistas em Minas, em competente e elucidativa anlise, em que mostra a extenso e a importncia histrica, esttica e sociolgica desta e outras festas do perodo. Em 1993, 260 anos depois, a festa foi reproduzida em Ouro Preto, com brilho e originalidade exemplares, em iniciativa parceira da Prefeitura, a Matriz do Pilar e a Fundao Clvis Salgado.
O carter festivo das cidades coloniais mineiras tem interessado, mais recentemente, a historiadores. A causa primeira, comumente apontada, seria o carter barroquista dessas sociedades nascentes, um estilo de arte e de vida, estimulador do ostentatrio, do ldico, do colorido e ornamentado, do gosto popular pelo suntuoso, como encontramos nos monumentos da poca. Admite-se tambm que as festas sempre foram estimuladas pela Coroa portuguesa como instrumento de controle social, a exemplo da velha Roma e o circo nos espetculos do Coliseu. Affonso vila afirma que o portugus que veio para as minas, alm do desejo do enriquecimento, trazia a capacidade de sonho e melancolia, atributos herdados no s de um trao tpico da alma portuguesa, desde os grandes feitos lusitanos dos Descobrimentos, de que Cames  o exemplo maior, mas tambm do esprito barroco, que gera um modo singular de ver a vida. De resto, toda a histria da formao mineira, desde sua origem de busca de um pretenso Eldorado, at as rebelies e sentimentos autonomistas, sempre foi marcada por sonhos.
No s o Triunfo Eucarstico, de 1733, mas todo um conjunto de festividades e comemoraes revela esse trao sociolgico. Por sua maior expressividade, passaram  histria as festas do ureo Trono Episcopal, de 1748, em Mariana, as exquias de Dom Joo V, realizadas em So Joo del-Rei e Vila Rica, em 1751, e as exquias da infanta dona Maria Francisca Doroteia, em Paracatu, em 1771. Obra recente, Cultura e sociabilidade na Amrica Portuguesa, organizada por Istvn Jancs e ris Kantor (Edusp, 2001), traz descrio e interpretao de variadas festas, como despedidas triunfais na celebrao da morte e culto de memria, enterros satricos, etiqueta e cerimnias pblicas ou religiosas, entradas solenes, cavalhadas e lutas entre mouros e cristos, festas e batuques negros, reinados, reizados e congados, sua represso e assimilao, os carnavais, folguedos, feiras e feriados, comemoraes de Natal, Semana Santa, Corpus Christi, Festas do Divino, o Ciclo de N. Sra. do Rosrio, o teatro e a msica, as festas particulares dos batizados e casamentos. E que, ainda hoje, se fazem em vrias cidades histricas, com as mudanas naturalmente ocorridas pela evoluo social.
Essa sociedade que se cria na regio das minas, abrigada em cidades formadas em veloz processo de urbanizao, resultante de um crescimento demogrfico explosivo, e que vai viver em luta constante com o Estado colonial,  objeto de estudos recentes, os quais tentam dissec-la nos seus elementos constitutivos e comportamentais mais profundos, como vida familiar, papel da mulher, vida social, criminalidade, aspectos econmicos, produo rural e abastecimento, hbitos alimentares, festas e tradies.  a chamada Histria Social, que realiza anlise transversal da sociedade, com pesquisa de aspectos at ento desprezados da vida humana em grupo, suas grandezas e vicissitudes como tambm seus pecados. Desmistifica-se um pouco a imagem romntica da vila rica, que teria vivido perodo de esplendor e fartura, porque o ouro a tudo comprava, situao que pode perfeitamente ser aplicada tambm a outras cidades histricas que tiveram processos similares. 
Formou-se logo a sociedade de classes, ricos e pobres, aristocratas e plebeus, com todas as mazelas sociais de uma sociedade multipolar, com acentuados desnveis de renda, com criminalidade, habitaes pobres, misrias. No  a sociedade bipolar de senhores e escravos, da casa grande e a senzala do Nordeste canavieiro ou da colnia rural. Com os senhores das lavras apareceu uma nova ordem de relaes sociais e econmicas, mais moderna, que contribui para enfraquecer a fora do velho feudalismo dos senhores de engenho de acar, diz Roberto Simonsen na sua Histria econmica do Brasil. E acrescenta: Por suas atividades econmicas, o litoral agrrio e as Minas aurferas j se diferenciam bastante. O primeiro goza de estabilidade razovel,  conservador na manuteno de prerrogativas e privilgios,  paternalista, as segundas so dinmicas, rebeldes, populistas e democrticas.
