Tiradentes e a conspirao mineira
A rebeldia dos mineiros, trao marcante de toda a sua histria, ter na Inconfidncia Mineira de 1788/89 sua maior expresso poltica e ideolgica. Em 21 de abril de 1792 era enforcado Joaquim Jos da Silva Xavier, o Tiradentes, em ato pblico espetaculoso, no Rio de Janeiro, em um cadafalso armado no ento Largo da Lampadosa, atual Praa Tiradentes. Aos 46 anos, pagava com a vida a aspirao de autonomia poltica e econmica de Minas, tramada por ele e um grupo composto por poetas, padres, militares, comerciantes, entre os anos de 1788 e 1789, em conspirao que envolveu as principais cidades histricas de Minas e os caminhos para o Rio de Janeiro.
Tiradentes e seus correligionrios inconfidentes, bem como os diversos fatos e locais onde se desenrolaram os episdios da Inconfidncia Mineira, constituem um misto de realidade, drama e sonho de liberdade, autonomia e repblica que, ainda hoje, so lembrados e celebrados nas cidades histricas mineiras, com muitas narrativas que envolvem e cativam os visitantes que se deparam com os lugares e edificaes nos quais viveram ou transitaram os inconfidentes. Pouco mais de dois sculos nos separam da Inconfidncia, tempo em que se fortaleceu a reputao de Tiradentes, hoje alado, pela voz popular,  condio de heri nacional e protomrtir da Independncia Brasileira, alcanada em 1822, exatamente 30 anos aps a sua execuo. Por sua importncia histrica e poltica, e tambm pela evoluo da pesquisa histrica sobre a Inconfidncia e, sobretudo, sobre vida e atuao do alferes Joaquim Jos da Silva Xavier, o estudo da conjurao de 1788/89 merece maior divulgao quando Minas comemora, em 2020, 300 anos da criao da Capitania das Minas do Ouro. 
Esse reconhecimento no  gratuito ou aleatrio, ou consequncia nica, como afirmam alguns detratores do movimento, da campanha pela Repblica que, a partir de 1870, com o primeiro Manifesto Republicano, se acelera no Brasil e efetivamente  obtida em 1889, e que buscou, no movimento libertrio mineiro, inspirao e exemplos e realizou sua divulgao e exaltao por todo o pas. Tiradentes, por suas palavras e gestos, at o momento final no cadafalso mas, tambm, nos diversos depoimentos que prestou  devassa instaurada pelo governo colonial, foi ntegro e correto com os fatos e os companheiros, no renegou suas ideias, assumiu responsabilidades e pregou, com firmeza, sua convico de que os brasileiros, se o desejassem, poderiam fazer deste pas uma grande nao. De Tiradentes se diz que foi trado e no traiu jamais a inconfidncia de Minas Gerais (samba enredo de Silas de Oliveira).
No s ele, mas, sobretudo, os inconfidentes de maior instruo, vrios dentre eles de elevada cultura, como mostram seus escritos e revelam os seus depoimentos, refletiam sobre a evoluo da civilizao mineira, seu processo histrico e poltico, ao final de quase um sculo de lutas de afirmao e busca de autonomia. Desgastada e ambgua, a administrao colonial portuguesa inerte em face da depresso econmica em que mergulhara a outrora rica e produtiva regio das Minas Gerais, ainda presa a velhas proibies que impediam a expanso econmica substituta da minerao, ser contestada por vrios movimentos e manifestaes nativistas. De resto, o pensamento libertrio, autonomista e republicano, j tomava forma e corpo de doutrina, sobretudo a partir da Independncia Americana de 1776 e do iluminismo enciclopedista e a Ilustrao Francesa, que levaram  Revoluo de 1789, data coincidente com a conjurao mineira. H que se lembrar ainda que, nas cidades histricas mineiras, especialmente nos ncleos mais avanados como Vila Rica, Mariana, Sabar, So Joo del-Rei e Serro, formara-se camada de homens de pensamento, alimentados no s por sua formao europeia, mas pela prpria cristalizao de um surto cultural mineiro setecentista. Nos anos anteriores  Inconfidncia chegaram a Vila Rica vrios alunos de Coimbra, onde conviveram com os pensamentos libertrios mais atuais, especialmente de origem francesa.
 claro que a imagem forte de Tiradentes, santificada na opinio pblica, decorre da correo da sua conduta, mantida mesmo quando supliciado e condenado. E, por isto, foi usada pelos republicanos, no sculo XIX, quando precisaram de um contestador do regime, pregador de uma nova ordem poltica e econmica, autnoma e progressista, que j falava em Repblica tendo como referncia a Independncia Americana de 1776 e o pensamento iluminista francs. E que, sobretudo, tivesse uma reputao moral e eticamente preservada. Como foi tambm usada por outros movimentos que, com vrios matizes ideolgicos, no s faziam o questionamento do regime imperial, mas pregavam a necessidade da evoluo social e econmica do Brasil, como sada para o imobilismo a que estava relegado pela monarquia decadente. 
Sua imagem foi ainda idealizada como Cristo por vrios pintores que o retrataram nos momentos principais do seu longo processo e, em especial, no ato final do enforcamento aps cortejo pelas ruas do Rio de Janeiro. Tornou-se cone dos pensamentos libertrios e evolucionistas. Sua pregao se adequava aos ideais republicanos. Percebia-se que este imenso Brasil possua imensas riquezas inexploradas por um sistema colonial retrgrado, tanto quanto Tiradentes havia dito que Minas tinha tudo para se tornar independente e viveria muito melhor se no estivesse sob o jugo portugus, que lhe subtraa tantas riquezas, ao mesmo tempo em que proibia, na Colnia, qualquer iniciativa de desenvolvimento.
Muitas tentativas de desconstruo de Tiradentes, dos inconfidentes e da Inconfidncia, como movimento precursor da Independncia e da Repblica, foram feitas e continuam na atualidade. Tanto quanto alguns trabalhos de origem acadmica revelam hoje certa indisposio em relao  Inconfidncia Mineira, especialmente estudos ligados a alguns crculos histricos paulistas, muitos outros, majoritariamente, de igual valor, amparados em bases cientficas de pesquisa e anlise, tm exaltado sua importncia histrica. De todos os modos, poucos episdios da Histria do Brasil continuam ensejando estudos e interpretaes quanto a Inconfidncia Mineira. H defensores e detratores, que atualizam informaes e leituras de textos anteriores e o fazem sob enfoques novos, transversais, que implicam cruzar elementos e dados que melhor retratem a mentalidade da poca e o pensamento dos seus homens. Os defensores pedem que se olhe para o que efetivamente eram os homens do final do sculo XVIII quanto  sua ideologia e valores, conceitos da ordem poltica e social, viso de mundo, luta pela sobrevivncia nessas montanhas de Minas, na sociedade em crise pela exausto das minas, submetidos ao regime colonial portugus  um regime indiscutivelmente inepto e opressivo  e obrigados, para sobreviver, a condutas encobertas. E concluem, benemeritamente, ao julgar esses homens avanados e libertrios, sem dvida contrrios ao regime colonial, a maioria adepta da Repblica ou de uma nova ordem poltica que se elaborava na poca, conforme parmetros ideolgicos e polticos fundamentais que no podem ser desconhecidos nesse julgamento. 
