Prefcio
MINAS NASCEU ANTES DE MINAS

Este prefcio no pretende recontar o livro de Mauro Guimares Werkema. Sua funo  outra: explicitar o horizonte de leitura que a arquitetura historiogrfica da obra torna possvel. Mauro oferece a ossatura temporal e geogrfica de Minas  datas, instituies, fronteiras, cidades, conflitos, deslocamentos de poder e transformaes econmicas  com a preciso de quem sabe que uma sociedade se torna inteligvel quando o tempo encontra o territrio.
O que se acrescenta aqui no  uma histria paralela, muito menos uma interpretao destinada a substituir a narrativa do autor.  uma pergunta filosfica nascida de sua exatido: o que a histria de Minas revela quando deixa de ser apenas sequncia de acontecimentos e passa a ser lida como experincia de pertencimento? Como a matria geolgica se converteu em economia, a economia em cidades, as cidades em cultura e a cultura em uma forma  sempre plural e contraditria  de reconhecer o mundo?
O livro permanece, portanto, no centro. O prefcio abre algumas camadas anteriores ao marco poltico de 1720, acompanha as operaes pelas quais a Capitania se transformou em civilizao e sugere que a mineiridade no  essncia natural, mas construo histrica. O eplogo retomar essas questes depois da travessia proposta por Mauro, deslocando-as para o presente e para o futuro. Entre ambos est a obra: no como intervalo, mas como fundamento.

I. ANTES DO NOME
A longa durao do territrio

Uma formao histrica no comea no instante em que recebe um nome. A criao poltica de Minas Gerais possui datas, documentos, autoridades e limites que podem ser localizados no calendrio; a existncia do territrio, entretanto, pertence a duraes muito mais extensas, nas quais se sobrepem a matria geolgica, o movimento das guas, a presena humana e as sucessivas maneiras de compreender o mundo. Antes de ser Capitania, Minas era terra habitada; antes de se tornar regio econmica, era uma arquitetura mineral; antes de aparecer nos mapas portugueses, constitua uma trama de rios, abrigos, caminhos, plantas, animais, lugares de memria e territrios de muitos povos. A administrao colonial no fundou essa realidade: apropriou-se dela, rompeu equilbrios, acelerou seus tempos e procurou submet-la a uma nova ordem de propriedade e poder.
Como numa construo sucessivamente ampliada, restaurada e transformada, Minas conserva fundaes, acrscimos, fraturas e permanncias de pocas diferentes. Nenhuma camada explica sozinha o conjunto. A paisagem presente contm acontecimentos geolgicos remotos, trajetos humanos milenares, ocupaes originrias, intervenes coloniais e transformaes posteriores. Compreender Minas exige mais do que escolher uma fachada histrica: exige reconhecer a construo inteira, inclusive aquilo que foi soterrado, apagado ou incorporado sem receber nome.
A existncia do ouro tornou a minerao possvel; no tornou inevitveis a conquista, a escravido, a expulso dos povos ou a devastao da terra. A natureza oferece condies, mas no escreve sozinha o destino das sociedades. Foram as sociedades humanas que converteram a matria em recurso e, ao faz-lo, reorganizaram tambm as relaes entre seus integrantes. A histria colonial de Minas ser, em grande parte, a transformao de uma substncia antiqussima em valor poltico e a submisso de processos formados ao longo de bilhes de anos  urgncia da extrao,  contabilidade do fisco e ao desejo de acumulao.
A condio hidrogrfica oferece uma chave para compreender Minas. O estado parece interior, mas suas guas esto sempre partindo. O So Francisco atravessa sertes e articula regies distantes; o Rio Doce encontra o oceano depois de percorrer o leste; o Jequitinhonha aproxima serra, vale e litoral; o Grande e o Paranaba integram Minas  bacia do Paran; os cursos da Zona da Mata alcanam o Paraba do Sul. Minas no  somente um lugar ao qual se chega:  tambm um lugar de onde as guas saem, levando consigo matria, vida e histria.
No pensamento de Ailton Krenak, nascido de uma experincia histrica e cultural especfica no Vale do Rio Doce, o Watu no  simples curso dgua: comparece como parente, ancestral e condio de continuidade da vida. Essa compreenso no deve ser projetada retrospectivamente sobre todas as sociedades arqueolgicas nem apresentada como sntese de todo pensamento indgena. Sua fora filosfica est em abrir outra pergunta: o que acontece com a existncia humana quando a terra deixa de ser considerada realidade exterior  vida e passa a ser reconhecida como parte das relaes que constituem a prpria pessoa?
A regio crstica de Lagoa Santa ocupa posio singular nessa histria. Suas grutas e seus abrigos calcrios favoreceram a preservao de restos humanos, animais e materiais, fazendo dela um dos centros fundamentais da arqueologia das Amricas. Desde as pesquisas de Peter Wilhelm Lund, no sculo XIX, Lagoa Santa participa de debates internacionais sobre a antiguidade e a diversidade das populaes que ocuparam o continente. O esqueleto conhecido como Luzia, com idade estimada entre onze mil e 11.500 anos, tornou-se o emblema mais clebre dessa profundidade, embora sua importncia ultrapasse a celebridade de um nico achado: em torno dele existe um amplo conjunto de vidas antigas, pesquisas cientficas e sucessivas revises interpretativas.
O Vale do Peruau amplia esse horizonte. Suas cavernas, cnions, matas e abrigos conservam vestgios da presena humana de at cerca de doze mil anos, mais de oitenta stios arqueolgicos e extensos conjuntos de pinturas rupestres produzidas ao longo de milnios. Diferentes sociedades retornaram s mesmas paredes, encontraram sinais anteriores, acrescentaram figuras, sobrepuseram grafismos e reorganizaram visualmente o espao. A arte rupestre no pertence a um nico momento nem necessariamente a um nico povo: constitui uma longa acumulao de gestos sobre a pedra.
Lagoa Santa e Peruau revelam dimenses complementares dessa existncia. Em uma regio, a terra preserva corpos, instrumentos, fogueiras e ritos funerrios; na outra, as paredes guardam sucessivas inscries de mundos simblicos. Em ambas, a paisagem funciona como arquivo, mas um arquivo diferente daquele que o Estado colonial produziria. No est ordenado por decretos, livros de registro, tributos ou correspondncias.  um arquivo de matria: ossos, pigmentos, cinzas, pedras lascadas, sedimentos e marcas. Seu silncio no  ausncia de linguagem, mas exigncia de outra leitura.
