Polmicas histricas
Muitos fatos que distinguem e conformam a Histria Mineira, em alguns fundamentos bsicos, conceitos e vultos humanos, merecem ser lembrados criticamente, quando procuramos traar uma retrospectiva dos trs sculos da criao da Capitania. Esta leitura retrospectiva, embora necessria e prpria dos embates histricos, mas tambm questionveis, se faz necessria pela prpria evoluo da historiografia contempornea, muito frtil nos ltimos anos e que, alm de qualquer compromisso apologtico ou carter impressionista, permite releituras importantes. A proliferao dos cursos de Histria, as teses acadmicas e a informtica revolucionam a pesquisa nos ltimos anos. E, em meio s polmicas, traz novos fatos, verses e interpretaes, com metodologia e abrangncia interdisciplinares, com nfase na Histria Social. Mas incorpora informaes e interpretaes como, tambm, desfaz enganos, reduz exaltaes, nativismos e ufanismos extremados. 
Esta evoluo da historiografia mineiriana, que j se chamou de releitura desconstrutivista, em vrios aspectos, contribui para ampliar conhecimentos de episdios e personagens consagrados da Histria de Minas, retratados  luz de diferentes motivaes e critrios em suas respectivas pocas. E vai alm da Histria das Mentalidades e nutre-se, enriquecedoramente, das leituras chamadas multidisciplinares ou transversais. 
Trata-se, enfim, de releitura polmica de temas bsicos da histria mineira, levantados e sustentados por autores de reconhecido currculo e competncia, a merece leitura. Trs cones de Minas, alvos ilustres de revisionismo histrico, merecem ateno maior como exemplos pedaggicos: o conceito de Mineiridade, sntese do carter regional atribudo aos mineiros, motivo de discusso e divergncias, Antnio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, artista maior do Sculo XVIII mineiro e seu esplendor cultural, e o alferes Joaquim Jos da Silva Xavier, o Tiradentes, lder e mrtir da Inconfidncia Mineira e suas aspiraes de Independncia e Repblica. 
O conceito de mineiridade, por exemplo, transforma-se e j se torna difcil classific-lo por padres de pensamento e de condutas reconhecidas, colhidos pela leitura tradicional dos que descreveram o carter e a personalidade dos mineiros. Trabalhos mais recentes vo afirmando, com elaborao histrica e sociolgica contemporneas,  que a personalidade dos nascidos em Minas, e que se chamou de mineiridade, decorre do imaginrio ilustrado de algumas elites intelectuais que fizeram mais ensaios do que obra de histria. Esta  a tese bsica de Mitologia da mineiridade (Brasiliense/1989, de Maria Arminda do Nascimento Arruda, tese de doutorado em Sociologia na USP, obra indispensvel para quem desejar se aprofundar na questo de um discutido carter regional do mineiro.
A autora faz, com objetividade, fundamentada em anlises e pesquisas de fontes variadas, a radiografia da sociedade que se forma em Minas, logo nos primeiros momentos do sculo XVIII, com a colonizao abrupta, aventureira e inquieta, causada pela busca do ouro. E vai s fontes dos mitos, na tentativa de estabelecer as conexes entre as falas por eles emitidas e a histria de onde so originrias, para afirmar que foram os fatores e contingncias de uma realidade histrica que incentivaram um forte e cultivado memorialismo mineiro, operado por uma espcie de sacralizao das lembranas da terra. Os bandeirantes foram descritos como heris e seus feitos como verdadeiras epopeias. De fato, a histria da ocupao territorial do interior brasileiro, que comeou pioneiramente pela regio das minas em busca do ouro e pedras preciosas, foi verdadeira aventura, tarefa de ousadia e coragem, realizadas por homens fortes, aventureiros e determinados. Os primeiros historiadores mineiros realizaram a glorificao do passado, mas coube aos ensastas e literatos, com viso idlica destes tempos, a tarefa maior de codificadores da mineiridade e os muitos enleios que romantizaram seus feitos. E os polticos, a partir do sculo XIX, explorando traos de uma personalidade muito prpria da sociedade que se criou nas Minas do Ouro e, posteriormente, na Minas agropastoril, teriam sido os grandes emissrios dessa viso, que a literatura regional adotou como atributo marcante e diferencial. Lembra Arminda que os primeiros historiadores de Minas eram homens pblicos, polticos, eruditos mas sem maiores recursos de acesso a fontes e tambm sem maior preocupao pela pesquisa documental.
Como j sobejamente descrito, sero os modernistas paulistas, liderados por Mrio de Andrade, na nsia de descobrir uma cultura autenticamente brasileira, que vo desencadear, aps a Semana de Arte Moderna de 22, uma nova onda exaltativa de Minas Gerais. Nas visitas a Minas, descobrem que o sculo XVIII nos legou as chamadas cidades histricas, especialmente Ouro Preto, Mariana, So Joo del-Rei, Tiradentes, Sabar, Congonhas, Diamantina e Serro, onde ocorreram surtos artsticos excepcionais, que produziram, em diversos campos da criatividade humana, acervos extraordinrios, com caractersticas estticas prprias. De Minas, do seu sculo XVIII, saram as bases para a criao da cultura patrimonialista brasileira, representada pela ento Secretaria do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional, criada em 1937, a partir de texto propositivo elaborado por Mrio de Andrade sobre a imprescindibilidade e urgncia de proteo da cultura brasileira. Das pesquisas e estudos da SPHAN, na busca de uma criatividade artstica singular, saram Aleijadinho e muitos outros nomes, surgiu o Barroco Colonial Mineiro e a exaltao de um surto que alcanou os vrios ramos da criatividade artstica.  farta a literatura que exalta o surto artstico e cultural mineiro dos primeiros tempos, produto de uma celebrao nacionalista que faltava ao Brasil, ainda preso aos cnones europeus. Minas viveu e aliou ento aventura, pioneirismo, histria, arte, autonomismo esttico, irredentismo libertrio e vocao poltica, em um caldo de cultura que gerou muitos mitos e sonhos, alimentados em grande parte pelo SPHAN, na sua tarefa de descobrir, com a viso modernista, a cultura autenticamente brasileira, voltando grande parte de sua ateno para a Minas setecentista.