Os Autos de Devassa da Inconfidncia Mineira, em diversos depoimentos dos inconfidentes sobre conversas e razes da insatisfao, assim como a prpria produo literria dos inconfidentes, revelam claramente o pensamento iluminista dos principais lderes conspiradores. Bagagem adquirida nas leituras de autores universais comprometidos com a Independncia Americana e com o mais atual pensamento libertrio, constitucionalista e republicano francs, o qual levou  Tomada da Bastilha, a 14 de julho de 1789  coincidncia histrica com as primeiras prises em Vila Rica. Bastaria ver as Cartas chilenas, de Toms Antnio Gonzaga, apocrifamente lanadas em Vila Rica em 1788 ou 1789, com severas crticas ao governador Lus da Cunha Menezes, o Fanfarro Minsio e, implicitamente, ao governo colonial, desptico e opressor, inepto e impeditivo do desenvolvimento regional, s vezes corrupto, permitindo desvios ticos e condutas autoritrias. Cunha Menezes, conde de Lumiares, chega a Vila Rica em 1783 e ali permanece at 1788, quando  designado governador Lus Antnio Furtado de Castro do Rio de Mendona e Faro, o visconde de Barbacena, que ir desencadear o processo de priso dos inconfidentes, aps denncias do movimento. Barbacena ficou no governo at 1897. 
Alguns crticos da Inconfidncia ampliam suas anlises a outras realidades e circunstncias da Minas colonial, inclusive o discutido fausto ou surto artstico do sculo XVIII. Afirmam que a ideia ou imagem de opulncia e riqueza, ou do difundido dinamismo artstico-cultural, escondem ou disfaram uma realidade de ampla pobreza, ou a miserabilidade econmica, causadora de ampla excluso social, prpria de uma sociedade muito desigual, descontnua. E incluem, na incredulidade, o prprio Antnio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, de quem j se chegou a negar a existncia e a extenso e o valor da obra, manifestaes crticas que poderiam ser at naturais e at previsveis quando se trata de analisar ocorrncias to complexas como a sociedade mineira setecentista, sua criatividade artstica e a obra do genial toreuta mineiro. A explicao  que os mineiros, sempre muito orgulhosos da aventura de sua colonizao, e com apoio dos modernistas paulistas, sempre foram eficientes na exaltao da prpria histria. Assim, grande parte do surto cultural e poltico no passaria de sonho criativo de um certo grupo ilustrado de mineiros do passado, orgulhosos de sua terra e seus feitos, mas sem objetividade como historiadores. E mais: o prprio Servio do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional, criado em 1937, inspirado pelos movimentos modernistas paulista e mineiro, mas implantado e dirigido por mineiros, seria o principal propagador do acervo cultural e poltico-libertrio de Minas e, com este objetivo, teria incentivado vrios mitos. Necessitando, assim como ocorreu com o movimento republicano, de encontrar nomes e obras com autnticas razes brasileiras, objetivo primordial do novo modo de pensar a cultura brasileira, que devia se livrar dos cnones europeus, os tcnicos do SPHAN, de formao modernista e mineira, encontraram no sculo XVIII de Minas fatos, nomes, monumentos, circunstncias, portadores de histria e arte, aventura, patriotismo, herosmo e sentimento nativista. E muito sonho.
 fato que os movimentos republicanos do Brasil e Minas exaltaram Tiradentes e os inconfidentes, por bvias e naturais razes. Afinal, Dom Pedro I e Dom Pedro II, neto e bisneto de d. Maria I, no teriam motivos para lembrar os inconfidentes.  verdade ainda que, mesmo aps a Independncia, demorou-se muito em reconhecer e reabilitar Tiradentes. S em 1832, por exemplo, os bens sequestrados dos inconfidentes foram devolvidos aos herdeiros. Em Minas, alguns episdios, como o levantamento do marco de infmia do local de residncia do alferes, em Ouro Preto, na atual Rua So Jos e que j se chamou Rua Tiradentes, logo aps a Independncia, j promoviam a sua reabilitao. Mas uma coluna em sua memria, na Praa Tiradentes, s viria a ser implantada em 1866, pelo ento governador Saldanha Marinho, que ser posteriormente um dos lderes do movimento republicano. E apenas a partir de 1881 o Rio de Janeiro passou a celebrar o 21 de abril. 
Contudo, foi a partir de 1870, quando saiu o primeiro manifesto republicano, com peso poltico, que Tiradentes se transformou no heri do movimento. Em 1882, no Rio, a campanha pela Repblica promoveu a criao do Clube Tiradentes, que passou a comemorar a data de sua morte, dia 21, todos os anos. Em 1890, na comemorao do 98 aniversrio, o clube realizou marcha cvica no Rio, com grande nmero de pessoas. E tambm uma reunio solene, com presena do chefe do Governo Provisrio, marechal Deodoro da Fonseca, sendo orador oficial Silva Jardim. 	
Desde ento ocorre uma verdadeira batalha historiogrfica em torno de Tiradentes, no dizer de Jos Murilo de Carvalho em O imaginrio da Repblica no Brasil. Discute-se at hoje sua personalidade, sua conscincia revolucionria, sua aparncia fsica, ora com longa barba, ora vestido como alferes do Regimento de Cavalaria, com aparncia jovem, barba raspada como convinha aos militares. O Partido Republicano props um monumento ao heri. A inaugurao de uma esttua de Dom Pedro I, em 1862, no Largo do Rocio, no Rio, local suposto do enforcamento de Tiradentes, provocou o primeiro conflito pblico com a populao, incitada pelos republicanos. Abriu-se o embate entre monarquistas e republicanos centrado nas figuras de Pedro I e Tiradentes. Republicanos buscaram conhecer melhor a vida do alferes, suas falas e condutas, exaltando seu comportamento perante a Devassa, bem como de outros inconfidentes, destacando sempre a aspirao de liberdade e autonomia. 