A expresso pr-histria torna-se insuficiente quando sugere que sociedades sem escrita alfabtica teriam existido antes da histria ou fora dela. O perodo anterior  colonizao foi uma histria registrada por outros meios, e a chegada dos europeus no encerrou o tempo indgena. Povos originrios foram mortos, expulsos, escravizados, aldeados, submetidos  catequese compulsria e classificados por denominaes frequentemente criadas ou deformadas pelo colonizador. Ainda assim, resistiram, deslocaram-se, recompuseram comunidades e preservaram pertencimentos e projetos de continuidade.
A presena indgena em Minas no pertence apenas  arqueologia. Entre os povos e as comunidades indgenas presentes no estado esto os Krenak, os Tikm??n  tambm conhecidos como Maxakali , os Xakriab, os Kaxix, os Patax, os Mokurim e os Xukuru-Kariri, entre outros. Sua contemporaneidade desmente a narrativa que os admite como origem remota, mas os exclui do presente. No so vestgios equivalentes aos materiais escavados: so sujeitos polticos atuais, portadores de direitos, memrias, conhecimentos e projetos de futuro.4
Uma filosofia da existncia dos territrios originrios deve partir dessa recusa do vazio. Um lugar possui espessura histrica porque algum o conhece, percorre, nomeia, teme, celebra, nele enterra seus mortos e dele recebe as condies para continuar vivendo. O territrio no comea quando  medido, cercado ou concedido. Comea, para uma comunidade, quando passa a integrar sua memria e sua experincia do mundo. Nenhuma sesmaria criou a relao com a terra que pretendeu substituir; nenhum mapa inaugurou os rios que desenhou.
Essa compreenso modifica tambm a ideia de paisagem. A paisagem no  apenas a poro da natureza contemplada por um observador exterior. Aquele que v participa daquilo que v e  formado por essa participao. O mundo no existe somente diante da pessoa, mas ao redor, sob seus ps, dentro daquilo que ela respira e ingere, na gua que atravessa seu corpo e na memria dos caminhos que aprende. Habitar significa reconhecer que a vida no se sustenta sozinha. Toda existncia  uma forma de relao e dependncia.
O nome que mais tarde se consolidaria  Minas Gerais  permite reconhecer, para alm de sua origem administrativa, uma tenso constitutiva do territrio. As minas evocam a concentrao mineral, a profundidade escavada, a riqueza localizada e a ocupao acelerada. Os Gerais remetem  amplitude dos campos, cerrados, chapadas, veredas e sertes, s distncias percorridas e s formas de vida que no se organizaram exclusivamente em torno da extrao. No so realidades isoladas, mas dimenses cuja composio produziria uma das formaes territoriais mais complexas do Brasil.
Geologia, guas, palavras e arqueologia convergem, assim, para uma mesma interpretao: Minas no surgiu como superfcie vazia sobre a qual o colonizador escreveu a primeira histria. Era uma realidade antiga, mltipla e habitada, construda pela lenta transformao da matria e pela experincia acumulada de incontveis geraes. As cavernas haviam sido abertas pela gua antes de receberem corpos e imagens; os rios haviam organizado vidas antes de moverem engenhos e lavras; as trilhas existiam como conhecimento antes de se transformarem em caminhos rgios; a terra possua nomes e sentidos antes de ser convertida em propriedade.
Quando portugueses e paulistas avanaram pelo interior em busca de metais, introduziram outra temporalidade nesse mundo.  durao da pedra sobrepuseram a urgncia da descoberta; aos territrios indgenas, a propriedade colonial; aos caminhos aprendidos e apropriados, a fiscalizao;  matria mineral, o preo;  diversidade de povos, a pretenso de uma ordem fundada na conquista. A explorao do ouro no iniciou simplesmente uma economia: produziu uma coliso entre diferentes formas de compreender a terra e existir nela.
A realidade colonial que viria a constituir politicamente Minas comeou a condensar-se nessa coliso de tempos. A lentido geolgica encontrou a pressa da minerao; a continuidade dos povos originrios encontrou a ruptura colonial; a gua, compreendida como presena, caminho e condio da vida, tornou-se tambm instrumento de extrao; a terra, integrada a pertencimentos diversos, foi repartida, concedida e convertida em domnio. A futura Capitania seria a forma poltica criada para administrar essa acelerao.
Antes dela, contudo, permanecem a pedra de bilhes de anos, as guas que recusam fronteiras, os mortos de Lagoa Santa, os sinais sobrepostos do Peruau, os nomes que sobreviveram ao apagamento e os povos que continuam a afirmar sua existncia.  dessa profundidade que a histria de Minas deve partir. O ano de 1720 no marca seu nascimento, mas o momento em que o poder colonial procura reunir sob um nome e um governo um territrio cuja matria, memria e humanidade o precediam. A Capitania viria a governar uma terra que j possua tempo, habitantes e sentidos prprios.

II. A FORMA HISTRICA
O mtodo de Mauro Werkema

 precisamente nesse ponto  quando a durao da terra encontra a velocidade do acontecimento  que a contribuio de Mauro Werkema se torna decisiva. Seu trabalho no transforma a cronologia em inventrio nem a geografia em cenrio. O encadeamento das datas revela processos; a localizao dos fatos revela consequncias. Uma estrada modifica economias e aproxima jurisdies; uma fronteira reorganiza pertencimentos; a criao de uma vila institui autoridade e representao; a mudana de uma capital desloca centros de poder. Em sua leitura, o espao participa da histria.
A riqueza historiogrfica desta obra est tambm em conferir forma organizacional a Minas. Governos, cmaras, comarcas, dioceses, caminhos, vilas, provncia e Estado deixam de aparecer como nomes isolados e passam a compor uma arquitetura poltica. Essa estrutura no empobrece a experincia humana; oferece-lhe sustentao. Sem a preciso dos fatos, a filosofia corre o risco de flutuar acima do territrio. Sem interpretao, a cronologia pode reduzir-se a sequncia. Mauro cria o cho sobre o qual a reflexo pode avanar.
Se a longa durao da terra precedeu Minas, foi a velocidade do ouro que tornou necessria sua inveno poltica. No final do sculo XVII, as descobertas aurferas modificaram a posio do interior na Amrica portuguesa. Uma regio ainda representada de maneira imprecisa nos mapas administrativos converteu-se, em poucas dcadas, em destino de pessoas, mercadorias, esperanas e conflitos. O territrio no nasceu com a minerao, mas passou a ser submetido a outra temporalidade: a urgncia de encontrar, extrair, transportar, tributar e acumular. Aquilo que permanecera durante bilhes de anos nas entranhas da terra ingressava subitamente na histria dos imprios.
A criao da Capitania de Minas Gerais, em 1720, consolidou esse processo. A deciso no fundou uma realidade inexistente; procurou dar forma poltica a uma sociedade que se desenvolvera com velocidade maior do que as instituies destinadas a govern-la. A Capitania nasceu da necessidade de administrar uma regio que enriquecia a monarquia e, simultaneamente, ameaava escapar ao seu controle. Foi uma resposta do poder  densidade j alcanada pela vida econmica, urbana e social.