Aps lembrar que a mineiridade no tem sido tema privilegiado pela reflexo acadmica, Maria Arminda enfatiza a importncia de acompanhar os seus desdobramentos e, o que  tarefa que a atualidade mineira ainda mais requer, vislumbrar a sua possvel ruptura. O tema  rico, se feitas as extrapolaes naturais nessa discusso que Minas precisa ter. A mineiridade  atributo que determinou procedimentos e padres de conduta. Escapismos, meros ranos de elites conservadoras e saudosistas, mistificao geradora do ato de conciliar para permanecer e evitar rupturas e avanos, enfim, a que isto ter servido? Acabou? As dificuldades da Minas advm do carter regional que a mineiridade forjou? Minas conciliou e evitou rupturas, mas ficou para trs, fazendo poltica enquanto So Paulo fazia economia? Nos anos finais do Segundo Imprio e at na Repblica, at 1920, Minas perdeu populao e pouco avanou na economia. A pesquisa acadmica comeou a avanar em tais questes antes quase que intocveis at porque representaria desencantar os prprios mineiros, sempre to ciosos de sua mineiridade, vista como caracterstica positiva, pela sabedoria e esperteza, equilbrio, ponderao, perspiccia, capacidade de unir e muito mais. Mas, tambm, fonte de trao conservador, reacionrio, introspectivo, pouco afeito a mudanas, mais prximo da esperteza e do oportunismo, a que melhor cabe o adjetivo mineirice, entre outros j bastante descritos por muitos que se dedicaram a esse tema, na verdade muito apreciado por quase todos os escritores mineiros.
Maria Arminda v a Histria como a verdadeira atribuidora de significados aos mitos. Histria e imaginrio popular encontram em Minas um memorialismo glorificador. Obra como Memria do Distrito Diamantino, publicada em 1868 por Joaquim Felcio dos Santos, sublinha a autora,  importante como registro documental e at conceitual do sculo XVIII, mas , tambm, o exemplo mais ilustrativo desse memorialismo. No se questiona os feitos e o carter dos mineiros de ento, e seus singulares perfis humanos, mas a obra  claramente laudatria e estimuladora de uma suposta realidade mgica nem sempre prxima das verdades chocantes, ou seja, aquelas dos homens como so, com suas fraquezas e vcios. No h como negar, nessa mesma linha de raciocnio, que obras como Voz de Minas, de Alceu Amoroso Lima, ou Mineiridade, de Sylvio de Vasconcellos, ou ainda Vila Rica do Pilar, de Fritz Teixeira de Salles, ensaios eruditos e brilhantes, elaborados com vises muito prprias dos autores, so defensoras de um carter prprio do mineiro mas que hoje se chocam com o que a sociologia com base na Histria Social contempornea e mesmo a moderna historiografia, vo revendo e reescrevendo.
A moldagem do carter regional e de uma identidade mineira contriburam para a formao do mito. Diz a autora que a mineiridade adquire certa dimenso pica por apoiar-se no imaginrio tecido pela realidade. O gnero memorialstico tem na sua natureza pica algo inerente. O que ocorre em Minas , de um lado, todo um passado suscitador de devaneio e provedor de seiva alimentadora do imaginrio; de outro, um tempo histrico titubeante para promover transformaes, rupturas e projetos integradores, o que acaba por ensejar a possibilidade de cristalizao do passado, que vai sendo miticamente incorporado. O passado, os primeiros tempos de conquista e aventura, foram melhores do que os atuais, massificados, sem heris, diz a voz popular.
Os historiadores ufanistas leram com olhos condescendentes o relato dos viajantes do sculo XVIII, conforme chama a ateno Maria Arminda, que v neles fonte de muitos mitos. Quase todos falam da runa econmica, da falta de agricultura, e de comrcio e indstria organizados, embora relatem a presena de pessoas de melhor educao, ao lado da boa conversa e da boa mesa em Minas Gerais. Mas, em geral, nos escritos de Mawe, Saint-Hilaire, Luccok, Spix e Martius, Pohl, Gardner ou Burton, entre muitos outros, esto as radiografias de uma gigantesca runa, sobretudo humana, pela penria da condio econmica e social em razo da dificuldade de promover a substituio da minerao aurfera por outras atividades. A substituio pela agropecuria, pela ocupao de terras mais frteis, sobretudo nos anos finais do sculo XVIII, ser lenta e muitas so as dificuldades para sua plena expanso e efetiva capacidade de promover riquezas amplas.
J em 1780, o governador Dom Rodrigo de Menezes, ao propor medidas para soerguer Minas, que se achava em grave desorganizao econmica, falava que a espcie de monocultura de que at ento vivera, o ouro e o diamante, estava em exausto, com a Colnia afundada em dvidas e a populao na misria. Este  o quadro, hoje bastante conhecido, em que se encontrava Minas em 1789, caldo de cultura para a insatisfao inconfidente contra um colonialismo atrasado e explorador e causa imediata da conspirao contra o governo portugus, entre inepto e opressivo.
Os mineiros sero os primeiros a codificar a aspirao de uma nao livre e soberana, mas a frustrao da Inconfidncia vai lhes custar caro. A Inconfidncia passou a ser um trauma. Nasce da, mesclada na dinmica sociolgica que fermenta realidade e mito, a exaltao dos mineiros como libertrios, arrojados, conspiradores polticos. Utopia prudente de poetas e do clero, diz a autora para logo situar a Inconfidncia como ponto central a partir do qual grande parte da tradio de Minas  inventada. A conspirao tem todos os ingredientes para potencializar o imaginrio dos ensastas, como o perfil singular dos homens, poetas, padres, militares, comerciantes, em meio  ambincia setecentista de Minas, a crise da exausto das minas, o pensamento iluminista que chega na Capitania: Em suma, a identidade de Minas nasceu de uma derrota e da o seu carter vitorioso, permitindo aos mineiros cultivar a sua prpria permanncia no desenlace da vida. Dom Quixote, similarmente, buscou no ocaso de um estilo de vida a identidade cavalheiresca. E s assim se firma ou passa a ser entendida no plano da significao imaginria.
Surgem, diz Maria Arminda, do trauma da Inconfidncia, por fora da natureza de seus condicionantes sociolgicos, estimulados pelo meio e a realidade histrica, alguns traos que vo plasmando o imaginrio da mineiridade. Alguns deles, entre outros, que a autora identifica com razes nos primeiros tempos da colonizao e no tipo de sociedade que se forma, e que a represso  rebeldia fortaleceria, so a moderao, o equilbrio, a ponderao da realidade, como tambm o irredentismo: A liberdade permanece como ideal exatamente quando  vencida. Ou ainda o mineiro-quixote ser mais prudente ao avanar sobre os moinhos de vento, pois cavalgam agora em busca de alvos certeiros. A vocao libertria e o pragmatismo poltico so ritos que da surgem. O mineiro passou a falar no p do ouvido, a conversar por inferncia, pelas entrelinhas, em rodas menores, desconfiado. 