Em vrios aspectos, essa rede de cidades propiciar experincias pioneiras no Brasil quanto  vida urbana. Ocorre relativa desconcentrao de renda com o surgimento das classes mdias urbanas. A principal moeda, o ouro, oferecia a possibilidade de acesso dos homens livres pobres, em razo da explorao mineral aberta a qualquer um nos primeiros tempos. E essa  uma moeda fluente, que permite relaes de troca amplas e imediatas. O ouro  simultaneamente riqueza e moeda. Foram as restries impostas  sua livre circulao que geraram as primeiras revoltas dos mineiros, rebeldia que marcou todo o sculo XVIII. A luta por autonomia  sempre seu motivo principal. A independncia econmica  o motivo bsico e inicial que suscita e estimula o desejo de liberdade, de soltura das amarras. A luta pela livre extrao e circulao do ouro e pedras preciosas constitui o mpeto primitivo gerador de revolta, enquanto a vontade de livre exerccio de ideias e de autonomia poltica e governamental vai constituir o sentimento mais elaborado, j ideologicamente estruturado. Eis, em sntese, a histria da rebeldia de Minas, que lhe conferir carter marcante e a levar a exercer papel singular na formao e surgimento dos primeiros movimentos nativistas, bem como aspiraes de independncia e de repblica. 
A verdade  que somente um pouco mais tarde  que ocorrer nas minas a criao de estamentos ntidos, os aristocratas, a burocracia civil e militar, os religiosos, os comerciantes, os mais ricos e uma classe rural em ascenso, misturando a explorao mineral com a lavoura e a pecuria. Quanto aos negros, o trfico de escravos africanos perdurou por todo o perodo colonial, s encerrando-se, parcialmente, em 1850, com a legislao que o proibia. J em meados do sculo XVIII se conclua pela dificuldade de escravizar os ndios, que passaram a ser alvo de catequizao na doutrina crist, tarefa a que se dedicaram precipuamente os jesutas. Em 1755, lei do marqus de Pombal declarou livres todos os ndios.
O rpido crescimento das cidades, plantadas em todo o territrio, demandando edificaes, em ritmo acelerado, exigir a formao de mo de obra especializada em construes, propiciando o surgimento das profisses mdias, pedreiros, carpinteiros e marceneiros, pintores, artfices diversos, artistas, que vo compor as famlias medianas da sociedade. Os primeiros riscos surgem de mestres pedreiros portugueses que vm diretamente de Portugal para a Colnia ou ento do Rio, So Paulo ou Salvador. Para as edificaes religiosas, os desenhos seguem o estilo jesutico, retilneo, que vai caracterizar as primeiras grandes matrizes mineiras. Acelera-se a integrao racial, surge o mulato, que ter papel fundamental nessas profisses e tambm no surto artstico do sculo XVIII. Logo tambm essa sociedade sofre limitaes  sua organizao poltica e  sua expanso econmica pela Coroa, interessada apenas na explorao das riquezas da Colnia. Imprensa e universidade eram proibidas. Mantinha-se restrita a liberdade da organizao poltica e representativa, proibiu-se o desenvolvimento industrial, a gerao e transmisso de conhecimento e a oferta de educao, a circulao/divulgao de ideias e crticas. Novos caminhos s podiam ser abertos com ordem da Metrpole. O governador, com o ttulo de capito-general, tinha poderes quase absolutos. E mesmo a religio servia ao Absolutismo e  conformao, com a Igreja Catlica aliada dos reis, em troca do apoio  Contrarreforma. A mquina estatal que se implanta na regio  apenas fisco, polcia e justia, diz Joo Antnio de Paula. 
Mas ser essa sociedade, com tais restries e com essas singulares feies humanas e sociolgicas, que produzir exemplar acervo de obras de valor intelectual e artstico nas principais cidades histricas. H hoje concordncia de que essa criatividade se faz como resultante de duas vertentes principais: de um lado, o caldo de cultura prprio dessa sociedade multifacetada, atormentada, conflitiva e oprimida, condies que se refletem em sua viso do mundo, seus sentimentos e sensibilidades; de outro, sua criatividade artstica  uma contrafao dialtica  restrio ampla da liberdade, representando, portanto, a busca de alguma expresso. A essas duas vertentes se agregam a mentalidade e seu estilo de poca, o Barroco absolutista. Sua criatividade artstica  seu meio de liberdade, nico instrumento sancionado pelo regime colonial e at aprovado pelo carter ldico, faustoso e concorrencial dado pela mentalidade de poca e estimulado pelo barroquismo incrustado no modo de ver o mundo e na prpria vida social. 