A inveno administrativa condensou sob um mesmo nome uma pluralidade que nenhum decreto conseguiria apagar. O territrio reunia reas de minerao intensa, zonas agrcolas, caminhos de abastecimento, sertes, campos, chapadas, vales e regies articuladas de maneiras distintas a So Paulo, ao Rio de Janeiro,  Bahia, ao So Francisco e, posteriormente, a Gois. A Capitania criou uma moldura comum, mas no um povo homogneo. A unidade mineira comearia a formar-se justamente pela convivncia entre diferenas territoriais e humanas.
Minas tornou-se, assim, uma dobradia territorial. Sua centralidade no decorria de uma posio geomtrica, mas da capacidade de fazer convergir fluxos provenientes de So Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Gois, So Francisco e diferentes sertes. O interior deixava de ser simples periferia do litoral e passava a reorganizar as relaes entre regies da Amrica portuguesa. A Capitania era governada a partir de Vila Rica, mas sua existncia dependia de uma rede que ultrapassava largamente o ncleo minerador.
O nome Minas Gerais permite reconhecer, para alm de sua origem administrativa, uma tenso histrica entre concentrao e amplitude. As minas remetem  profundidade escavada, ao mineral localizado e  ocupao acelerada; os Gerais,  extenso dos campos, chapadas, cerrados, veredas e sertes. Uma dimenso no existia historicamente sem a outra. As vilas mineradoras dependiam dos alimentos, dos animais, das guas e das rotas provenientes de regies que no se organizavam exclusivamente em torno da extrao. A unidade mineira nasceu da articulao entre cidade e serto, montanha e campo aberto, profundidade mineral e vastido territorial.
A arquitetura tornou visvel a natureza mltipla dessa sociedade. As instituies e parte dos repertrios vinham de Portugal, mas os edifcios foram erguidos por trabalhadores de diversas origens, com materiais disponveis no territrio e conhecimentos reelaborados nas oficinas locais. Pedra, madeira, barro, cal e ferro foram transformados por mos indgenas, africanas, mestias e europeias, muitas delas annimas. A cidade monumental no pode ser separada da multido que a edificou.
A arquitetura mineira no  uma reproduo diminuda da Europa.  uma traduo realizada sobre outro relevo, com outros materiais, por uma sociedade submetida a condies prprias. Os modelos recebidos precisaram adaptar-se aos recursos,  topografia e s formas locais de trabalho. A construo alterava a paisagem e era alterada por ela. O resultado conservava referncias externas, mas adquiria configurao que somente poderia surgir naquele territrio.
Tambm o Barroco deve ser compreendido como cultura em movimento. No permaneceu circunscrito s grandes igrejas e aos conjuntos urbanos mais tarde consagrados como patrimnio. Percorreu caminhos, alcanou arraiais, fazendas, santurios e pequenas comunidades. Mestres, oficiais, msicos, entalhadores, pedreiros, pintores, imaginrios e religiosos levavam riscos, tcnicas, devoes e repertrios que eram novamente interpretados em cada lugar.
Pode-se chamar barroco estradeiro a esse processo pelo qual a linguagem artstica se expandiu, transformando-se enquanto circulava. O termo no designa uma arte inferior, mas uma cultura cuja unidade se produzia pela viagem. Uma pequena capela junto a uma estrada podia marcar a paisagem, organizar a vida comunitria, acolher viajantes e ligar uma populao distante a repertrios difundidos por toda a Capitania. O Barroco mineiro no reside apenas nos monumentos excepcionais; existe na rede de ofcios, imagens, cantos, festas e construes que os caminhos fizeram circular.
A centralidade econmica de Minas repercutiu sobre toda a Amrica portuguesa. O ouro descia pelo Caminho Novo em direo ao Rio de Janeiro, enquanto subiam pessoas escravizadas, mercadorias, ferramentas, alimentos e ordens administrativas. A ligao entre o interior minerador e o porto carioca fortaleceu o centro-sul e participou do deslocamento poltico da Colnia. A transferncia da sede do governo-geral de Salvador para o Rio de Janeiro, em 1763, teve causas militares, econmicas e geopolticas, entre elas a defesa da regio platina; a proximidade das minas e a necessidade de controlar o escoamento do ouro foram, contudo, elementos fundamentais. Minas no se tornou capital, mas sua importncia ajudou a mover a capital.
 nessa sociedade formada entre circulao, fiscalizao, vida urbana, vnculos comunitrios e negociao que se podem reconhecer os primeiros elementos daquilo que, muito mais tarde, receberia o nome de mineiridade. Ela no nasceu pronta em 1720, nem corresponde a um carter natural produzido pela montanha ou pelo isolamento. Formou-se historicamente na experincia de habitar uma regio interior que se tornara centro econmico; de viver entre a mobilidade das estradas e a vigilncia dos registros; de organizar a comunidade pela famlia, pela vizinhana, pelo compadrio, pelas irmandades e pelas festas; de receber repertrios externos e obrig-los a viver em outra terra.
A reserva, a prudncia, o apego  casa,  conversa e  comunidade seriam posteriormente apresentados como atributos permanentes do mineiro. So representaes construdas pela literatura, pela poltica e pela memria, no caractersticas eternas de uma populao. Encontraram, contudo, matria numa sociedade em que a palavra podia proteger tanto quanto revelar, a autoridade precisava ser negociada e a sobrevivncia dependia de relaes de confiana. A mineiridade foi prtica antes de ser discurso; experincia territorial antes de se transformar em imagem de si.
Essa forma mineira no nasceu de um nico povo, de uma paisagem uniforme ou de uma economia exclusiva. Resultou da convivncia conflituosa entre povos originrios, africanos, afrodescendentes, portugueses, paulistas e habitantes de diferentes partes da Amrica portuguesa. A violncia da conquista e da escravido impede qualquer narrativa conciliadora, mas no elimina a capacidade criadora daqueles que, mesmo submetidos, reconstruram prticas, transmitiram conhecimentos e produziram formas novas de existncia.
A inveno da Capitania foi, por isso, mais do que uma operao administrativa. Estabeleceu a moldura dentro da qual experincias diversas comearam a ser percebidas como parte de um territrio comum. Os limites polticos, os caminhos, as vilas, as cmaras, os mercados, as irmandades, as festas e os conflitos fiscais produziram uma aprendizagem do pertencimento. Primeiro existiu a jurisdio governada; depois, lentamente, formou-se o territrio vivido, narrado e imaginado como Minas.5
A Capitania nasceu para administrar o ouro, mas produziu algo que o ouro, sozinho, no poderia explicar. Da rede de vilas, lavras, roas, oficinas, igrejas, irmandades, mercados e caminhos emergiu uma formao cultural capaz de reunir interioridade e circulao, cidade e serto, erudio e experincia popular. A riqueza mineral era finita; a sociedade construda ao seu redor encontraria outras formas de continuidade.