So muitos os traos da mineiridade, todos calcados na excepcionalidade do meio, na sociedade mpar que se formou, nas dificuldades de sua formao econmica e urbana, tudo isso compondo uma organizao social sempre em transio, tensa, conflitiva, barroca pelo estilo de vida e viso do mundo. A decadncia das minas, a derrota da Inconfidncia, a dificuldade de tirar da terra o sustento agrcola, sua condio topogrfica ngreme e agreste sugerem o tempero do bom senso aos projetos ensandecidos, quixotescos. Elabora-se por isso um estado de equilbrio, de perene suspenso, vivenciador da atemporalidade caracterstica das construes msticas. E mais: O equilbrio remete  integrao sem mudana enquanto o movimento navega no mar das contradies. Pratica-se, portanto, a conciliao, acomoda-se, fala-se com cuidado e nas entrelinhas, heranas sociolgicas do sculo XVIII, que se incorporam  mineiridade, como conduta ostensiva.
A cobia pelo ouro gera o mpeto de ach-lo, mas tambm o medo de perd-lo.  sempre uma aventura, a exigir arrojo, coragem e desenvoltura, mas com certa discrio, pois no convm propagar o veio. Assim foi sendo tecido o imaginrio, com ligaes intercorrentes, analgicas e conceituais que permeiam o mito e a realidade: Quando polticos, os mineiros sempre temperaram o entusiasmo romntico  to necessrio para se vislumbrar e tentar alguma coisa nesse imenso pas ainda to mal alinhavado  com ponderao realista. Por isso, avana a autora, os mineiros tornaram-se elementos de equilbrio indispensveis ao governo central e a eles conferiu-se uma misso que no  apenas preservativa e conservadora.  reformadora.
Ser no meio cultural que existem outras fontes que vo formando o enleio do imaginrio. As montanhas e a condio mediterrnea de Minas so exemplos ilustrativos. Sua centralidade geogrfica, por exemplo, suas muitas fronteiras, o obriga a reelaborar as contradies das quais  alvo. A construo mtica, tema que a autora dedica um captulo,  particularmente rica e interessante aos olhos do pesquisador que busca decifrar o carter regional e apontar o quanto o imaginrio ampliou e fez virar rito, entre os que mantiveram o gosto pela histria e o cultivo da tradio.
Cultura e poltica so dois campos privilegiados para a propagao de mitos. Explica-se o gosto maior dos mineiros pela memria, pela vivncia da poltica e a literatura, que so os grandes instrumentos de repetio e perpetuao do imaginrio. Os polticos, os memorialistas, os literatos exprimem esse profundo apego ao imaginrio mineiro. E deles deriva, afinal, o carrear ilustrativo do mito. E assim, como Quixote e Sancho, simbolizando a decadncia do estilo cavalheiresco, as elites mineiras foram permanentemente perseguidas pelo espectro da decadncia, que ocorreu com o declnio da minerao, a partir das dcadas finais do sculo XVIII. E com a evoluo de So Paulo. Em uma verdadeira dispora, geraes sucessivas de mineiros exilaram-se. Mudaram para o Rio e so Paulo. Mas sempre constituram uma espcie de confraria mineira, que nutria-se do passado, forma de exaltar sua origem, aplacar o sentimento negativo do deslocamento social. 
Basta ver vidas e obras de Carlos Drummond, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Pedro Nava, Cyro dos Anjos, Afonso Arinos de Melo Franco, Murilo Mendes e toda uma gerao de intelectuais, escritores, artistas, jornalistas. E mesmo Guimares Rosa, que andou pelo mundo como diplomata, nos difceis anos da Segunda Guerra Mundial. E, em anos mais recentes, grande nmero de escritores, jornalistas, artistas, professores e pensadores, que se mudaram para o Rio ou So Paulo, como Paulo Mendes Campos, Hlio Pellegrino, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Sbato Magaldi, Antnio Olinto, o historiador Jos Murilo de Carvalho, o mdico Ivo Pitanguy, o bailarino Klauss Vianna, o escritor Affonso Romano de SantAnna, os irmos jornalistas Moacir Japiassu e Celso Japiassu, o jornalista e publicitrio Jos Alberto da Fonseca, o crtico Frederico Morais, o socilogo Betinho (Herbert de Souza), o cineasta Neville dAlmeida, os jornalistas Jos Aparecido de Oliveira, Fernando Morais, Murilo Felisberto, Mauro Santayana, Jacques do Prado Brando, Humberto Werneck, Ivan ngelo, Fernando Gabeira, Fernando Mitre, Nirlando Beiro, os cartunistas Ziraldo e Henfil, o filsofo e jornalista Adauto Novaes, Antnio Telles, Wilson Figueiredo, Carmo Chagas, Jos Maria Myrink, os escritores Frei Betto, o crtico Fbio Lucas, Maurcio Gomes Leite, Flvio Vieira Pinto e muitos outros. A este xodo de mineiros se chamou de dispora mineira.
A mineiridade, em ampla medida, confeccionou a solidariedade do grupo, revigorando-a para enfrentar as adversidades de um ambiente amplamente desconhecido. No Rio, mas sem nunca esquecer sua Itabira e a alma mineira, Drummond apelava: Esprito de Minas me visita, e sobre a confuso desta cidade, onde voz e buzina se confundem, lana teu claro raio ordenador. Conserva em mim ao menos a metade do que fui de nascena e a vida esgara: no quero ser um mvel num imvel, quero firme e discreto o meu amor, meu gesto seja sempre natural, mesmo brusco ou pesado, e s me punja a saudade da ptria imaginria. 
Significativas so conversas dos prprios modernistas mineiros, nos bares da Rua da Bahia, sobre a Belo Horizonte de ruas largas, mas sem graa, e mansamente provinciana, com a imensa maioria dos moradores, quase todos funcionrios pblicos, recordando tristemente suas terras natais, de onde vieram com a mudana da capital. Nos meios artsticos,  tema comum acusar-se como causa da fuga para o Rio ou So Paulo o fato de no existir na jovem capital mineira mdia impressa ou eletrnica com alcance nacional, capaz, portanto, de levar ideias, nomes, produes culturais, formar reputaes alm das fronteiras de Minas, em dimenso nacional. Profissionais da propaganda sempre reclamaram da mesma questo. 
Falava-se, mineiro no acredita em mineiro, ou dizia-se que escassa era a solidariedade entre os mineiros, trao prprio da cultura regional. Mineiro s  solidrio no cncer, conforme a frase de Otto Lara Resende. E prevalecia a frase lamentativa: Minas exporta mineiros e minrios. E sempre surgia o exemplo, triste, muito triste, do poeta Alphonsus de Guimaraens, de imenso talento, melanclico entre os cinamomos de Conceio do Mato Dentro, onde foi juiz de Direito, e os sinos das velhas igrejas de Mariana, solitrio, brio nos ltimos anos. Seus versos transitavam entre o amor e a morte, cumprindo seu exlio terrestre, no dizer de Augusto Frederico Schmidt, ao falar na inaugurao do mausolu do poeta, na Igreja de Santana, em tocante cerimnia, dignamente construdo por Juscelino, em dezembro de 1953, que retirou seus restos de cova rasa da Igreja do Rosrio e lhes deu sepultadora mais digna. 