Na Histria de Minas aparecem tambm muitas mulheres que, por diferentes razes e condutas, marcaram presena na memria dos mineiros. Alm de Marlia de Dirceu, cantada por Toms Antnio Gonzaga, ou Brbara Heliodora, carter forte e at superior ao marido, Alvarenga Peixoto, outros nomes so lembrados. Maria da Cruz, mulher combativa, que d seu nome ao municpio de Pedras de Maria da Cruz, emancipado em abril de 1992 no Norte de Minas. Viva do baiano Salvador Cardoso, administrou grandes propriedades na regio, entre elas a Fazenda Capo. Chefiou vrios motins em So Romo, Januria e regio do So Francisco, de 1736 a 1738, contra o governo colonial e o sistema da captao, que convulsionava os sertes do Rio So Francisco. Comandou tropa, mas acabou presa no Rio e na Bahia e libertada em razo de seu grande prestgio popular e entre as autoridades. Deixou memria de mulher forte, alm de querida pelo povo por sua generosidade.
Joaquina Maria Bernarda da Silva Abreu Castelo Branco Souto-Mayor de Oliveira Campos, a famosa Joaquina do Pompu, nascida em Mariana em 1752, tornou-se fazendeira prspera na regio do Pompu, aps ter morado em Pitangui. De suas fazendas, partiam grandes tropas com gneros alimentcios para diversas cidades, inclusive Vila Rica. Abasteceu emergencialmente a Corte portuguesa que chegou com Dom Joo VI, estimada em 15 mil pessoas. E tornou-se a fornecedora de alimentos para o Rio por muitos anos. Foi chefe poltica de toda a sua regio, nomeava e punia, com total liberdade de ao. Ao morrer, em 1824, deixou 11 fazendas, 40 mil cabeas de gado e algumas centenas de escravos, baixelas de prata e barras de ouro. E uma imensa rea territorial. 
Ana Jacinta de So Jos, a D. Beja, nasceu em Formiga em 1800 e morreu em Bagagem (Estrela do Sul), em 1873. A partir de Arax, tornou-se influente nos negcios e na poltica do Tringulo Mineiro. Acabou conhecida nacionalmente por sua personalidade forte e vida singular, mistura de herona e cortes, cercada por lendas e fatos reais. Raptada na juventude, por sua grande beleza, apaixonada e no correspondida, escandalizou a sociedade com sua conduta em poca marcada pela submisso feminina. 
Sobre o papel das mulheres nas sociedades dos dois primeiros sculos mineiros, com base no novo enfoque historiogrfico que contempla a vida social cotidiana e o universo cultural e familiar, h o importante trabalho de Jnia Ferreira Furtado As mulheres nas Minas do ouro e dos diamantes (As Minas Setecentistas, em Histria de Minas Gerais, 2007, Maria Efignia Lage de Resende e Luiz Carlos Villalta).
Explica-se por esse mosaico urbano e civilizatrio mineiro a riqueza de sua cultura, seu rico folclore e a expressividade da sua arte popular, internacionalmente reconhecida. Em todo o territrio mineiro, com as variaes dadas pelas heranas singulares do meio, da histria e da conformao sociolgica, so ricas as manifestaes da cultura popular, povoada de festas, adoraes, feitios, supersties, crendices, simpatias, benzees e rituais. As lendas falam de mulas sem cabea, saci-perer, assombraes. E inmeros arqutipos, variaes de um inconsciente coletivo amplo, que se manifestam nas rodas de conversas, ao redor do fogo a lenha nas velhas cozinhas e nos muitos causos, entre esses vrios tipos do mineirinho capiau, mas sabido. A culinria mineira reflete a variedade de costumes e materiais das matrizes portuguesa, africana e indgena, com incorporaes rabes e italianas. E o artesanato, variadssimo e regional, aproveita os diferentes materiais e a criatividade da mo popular alimentada pela multiplicidade da herana cultural.
Essa sociedade, to logo encontrou meios de expresso, em especial nas artes visuais, acolhidas pela igreja, soube romper o universo cultural europeu, com seu repertrio simblico dominante, para criar arte prpria, com elementos novos. O fato, como salienta Joo Antnio de Paula,  que se manifestou a capacidade da cultura colonial de forjar, a partir do repertrio simblico metropolitano, um universo de formas, significados, temas que so, antes de tudo, a explicitao da liberdade criativa, da capacidade dos artistas da colnia de tomarem o modelo europeu e fazerem dele a firmao de uma vocao emancipatria. O carter autnomo, seno libertador, da arte produzida em Minas no sculo XVIII, ao tempo da opresso colonialista,  salientado por vrios autores. Aqui  e no s pelo uso de materiais especficos, como a moldvel pedra-sabo e o itacolomito, e vrios tipos de madeira adequados  lavra escultrica, mas pela escolha de temas, de smbolos fito e biomorfos, pela prpria expressividade das figuras humanas  h evidente libertao dos cnones do barroco portugus transplantado nos primeiros tempos e, quase todo ele, criado ou influenciado por arquitetos e artistas jesutas ou por portugueses imigrantes, formados nesta esttica. 