Foi assim que o interior comeou a fazer-se centro. Da pedra nasceu o valor; do caminho, o territrio; da cidade, uma forma particular de vida; da convivncia entre diferenas, uma linguagem compartilhada. A Capitania institucionalizou uma sociedade em movimento e lhe ofereceu um nome comum. A partir dela, Minas deixaria de ser apenas uma regio de descobertas para tornar-se uma das experincias mais complexas de construo territorial, urbana e cultural do Brasil.6

III. CIVILIZAO E TRADUO
A matria transformada em mundo

A criao da Capitania conferiu nome, governo e limites a uma sociedade em formao; no bastava, entretanto, instituir autoridades, estabelecer jurisdies e organizar a cobrana dos tributos para que Minas adquirisse a densidade de uma experincia histrica duradoura. Uma sociedade se transforma em civilizao quando converte necessidades materiais em formas compartilhadas de existncia, quando produz maneiras prprias de habitar, trabalhar, alimentar-se, celebrar, representar o sagrado, elaborar a memria e transmitir conhecimentos. A palavra civilizao no designa aqui uma escala de superioridade entre povos, nem a etapa final de uma evoluo humana supostamente universal. Nomeia a capacidade de uma coletividade para dar forma ao mundo e deixar, na matria, na linguagem, nos gestos e nas instituies, testemunhos capazes de atravessar geraes.
A civilizao mineira comeou a condensar-se quando a riqueza retirada da terra foi convertida em vida social. O ouro podia sustentar a arrecadao, financiar encomendas, estimular o comrcio e atrair populaes; no possua, contudo, capacidade autnoma para produzir cidades, igrejas, msicas, alimentos, vnculos ou imagens. Foram as pessoas, submetidas a posies profundamente desiguais, que transformaram o mineral em sociedade. A pedra retirada da lavra reaparecia no muro, na ponte, no chafariz e na cantaria; a madeira tornava-se estrutura, altar, imagem e mobilirio; o ferro convertia-se em ferramenta, grade, fechadura e instrumento de trabalho; o ouro extrado por mos escravizadas revestia altares diante dos quais essas mesmas populaes reconstruam devoes e pertencimentos. A matria mudava de forma, mas conservava inscritas as contradies do mundo que a transformava.
A cozinha constituiu outro centro de elaborao cultural. No surgiu como repertrio pronto nem como expresso espontnea de uma identidade regional j formada. Foi construda pela necessidade de alimentar uma populao numerosa, mvel e submetida s irregularidades do abastecimento. Produtos originrios das Amricas, conhecimentos indgenas sobre plantas e ambientes, tcnicas africanas de preparo e conservao e hbitos portugueses encontraram-se nas roas, nas casas, nas fazendas, nos pousos e nas vendas. A cultura alimentar mineira nasceu de adaptaes sucessivas, condicionadas pelo territrio, pelos ciclos agrcolas, pela circulao das tropas e pelo trabalho de pessoas cujo nome raramente chegou aos livros.
Celebrar a cozinha mineira sem reconhecer o trabalho das mulheres negras, indgenas, mestias e pobres que a formaram significaria apropriar-se novamente de seus resultados e silenciar suas autoras. Quem plantava, colhia, transportava, moa, cozinhava e servia ocupava posio distinta de quem podia sentar-se  mesa e conferir prestgio aos alimentos. O patrimnio alimentar guarda essa desigualdade. Sua grandeza no reside numa origem pura, mas na capacidade de revelar como pessoas distintas produziram continuidade em condies adversas.
Essa cultura do fazer talvez seja uma das bases mais profundas da formao mineira. A distncia do litoral e a dificuldade de transporte no produziram isolamento absoluto, mas obrigaram a adaptar aquilo que chegava de fora. Um risco arquitetnico precisava responder ao terreno; uma tcnica construtiva, s caractersticas da pedra e da madeira disponveis; uma imagem religiosa, s capacidades da oficina; uma receita, aos ingredientes existentes; uma norma, s prticas locais. Minas converteu-se em territrio de traduo. A originalidade no se encontrava na recusa de toda influncia exterior, mas na capacidade de obrigar aquilo que vinha de longe a viver de outro modo.
Ao lado das vilas e das propriedades reconhecidas pelo poder, quilombos e comunidades formadas por fugitivos, libertos, indgenas e outros grupos construram geografias de resistncia. No eram simples esconderijos situados  margem da histria colonial. Alguns constituram povoados com produo agrcola, estruturas defensivas, relaes comerciais e redes de informao. O Quilombo do Ambrsio e os numerosos ncleos associados ao Campo Grande ocuparam extensa regio do oeste mineiro e mobilizaram sucessivas campanhas repressivas. A documentao das autoridades os descrevia como ameaa, mas essa linguagem revela justamente sua capacidade de criar territrios que escapavam ao controle senhorial e fiscal.7
As irmandades negras dedicadas a Nossa Senhora do Rosrio, Santa Efignia, So Benedito, Santo Elesbo e outros santos inseriam-se no projeto catlico de catequese, mas no permaneceram apenas como instrumentos da Igreja. Africanos e afrodescendentes apropriaram-se dessas instituies para construir identidades, organizar solidariedades, cuidar dos mortos, reunir recursos e ocupar o espao pblico. O culto aos santos negros adquiriu sentidos que ultrapassavam as intenes iniciais da evangelizao. A converso nunca foi processo de mo nica; aqueles que recebiam a doutrina tambm transformavam suas linguagens e seus usos.8
Os reinados, as coroaes, os cortejos, os tambores e os cantos demonstram essa capacidade de elaborao. A festa no dissolvia a escravido nem anulava a violncia da ordem social, mas abria um tempo e um espao em que as comunidades negras se representavam por outras hierarquias, narravam memrias e afirmavam dignidade. O Congado, em suas diversas formas, no pode ser reduzido a sobrevivncia folclrica nem a simples resultado do catolicismo portugus.  uma construo afro-mineira, elaborada no encontro conflituoso entre experincias africanas, devoes catlicas, condies americanas e estratgias de continuidade comunitria.
O Barroco mineiro nasceu nesse mundo urbano, escravista, religioso e plural. Reduzi-lo a um estilo decorativo significaria separar as obras das condies que lhes deram existncia. O Barroco foi uma maneira de organizar a experincia. A arquitetura conduzia o corpo e o olhar; a talha transformava a madeira em movimento; o douramento devolvia a luz em superfcies instveis; a pintura prolongava o espao para alm do teto; a msica preenchia a nave e alterava a percepo do tempo; a procisso retirava o rito do interior da igreja e o distribua pelas ruas.