Alphonsus s foi retirado da sua solido pela visita de Mrio de Andrade, em Mariana, em julho de 1919: Em Mariana, a catlica, fui encontr-lo na escuridade da sua casa de trabalho, sozinho e grande. E foi uma hora de inesquecvel sensao a que vivi com ele. Na tristura cinza do aposento, pude dizer-lhe pausadamente, em calma, as lindas coisas que eu sentia sobre a sua arte desacompanhada e incompreendida. Aps a publicao de artigo de Mrio, outros poetas, como Bilac e Oswald de Andrade, deram conhecimento ao Brasil da existncia do artista esquecido em Mariana. Mas Poesias, em livro exclusivo, s saiu em 1938, por iniciativa do ministro da Educao, Gustavo Capanema, edio organizada por Manuel Bandeira e com nota biogrfica de Joo Alphonsus. Oswald de Andrade,, quando o poeta morreu, em 1921, traduzindo o pensamento dos modernistas, escreveu no seu Manifesto antropofgico, em que criticava a Academia Brasileira de Letras, que nunca se lembrou do simbolista mineiro no seu exlio: Aphonsus de Guimaraens valia sem dvida todos os poetas juntos da Academia Brasileira. Faleceu em Mariana, pobremente, onde vivia fazendo h vinte anos os melhores versos do seu pas. Do poeta e seu drama ficou, na memria popular, o soneto de Andersen Braga Horta: Pobre Alphonsus  clamavas  pobre Alphonsus. Mas um coro de arcanjos te seguia, como o avesso de luz dos teus responsos.
Afinal, salienta Maria Arminda, Minas  um delicioso enigma, de muitos paradoxos, contradies, enleios e mistrios. Se virtudes ou no, se so mais mineirice do que mineiridade, o fato  que alguns traos distinguem os mineiros e so ainda, em muitos lugares, a graa de Minas, embora em outros tenham sido tambm a Minas-fictcia, na verdade ainda pobre, que viveu longo perodo despreparada para um novo tempo. Graa e desgraa, portanto.  claro que a reduo da distncia entre mito e realidade  essencial a planos e projetos realistas e menos ingnuos, que visam  atualizao, que se deve fazer sem prejuzos das tradies. Vai nascendo, sem dvida, uma nova Minas, com certeza bem-vinda, mas que nos deixa, s vezes, dbios entre achar que tanto  injustificvel a pobreza degradante quanto a modernizao sem alma, ambas fatores de desagregao e desintegrao da memria. Mas  preciso reconhecer que a historiografia avana, reconstri e, com vises novas, estimula evolues.
O tema  abordado em vrias obras. Algumas, publicaes importantes, contestam o ufanismo inconsequente e vo expondo uma realidade que nem sempre  a pioneiramente revelada. Enquadram-se, nessa linha, obras como A devassa da devassa, de Kenneth Maxwell, mais antiga e imprescindvel no conhecimento da Inconfidncia de 1789, ou os Desclassificados do Ciclo do Ouro  A pobreza mineira do sculo XVIII, de Laura de Mello e Souza, no qual desmistifica o proclamado esplendor de Vila Rica ou a fantasiosa riqueza do sculo XVIII mineiro. Muitos outros trabalhos j se juntam a essa linha, inclusive no campo das monografias acadmicas, em extrapolaes correlatas, como O paradoxo mineiro: fortalecimento econmico e enfraquecimento poltico, de Cllio Campolina, ou As elites mineiras e a conciliao: a mineiridade como ideologia, de Otvio Dulci.
Para alguns, o expoente maior dessa corrente  o historiador mineiro Jos Murilo de Carvalho, autor de vasta obra, sempre preocupado com os processos sociais que vo criando mitologias e simbologias, conforme as necessidades de determinados perodos da construo da nacionalidade, o que  uma experincia mundial, prpria do ser humano. Importante e fecunda  sua contribuio. Trs textos, relativos a Minas Gerais, dois bem recentes, ilustram bem a renovao histrica que domina sua obra: Escola de Minas de Ouro Preto  o peso da glria, de 1978, no qual descreve com objetividade e verdade os fatores da decadncia da escola, entre os quais o fenmeno do nepotismo; A formao das almas  o imaginrio da Repblica no Brasil, de 2005, em que trata com absoluto realismo vrios temas e episdios do tempo da formao do pensamento republicano no Brasil, especialmente o estmulo ao imaginrio popular, incentivado pelos prprios republicanos, entre eles o de Tiradentes, que emprestou seu rosto e sua vida como cones de uma ptria progressista e livre do velho regime imperial, servindo como heri para a campanha republicana; e o captulo Ouro, terra e ferro  vozes de Minas, do livro Minas e os fundamentos do Brasil moderno, de 2005, em que afirma que no h uma voz de Minas, como queria Alceu Amoroso Lima. Em Minas, h muitas vozes, algumas dissonantes. Sua tese, a partir da qual realiza nova leitura de Minas,  que, pela tonalidade, a voz do ouro era um vibrato fortssimo, a da terra, baixa e pianssima, a do ferro, forte ma non troppo. Grito, cochicho e conversa, combinados em arranjos variados, nem sempre harmnicos. Eis uma viso mais atual da mineiridade.
O relato histrico deve trazer sempre uma fiel aproximao da realidade. Raramente algo acabado, sobretudo quanto a perfis humanos. Mesmo no que se julga estabelecido,  prudente a abertura que permita ir alm das aparncias, vises e mentalidades consagradas.  o que acontece com a Inconfidncia Mineira e, especialmente, em vigor intenso, com a figura do alferes Joaquim Jos da Silva Xavier, o Tiradentes. O tema mantm-se em permanente elaborao histrica aps dois sculos, somados a partir da Vila Rica de 1789. Afinal, dizia Marguerite Yourcenar, cada poca escolhe seu passado. A obra recente de Lucas Figueiredo, O Tiradentes  Uma biografia de Joaquim Jos da Silva Xavier, de 2018, amplia, repe e rev informaes sobre a vida do alferes, em trabalho meticuloso e essencial aos estudiosos.