Frei Raimundo Penaforte, franciscano, confessor dos rus, fala que a execuo de Tiradentes, no Rio, causou grande consternao  populao. O desfile do condenado, vestido de branco, barba ampla,  feio de Cristo, abrindo caminho na multido, com a praa da forca fortemente guarnecida, constituem imagens constrangedoras que ficaram na memria dos presentes. Ao pretender uma demonstrao pblica de punio severa ao ru, o governo colonial acabou por propiciar espetculo pblico que constrangeu e provocou reaes adversas na populao, que via em Tiradentes um patriota. Penaforte, testemunha insuspeita, afirma que foi tal a compaixo do povo da infelicidade temporal do ru que, para lhe apressarem a eterna vida, oferecem voluntariamente esmolas para dizerem missas por sua alma. Deixou depoimento no qual diz: este homem foi um daqueles indivduos da espcie humana que pem em espanto a mesma natureza. Entusiasta, empreendedor com o fogo de um D. Quixote, habilidoso com um desinteresse filosfico, afoito e destemido sem prudncias, s vezes, e outras temeroso ao rudo da cada de uma folha.
Tiradentes suportou onze interrogatrios e acareaes, sempre sereno, tranquilo, convicto, e sustentou suas ideias contrrias  espoliao colonial. Este pas de Minas Gerais, dizia o alferes na tarefa de convencimento do tenente Jos Antnio de Melo, do seu Regimento,  riqussimo, mas tudo quanto produz levam para fora sem nele ficar coisa alguma de tanto ouro que nele se extrai; que os quintos no deviam tambm sair e que os ofcios se deviam dar aos filhos destas Minas para dotes de suas filhas e para sustentao de suas famlias. E h pouco se tinha despedido deste pas um general carregado de dinheiro e que a vinha outro fazer o mesmo. Ora, neste e outros depoimentos documentados nos Autos de devassa, conclui-se da clara conscincia da espoliao, da injustia do regime colonial, da ao dos governadores, preocupados em enriquecer a si e a Portugal, sem maiores preocupaes, com raras excees, com a vida da populao.
Tiradentes no acusou ningum, responsabilizando-se, ao final, pela conspirao, conformado com o seu destino. Este  depoimento tambm do advogado Jos de Oliveira Fagundes, que defendeu os rus, designado pela Santa Casa de Misericrdia, e que desempenhou muito bem o seu papel, opondo embargos e fazendo tudo o que era possvel na defesa, passando  Histria como profissional correto e digno da advocacia brasileira. 
Tiradentes foi condenado a que com barao e prego seja levado pelas ruas pblicas desta cidade ao lugar da forca e nela morra morte natural para sempre e que separada a cabea do corpo seja levada a Vila Rica onde ser conservada em um poste alto junto ao lugar da sua habitao, at que o tempo a consuma; que o seu corpo seja dividido em quartos e pregados em iguais postes pela estrada de Minas nos lugares mais pblicos, principalmente no da Varginha e Ceboulas; que a casa de sua habitao seja arrasada e salgada, e no meio de suas runas levantado um padro em que se conserve para a posteridade a memria de to abominvel ru e delito e que ficando infame para seus filhos e netos lhe sejam confiscados seus bens para a Coroa e a Cmara Real. Os restos de Tiradentes acabaram sendo distribudos entre Vila Rica, o Stio das Cebolas (Inconfidncia, ao lado do Rio Paraba do Sul), no arraial da Igreja Nova (Barbacena), na Estalagem da Varginha, em Queluz de Minas (Conselheiro Lafaiete), e no stio das Bandeiras, tambm em Vila Rica, todos os locais no Caminho Novo.
 claro que a exibio da cabea de Tiradentes na praa principal de Vila Rica, onde hoje est sua esttua, ter causado revolta e constrangimento. Impresso que certamente espalhou-se por muitas cidades, tantas quantas onde o movimento da Inconfidncia alcanou com presena de envolvidos e adeptos, especialmente Mariana, So Joo del-Rei, Tiradentes, Barbacena, Serro e Diamantina.
O brasilianista Kenneth Maxwell, no seu A devassa de devassa, de 1978, um marco historiogrfico pela leitura crtica e revisora que faz da Inconfidncia, diz que a tranquila dignidade com que Tiradentes enfrentou a morte foi um dos poucos momentos heroicos do fracasso sombrio. Quase um sculo depois, quando o Brasil implantou a repblica, ele foi proclamado heri nacional. E esta condio de heri nacional do alferes dos Drages de Minas no  injustificada: em comparao com os seus companheiros de conspirao, o comportamento de Tiradentes, ao ser interrogado, foi exemplar, ningum o sobrepujou em entusiasmo por uma Minas independente, livre e republicana. Reclamou para si o maior risco e no h dvida nenhuma de que estava disposto a assumi-lo. E conforme afirmam ter dito Cludio Manoel da Costa, tomara que existissem mais homens desta tmpora. 
Os primeiros historiadores que aludiram  Inconfidncia Mineira trataram de reconhecer o movimento como precursor da Independncia. Mas a reao apresentou-se na forma de tentativa de desconstruo da figura do alferes e de alguns inconfidentes. A fonte principal foi a publicao, em 1873, de Histria da Conjurao Mineira, de Joaquim Norberto de Souza Silva, tendo como base os Autos de Devassa da Inconfidncia Mineira. Por apresentar documentos at ento desconhecidos, sua obra tornou-se fonte referencial contra e a favor do movimento. Norberto foi acusado de tentar destruir a figura de Tiradentes e minimizar a Inconfidncia, por estar a servio da Monarquia, como funcionrio pblico e vice-presidente do Instituto Histrico e Geogrfico, instituio prxima ao governo imperial, de orientao monrquica e ulica, quase oficial. Seu mrito maior foi ter encontrado e pesquisado os Autos de Devassa, que localizou no Arquivo Nacional, at ento esquecidos, fonte fundamental para conhecimento do movimento, mas que, como todo inqurito policial, necessita ser avaliado com indispensveis cautelas, sobretudo em razo do desptico regime colonial e a clara parcialidade da justia de ento. A polmica prossegue, embora aps a Proclamao da Repblica tenha se intensificado o culto cvico. 
Em 1890, o governo republicano torna o dia 21 de abril feriado nacional juntamente com 15 de novembro, quando da Proclamao da Repblica. Artistas, empenhados na campanha republicana, mas tambm pelos elementos histricos especialmente centrados nos seus ltimos dias, na cadeia e no cadafalso, e ainda pelo fato de se terem dele quaisquer imagens ou descries pessoais, de qualquer poca, em trajes civis ou com uniforme militar, conceberam Tiradentes como heri, mrtir e santo, sempre com uma aura mstica, barba crescida, olhar perdido, camisola branca, corda ao pescoo. 
 Nas celebraes do primeiro centenrio da Independncia, em 1922, Lcio Jos dos  Santos (Cachoeira do Campo, 1875/1944), publica trabalho de pesquisa cujo principal  empenho foi de restaurar a figura humana e a atuao de Tiradentes, tantas vezes  enganosamente deformada no intenso debate que se travou sobre sua figura no sculo XIX. Conhecido e respeitado, homem de cultura, Lucio conseguiu seu objetivo de divulga a Inconfidncia e seus personagens, com viso mais realista e justa.