No perodo de 1978 a 1981, a Fundao Joo Pinheiro realizou extensa e qualificada pesquisa de monumentos religiosos de todo o Circuito do Diamante, no Norte de Minas, revelando tesouros at ento desconhecidos. Regio pouco estudada, vista como abrigando bolses de pobreza, quase nada se conhecia de seu patrimnio artstico, excees do Serro e Diamantina. Revela que o fenmeno cultural e artstico mineiro teve alcance territorial ampliado, alm dos primeiros municpios mineradores.
Constatou-se a extenso territorial do fenmeno barroquista e mas tambm a desarticulao, no sculo XIX, dos estilos, caminhando-se para os gostos neoclssicos e romnticos de um ecletismo diluidor. O trabalho, realizado sob coordenao de Affonso vila e Hlio Gravat e publicado pela Revista Barroco em 1994, traz preciosas descries de igrejas de Conceio do Mato Dentro e suas adjacncias, do Serro, Diamantina, Minas Novas, compreendendo cerca de 30 cidades antigas, como Congonhas do Norte, Ferros, Morro do Pilar, Alvorada de Minas, Itapanhoacanga, Rio Vermelho, Santo Antnio do Itamb, Serra Azul de Minas, Couto de Magalhes, Datas, Felisberto Caldeira, Gouveia, Modestino Gonalves, Berilo, Carbonita, Chapada do Norte, Itamarandiba, Turmalina e Virgem da Lapa. Preciosidades, nos sistemas construtivos, na escultura e na pintura, nos diversos elementos ornamentais, de autores desconhecidos, revelam a riqueza artstica de Minas, dos povos do passado, em magnfica diversidade cultural, com preponderncia para o fervor religioso que a arte sacra expressa.
Existem vrias estimativas relativas  quantidade de ouro extrado em Minas Gerais no sculo XVIII e quanto ao percentual efetivamente levado a Portugal, clculos difceis, seja pelo precrio sistema de controle colonial como pelo intenso e contnuo contrabando verificado desde os primeiros anos. No h dvida, no entanto, quanto  sua influncia na economia portuguesa como tambm na inglesa, como reconhecem os historiadores destes dois pases que se debruaram sobre o tema.
Charles Boxer, ingls, estudioso de Portugal e suas colnias, com viso ampla do processo econmico europeu, no seu famoso A idade do ouro no Brasil -1695-1750, publicado em 1962, observa que se acreditava ser Dom Joo V o mais rico monarca da Europa pelos gastos de sua corte e pelas obras que realizou. Mas Boxer no parece compartilhar inteiramente com a tese da riqueza imensa e exclusiva do ouro e das pedras preciosas brasileiras, julgando que tambm a cana-de-acar, o tabaco e outros produtos da Colnia tiveram pesos muito importantes para Portugal e a Inglaterra. E afirma: Embora sob certos aspectos a idade de ouro do Brasil fosse tudo, menos de ouro, e sob outros aspectos nem tudo quanto reluziu foi ouro, benefcios muito reais resultaram para a comunidade luso-brasileira. A imagem, bastante difundida, do esplendor de uma poca, de riqueza ampla e sem limites, amparada na viso ednica do ouro e do diamante, comea a ser desfeita com Boxer e ir encontrar adeso entre vrios historiadores. Mas a Histria de Portugal registra, com fatos e indubitveis elementos, o perodo de prosperidade ao tempo de Dom Joo V, monarca que, segundo se dizia, tentava imitar o fausto e a criatividade de Lus XIV, o Rei Sol, e Lus XV, o Bem-Amado, monarcas franceses, no auge do Absolutismo.  fato que com o ouro do Brasil Dom Joo V construiu o Convento de Mafra, o Palcio das Necessidades, permitiu a reconstruo de Lisboa e sustentou os gastos de uma corte perdulria. E, para conseguir o ttulo de Fidelssimo e obter o ttulo de Patriarca de Lisboa, pagou  Cria Romana uma fortuna em ouro, prata, diamantes e dinheiro em espcie, at hoje objeto de controvrsias.