O debate histrico  essencial  evoluo do conhecimento. Entre os trabalhos de valor histrico, alguns exaltam, outros desconstroem. Dois deles, de origem acadmica, ilustram bem essa discusso pela vertente da crtica e merecem comentrios. Realidade, idealizaes, sonhos e utopias so o que revelam, a mostrar que a obra de histria  complexa e ideolgica, atrelada a interesses, s vezes, circunstanciada, em outros casos. O primeiro  da professora paulista Maria Alice Milliet, historiadora da arte, com imenso e slido currculo no campo das artes visuais. Sua tese, Tiradentes: o corpo do heri, trata da formao, popularizao e consagrao da reputao de Tiradentes a partir dos movimentos republicanos que se ampliam no Brasil pelos meados do sculo XIX.  trabalho que transcende a rea das artes plsticas e evolui para a seara da Histria. Tiradentes, na sua tese, seria produto da pregao republicana e, de modo especial, da pintura de histria ou estatuomania, a exemplo de pases em busca de afirmaes nacionais, com muitos exemplos na Europa, na Amrica Latina, em especial no sculo XIX, nas lutas de independncia e de consolidao dos estados nacionais.
O segundo estudo  tese de doutoramento, tambm desenvolvida na USP, do historiador e professor mineiro da UFMG, Joo Pinto Furtado, O manto de Penlope  Histria, mito e memria da Inconfidncia Mineira de 1788/89, de 2002, em que confronta a viso mtica e heroica criada em torno de Tiradentes com contornos mais humanos e realistas. E focaliza no s o alferes, mas outros inconfidentes,  luz da mentalidade, ideologia e instituies da poca. Alega que seu objetivo  tambm separar o real do que foi construdo posteriormente. Ambas desnudam ou dessacralizam Tiradentes. 
O texto de Milliet procura desnudar as origens da construo da fama do alferes Joaquim Jos da Silva Xavier. Est na linha, muito frequente, de parte da intelectualidade paulista, com razes na USP, com vises crticas de valores e vultos de Minas, com especial foco na Inconfidncia Mineira e em Antnio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, de quem at j negaram a existncia. E desqualificam at a qualidade da produo artstica do chamado Barroco Mineiro. Quanto  Inconfidncia, alega-se ser produto de divulgao dos mineiros e que teriam sido revelados e exaltados pela campanha republicana, no sculo XIX, pelo movimento modernista, na dcada de 20 do sculo XX, e pela ao da SPHAN, a partir de 1937, criado pelo mineiro Gustavo Capanema e dirigido por mineiros, em especial Rodrigo Melo Franco de Andrade e Carlos Drummond de Andrade, com o apoio dos modernistas paulistas. Sustentam que republicanos, modernistas e o SPHAN precisavam de heris e artistas, revolucionrios e criadores de cultura. E encontraram Minas. 
Maria Alice Milliet comea afirmando que, infame aos olhos da Coroa, menosprezado pelo Imprio, poderia ter permanecido no limbo da Histria no fosse a mudana do regime e a necessidade que os novos governos tm de legitimar-se. E prossegue: Entre a representao e o real, qual a relao? Um exame das fontes que inspiraram a heroicizao do Tiradentes revelaria documentos manipulados desde a origem. A Histria da Inconfidncia Mineira encobre muitos segredos. E assim inicia sua tese de que a Repblica fez dele um mito. A formao do mito, afirma a autora, comea antes, na prpria cerimnia de execuo, a 21 de abril de 1792, no Rio. Grandiosa e solene, para infundir temor, acaba despertando a paixo popular, penalizada com a figura do nico condenado  morte entre os 23 inconfidentes sentenciados. Enforcado e esquartejado, salgado o terreno de sua casa em Ouro Preto, marcado com padro de infmia, condenado at a terceira gerao. E indaga: Por que o vestiram como santo? No h criana brasileira que no conhea seu vulto fantasmtico de camisolo branco e corda ao pescoo, a invocar indisfarvel semelhana com o Cristo. Aproveita-se a religiosidade do brasileiro. Estimula-se o carisma dos personagens trgicos. Para a autora, Tiradentes no  perdoado nem nesse episdio: O Tiradentes enforcado era outro. E lembra Joaquim Norberto de Souza e Silva, primeiro historiador e crtico de Tiradentes: Prenderam um patriota, executaram um frade. Religioso, aprofunda sua crena em trs anos de cadeia, torna-se um beato, nico meio de aplacar seu sofrimento e recriar esperanas. 
Para a autora, sobre o terreno fragmentado e movedio da histria viceja o imaginrio. E assim ...facilita a criao do heri ao sabor das necessidades do momento, dos interesses polticos, das motivaes ideolgicas. E, sintetizando: A heroicizao do Tiradentes sob a gide da Repblica no  um acaso histrico nem simples expresso de patriotismo; antes, constitui criao objetiva que visa identific-lo como Protomrtir da Independncia e da Repblica, fazendo dele um dos pilares da nacionalidade. Tudo com a sano oficial, como se pode ver com a decretao, em 1890, do feriado nacional de 21 de abril, ato que abre a institucionalizao do heri.
E diz que Tiradentes  lembrado e exaltado como mrtir e heri, mas sobretudo como lder da luta pela Independncia e pela Repblica, somente quando estas doutrinas passam a ter representao poltica e expresso institucional j no Segundo Imprio. Enfim, no fossem os partidrios da Repblica nunca teria deixado de ser apenas o bode expiatrio da conspirao de 1789. Ou de um homem feio e espantado, frase escapista de Alvarenga Peixoto nos Autos de Devassa, conclui a autora.
Os clubes republicanos, os movimentos da sociedade civil, sempre  margem do conservadorismo oficial que dominava as instituies oficiais, como o prprio Instituto Histrico e Geogrfico, passaram a fazer a construir uma nova imagem de Tiradentes. Falar de Tiradentes, em cerimnias oficiais, era um insulto ao imperador Dom Pedro II, afinal bisneto de d. Maria I. A Inconfidncia parece ter sido um tema sempre difcil para a elite cultural do Segundo Imprio. O Brasil era uma monarquia constitucional governada pela Casa de Bragana, contra a qual lutaram os inconfidentes que pregaram uma nao republicana no modelo americano. No seria fcil exaltar Tiradentes e a Inconfidncia sem condenar seus algozes e o regime vigente. No entanto, nos diversos braos do movimento republicano, so inmeras as sesses de homenagem a Tiradentes e aos inconfidentes. 
Com patrocnio oficial, a primeira grande manifestao de exaltao a Tiradentes s vai ocorrer a 21 de abril de 1890, um ano aps a Proclamao. Realiza-se, como promoo do Clube Tiradentes, a grande marcha cvica pelo centro do Rio, repetindo o fnebre trajeto de 1792. Para a autora,  o ritual de passagem que faltava. Tiradentes passou a encarnar a alma cvica e libertadora nacional. No seio do Exrcito, chegou-se a discutir se o heri nacional republicano deveria ser Tiradentes ou Benjamim Constant, Frei Caneca, Zumbi dos Palmares. Outros nomes foram examinados, como Deodoro da Fonseca, proclamador da Repblica, ou Floriano Peixoto, Duque de Caxias ou os combatentes Osrio e Tamandar, heris da Marinha brasileira. Mas nenhum possui a aura popular de Tiradentes nem seu trgico destino, entre outros ingredientes essenciais  alimentao do mito.