Antnio Francisco Lisboa e Manuel da Costa Atade representam momentos culminantes dessa elaborao, mas no devem ser separados do ambiente de oficinas, encomendas e colaboraes que os tornou possveis. A imagem romntica do gnio solitrio, construda sobretudo a partir do sculo XIX, tende a ocultar mestres, oficiais, aprendizes, trabalhadores e comunidades inteiras. Reconhecer a singularidade de Aleijadinho no exige convert-lo em figura isolada da sociedade. Sua obra pertence a uma rede de tradies familiares, referncias artsticas, deslocamentos, contratos e prticas coletivas.9
O barroco estradeiro, anunciado na formao da Capitania, alcana aqui seu sentido mais profundo. A linguagem artstica caminhava porque os prprios agentes caminhavam. Imaginrios, pedreiros, carpinteiros, msicos, religiosos e mestres de ofcio deslocavam-se entre vilas, arraiais, fazendas e santurios. Levavam riscos, melodias, tcnicas e devoes, mas cada viagem produzia transformaes. O repertrio recebido em uma comunidade era adaptado s condies da obra, aos recursos disponveis e s expectativas dos moradores.
Essa perspectiva modifica a prpria noo de patrimnio. A obra-prima no existe sozinha. Est ligada  pedreira de onde saiu a matria,  mata que forneceu a madeira,  oficina que formou o trabalhador, ao caminho por onde chegou a imagem,  irmandade que reuniu recursos,  festa que manteve o templo vivo e s pessoas que o limparam, abriram e cuidaram durante geraes. O patrimnio monumental  a parte mais visvel de uma construo muito maior, feita de trabalho annimo, continuidade comunitria e conhecimento cotidiano.
A escrita, contudo, no possua monoplio sobre a memria. A maior parte da populao transmitia conhecimentos por meio da palavra falada, do canto, do gesto, da prtica e da repetio. Uma tcnica aprendia-se na oficina; uma orao, ao acompanhar os mais velhos; uma msica, pela escuta; uma receita, pela execuo; um caminho, pela experincia de percorr-lo. A civilizao mineira foi letrada e oral, documental e corporal. O arquivo escrito conserva apenas parte do que foi vivido.
Restaurar Minas significa reconhecer essas camadas. Uma igreja no  somente sua talha:  a comunidade que a construiu, os trabalhadores que no assinaram a obra, a msica que nela ressoou, os mortos sepultados sob seu piso, as festas que ocuparam o adro e as geraes que impediram seu abandono. Uma cidade histrica no  apenas a soma de suas fachadas, mas a relao entre ruas, moradores, usos, paisagens e memrias. Quando a preservao congela a matria e expulsa a vida, conserva a aparncia e destri parte do patrimnio.
A beleza mineira no deve ser pacificada. O ouro do altar no apaga a lavra; a msica no silencia o cativeiro; a delicadeza da pintura no elimina a hierarquia; a festa no dissolve a perseguio; a casa no oculta a violncia de suas relaes internas. Preservar com dignidade exige sustentar simultaneamente a admirao pela criao e a conscincia das condies que a produziram. O patrimnio no  inocente, mas tampouco se reduz ao crime de sua poca.  documento material de uma sociedade capaz de produzir beleza, pertencimento e memria dentro de uma ordem profundamente injusta.
A civilizao mineira formou-se nessa contradio. No  grande porque tenha sido harmoniosa, mas porque povos e indivduos submetidos a conflitos extremos produziram linguagens capazes de sobreviver ao sistema que os reuniu. Africanos e afrodescendentes construram comunidades sob o cativeiro; povos originrios preservaram existncia diante da conquista; mulheres criaram redes dentro de uma sociedade patriarcal; trabalhadores annimos transformaram matria em arquitetura; comunidades fizeram das devoes instrumentos de solidariedade; quilombolas criaram territrios diante da perseguio.
A mineiridade comeou a adquirir consistncia nesse universo antes de se tornar conceito poltico ou literrio. Formava-se na relao entre casa, rua, igreja, oficina, mercado, roa e estrada; no valor atribudo  comunidade; na capacidade de adaptar repertrios recebidos; na convivncia entre intensa vida urbana e vastido territorial; na presena cotidiana do sagrado; na prudncia exigida por um poder fiscal invasivo; na fora das relaes pessoais diante da distncia das instituies.
Essa formao no produziu um mineiro nico. O senhor de lavras, a mulher forra que negociava na vila, o oficial mestio, o irmo do Rosrio, o trabalhador escravizado, o morador do serto, o indgena aldeado, o quilombola e o letrado no ocupavam a mesma Minas. Compartilhavam parcialmente um territrio, mas o experimentavam de maneiras profundamente diferentes. A mineiridade no nasceu da igualdade entre eles; nasceu da lenta criao de referncias comuns num mundo atravessado por diferenas que jamais desapareceram.
Por isso, no deve ser compreendida como essncia imutvel, mas como construo. Aquilo que mais tarde seria identificado como reserva, prudncia, hospitalidade, apego  casa, religiosidade ou capacidade de negociao resultou de experincias histricas especficas e foi posteriormente reelaborado pela literatura, pela poltica e pela memria. H muitas maneiras de ser mineiro porque houve, desde o princpio, muitas maneiras de habitar Minas.
Minas no se fez civilizao porque todas as suas partes se tornaram iguais. Fez-se civilizao porque diferenas territoriais, humanas e culturais comearam a reconhecer-se, ainda que de maneira incompleta e desigual, dentro de uma histria compartilhada. Da matria surgiram cidades e objetos; do trabalho, tcnicas e linguagens; da f, comunidades; da resistncia, territrios; da estrada, circulao; da memria, pertencimento.
A construo, contudo, permanecia aberta. Como numa arquitetura que cresce por acrscimos sem apagar inteiramente suas fundaes, Minas continuaria a receber novas regies, populaes, economias e interpretaes. O ncleo urbano e barroco no poderia falar sozinho em nome dos Gerais, do So Francisco, do Jequitinhonha, do Rio Doce, do Tringulo, da Zona da Mata, do Sul e do serto do Alto Paranaba. A civilizao mineira somente se revela por inteiro quando deixa de procurar uma imagem nica de si e reconhece as muitas Minas que a constituem.