Ajudando a ampliar mitos e imagens da Inconfidncia, tornaram-se conhecidos os dramas dos poetas inconfidentes: Toms Antnio Gonzaga, degredado para Moambique, onde viveu at 1810 e onde se casou com Juliana de Souza Mascarenhas, de muitas fortunas e poucas letras, sempre lembrado de sua paixo por Marlia, Maria Dorotia Joaquina de Seixas, e popularizado pelas Liras a Marlia de Dirceu e por suas Cartas chilenas. Alvarenga Peixoto, condenado ao degredo perptuo em Angola, onde morreu em agosto de 1792, sempre recordado junto com sua esposa Brbara Heliodora Guilhermina da Silveira, que passou  Histria como mulher forte, de personalidade, que lutou por vrios anos para recuperar os bens tomados do marido e que, ao final, acabou recuperando para os filhos. Do mesmo modo tambm oferecem novos elementos de dramatizao as circunstncias da morte de Cludio Manoel da Costa, advogado e literato, poeta, autor de vrias obras literrias, homem culto, encontrado morto na Casa dos Contos, em Vila Rica, alguns dias depois de ser preso, expresso maior da Arcdia Mineira, morte que a verso oficial registrou como suicdio, mas desculpa na qual a populao de Vila Rica no acreditou. Cludio, mais idoso que seus companheiros, fora secretrio do Governo em 1763, do governador Luiz Diogo Lobo da Silva (1763 a 1768). Em 1773, no governo de Antnio Carlos Furtado de Mendona,  novamente secretrio, mas assina o Livro de Posse como vereador  Cmara de Vila Rica.
A reputao de Tiradentes, de heri nacional, dois sculos aps a Inconfidncia, mantm-se forte na opinio pblica, tanto quanto o significado histrico e poltico da insurreio mineira. Atribui-se  Inconfidncia a importncia de no ser apenas uma das muitas rebelies ocorridas durante todo o sculo XVIII na Capitania, diferenciando-se sobretudo pelos contedos ideolgicos, o desejo de independncia plena e instaurao de uma repblica, aspiraes que iam alm dos meros conflitos de negcios, de domnio da terra e resistncia ao fisco. 
Na verdade, a sociedade que se criou na regio das minas sempre foi irrequieta e irredentista, por fora da sua origem mineratria e a cobia portuguesa. A Inconfidncia foi a ltima sedio do sculo, compreendeu maior extenso territorial e certamente inspirava-se em um corpo de doutrina compatvel com o pensamento mais avanado da poca. E envolveu a elite da Capitania, padres, militares, poetas e literatos, autoridades da prpria administrao colonial, comerciantes e os mais ricos. 
Como causa mais imediata da revolta mineira foi a reao das elites mineiras ao poder espoliador, incompetente e corrupto do governo, que se agravou com as instrues trazidas pelo novo governador, o visconde de Barbacena, determinadas por Martinho de Melo e Castro, que substituiu o marques de Pombal no governo portugus, que mandava executar a derrama, cobrana de impostos atrasados. E estabelecia normas rgidas em vrios aspectos do comrcio e da vida dos moradores, sobre a cobrana dos impostos e restrio de comrcio. O governo anterior, de Cunha Menezes, foi farto de desmandos e desmazelos, com maus exemplos do prprio mandatrio. Afirma-se que, com estas instrues, alm das crticas condies econmicas da Capitania, no havia parcela da elite no poder em Minas que no fosse afetada, de um modo ou de outro (Kenneth Maxwell). Acrescente-se ao quadro de crise as ocorrncias em Diamantina, com a corrupo do trfico de diamantes e as normas que limitavam a extrao e a circulao pelo territrio diamantino.
Mas a atualidade de Tiradentes como heri nacional e precursor da Independncia brasileira de 1822, bem como o iderio dos inconfidentes, so verdades incontestveis. Na noite de 23 de maio de 1789, eram presos os inconfidentes em Vila Rica. A inspirao doutrinria era a mesma, tendo origem na Independncia americana de 1776, liderada por Jefferson e Franklin, expresso concreta das ideias iluministas dos enciclopedistas franceses.  incontestvel a disseminao do pensamento autonomista e libertrio entre os principais lderes do movimento, como demonstram seus escritos, depoimentos e os livros encontrados em suas bibliotecas. Cristalizava-se, a partir de pensadores e autores franceses, a concordncia quanto aos direitos dos povos de conduzir seus prprios destinos e que os governantes deviam orientar-se por normas e princpios tiradas do pensamento da maioria da sociedade. A reconstituio das conversas, nos diversos encontros entre os inconfidentes, releva claramente a leitura de Rousseau, Montesquieu e outros pensadores que pregavam o novo regime, constitucional e republicano. 
Um autor teve influncia especial foi o abade Raynal (Guillaume Thomas Franois Raynal, 1713/1796) seguramente lido por alguns inconfidentes. A Histoire philosophique et politique des tablissements et du commerce des Europens dans les deux Indes, que surge em 1770 e foi republicada em 1780, d a Independncia Americana, de 1776, como exemplo a ser seguido pelas colnias e cita especificamente a colonizao portuguesa na Amrica. 
Algumas afirmaes do alferes, tiradas da sua pregao revolucionria e dos seus depoimentos, bem mostram sua viso e seu comprometimento com a causa inconfidente: Foi percorrendo as montanhas de Minas, conhecendo as suas riquezas, que passei a desejar a sua liberdade e resolvi me dedicar por inteiro a esse trabalho. Ou: Havendo armas e gente, ns, entrincheirados atrs das serras, resistiremos eternamente. Parece que no h mais homens nestas Minas, somente uns vis comodistas. Se eu no encontrar quem me ajude, hei de armar uma meada tal que em dez, vinte ou cem anos se no h de desembaraar. Sempre disse aos ministros, quando por inmeras vezes fui ante o tribunal, que em mim fizessem justia. No quero levar atrs de mim tantos infelizes. A nova repblica que se estabelecesse deveria ter bandeira, que como a de Portugal tinha nas suas por armas as cinco chagas. Deviam as da nova repblica ter um tringulo, significando as trs pessoas da Santssima Trindade.