A iconografia do heri amplia o mito. Do erudito ao popular. Alcana o inconsciente coletivo. A autora lembra processos similares de formao de heris, para despertar sentimentos patriticos. Exemplo didtico  a Revoluo Francesa, de 1789, contempornea da Inconfidncia e sobre a qual a bibliografia  farta. Os revolucionrios valeram-se dos nimos exaltados e posies radicalizadas para difundir imagens, pinturas e bustos, de Voltaire, Rousseau e outros, levados s ruas de Paris em meio s marchas fnebres de lderes como Mirabeau, Le Peletier, Marat ou Joubert. Na Amrica Latina, os exemplos so incontveis. Figuras humanas como Robespierre e Danton at hoje suscitam controvrsias. 
Escolhidos didaticamente pela autora, so muitos os artistas que focalizam Tiradentes, desde os primeiros tempos, como Jos Wasth Rodrigues, Julius Kaudal, Antnia Vinhaes, Virglio Cestari e sua esttua de bronze de 1894, Dcio Villares e sua srie chamada cristogrfica, Pedro Amrico e seu Tiradentes esquartejado, Aurlio de Figueiredo e seu Tiradentes no patbulo, Almeida Reis e o busto para o Clube Republicano, as pinturas de Leopoldino de Faria, Eduardo de S, Rafael Falco, relativas  leitura da sentena e ao encontro com o carrasco, entre muitas outras de variadas pocas. Na escultura,  enorme a produo: a escultura de Francisco de Andrade, na Assembleia Legislativa do Rio,  o prottipo da sacralizao. Ainda na pintura, a obra extensa de Antnio Parreiras, para o Conservatrio de Msica da UFMG,  modelar. Na modernidade, persiste o mito. Portinari com o painel Tiradentes e sua srie de desenhos  o exemplo maior. Ou Joo Cmara e sua Conjurao mineira. E Guignard, com seu Sacrifcio de Tiradentes. E, bem recente, o busto de Bruno Giorgi, amplamente reproduzido. O famoso concurso da Caixa Econmica Federal deixou obras de alguma importncia na iconografia de Tiradentes, como as de Sigaud, Glauco Rodrigues, Newton Cavalcanti, Wellington, Poteiro, entre outros. No cinema e no teatro, muitos so os ttulos sobre Tiradentes e os inconfidentes. A Casa da Moeda teve Tiradentes em vrias cdulas. Os annimos, ou de cunho popular, so dezenas. O Partido Comunista explorou a imagem, assim como movimentos militares de direita. Cada um interpreta e usa o alferes conforme sua ideologia. Em 1964, empresrios conservadores mineiros, direitistas, preparando o golpe contra Joo Goulart, com comprovado apoio da Embaixada dos EUA, se intitularam Os novos inconfidentes. E, logo depois do golpe, j na resistncia, um grupo de militantes de esquerda, organizando guerrilha, se denominou Movimento Revolucionrio Tiradentes.
Ao final, para sustentar que a construo do mito prossegue, a autora cita dois episdios nos quais os mineiros exaltam seu passado. O Panteo da Ptria, inaugurado a 7 de setembro de 1986, em Braslia, dedicado a Tancredo Neves, iniciativa do ento governador do Distrito Federal, Jos Aparecido de Oliveira, mineiro convicto: De ponta a ponta o destaque  Tiradentes. Na penumbra, ou melhor, na quase escurido de uma vasta sala, o painel de 21 metros sobre a Inconfidncia surge como um filme em sala de cinema. E cita artigo do jornalista Cludio Abramo, na Folha de S. Paulo: O Panteo da Ptria recm-inaugurado em Braslia  um exemplo eloquente do imperialismo poltico-histrico de Minas Gerais sobre o resto dos brasileiros e especificamente sobre a estrutura administrativa e burocrtica deste pas. E lamenta que frei Caneca, que pegou em armas, no tenha sequer uma sugesto de lembrana. Para a autora, a promoo de heris se faz agora com a participao de setores organizados da sociedade e o apoio governamental. E d o exemplo final: a 7 de setembro de 1994, o presidente de Portugal, Mrio Soares, ganha do Brasil busto de Tiradentes de Bruno Giorgi e, em retribuio, assina o Ato de Reabilitao do Alferes Joaquim Jos da Silva Xavier perante a Ptria Portuguesa. Era embaixador em Portugal Jos Aparecido de Oliveira e, presidente da Repblica, Itamar Franco, mineiros e cultores da Histria de Minas. Para Milliet, so as duas ltimas manifestaes de vitalidade do mito do Tiradentes. 
O manto de Penlope  Histria, mito e memria da Inconfidncia Mineira de 1789,  outro didtico exemplo de releitura histrica. Penlope fazia, desfazia e refazia seu manto. E assim revivia seus votos nupciais com Ulisses. Com esta metfora, o historiador e professor Joo Pinto Furtado alude  permanente construo/desconstruo da historiografia da Inconfidncia Mineira. O estudo contemporneo da Inconfidncia ainda se faz, segundo o autor, a partir de quatro matrizes formadoras: Joaquim Norberto de Souza (1873), Lcio dos Santos (1922), Kenneth Maxwell (1973) e Mrcio Jardim (1988). Acertos e erros vo se mantendo, mesmo com novas interpretaes documentais. Outra matriz, documental, diz o autor, so os Autos de devassa, que sofrem leituras diversas, mas que induzem, como vcio maior, uma espcie de lgica jurdica na anlise de fatos e homens, notoriamente incapaz de enxergar a diversidade de interesses e a complexidade dos homens e seus ambientes. Kafka, no seu O processo, bem mostrou o que  o reducionismo da Justia.
Mesmo antes do movimento republicano, j nas dcadas de 20 e 30 do sculo XIX, diz Furtado que j se exaltava a Inconfidncia Mineira como uma tentativa de libertao nacional, ou como se tivesse constitudo uma espcie de pr-Grito do Ipiranga. Sua primeira tese  que no havia uniformidade de objetivos, aspiraes ou modos de pensar entre os inconfidentes, homens de diferentes estamentos, posies, fortunas e formao. O que os unia? A ideologia republicana/libertadora? Interesses econmicos? Habitantes de diferentes regies da Colnia, que aspiraes iguais teriam em face do regime colonial portugus? Leitura simples dos homens, suas vidas e atividades mostram claramente suas tremendas diferenas. E os padres? Os militares? Estudo recente revelou o Padre Rolim, do Serro, como um bandido, matador e contrabandista, alis o nico que ops resistncia real  priso, s ocorrida trs meses depois. E amplia-se, cada vez mais, o vulto de Jos lvares Maciel, mineralogista de Coimbra, que esteve em Londres e nos Estados Unidos, com claras ideias libertrias e formao econmica, apontado como verdadeiro lder da Inconfidncia. Estudos focados em cada um dos inconfidentes tm, enfim, elucidado muita coisa. Em geral, tm despojado a viso romntica e irreal.