IV. AS MUITAS MINAS
A unidade feita de diferenas

A civilizao que se adensou nas vilas mineradoras no esgotava o territrio que comeava a reconhecer-se como Minas. O ouro dera centralidade poltica a uma regio especfica, organizara caminhos, estimulara cidades e produzira uma linguagem artstica de extraordinria densidade; ao redor desse ncleo, contudo, estendiam-se sertes, vales, chapadas, matas, campos e bacias hidrogrficas cujas histrias no obedeciam inteiramente ao ritmo da minerao. Minas Gerais nunca foi apenas a soma das cidades do ouro. Sua unidade resultou da relao, muitas vezes tensa e incompleta, entre paisagens, povos, economias, memrias e formas de existncia que no poderiam ser reduzidas a uma origem nica.
A prpria expresso Minas Gerais contm essa tenso. As minas evocam a concentrao mineral, a profundidade escavada, a riqueza localizada e a cidade que cresce em torno da lavra. Os Gerais remetem  abertura dos campos, dos cerrados, das chapadas, das veredas e dos sertes, onde a distncia no significa ausncia, mas outra maneira de organizar o pertencimento. Uma dimenso no existiu historicamente sem a outra. As minas dependiam dos Gerais para receber alimentos, animais, madeira, ferramentas e pessoas; os Gerais, por sua vez, foram transformados pelas demandas econmicas, pelos caminhos e pelas instituies nascidas no ncleo minerador. A unidade mineira formou-se nessa passagem permanente entre profundidade e extenso, concentrao e amplitude, cidade e serto.
A diversidade das paisagens corresponde a diferentes maneiras de medir o tempo. Nas reas mineradoras, a riqueza podia reunir rapidamente populao, fiscalizao e atividades urbanas. Nos sertes de criao, os ciclos eram marcados pela distncia, pela reproduo dos rebanhos e pelas estaes. Nas margens dos grandes rios, a cheia e a vazante reorganizavam o trabalho e o deslocamento. Nas matas, a abertura de caminhos e a derrubada da vegetao anunciavam outras fronteiras econmicas. Nos cerrados e campos rupestres, o conhecimento dependia da alternncia entre seca e chuva, do manejo do fogo, da florao, das sementes e da localizao das guas. A histria mineira no avana por um nico relgio.  composta por temporalidades que se encontram sem se fundir inteiramente.
Essa variedade impede que a mineiridade seja confundida com uma paisagem exclusiva. A montanha tornou-se um de seus smbolos mais poderosos, associada  conteno,  interioridade e ao recolhimento. No representa, entretanto, todo o estado. H uma Minas de horizontes abertos, formada pelos cerrados do Alto Paranaba, do Tringulo, do Noroeste e do Norte; uma Minas dos grandes rios, onde o So Francisco, o Jequitinhonha e o Doce organizam trabalho, memria e deslocamento; uma Minas das matas midas, das encostas cafeeiras e das cidades voltadas para o Rio de Janeiro; uma Minas das chapadas, veredas, grotas, campos rupestres e terras secas. Nenhuma delas  menos mineira por no reproduzir a imagem consagrada do ncleo barroco.
A presena indgena contempornea demonstra que esse processo jamais se completou. Krenak, Xakriab, Tikm??n, Patax, Kaxix, Xukuru-Kariri, Mokurim e outros povos continuam a construir suas histrias em Minas. Alguns preservaram vnculos com territrios reconhecidos h muito tempo; outros foram obrigados a deslocar-se e reconstruir comunidades; outros ainda reapareceram publicamente depois de geraes de silenciamento. Esse reaparecimento no constitui inveno recente, mas recuperao de uma continuidade que o Estado e a sociedade haviam recusado reconhecer.
Ao lado dos povos indgenas e das comunidades quilombolas, Minas abriga geraizeiros, veredeiros, vazanteiros, ribeirinhos, pescadores artesanais, caatingueiros, gurutubanos, apanhadores de flores sempre-vivas, povos de terreiro, povos ciganos ou Romani, faiscadores, famlias circenses e outras comunidades que organizam sua existncia por meio de vnculos prprios com o territrio, o trabalho, a memria e a transmisso dos conhecimentos. Essas denominaes no formam catlogo folclrico nem classificao exterior aplicada a populaes imveis. So identidades histricas e polticas por meio das quais comunidades tornam visveis modos de vida, reivindicam direitos e recusam a transformao de seus territrios em superfcies disponveis.10
Essa pluralidade no se distribui em compartimentos estanques. O So Francisco articula margens, vazantes, sertes e mercados; o Jequitinhonha rene barro, agricultura, migrao, religiosidade e criao; o Rio Doce conserva a presena Krenak e as feridas de uma industrializao que converteu o rio em corredor mineral; o Tringulo e o Alto Paranaba voltam-se para o Brasil Central sem deixarem de participar da experincia mineira. Norte, Mata, Sul, Oeste, vales e regies metropolitanas no so periferias de um ncleo autossuficiente. So centros de outras relaes.
Na Serra do Espinhao, as apanhadoras e os apanhadores de flores sempre-vivas revelam outra forma de inteligncia territorial. Seu sistema agrcola rene cultivo, criao, coleta, manejo do Cerrado e dos campos rupestres, guarda e troca de sementes, deslocamentos sazonais e conhecimentos transmitidos entre geraes. A coleta das flores no constitui atividade isolada, mas parte de uma organizao mais ampla da vida. Reconhecido como patrimnio cultural mineiro e como primeiro Sistema Importante do Patrimnio Agrcola Mundial do Brasil, esse modo de existncia demonstra que biodiversidade e cultura podem ser dimenses de uma mesma continuidade.
No Vale do Jequitinhonha, a pluralidade territorial assume outra forma. O rio atravessa serras, chapadas, vales estreitos e reas de transio entre Cerrado, Mata Atlntica e Caatinga. Povos indgenas, comunidades negras, agricultores, garimpeiros, tropeiros, artesos e pequenos ncleos urbanos construram ali modos de vida relacionados a ambientes e economias distintas. A minerao de ouro e diamantes integrou parte do vale aos circuitos coloniais, mas roas, criao, coleta, comrcio e deslocamentos sazonais sustentaram grande parte de sua continuidade.
A expresso vale da pobreza reduziu uma regio complexa  carncia. A pobreza e a desigualdade fazem parte de sua histria e no devem ser romantizadas; transform-las na totalidade de sua identidade, contudo, obscurece conhecimentos, linguagens, tcnicas, festas e formas de solidariedade. Quando um territrio  definido apenas pelo que lhe falta, sua capacidade de criar deixa de ser percebida. O Jequitinhonha no  somente destinatrio de polticas de reparao.  sujeito cultural que obriga Minas a rever o prprio significado de riqueza.
Aquilo que hoje podemos reconhecer como Afromineiridades no constitui um captulo separado da histria de Minas. Participa de sua estrutura. O trabalho africano e afrodescendente formou lavras, cidades, fazendas e estradas; conhecimentos negros transformaram a alimentao, a cura, a metalurgia, a msica, o cultivo e a construo; devoes e organizaes comunitrias reformularam o espao religioso; irmandades, congados, reinados, quilombos e terreiros produziram territrios de dignidade e memria.