Cidade onde se localizava o governo colonial e residncia de vrios envolvidos, Ouro Preto  sempre lembrada como sede da Inconfidncia e, como tal, pranteada pelo imaginrio popular. Ocorreram em Vila Rica os principais encontros e conversas dos inconfidentes, destacando-se os realizados na residncia do tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, comandante Regimento de Cavalaria, tropa paga da Capitania. Neste casaro,  Rua Direita, conforme depoimentos dos inconfidentes, muitas foram as conversas, com trocas de livros, ideias e estratgias sobre a rebelio, bem como sobre a organizao da nova sociedade e seu governo, com a presena dos principais envolvidos, inclusive de outras cidades. Foram feitas avaliaes sobre como operar o levantamento popular e um provvel enfrentamento militar, bem como analisadas as possibilidades de adeso do Rio e So Paulo. Discutiu-se a extenso do movimento a outras cidades, mesmo quelas mais distantes. Em uma dessas reunies, discutiu-se a bandeira da nova repblica, um tringulo vermelho com o lema em latim Libertas quae ser tamen (Liberdade ainda que tardia), frase tirada de um verso das clogas, de Virglio. Mas  a Comarca do Rio das Mortes, ou seja, So Jos e So Joo del-Rei, que dar o maior nmero de inconfidentes, nove dos rus entre os 14 inicialmente condenados  pena de morte. E pensava-se em So Joo para sediar a capital da Provncia autnoma, bem como para implantao de uma universidade. 
Para Ouro Preto, na Praa Tiradentes, a cada ano, a 21 de abril, desde 1952, em decorrncia de lei estadual proposta por Juscelino Kubistchek, que o Governo de Minas se transfere e presta em homenagens ao alferes e aos inconfidentes. E so exaltados os elementos histricos e cvicos que fizeram surgir justamente em Minas, nestas terras, o sonho inconfidente de autonomia poltica e econmica. Se no foi movimento vitorioso, que nem chegou ao confronto pelas armas, a Inconfidncia Mineira, no entanto, conforme a concordncia da maioria dos historiadores, teve ampla repercusso e levou a Coroa portuguesa, temerosa de movimentos libertrios, assustada pela Revoluo Francesa ocorrida na mesma data e o guilhotinamento de aristocratas, a realizar ampla devassa e punir severamente os envolvidos, mesmo quando as provas de participao no eram to claras ou at mesmo porque o movimento no chegou a efetivos combates com o poder constitudo. O Governo Federal, pela Lei n 4.897, de 9 de dezembro de 1965, atribuiu a Tiradentes o ttulo de Patrono Cvico da Nao Brasileira.
Joaquim Jos da Silva Xavier nasceu em 1746, na ento Vila de So Jos del-Rei (hoje Tiradentes), na Fazenda do Pombal (hoje localizada em Ritpolis), quarto dos sete filhos do casal de fazendeiros Domingos da Silva Ramos e Antnia da Encarnao Xavier. Famlia de classe mdia, que deu instruo aos filhos. Ficou rfo de me aos sete anos e de pai aos nove. No era homem inculto, pois seu irmo, o padre Domingos, cuidou de sua instruo, possuindo leitura e caligrafia de bom nvel para o seu tempo, conforme documentos existentes. Ficou at os seis anos na Fazenda do Pombal, residiu logo depois em So Jos del-Rei e foi para Vila Rica, onde desempenhou vrios afazeres, como de minerador e dentista prtico. Incorporou-se ao Regimento de Cavalaria e alcanou a patente de alferes, equivalente hoje  de aspirante, primeiro posto do oficialato, e desempenhou diversas misses. Foi admitido, no posto de alferes, a 1 de dezembro de 1775, Joaquim Jos da Silva Xavier. Desde ento passou a receber variadas misses, algumas bem arriscadas(Dicionrio Histrico e Geogrfico de Minas Gerais, Waldemar de Almeida Barbosa, 1971). 
Em 1780, no primeiro semestre, est Tiradentes em Sete Lagoas, como comandante do Destacamento local, encarregado do Registro al instalado, porta de entrada do Vale Mdio do So Francisco (A Inconfidncia Mineira, Mrcio Jardim, 1989). Em Tiradentes em Sete Lagoas, de 2010, o historiador sete-lagoano Marcio Vicente Silveira divulga detalhada pesquisa sobre presena e atuao de Tiradentes na regio. Em 1781, foi encarregado de patrulhar o Caminho Novo, que ligava a regio das minas ao Rio, onde era grande a ocorrncia de roubos e assassinatos. Comandou o destacamento militar do Registro do Paraibuna, na divisa com o Rio. A 21 de abril de 1784, oito anos antes de ser enforcado, foi nomeado pelo ento governador Lus da Cunha Menezes para acompanhar o sargento-mor Pedro Afonso Galvo em viagem de estudos  parte leste da Capitania. A justificativa para a designao era de que o alferes possua inteligncia mineralgica. Comandou operaes contra ladres tambm no Norte da Capitania, em Berilo e Minas Novas. Em 2018, Lucas Figueiredo, jornalista e escritor mineiro, publica Tiradentes, uma biografia de Joaquim Jos da Silva Xavier, resultado de ampla e exaustiva pesquisa sobre alferes, a mais completa e atual sobre o homem, vida, andanas, pregaes, trabalhos e atividades. 
Com viso empreendedora, Tiradentes chegou a propor ao vice-rei Lus de Vasconcelos e Souza a realizao de obras no porto e de canalizao das guas dos rios Andara e Maracan, para abastecimento do Rio de Janeiro e gerao de fora motriz para moinhos, projetos que foram implantados ao tempo de Dom Joo VI no Brasil. Alguns relatos sobre o alferes o classificam como homem de esprito irrequieto, loquaz, obstinado e impulsivo e, sobretudo, dotado de sentimento patritico e com ideias de emancipao poltica e econmica, pregao que passou a fazer sempre com base na alegao de que a Provncia de Minas Gerais tudo possua para tornar-se independente. 
Ao ser preso, no Rio, entre seus pertences havia um exemplar do livro Atos constitutivos da independncia das treze colnias confederadas da Amrica Setentrional, textos escritos por Thomas Jefferson e Benjamin Franklin, contendo as justificativas e a Declarao de Independncia dos Estados Unidos, de 1776. A edio, francesa, encontra-se hoje no Museu da Inconfidncia, em Ouro Preto, recuperada em 1994 do Museu da cidade de Florianpolis, para onde fora doado quando da sua inaugurao, retirado dos documentos da Inconfidncia do Arquivo Nacional. 
Kenneth Maxwell, brazianista estudioso da Inconfidncia Mineira, publica em 2013 O livro de Tiradentes, que traz preciosas anlises atualizadoras do significado da Inconfidncia e o pensamento iluminista que chegara a Minas, onde se formara uma sociedade de pensamento, que falava em uma repblica florente, como dizia Tiradentes. O livrinho traz a coletnea (recueil) de artigos sobre a Independncia Americana e texto completo das Leis constitutivas dos Estados Unidos da Amrica . Maxwell j publicara, em 1973, Devassa da Devassa, uma reflexo crtica que  referncia preciosa sobre a Inconfidncia. Neste livro as historiadoras Jnia Ferreira Furtado e Heloisa Starling publicam Repblica e sedio na Inconfidncia Mineira: leituras do Recueil por uma sociedade de pensamento, em que classificam a Inconfidncia Mineira como um dos movimentos revolucionrios mais significativos da poca moderna., nos sertes aurferos e diamantferos das Gerais.  texto rico de informaes, atualizadas e que mostram os fatores desencadeadores da revolta.