As minas brasileiras logo se transformaram em objetos de cobia internacional. Os holandeses, inimigos dos portugueses, fizeram duas tentativas de se instalar no Brasil, em Salvador e Recife. Os franceses, aliados dos espanhis, que vinham saqueando as colnias portuguesas africanas, desembarcaram no Rio de Janeiro, com evidentes propsitos de alcanar a regio das minas. Em 1711, Jean Franois Duclerc, com 1.500 homens, surge na Baa do Rio de Janeiro e realiza uma invaso. Ainda em 1711, desembargou no Rio o corsrio francs Ren Duguay-Troin, com 3.300 homens, em misso apoiada pelo rei Lus XIV. Tomaram e saquearam a cidade, mas foram obrigados a render-se e a retirar-se pela presena de 5.000 homens, organizados na regio das minas, sob o comando do governador Antnio de Albuquerque. Paulistas e emboabas, superando o conflito, integram essa expedio de expulso dos franceses. Um ano depois os franceses realizaram nova investida, no Maranho.
Acredita-se que o ouro mineiro esteve na origem da aproximao comercial entre Portugal e a Inglaterra e que viria permitir a expanso industrial inglesa, notria beneficiria dessa relao. A produo atinge maiores volumes entre 1725 e 1760. Pelo Alvar de 3 de dezembro de 1750, o marqus de Pombal, ento secretrio de Estado dos Negcios Estrangeiros e da Guerra (1750 a 1756), estabelece que quando a cobrana do quinto do ouro, realizado pelas casas de fundio, no fosse alm de 100 arrobas, limite mnimo de produo com o qual estavam comprometidas as cmaras municipais, haveria uma derrama pelo sistema de captao, ou seja, recolhimento de ouro conforme o nmero de mineradores, escravos ou no, envolvidos na busca do metal. Os dficits foram se acumulando at que em 1788 somavam 528 arrobas, impagveis em razo da exausto da minerao. O visconde de Barbacena, Lus Antnio de Castro do Rio de Mendona e Faro, governador que chega a Vila Rica em 1788, traz a recomendao da cobrana, denominada Derrama, motivo de grande descontentamento e causa mais prxima da Inconfidncia. 
Em Minas, a partir de meados do sculo XVIII, podemos dizer que ocorreu a mesclagem entre o barroco dos primeiros tempos e um pragmatismo racionalista inerente  Ilustrao. A Independncia Americana de 1776 ter grande influncia em todas as colnias de Espanha e Portugal nas Amricas, e os povos tomam conscincia de que podem tomar nas mos as rdeas de seu prprio destino. Nos espritos, nas mentalidades, essa dialtica histrica levar a um surto cultural com feies prprias, que se torna, nas fases posteriores, naturalmente mais aberto, menos sbrio, severo ou grave, caractersticas do Barroco Cannico imposto pela Contrarreforma e que foi transposto para a Colnia, nos primeiros tempos. Este estilo de arte, opressivo e admoestador, tridentino, em Minas no impedir que se desenvolva o esprito conspirador e libertrio. 
A Inconfidncia Mineira e, sobretudo, a severidade da punio imposta aos conspiradores, causou grande temor em toda a Capitania. Muitos, simples ouvintes, em diferentes regies, atemorizaram-se perante a extremada represso, as delaes e outras ameaas, que atingiram autoridades, os ricos e os intelectuais da Colnia. Admite-se que decorre desses fatos o que se tem chamado trauma da Inconfidncia, trao comportamental do mineiro que faz com que qualquer iniciativa de pensamento ou autonomia se manifeste com a estudada e devida discrio. Torna-se esse trao, em acrscimo  ndole do minerador, forosamente reservado, uma caracterstica da personalidade do mineiro. Fbio Lucas, no seu Luzes e trevas  Minas Gerais no Sculo XVIII, diz que o mineiro foi se formando tangido pela astcia da ocultao. Diz ainda que o cerco fiscal levou-o a esconder sua fortuna ou as exteriorizaes de riqueza. A vigilncia social estimulou de um lado a delao e, de outro, a reserva. A rigorosa poltica fiscal do Absolutismo Portugus entrou em conflito com variados interesses gestados na dinmica da produo aurfera e do sistema financeiro que a suportava. Grupos sociais emergentes emitiam a voz dissonante. A decadncia da atividade mineradora iria fazer explodir a regularidade da arrecadao dos tributos e a passividade dos agentes reinis. A manifestao ostensiva e teatral da religiosidade foi sendo mitigada pelo cepticismo, pelo emprego de uma tica civil, aspirante  cidadania.