O autor diz que a vida e atuao de Joaquim Jos da Silva Xavier demanda muita pesquisa. Nascido em 1746, na Fazenda Pombal, propriedade da famlia, que no era de poucas posses, como chegou-se a divulgar. Possua 35 datas de explorao de ouro, tinha 35 escravos. Pelas mos de um tio, apreendeu a tirar dentes e exerceu a atividade de tropeiro, o que exigia certo cabedal. Assim, aprendeu os caminhos de Minas e fez muitas relaes. Tinha leitura, como mostram suas habilidades. Mas, ressalta,  preciso saber mais do que fez e por onde andada entre 1764 e 1775, quando ingressa na tropa paga. Em verdade, hoje a pesquisa histrica, em livros j citados, revelou suas andanas e misses, na divisa de Minas com o Rio, em Sete Lagoas, onde chefiou destacamento da Cavalaria destinado a vigiar a entrada do sero mineiro, como tambm em Berilo, no Norte de Minas, e no Rio de Janeiro, como em misses policiais em caminhos de Minas. Tinha residncia na Rua So Jos, em Vila Rica, e possua conhecimentos hidrolgicos, como mostram as propostas feitas para Rio Maracan, no Rio.
Furtado dedica pginas  anlise do que seria, por volta de 1780, o conceito de nacionalismo ou de republicanismo e como poderiam ter alcanado Minas no seu contexto colonialista. Tiradentes, ao ser preso, como mostra o sequestro de seus bens, portava um livrinho com a Declarao da Independncia e as Leis constitutivas dos Estados Confederados da Amrica Setentrional, obra de Jefferson e Benjamin Franklin, que hoje  exibido no Museu da Inconfidncia. Traz os textos inaugurais da Independncia americana. O iluminismo, expresso pelos enciclopedistas franceses, chegara a Minas, como atestam vrias bibliotecas. E teria mesmo estado em Lisboa em 1787, como reivindica Isolde Branz, a partir de assinatura homnima no Livro de Portas palaciano?
 tambm Joo Pinto Furtado o autor do captulo A Inconfidncia Mineira: um novo tempo ou reedio dos motins do Antigo Regime, do volume 2 da coletnea Histria de Minas Gerais  As Minas Setecentistas. O prprio ttulo j desqualifica o movimento de 1789, remetendo-o a simples motim, igualando-o a muitos outros, com diferentes motivos, pocas e regies, ocorridos no territrio mineiro durante todo o sculo XVIII. Com declarado esforo e objetivo, realiza a tarefa de desconstruir o movimento e todos os seus participantes. Esmia a vida de todos, procurando seus vcios e situaes de vida. O empenho na pesquisa at surpreende pelo detalhamento revelado pela pesquisa da vida dos personagens, suas origens, vidas, interesses. Para ele, no havia motivaes nobres, ideolgicas ou de esprito pblico, dentro do espectro poltico do sculo XVIII, mas interesses variados, imediatos e menores, negcios contrariados. E, dentre eles, o maior que era no pagar a derrama, acumulada por anos de insuficiente produo de ouro. Mas tambm a grande insatisfao contra a opresso do governo da Capitania, que cerceava novos negcios e impunha taxaes excessivas. A Inconfidncia no passava, portanto, de uma mera revolta de natureza fiscal. De resto, meras conversas nas horas vagas de potentados, certamente alcanados pelas ideias libertrias em voga, mas sem nimo real de realizar uma revoluo armada libertadora.
E, em certo momento, nos adverte que exigir de homens e mulheres do sculo XVIII certos padres de coerncia e comportamentos compatveis com as expectativas do sculo XIX ou XX  sempre uma temeridade, compreensvel quanto s urdiduras da memria nacional no sculo XIX, mas incompatvel com os horizontes da historiografia e prtica profissional comprometida com a objetividade histrica em sua concepo contempornea. E conclui que o que quer que possa deslustrar os inconfidentes, seja do ponto de vista moral ou de sua existncia material e cotidiana, com frequncia  colocado em segundo plano, quando no ignorado ou citado em notas absolutamente secundrias.
Uma recente releitura, bastante controversa, relativa a um cone de Minas, ocorreu em 2009, com a publicao de Aleijadinho e o aeroplano  o paraso barroco e a construo do heri colonial, da escritora ouro-pretana Guiomar de Grammont, tese de doutorado elaborada tambm junto  USP. No precisamos ler o texto para conhecer o sentido da obra. Basta ler os dois prefaciadores, orientadores da tese, o professor Roger Chartier, do Collge de France, e o professor Joo Adolfo Hansen, professor emrito da USP, um reconhecido e respeitado intelectual e fillogo brasileiro. Para o primeiro, com mincia e sutileza, Guiomar de Grammont identifica as iluses, os anacronismos e as intenes que transformaram em cone da brasilidade uma vida sobre a qual se sabe to pouco e uma obra de atribuies duvidosas. Para o segundo, a autora discute a historicidade das noes de autoria, de autenticidade e de originalidade, correntes em discursos do mercado de arte, quando Aleijadinho  mercadoria e preo, e em textos da Histria da Arte, quando  tema e ideologia. Guiomar, com erudio e boa argumentao, decorrentes de leitura e pesquisa interpretativa intensas, realiza ampla reviso de vida e obra de Aleijadinho e vai propondo interpretaes crticas que permitem identificar o surgimento, a formao e o desenvolvimento dos mitos em torno da sua incomum trajetria pessoal e profissional.