Nas bibliotecas dos inconfidentes, apreendidas pela devassa, constam muitos livros sobre o contemporneo pensamento iluminista francs, inspirador da Independncia Americana e da Revoluo Francesa de 1789. Clssico estudo de Eduardo Frieiro, O diabo na livraria do cnego, informa sobre os ttulos encontrados e seus contedos. Lus Carlos Villalta, em Ler, escrever, bibliotecas e estratificao social, em As Minas Setecentistas, 2007, realiza anlise minuciosa sobre os livros dos inconfidentes, ttulos, contedos, o pensamento libertrio e iluminista ento em debate na Capitania. A biblioteca do Cnego Luiz Vieira Silva, de Mariana, a mais completa dos inconfidentes, continham vrias publicaes da Ilustrao francesa, de Voltaire, dAlembert, Montesquieu, Mably, Domingos Vandeli, Condilac, Baro Biefeld, Antnio Genovese e outros. 
No Museu da Inconfidncia, encontram-se partes dos Autos de devassa da Conjurao Mineira de 1789, inclusive os Autos dos rus eclesisticos, que haviam sido tornados secretos por ordem de d. Maria I, rainha de Portugal, catlica fervorosa. Retirados do conjunto dos documentos da Devassa e levados para Portugal, estes autos foram comprados pelo governo brasileiro de um leiloeiro em Londres, em 1980, onde os havia colocado para venda os descendentes dos Condes de Galveas, um deles ministro de Ultramar  poca do processo dos inconfidentes. Os cinco rus eclesisticos foram embarcados separadamente e enviados para Lisboa e mantidos presos em vrios conventos. A rainha, d. Maria I, enlouquecida, foi substituda a 10 de fevereiro de 1792 por seu filho, Dom Joo, que permaneceu como prncipe regente at 1799, quando assumiu o ttulo de rei. D. Maria I morreu no Rio de Janeiro a 20 de maro de 1816, completamente louca. A execuo de Tiradentes, em abril de 1792, ocorreu, portanto, sob a regncia de Dom Joo VI, que s foi coroado rei a 7 de fevereiro de 1818.
Tiradentes permaneceu preso na Fortaleza da Ilha das Cobras, no Rio. Negou tudo nos trs primeiros interrogatrios mas, a 18 de janeiro de 1790, no quarto interrogatrio, decidiu falar sobre a conspirao, assumindo plenas responsabilidades. Disse, conforme registrado nos Autos de Devassa, que era verdade que se premeditava o levante, que ele respondente confessava ter sido quem ideou tudo, sem que nenhuma outra pessoa o movesse, nem se inspirasse coisa alguma... E manteve-se nesta atitude, coerente e corajosa, livrando companheiros, chamando a si culpas e responsabilidades. E nos seus depoimentos reiterou sua convico republicana, de liberdade e autonomia poltica e econmica, com afirmaes ousadas. Enfrentou, portanto, conforme reconhece a maioria dos historiadores, toda a adversidade com postura corajosa, seja no longo perodo da priso, por quase trs anos, em condies desumanas, at o momento da morte. Na priso, sempre foi assistido por franciscanos que reforaram sua postura religiosa, manifestada nos momentos finais de sua vida. 
O historiador Joaquim Norberto de Souza e Silva, em sua Histria da Conjurao Mineira, de 1873, apresentada ao Instituto Histrico e Geogrfico do Rio de Janeiro, de notria condenao ao movimento e com vrios erros de informao e interpretao, afirma que, erguendo a cabea, o ru, que abaixava para no se trair, reanimando-se com todo vigor, quis atribuir-se as honras de chefe da conjurao. Poder-se-ia ver neste ato que no deixava de ser heroico, uma tal ou qual leviandade de seu gnio, mas andou to bem que a ningum procurou comprometer.  de Norberto tambm a frase relativa  conduta de Tiradentes nos seus ltimos minutos, em que teria beijado os ps do carrasco e dito frases que demonstravam intensa religiosidade: Prenderam um patriota, executaram um frade.
Presos os inconfidentes em maio de 1789, o interrogatrio, a formao de culpa e a sentena demoraram 29 meses. Onze foram condenados  pena de morte e os demais ao degredo perptuo ou temporrio, conforme a sentena de 18 de abril de 1792. A rainha de Portugal, d. Maria I, comutou as penas de morte em degredo, mantendo-se a sentena mxima apenas para Tiradentes. Enforcado, decapitado, esquartejado, suas partes foram espalhadas pelos caminhos de Minas. Seus bens foram confiscados e sua casa,  Rua So Jos, 132, em Vila Rica, foi destruda e salgado o terreno, com a instalao de um Marco de Infmia. Seus descendentes foram declarados infames. No local onde foi sua residncia, acha-se hoje a sede da Associao Comercial e Industrial de Ouro Preto. No lugar onde exibiram a sua cabea, na Praa Tiradentes, foi erigida esttua em tamanho natural, ali colocada em 1984, logo aps a Proclamao da Repblica, conforme deciso da Assembleia Constituinte Mineira, que elaborava a nova Constituio Republicana do Estado. A Cmara de Vereadores de Vila Rica, por ordem da Coroa, foi obrigada a celebrar um Te Deum de regozijo pela derrocada da conspirao, tendo,  sua frente, a cabea de Tiradentes. Foi orador o primeiro vereador, Diogo Pereira Ribeiro de Vasconcelos, portugus de nascimento, mas criado no Brasil, que proferiu oratria que no lhe honra a biografia embora tenha lido texto bastante ambguo. Formado em Coimbra, era amigo de Cludio Manoel da Costa e de Toms Antnio Gonzaga e chegou a ser preso, sob suspeita de participao na Inconfidncia. Seu filho, Bernardo Pereira de Vasconcelos, jurista emrito, foi presidente da Capitania, ministro e senador do Imprio e um dos construtores da nacionalidade brasileira ao tempo da Regncia e do Primeiro Imprio.