Os povos de terreiro acrescentam a essa histria uma concepo especfica de casa, natureza e ancestralidade. O terreiro no  apenas edifcio destinado ao culto.  territrio de ax, comunidade de cuidado, lugar de iniciao, arquivo oral, cozinha ritual, espao de msica, dana, cura e transmisso. Folhas, guas, alimentos, objetos, corpos e palavras participam de uma cosmologia na qual o sagrado se realiza por relaes. A perseguio e o racismo religioso demonstram que a pluralidade espiritual mineira nunca foi plenamente reconhecida.
A oralidade produziu ainda diferentes maneiras mineiras de habitar a lngua. No existe um nico falar de Minas, mas vozes regionais formadas pelo encontro entre matrizes indgenas, africanas, portuguesas e pelas sucessivas circulaes internas. Palavras, ritmos, entonaes, silncios, elipses e formas indiretas de dizer preservam experincias do territrio e das relaes comunitrias. O chamado mineirs no deve ser reduzido a caricatura, timidez ou coleo de expresses curiosas.  uma arquitetura da fala: aproxima e resguarda, sugere sem concluir, acolhe pela intimidade e, muitas vezes, transforma a prudncia em linguagem. Em Guimares Rosa, essa potncia alcana expresso literria universal, mas sua matria permanece nas conversas, nos causos, nas cozinhas, nas vendas, nas festas e nas estradas de Minas.
A cozinha constitui talvez a mais cotidiana das linguagens territoriais. Milho e mandioca atravessam regies, classes sociais e tradies familiares, ligando conhecimentos indgenas, africanos e europeus. Moinhos, monjolos, casas de farinha, piles, fornos e foges organizam sistemas inteiros de produo, transformao e partilha. Angu, fub, broas, farinhas, biscoitos, quitandas, mingaus e inmeros outros preparos no derivam de um receiturio nico, mas de variaes construdas pelas comunidades. O reconhecimento dos sistemas culinrios do milho e da mandioca como patrimnio cultural mineiro afirma que a cozinha comea antes do prato, no plantio, no beneficiamento, nos utenslios e na transmisso do conhecimento.
A industrializao converteu o Rio Doce em eixo de circulao mineral entre as reas de extrao e o litoral. Ferrovias, siderurgia, minerao em grande escala e cidades industriais transformaram a regio, produzindo riqueza, trabalho e urbanizao, mas tambm dependncia econmica, desigualdade e risco ambiental. O desastre provocado pelo rompimento da barragem de Fundo mostrou de maneira extrema que um rio no  somente volume de gua. A lama atingiu comunidades, ecossistemas, atividades econmicas, memrias e vnculos espirituais. Para os Krenak, a agresso ao Watu possui dimenso que nenhum clculo material alcana por inteiro.
O Alto Paranaba pertence a essa geografia, mas possui personalidade prpria. Fazendas, pequenas cidades, caminhos, capelas e devoes formaram uma rede comunitria que no se reduz  agropecuria. A paisagem aberta convive com chapadas, vales, nascentes e reas de cultivo. A cidade e o campo permanecem ligados por famlias, festas, trabalho, comrcio e memria.
Essa multiplicidade obriga a ampliar a compreenso do patrimnio. A primeira gerao da preservao brasileira encontrou nas cidades do ouro uma origem monumental para a nao. Ouro Preto, Mariana, Congonhas, Sabar, So Joo del-Rei, Tiradentes e Diamantina tornaram-se referncias de uma memria nacional. Essa escolha salvou edifcios e conjuntos fundamentais, mas tambm produziu uma imagem parcial de Minas, como se o Barroco pudesse representar sozinho um territrio de tamanha diversidade.
O desafio no consiste em reduzir a importncia desse patrimnio, mas em reinseri-lo na rede que o tornou possvel. A igreja relaciona-se com a pedreira, a mata, o caminho, a oficina, a irmandade, a festa e a comunidade que a mantm aberta. A cidade histrica relaciona-se com fazendas, rios, vilas, quilombos, aldeias e rotas de abastecimento. O monumento se torna maior quando deixa de ser tratado como objeto isolado e passa a revelar o mundo do qual fazia parte.
A mineiridade precisa ser compreendida a partir dessa circulao. No constitui essncia produzida pela montanha, pelo isolamento ou por um carter psicolgico imutvel.  narrativa histrica de unidade, construda para permitir que populaes diferentes reconheam algum pertencimento comum. A prudncia, a conciliao, o apego  casa, a religiosidade e a hospitalidade foram apresentados como atributos do mineiro, mas representam apenas parte de uma experincia muito mais extensa e contraditria.14
Toda identidade coletiva seleciona imagens, acontecimentos e valores por meio dos quais se apresenta. O problema comea quando a seleo se torna excluso. A montanha pode simbolizar Minas, desde que no apague o Cerrado; o Barroco pode representar sua cultura, desde que no silencie os mundos indgenas, as Afromineiridades, os sertes e as cidades modernas; a conciliao pode descrever determinadas prticas polticas, desde que no esconda a violncia da conquista, da escravido, do racismo e das disputas pela terra.
Guimares Rosa ofereceu uma das interpretaes mais profundas dessa pluralidade. Seu serto no  margem vazia nem cenrio regional.  lugar no qual a experincia particular se abre ao universal e a linguagem precisa ser refeita para alcanar aquilo que o mundo conhecido j no consegue nomear. Ao escrever o serto, Rosa no reduz Minas a uma paisagem: demonstra que o mundo pode ser pensado a partir do interior.15
Minas no precisa abandonar suas interioridades para participar do mundo. Pode falar a partir delas. A originalidade mineira no est em fechar-se, mas em converter a posio interior em forma prpria de relacionar o local e o universal. O interior que se fez centro com o ouro pode tornar-se centro de pensamento, linguagem, msica, arquitetura, tcnica e imaginao.
A diversidade, porm, no deve tornar-se justificativa para a desigualdade territorial. Algumas regies foram elevadas  condio de smbolos e receberam maior visibilidade; outras permaneceram conhecidas apenas por seus problemas. Reconhecer as muitas Minas significa distribuir no somente prestgio, mas condies de continuidade: educao, infraestrutura, proteo territorial, acesso  cultura e capacidade de participar das decises que afetam cada comunidade.
A unidade mineira no se encontra na repetio de uma paisagem, de um sotaque ou de um temperamento. Est na capacidade de estabelecer relaes entre diferenas sem exigir que deixem de ser diferentes. Minas tornou-se Minas Gerais ao reunir a profundidade das minas e a vastido dos Gerais; a cidade barroca e o serto; a montanha e o horizonte; a Mata Atlntica, o Cerrado e a Caatinga; o rio e a nascente; a escrita e a oralidade; as espiritualidades indgenas, africanas e crists; o trabalho agrcola, a minerao, o ofcio, o comrcio e a indstria.