Argumenta que Rodrigo Melo Franco de Andrade e uma equipe de pesquisadores do SPHAN vasculharam os arquivos de Minas em busca de provas documentais que pudessem dar consistncia s informaes contidas na primeira biografia do artfice, publicada em 1858, por Rodrigo Ferreira Bretas. Nascido em Cachoeira do Campo em 1814 e falecido em 1866, em Ouro Preto, Bretas foi professor de Filosofia e Retrica em Barbacena e Ouro Preto, promotor pblico, dirigiu colgios e foi deputado provincial por quatro legislaturas. Com a biografia de Aleijadinho (Traos biogrficos relativos ao finado Antnio Francisco Lisboa, publicada em dois artigos no Correio Oficial de Minas, em 1858), ingressou no Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro. Sua principal fonte  o relato elaborado pelo vereador de Mariana, Jos Joaquim da Silva e publicado em 1790, sob o ttulo Registro de fatos notveis da cidade de Mariana, obra desaparecida, em que Aleijadinho  citado, segundo Bretas. A autora esclarece: Nosso trabalho no acrescenta novos documentos a esses que j existem: o que fazemos  apresentar uma leitura completamente diferente no apenas desses documentos, mas tambm dos discursos que sobre eles foram feitos. 
 inconteste que passada a fase da visita dos viajantes estrangeiros, na primeira metade do sculo XIX, o acervo artstico mineiro do sculo anterior permaneceu em relativo esquecimento at que os modernistas paulistas, organizadores da Semana de Arte de 1922, voltam sua ateno para a velha Minas, realizando a redescoberta das cidades histricas, por meio de viagens de conhecimento em 1919 e 1924. Mrio de Andrade publicar em 1928 o artigo Aleijadinho, que coloca o artista mineiro como expresso maior de uma arte autenticamente brasileira. Caber ao SPHAN, criado em 1937, sob inspirao do movimento modernista  o relatrio que orienta sua criao foi elaborado por Mrio de Andrade, a pedido do ministro mineiro Gustavo Capanema, em 1936  lanar-se ao campo na busca da confirmao de um acervo artstico incomum nas velhas cidades coloniais mineiras. Teria havido uma recriao histrica, notoriamente exaltativa, em que mitos, artistas e heris, eram necessrios.
Para a autora, a idealizao e a mitificao desse artfice, que comea a tomar forma cerca de cinquenta anos aps a sua morte, tornaram-no pouco a pouco um heri nacional, tpica de diferentes programas de construo de ideias diversas sobre a identidade brasileira ao longo da historiografia do pas. Assim, conforme as leis que governam a criao de mitos e heris, Aleijadinho  uma imagem que foi reinventada para adequar-se aos objetivos polticos de cada poca. Nesta linha, afirma que, de qualquer forma, procuramos mostrar que Antnio Francisco Lisboa, se existiu, foi apenas como um dos artfices que resultaram de uma conveno artstica comum ao perodo colonial,  qual foram sendo acrescentadas outras preceptivas imitadas por artfices locais.
Na argumentao crtica, a primeira contestao  quanto  credibilidade do depoimento do bigrafo Bretas, j levantada no passado por outros analistas. O artista teria existido ou no passa de uma inveno romanesca de Bretas?, indaga. O fato  que se trata de trabalho exaustivo de Guiomar, de notria e rica erudio, de pesquisa e anlise histrica e sociolgica, construdo com rigor conceitual e boa formulao ideativa e argumentativa, sempre com esforo comparativo entre o Aleijadinho de Bretas e o Aleijadinho real, passando por estudo de estilo e autoria, originalidade versus emulao.
Sempre polmico e declarado opositor do IPHAN, a partir de 1941 Augusto de Lima Jnior, reconhecido historiador mineiro, lana uma renhida campanha de negao da existncia do Aleijadinho. Pouco mais tarde, evolui para a afirmao de que Antnio Francisco Lisboa foi artista menor e no o genial mestre apontado pelos pesquisadores da DPHAN. Em 1942, lana o livro O Aleijadinho e a arte colonial, sustentando que a maior parte das obras que lhe foi atribuda no podia ser de sua autoria e que a fonte citada por Bretas, ou seja, o Relatrio do segundo vereador de Mariana, era falso. Lima aderia a Salomo de Vasconcelos, historiador marianense que, em 1939, publicara texto dizendo que existiram mais de um Antnio Francisco Lisboa. Os pesquisadores do Patrimnio, liderados por Rodrigo Melo Franco de Andrade, responderam com documentos, assinaturas, atas de irmandades, recibos de pagamento. O mesmo o fizeram historiadores como Zoroastro Vianna Passos, de Sabar, e Judith Martins, entre outros. 
Em 1945 veio ao Brasil e esteve em Ouro Preto Germain Bazin, erudito em artes plsticas, diretor conservador do Louvre, de Paris. Viera visitar um irmo, mas encantou-se pela obra de Aleijadinho e em 1958 publicou, em Paris, A arquitetura religiosa barroca do Brasl, livro divulgado no Brasil somente em 1963, por iniciativa e apoio financeiro de Assis Chateaubriand. E, em 1971, saiu no Brasil o livro o Aleijadinho e a escultura barroca no Brasil, tornando o artista internacionalmente conhecido, o que acirrou os nimos de Augusto de Lima e Salomo de Vasconcelos. Lima publicou artigo radical e demolidor em revista de amigos, sob o ttulo O mito de Aleijadinho na Histria de Minas Gerais. E, em 1963, em entrevista  revista O Cruzeiro, repete todos os seus argumentos, com grande repercusso. Bazin contestou os argumentos de Lima, e a prpria O Cruzeiro, no ms seguinte, publicou artigos dos historiadores Vicente Racioppi, ento presidente do Instituto Histrico de Ouro Preto, e de Orlandino de Seitas Fernandes, ento diretor do Museu da Inconfidncia, contestando amplamente a Augusto de Lima, que foi um constante crtico do IPHAN. Preterido na indicao para primeiro presidente do rgo, ocupado por Rodrigo Melo Franco de Andrade, Lima passou a contestar a prpria atuao do IPHAN. Lima, a pedido de Getlio Vargas, promovera o repatriamento dos despojos dos inconfidentes que encontrou na frica e influenciou a criao do Museu da Inconfidncia. Os despojos foram entregues em Ouro Preto em 1938, com a presena de Vargas, quando se criou o Museu, s inaugurado em 1944, aps as reformas da antiga Casa de Cmara e Cadeia.
Vemos, ento, que a polmica  antiga e envolveu estudos e controvrsias. J no se contesta a existncia de Aleijadinho e a discusso do valor de suas obras tornou-se meramente exerccio acadmico, de cunho impressionista. Identifica-se certo preconceito contra Minas e os mineiros, sua histria, sua cultura e a indiscutvel exaltao que promovem ao longo do tempo. Prossegue, adequadamente, a discusso em torno da autoria de algumas peas, em um mercado de arte em que so muito valiosas. O trabalho da professora Guiomar de Grammont  leitura importante para os estudiosos e especialistas e se inscreve na linha desconstrutivista, como confessa a autora. De resto,  ela quem diz que nossa abordagem orienta-se para demonstrar que Aleijadinho  um constructo dos discursos que repercutem na histria. Nessa construo fizeram coincidir a figura do artfice Antnio Francisco Lisboa.