Ao degredo perptuo para vrias colnias portuguesas na frica foram condenados os inconfidentes tenente-coronel Francisco de Paula Freire Andrade, comandante do Regimento de Drages da Capitania, nascido no Rio, morador  Rua Direita, em Vila Rica; o mineralogista Jos lvares Maciel, nascido em Vila Rica, formado em Coimbra; o poeta e advogado Incio Jos de Alvarenga Peixoto, carioca, ouvidor da Comarca do Rio das Mortes, residente em So Joo del-Rei; o sargento-mor Luiz Vaz de Toledo, nascido em Taubat, residente em So Jos del-Rei (Tiradentes); o coronel Francisco Antnio de Oliveira Lopes; Domingos de Abreu Vieira, portugus, que vivia em Vila Rica, administrador dos Contratos Reais, e Salvador Carvalho do Amaral Gurgel, carioca, residente em Vila Rica, cirurgio prtico. Ao degredo por 10 anos foram condenados o ouvidor de Vila Rica e poeta Toms Antnio Gonzaga, nascido no Porto, de reconhecido valor literrio, autor de Cartas chilenas e Marlia de Dirceu; Domingos Vidal Barbosa, formado em Medicina em Bordeaux, na Frana, residente em Vila Rica; Jos de Rezende Costa, nascido em Prados, capito do Regimento de Auxiliares, fazendeiro e homem de recursos; Jos de Rezende Costa Filho, nascido no Arraial da Laje (municpio de Tiradentes); o capito Vicente Vieira da Motta, portugus do Porto, capito de auxiliares e guarda-livros do contratador Joo Rodrigues de Macedo, que construiu a Casa dos Contos; o capito Joo da Costa Rodrigues, nascido em Vila Rica, residente em arraial prximo de Carijs (distrito de Conselho Lafaiete), onde tinha estalagem; Fernando Jos Ribeiro, falso denunciante; Jos Aires Gomes, coronel de Auxiliares, nascido em So Joo del-Rei, proprietrio das Fazendas da Borda do Campo e da Fazenda da Mantiqueira e outros stios; Antnio de Oliveira Lopes, nascido em Borda do Campo (hoje Barbacena), fazendeiro e coronel do Regimento de Auxiliares; capito Joo Dias da Motta, nascido em Vila Rica, capito do Regimento de Auxiliares de So Jos del-Rei (Tiradentes), e Victoriano Gonalves Veloso, alferes do Regimento dos Pardos, em So Jos del-Rei (Tiradentes). Jos Martins Borges foi condenado  pena de aoite e gals por dez anos. O advogado, escritor e poeta Cludio Manoel da Costa, nascido em Ribeiro do Carmo (Mariana), autor de vrias obras de reconhecido valor literrio e intelectual, encontrado morto em sua cela, na Casa dos Contos, em Vila Rica, teve sua memria declarada infame, assim como a de seus filhos e netos.
Os cinco sacerdotes inconfidentes eram o cnego Luiz Vieira da Silva, nascido no Distrito de Lobo Leite, de Congonhas, residente em Mariana, grande orador e possuidor de biblioteca famosa, com os principais pensadores iluministas franceses; padre Carlos Correia de Toledo e Mello, nascido em Taubat, So Paulo, vigrio de So Jos del-Rei (Tiradentes), homem de posses e de grande influncia na Comarca do Rio das Mortes; padre Jos da Silva de Oliveira Rolim, figura controvertida, nascido no Tejuco (Diamantina), de grande influncia no norte da Capitania, especialmente no Serro, homem de recursos, nico a fugir e tentar uma resistncia armada; padre Manoel Rodrigues da Costa, nascido em Queluz de Minas (hoje Conselheiro Lafaiete) e morador de Borda do Campo (Barbacena), e padre Jos de Oliveira Lopes, nascido em Borda do Campo (Barbacena). Jos de Resende Costa Filho e o padre Manoel Rodrigues da Costa retornaram ao Brasil e foram eleitos como representantes de Minas Gerais  Assembleia Constituinte de 1823, criada por Dom Pedro I aps a Independncia e no mesmo ano desfeita pelo monarca, que retornava  posio de absolutismo desptico. Ambos voltaram a ser eleitos, em 1826 e 1829, para a Assembleia-Geral. Manoel Rodrigues viveu at os 90 anos e recebeu vrias comendas e homenagens, como as Ordens de Cristo e do Cruzeiro e foi designado cnego honorrio da Capela Real. Jos de Resende Costa morreu em 1841, com 76 anos, mas deixou depoimento sobre a Inconfidncia a pedido do Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro. E traduziu e anotou captulo sobre o movimento do livro Histria do Brasil, do ingls Robert Southey, editado em 1810 e republicado em 1862, um dos primeiros a tratar do episdio da Inconfidncia com reconhecida iseno. O padre Manoel Rodrigues da Costa dirigiu veemente apelo ao governo imperial em favor da anistia aos mineiros participantes da Revoluo Liberal de 1842.
A Inconfidncia Mineira ainda  matria de pesquisa intensa. O historiador Tarqunio Jos Barboza de Oliveira, revisor-anotador dos Autos de devassa, republicados em 1976 pelo Governo de Minas e Cmara dos Deputados, em 11 volumes, a propsito do sesquicentenrio da Independncia do Brasil, autor de estudo elucidativo das Cartas chilenas, profundo estudioso da genealogia mineira do sculo XVIII, criador do Centro de Estudos do Ciclo do Ouro, na Casa dos Contos, em Ouro Preto, dizia que a Maonaria ainda poderia fornecer elementos novos quanto  motivao e participao de vrios de seus integrantes no momento, inclusive Tiradentes. Outro campo de pesquisa, capaz de revelar uma dimenso internacional da conspirao mineira, refere-se aos contatos mantidos por brasileiros no estrangeiro, em busca de apoio dos Estados Unidos e da Frana ao movimento insurrecional. Estudantes brasileiros em Coimbra, Montpellier e Bordeaux, entre eles, Jos Joaquim da Maya e Barbalho, Jos lvares Maciel, Domingos Vidal Barbosa e Jos de S Bittencourt, conforme documentos irrefutveis j publicados, realizaram vrios contatos e conversas em torno da desejada rebelio. Maya, que, em agosto de 1785, inscreveu-se na Escola de Medicina de Montpellier, onde tambm estudaram Domingos Vidal Barbosa e Jos Mariano Leal, inconfidentes, encontrou-se efetivamente com Thomas Jefferson, lder da independncia americana e embaixador na Frana, em Nmes, em maro de 1787, e fez pedido ao governo de Washington de apoio  causa da emancipao do Brasil. Jefferson o recebeu com simpatia, mas no prometeu ajuda poltica ou militar. No entanto, relatou o encontro a John Jay, secretrio de Relaes Internacionais do governo americano, em carta escrita de Marselha, a 4 de maio de 1787, conforme vrias publicaes idneas (Terezinha de Castro, Histria documental do Brasil), Norma Correia Meyer Santana, A influncia de Thomas Jefferson na independncia do Brasil, Braslia, Ed. Horizonte; Isolde Helena Brans, Inconfidncia Mineira, dimenses internacionais do movimento precursor, de 1993. A chamada misso Vandek, personagem misterioso, que visitou Jefferson e escreveu cartas sobre a situao de Minas Gerais, tambm aguarda esclarecimentos complementares. Permanece em discusso uma suposta viagem de Tiradentes a Portugal, em 1787, que est a merecer pesquisa aprofundada.