Essa reunio jamais foi completa ou harmoniosa. Precisa ser refeita por cada gerao. A unidade no elimina conflitos, e a identidade no corrige por si mesma as desigualdades. O que une Minas no  a igualdade de suas partes, mas a conscincia de que nenhuma delas pode explicar o todo sozinha.
DA HISTRIA  FILOSOFIA DA MINEIRIDADE

A expanso filosfica proposta por este prefcio somente tem sentido porque parte da estrutura construda por Mauro Werkema e retorna a ela. A anterioridade da terra no diminui a importncia de 1720; torna mais clara a natureza daquele acontecimento. A multiplicidade regional no dissolve Minas; explica por que sua unidade precisou ser produzida historicamente. A crtica s violncias da conquista, da escravido e da explorao no cancela a extraordinria criao cultural do territrio; impede apenas que a beleza seja separada das condies que a tornaram possvel.
Mauro restitui ao leitor a sequncia, a escala e a localizao dos fatos. Ao faz-lo, oferece algo mais profundo do que uma cronologia: permite compreender como o territrio se organizou, como suas centralidades se deslocaram e como diferentes regies foram incorporadas a uma narrativa comum. A exatido geogrfica , aqui, uma forma de pensamento. Ela mostra que nenhuma ideia de mineiridade pode existir sem os lugares concretos nos quais o pertencimento foi disputado, transmitido e transformado.
Por isso, este prefcio se detm antes de converter-se em livro autnomo. No compete com a narrativa que anuncia; prepara o olhar para receb-la. As pginas seguintes pertencem a Mauro e  sua capacidade de organizar trs sculos de histria sem retirar de Minas sua complexidade. Ao leitor cabe atravess-las percebendo que cada data possui um territrio, cada instituio reorganiza relaes e cada fronteira poltica recorta uma realidade humana mais antiga e mais extensa.
Minas nasceu antes de Minas. Mas foi por meio da histria  dos acontecimentos, dos conflitos, das instituies e das escolhas humanas que Mauro Werkema recompe  que esse territrio antigo recebeu formas polticas, urbanas e culturais capazes de atravessar o tempo.  nesse encontro entre longa durao e preciso histrica que o livro encontra sua maior fora.













Lenidas Oliveira
Belo Horizonte, 2026

NOTAS DO PREFCIO

1. KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. So Paulo: Companhia das Letras, 2019; KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. So Paulo: Companhia das Letras, 2022.
2. MUSEU NACIONAL. Crnio humano de indivduo feminino  Luzia. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro; MORENO-MAYAR, J. Vctor et al. Early human dispersals within the Americas. Science, v. 362, n. 6419, eaav2621, 2018. DOI: 10.1126/science.aav2621.
3. INSTITUTO CHICO MENDES DE CONSERVAO DA BIODIVERSIDADE. Parque Nacional Cavernas do Peruau: patrimnio natural, espeleolgico e arqueolgico. Braslia: ICMBio; ISNARDIS, Andrei. Pintar como relao: interaes de pessoas e pinturas nas paredes de pedra. Boletim do Museu Paraense Emlio Goeldi. Cincias Humanas, v. 19, n. 1, e20220082, 2024.
4. FUNDAO NACIONAL DOS POVOS INDGENAS. Coordenao Regional de Minas Gerais e Esprito Santo: povos, comunidades e terras indgenas. Braslia: Funai; MUSEU DO NDIO. Tikm??n  Maxakali. Rio de Janeiro: Fundao Nacional dos Povos Indgenas.
5. FONSECA, Cludia Damasceno. Arraiais e vilas del-rei: espao e poder nas Minas setecentistas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.
6. BOXER, Charles R. A idade de ouro do Brasil: dores de crescimento de uma sociedade colonial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.
7. GUIMARES, Carlos Magno. Minerao, quilombos e Palmares: Minas Gerais no sculo XVIII. So Paulo: Universidade de So Paulo, 1988.
8. SCARANO, Julita. Devoo e escravido: a Irmandade de Nossa Senhora do Rosrio dos Pretos no Distrito Diamantino no sculo XVIII. So Paulo: Companhia Editora Nacional, 1976; OLIVEIRA, Anderson Jos Machado de. Devoo e identidades: significados do culto de Santo Elesbo e Santa Efignia no Rio de Janeiro e nas Minas Gerais no Setecentos. Topoi, v. 7, n. 12, p. 60115, 2006.
9. GRAMMONT, Guiomar de. Aleijadinho e o aeroplano: o paraso barroco e a construo do heri colonial. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 2008.
10. COSTA FILHO, Aderval et al. Direitos dos povos e comunidades tradicionais. Belo Horizonte: Ministrio Pblico de Minas Gerais; Coordenadoria de Incluso e Mobilizao Sociais; UFMG, 2012; PEIXOTO, Lusa Helena Figueiredo et al. Mapeamento dos povos e comunidades tradicionais de Minas Gerais: visibilizao e incluso sociopoltica. Interfaces  Revista de Extenso da UFMG, v. 2, n. 2, 2014.
11. INSTITUTO ESTADUAL DO PATRIMNIO HISTRICO E ARTSTICO DE MINAS GERAIS. Sistema Agrcola Tradicional de Apanhadoras e Apanhadores de Flores Sempre-Vivas em Minas Gerais. Belo Horizonte: Iepha-MG; ORGANIZAO DAS NAES UNIDAS PARA A ALIMENTAO E A AGRICULTURA. Traditional Agricultural System of Sempre-Vivas Flower Gatherers in the Espinhao Range. Roma: FAO.
12. SANTOS, Erisvaldo Pereira dos. Formao de professores e religies de matrizes africanas: um dilogo necessrio. Belo Horizonte: Nandyala, 2010; BRASIL. Poltica Nacional para Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiro e de Matriz Africana. Braslia: Ministrio da Igualdade Racial.
13. INSTITUTO ESTADUAL DO PATRIMNIO HISTRICO E ARTSTICO DE MINAS GERAIS. Sistemas culinrios da cozinha mineira: o milho e a mandioca. Belo Horizonte: Iepha-MG, 2023.
14. ARRUDA, Maria Arminda do Nascimento. Mitologia da mineiridade: o imaginrio mineiro na vida poltica e cultural do Brasil. So Paulo: Brasiliense, 1990.
15. ROSA, Joo Guimares. Grande serto: veredas. Rio de Janeiro: Jos Olympio, 1956.