Em 1942, inaugura-se em Ouro Preto, por iniciativa de Getlio Vargas, o Panteon dos Inconfidentes, na antiga Casa de Cmara e Cadeia, para onde foram transplantados os despojos encontrados na frica pelo historiador Augusto de Lima, especialmente designado por Vargas, anos antes, para esta misso. O Panteon integra o Museu da Inconfidncia, criado em 1938, mas s inaugurado em 1944. Na sala anterior,  exibida a forca onde morreu Tiradentes. Benedito Valadares, governador de Minas, doou o antigo prdio, construdo em 1784, para Cadeia e Cmara de Vila Rica, para instalao do Museu da Inconfidncia. A cadeia fora transferida para a Penitenciria Agrcola de Ribeiro das Neves construda anos antes pelo governador Benedito Valadares.
Convidado a entrar na conspirao, o coronel Joaquim Silvrio dos Reis decidiu delatar o movimento, com o notrio intuito de auferir vantagens. E o fez a 15 de maro de 1789, perante o visconde de Barbacena, ento governador da Provncia, no palcio de vero de Cachoeira do Campo. A 11 de abril do mesmo ano apresentou a denncia por escrito. Mas no pde viver em paz no Rio de Janeiro para onde se mudou devido  rejeio dos mineiros. Passou a ser hostilizado e a animosidade tornou-se to grande que alterou seu nome, acrescentando-lhe o sobrenome Montenegro. Mudou-se para o Maranho, mas relata-se que sofreu atentado a tiros e que sua casa foi incendiada. 
Posteriormente, duas outras denncias ocorreram, tambm feitas ao visconde de Barbacena: a de Baslio de Brito Malheiro do Lago e a de Incio Correia Pamplona. Barbacena tratou de suspender a derrama, nome dado  cobrana dos quintos do ouro, compreendendo parcelas atrasadas de alguns anos e que era o principal motivo de descontentamento a motivar a populao para a rebelio. Enviou ofcio  Cmara de Vereadores de Vila Rica com data antecipada para 14 de maro, conforme registrado nos Autos de devassa. 
Diversos visitantes ilustres, que percorreram Minas no sculo XIX, testemunharam que a memria da Inconfidncia e dos inconfidentes permanecia viva entre a populao. Richard Burton, que esteve em Minas em 1868, escreveu que era clara a memria dos acontecimentos, bem como era generalizada a opinio de que a pena imposta aos inconfidentes fora excessiva e injusta. 
A Inconfidncia Mineira deixou vrias consequncias entre os mineiros. Persiste a notcia, adotada por alguns historiadores, que o movimento possua maior amplitude humana e regional, alcanando vrias cidades. E que a sindicncia, centrada nos Autos de Devassa, no alcanou. E que o rigor da punio causou a fuga de vrios conspiradores de menor envolvimento. E que deixou trauma poltico e psicolgico nos mineiros, convertido em um trao de comportamento que induz  discrio poltica,  conversa reservada,  fala por entrelinhas e por inferncias e ao p do ouvido, sem citao de nomes. Condutas adotadas pelos mineiros, especialmente os polticos e os mais antigos, em meio a outros traos que distinguem e caracterizam o carter regional.
O esprito de rebelio dominou todo o perodo da Minas colonial. No sculo XVIII, a rea mineradora foi, sem dvida, palco privilegiado de manifestaes contrrias  Coroa portuguesa e de seus agentes. Essa propenso s revoltas pode ser explicada pela forma como a regio mineradora foi ocupada (Guerra, sedies e motins, Carla Anastsia, Histria de Minas Gerais, 2007) e o jugo opressivo da administrao colonial portuguesa, bastante generalizado nas cidades histricas, limitadas no seu comrcio e nos anseios de desenvolvimento.
Mas tambm pelo modo de pensar e se expressar dos homens instrudos da Capitania, sobretudo na segunda metade do sculo XVIII. A literatura mineira do perodo, por seu arcadismo, ao mesmo tempo em que faz a louvao da natureza e da vida simples no campo e proclama os valores das artes e das cincias, bate-se pelas conquistas cvicas do ambiente citadino, diz o crtico Fbio Lucas. E desenvolveu-se em Minas um grupo de letrados, leitores da Ilustrao e do Iluminismo que levaram  Independncia Americana e  Revoluo Francesa. A existncia, em Minas, de uma Arcdia Ultramarina foi objeto de longa discusso histrica. Hoje, a partir de artigo de Antnio Cndido, Os poetas da Inconfidncia, publicado no Anurio do Museu da Inconfidncia, Ano IX, admite-se a existncia de instituio semelhante em Minas.
O cnego inconfidente Lus Vieira da Silva, em Mariana,  exemplo indiscutvel desse novo pensamento, como o comprovam a sua biblioteca, seus sermes e suas declaraes nos Autos de devassa. Manoel Incio Silva Alvarenga, nascido em Vila Rica, mas que ir para o Rio, onde funda academia literria e acaba preso em 1804, acusado de pregar contra Portugal e a favor da libertao da Colnia, na chamada Inconfidncia do Rio,  outro claro exemplo. E  certo que conviveu com Baslio da Gama e Alvarenga Peixoto. Tiradentes reflete o mesmo pensamento nos seus depoimentos nos Autos de devassa. Essa espcie de nativismo libertrio, certamente guardando reminiscncias do trao aventureiro e irredentista, prprio do bandeirante aventureiro, acompanhar por muitos anos os mineiros e suas manifestaes polticas e cvicas. O mesmo trao, salientado e reconhecido por alguns historiadores,  observado na obra de Aleijadinho, na rebelio esttica que busca estilos e partidos prprios mas, e sobretudo, nos Profetas de Congonhas e nas mensagens e advertncias que fazem em suas cartelas. Drummond viu em Congonhas uma assembleia insurgente de profetas, contemplando as montanhas de Minas. A viso dos Profetas de Congonhas, como uma espcie de manifesto poltico de Aleijadinho tem sido admitida por alguns estudiosos contemporneos, ao interpretar os textos contidos nas Cartelas dos Profetas. Aleijadinho trabalhou em Congonhas de 1796 a 1806, quando o trauma da Inconfidncia de 1788/89 e o enforcamento de Tiradentes, em 1792, ainda eram muito lembrados em Minas.
Interessante contradio, que acaba encontrando expresso na cultura mineira, entre o pensamento contrarreformista, que dominou Portugal e Espanha, naes extremamente religiosas, adeptas do catolicismo extremado, ptrias da Inquisio, citados como exemplos do atraso destes dois pases perante o resto da Europa,  o surgimento do racionalismo iluminista na Colnia, claramente libertador do estreito dogmatismo da dominante religio catlica.
